LOVCI – Capítulo 30 – Você Consegue Me Ouvir?


CAPÍTULO ANTERIOR

Vista Seca, Vila – Manhã, 09:23

zero… quatro… seis… ― Aura abriu os olhos ao escutar o sussurro próximo ao seu ouvido.

Estava deitada entre almofadas colocadas sobre o tapete no canto da sala, se sentou e olhou ao redor procurando por um dos rapazes ou Ezza, mas não havia ninguém. Atordoada pelo sono pesado, poderia jurar que havia alguém sussurrando no seu ouvido.

Olhou na direção do quarto e a porta estava aberta, revelando um cômodo vazio, todos haviam saído. Se levantou tropeçando nos cobertores, seus cabelos arrepiados e seu estômago reclamando. Encontrou um bilhete sobre a mesa, ao lado de pães e uma garrafa de leite.

 

Fomos ao centro nos encontrarmos com o grupo da expedição, Ezza está querendo te deixar para trás, então assim que acordar, coma e corra para cá.

Mabuchi

 

Aura pegou um dos pães e saiu rapidamente o comendo, catou sua mochila pesada perto da saída e saiu batendo a porta.

 

Vila, QG dos Guerreiros – Manhã, 09:30

Serp e Ezza analisavam os guerreiros com cuidado, Mabuchi os observava cochichar de forma cúmplice um com o outro.

“O que eles estão tramando?”, se perguntava tentando ler seus lábios.

O QG era um celeiro rústico coberto por palha e sustentado por muros de pedras, tudo na vila era feito com o cascalho retirado dos túneis que eles cavavam para criar caminhos subterrâneos. O local onde os guerreiros se preparavam era um salão pequeno no andar inferior, enquanto no andar superior existiam salas pequenas e escuras.

― Essa é uma missão perigosa. ― Uma garota comentou se aproximando de Mabuchi, ela também era uma viera, mas possuía uma beleza mais chamativa.

― Sim. ― Mabuchi murmurou.

― Me chamo Laendra, sou a noiva do Babino. ― Ela se apresentou sorridente, Mabuchi fez uma expressão confusa, não sabia quem era Babino. ― Babino, é  o homem urso e líder da nossa vila.

― Ah, sim! ― Mabuchi concordou. ― Ele é bem assustador…

Laendra riu, mostrando seus dentes avantajados, mas pequenos. Era aquilo, sua marca “sexy”.

― PROFESSOR! ― Serp berrou, o chamando.

― Foi um prazer. ― Mabuchi se despediu da moça e andou na direção de Serp.

Ezza estava abaixada avaliando algumas estacas afiadas, quando Mabuchi se aproximou ela lhe olhou de relance.

― Fica longe dela, preciso de você vivo para continuar viagem. ― Ezza ditou firme, no entanto seu tom era mais amigável que o normal.

― Cara, não fica de graça com ela, fica aqui e nem olha naquela direção. ― Serp aconselhou e Mabuchi acatou.

Ezza não pegou nada, apenas se levantou e alongou seus braços.

― Não vai pegar nada? ― Serp já havia encontrado uma espada que julgou ser sua melhor alternativa.

― Eu não preciso disso, tenho meus punhos. ― Ezza refutou de modo esnobe.

Mabuchi não conseguia ficar ao lado de Ezza sem sentir inferior, ela estava mais alta e atlética, sentia que ela poderia lhe esmagar apenas com um mero soco. Ela também tinha aquela aura insana, ele nunca conseguia prever o que se passava na cabeça dela.

― Não fica ai me encarando com a boca aberta, vai atrás daquela sonsa, sabia que ela daria trabalho! ― Ezza resmungou.

Serp riu da cara emburrada que Mabuchi fez, não sabia o que rolava entre os dois, mas sentia que tinha algo a mais, percebia os olhares vagos que Ezza lançava na direção do Professor de vez em quando.

 

Vista Seca, Área 81 – Manhã, 09:50

O estagiário entrou na sala pequena e bagunçada da ciclope Dra. Cisk, ela dormia debruçada sobre uma pilha de documentos.

― Doutora? ― Ele chamou e ela acordou assustada.

― O QUE FOI?! ― Ela gritou em pânico. ― ACORDOU?!

― Calma Dra. Cisk, só vim fazer um relatório. ― O estagiário ficou congelado no seu lugar, já havia escutado sobre a força descontrolada dos ciclopes.

― Ah… ― Ela se acalmou, ajeitou os cabelos arrepiados. ― Como ele está reagindo?

― Esse é o problema… ― Ele buscou coragem em um suspiro. ― Ele não está reagindo.

― Retirou todo o sedativo da água? ― Cisk pescou seu jaleco na cadeira e começou a colocá-lo.

― Sim, percebi que os batimentos não oscilam há alguns anos… ― O estagiário buscou coragem par falar o que estava pensando. ― Dra. Cisk, a senhora já considerou a possibilidade da criatura estar morta?

A ciclope parou e olhou firme para o rapaz, sentiu seu sangue gelar, logo em seguida saiu da sala levando tudo como um tornado.

 

Vila, Rua Central – Manhã, 10:02

Aura estava perdida, andava pelas ruas mal iluminadas tropeçando nos cascalhos, estava com medo de ter sido deixada para trás.

zero… norte… ― Aura se assustou ao escutar a voz próxima.

― Quem está ai? ― Ela gritou olhando ao redor.

― Algum problema? ― Blink apareceu preocupado com Aura, ela parecia assustada.

― Foi você quem disse isso? ― Ela questionou, mas ele tombou a cabeça confuso. ― Esqueça, acho que estou enlouquecendo.

― Percebi que está perdida, venha comigo que eu a levarei até o QG. ― Blink ofereceu e Aura lhe abriu um sorriso gigante.

― Ah, muito obrigada, você é tão gentil! ― Ela o seguiu sem questionar.

Blink a fitou impressionado, era uma garota muito fácil de se sequestrar. Mas ele gostava da energia que a envolvia, era algo caloroso e a fazia ainda mais bonita.

“Mais bonita que Laendra”, pensou ele a olhando de lado.

 

Vista Seca, Área 81 – Manhã, 10:09

Adentrando o laboratório, Cisk e seu estagiário deram de cara com o Dr. Krop. O kobold de mais de dois metros de altura, magro e aparência de réptil. Sua equipe já ameaçava abrir o aquário, eles iriam levar o colonizador.

― O que pensa que está fazendo? ― Cisk foi na direção do kobold, que comia salgadinhos e a olhou de cima com desdém.

― Caolha, estou levando o colonizador, soube que ele já foi dessa para melhor, você sabe que todos os cadáveres pertencem a mim e ao meu projeto. ― Ele disparou.

― Ele não está morto! ― Cisk refutou irritada.

O kobold ignorou a ciclope, lhe deu as costas e foi orientar seus subordinados.

― Tomem cuidado com a peça, se danificarem eu mato cada um de vocês! ― Ele ameaçou enquanto mastigava os salgadinhos.

― Nasfatá sabe disso? ― Cisk questionou tentando recobrar seus sentidos, não poderia lutar contra um kobold, mas poderia usar de outras armas.

― Não vamos incomodá-lo com isso, não seja infantil. ― O kobold observava a criatura sendo içada do aquário com curiosidade. ― Agora eu darei uma utilidade para essa coisa, vamos revolucionar!

Cisk retirou seu jaleco e caminhou delicadamente até a máquina pesada que içava o colonizador, ao vê-la se aproximar, os ajudantes de Krop se afastaram. Ela parou frente ao aquário e cruzou os braços.

― Esse alienígena é meu, para tirá-lo daqui irá precisar me matar primeiro! ― Ela desafiou e o estagiário engoliu seco.

― Cisk… ― Krop começava a falar, mas ela apenas o fitava de modo desafiador. ― Tudo bem, assim poderei ficar com os seus outros cadáveres.

Cisk não abaixou a cabeça, jamais iria deixar que transformassem seu projeto de vinte anos, em uma mera peça de estudos anatômicos.

 

Quando terminou, Krop levou a criatura para seu laboratório. Um local de dissecação já havia sido preparado, antes de se aproximar da mesa, o kobold lavou as mãos cobertas de sangue de ciclope.

― Ah… eu realmente odeio isso. ― Ele murmurou enojado, se virou para um de seus ajudantes. ― Quando aqueles imbecis vão chegar com minhas cobaias?

― Recebemos uma ligação há duas horas dizendo que estão com problemas, já que dois deles são Orasukiros. ― O ajudante informou.

― Orasukiros? Essas coisas ainda existem? ― O kobold secou suas mãos nas toalhas esterilizadas. ― Peça para ativarem os gases de cristais, munições e também a sala própria para prendê-los, não queremos causar mais problemas.

― Sim, Dr. Krop. ― O ajudante concordou e Krop sugou os dentes irritados.

― Já pedi para que me chamem de Felipinho! ― Ele o corrigiu.

― Sim… Felipinho. ― O ajudante estava visivelmente incomodado.

― Bem melhor. ― O kobold aprovou.

 

Vila, QG dos Guerreiros – Manhã, 09:30

Quando Aura chegou no QG, ao lado de Blink, encontrou o grupo inteiro preparado e pronto para partir.

― Obrigada pela ajuda Sr. Blink. ― Ela agradeceu com um sorriso e correu na direção dos amigos sem esperar pela resposta do rapaz, que ficou parado a observando se afastar.

Ezza havia colocado um sobretudo preto e prendido os cabelos em um coque severo, colocou óculos protetores solar e um lenço para impedir que a poeira entrasse pela sua boca e nariz. Seria uma viajem longa e feita em grande velocidade pelas terras quentes e empoeiradas da ilha, estavam todos vestindo roupas compridas para evitarem de se queimar. Serp era o único que não quis se proteger, iria de bermuda, regata e chinelos, o que era estupidez.

― Espero que você morra de insolação. ― Ezza praguejou ao espadachim.

― Eu também te amo, Ezza. ― Ele refutou sorrindo.

Mabuchi terminava de colocar o chapéu negro de abas redondas, estava completamente coberto. Ao ver Aura se aproximar, o Professor respirou aliviado.

― Aura, ainda bem que chegou, estamos partindo e… ― Ele se calou ao perceber que a médica havia parado subitamente, os olhos fixaram no nada e ela congelou. ― Aura?

Ezza e Serp olharam na direção dos dois, quando viu que Mabuchi a sacudia pelos ombros. A médica estava dura como se os ossos tivessem calcificados, logo ela começou a ficar pálida e o rosto foi arroxeando.

― Acho que ela não está respirando! ― Mabuchi estava em pânico. ― AURA! ACORDA! RESPIRA!

Serp se aproximou para ajudar a tentar dobrar o corpo de Aura, mas ela era como uma coluna de gesso.

Todos ao redor prestavam atenção a cena, Aura estava ficando cada vez mais roxa. Ezza observava de longe, os olhos de Aura estavam fixados e ela parecia em transe.

“Onde será que ela está?” se perguntou, já sabia o que estava acontecendo.

 

Aura estava presa em uma sala amarela, ao canto uma mulher pequena de olhos castanhos e sorriso gentil, tricotava um cachecol.

― Olá, quem é você? ― Aura perguntou curiosa, a sala era confortável e tinha um cheiro familiar de canela.

― Zero, dois, quatro, norte, quinze. ― A mulher repetia enquanto tricotava atenta o cachecol.

― Era você que estava cochichando? ― Aura andou na direção da mulher e ela olhou para cima, como se visse a médica pela primeira vez.

― Você consegue me ouvir? ― Perguntou com um sorriso esperançoso.

― Estou te ouvindo. ― Aura se abaixou ao lado da mulher. ― Quem é você? Onde estamos?


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia


Fontes
Cores