LOVCI – Capítulo 24 – Pena Sangrenta, o Navio da Morte


Vertó, Campo de Marcenaria – Tarde, 13:32

Quase um dia de viagem levou o grupo à famosa estalagem de marcenaria do reino, um campo beira mar utilizado para construção de navios e flutuadores. Eram tantos que perdiam-se de vista, muitos ainda em construção e outros já atracados no porto.

Ezza havia conseguido meio milhão de gralhões em sua pequena viagem, carregava a mochila com cuidado e olhava feio para qualquer um que se aproximasse dela, o restante do grupo já havia percebido que ela tinha um interesse anormal em dinheiro. Entretanto, surpreendentemente, Ezza acabou entregando a mochila a Mabuchi e o disse para ir comprar o navio, o que era um grande ato de confiança.

― Não seria melhor comprar um flutuador? ― Questionou Serp observando alguns espalhados no campo mais alto, voar seria com certeza mais interessante.

― Eles são mais caros e mais problemáticos, e eu também prefiro navios, afinal o dinheiro é meu. ― Ezza respondeu secamente.

― Meio milhão deve dar para um veleiro igual ao de Chi Ah. ― Mabuchi pensou um pouco, pelo menos no Arquipélago de Jade seria assim.

― Desde que flutue… ― Ezza deu de ombros e saiu caminhando na direção do porto.

― Vocês vêm? ― Mabuchi questionou aos dois que ficaram e eles concordaram com a cabeça.

 

Ezza passou em frente a uma banca de jornal, livros e HQs. Quando reconheceu um dos quadrinhos expostos, se aproximou do local, o pegou observando bem a capa, possuía um Alien gigante desenhado e abaixo o título: O Predador.

Ela riu, se lembrou de algo.

“Parece que você tinha razão, existem outros volumes dessa coisa”, pensou observando que era o volume 32.

Depois de comprá-lo ela vagou pela feira com os pensamentos enevoados, aquele quadrinho e os últimos acontecimentos começavam a despertar seus demônios do passado.

 

Como Mabuchi havia previsto, era impossível comprar um navio bom com meio milhão. O estaleiro era um homem baixinho e calvo, ele era muito sincero e por isso era difícil até mesmo fingir estar fazendo um bom negócio.

― Meio milhão é pouco para um grande navio, esse mar é temperamental e vocês podem se dar mal caso optem por navios de qualidade duvidosa. ― O homem explicava enquanto ia à frente pelo tablado, já havia mostrado todos os navios atracados e como o esperado, eles não poderiam levar nenhum.

Aura olhou para o outro lado, existia um navio grande e muito bem conservado, deveria ser muito caro, todavia ela ainda sim queria conhecê-lo. Atravessou pegando outro tablado conectado ao que estava, e caminhou até ficar frente ao poderoso veleiro de dois mastros.

A madeira do navio era vermelha e bem polida, chegava a reluzir, era tão grande que se parecia com uma caravela, mas era claramente um navio de transporte já que não possuía escotilhas inferiores. As velas eram vermelhas e robustas, precisaria de no mínimo cinco pessoas fortes para ajeitar cada uma, o convés e o castelo de popa eram espaçosos.

― Uau! ― Aura estava encantada.

― Que bonito. ― Serp comentou se aproximando de Aura, nunca havia visto um navio daquele modelo e nem com uma madeira daquele tipo. ― Deve ser bem antigo, ou bem atual, nunca vi desse modelo.

― Não! ― O estaleiro correu na direção dos dois assim que os viu próximo ao navio. ― Não toquem nesse navio!

― Só estávamos olhando. ― Serp disse recuando alguns passos.

― O que tem esse navio? ― Mabuchi ficou curioso com a exaltação do estaleiro.

― Ele é o Pena Sangrenta, o primeiro navio dessa marcenaria e o único que sempre retorna. ― Explicou o estaleiro, o céu ficou escuro e o clima pesou, era uma ameaça de chuva. ― Meu bisavô construiu esse navio com uma madeira rara de uma ilha fantasma, essa madeira é praticamente indestrutível, mas ela também é amaldiçoada. Durante a construção cinco homens morreram misteriosamente, coisas como cair e quebrar o pescoço, ou ficar preso no porão e asfixiar.

Enquanto o estaleiro falava, o olhar do trio começava a mudar sobre o navio, ele começava a emanar algo sombrio.

― … esse navio já foi comprado centenas de vezes, mas sempre após três dias que ele deixa o porto, o mesmo retorna sozinho, a tripulação desaparece e o navio permanece como se nunca tivesse sido tocado. Ninguém daqui entra nele, dizem que a noite se escuta gritos se você passar por aqui, um dos trabalhadores diz já ter visto uma mulher na torre do mastro o encarando.

― Ui, cheguei arrepiar! ― Serp mostrou o braço.

― Que medo, ele parecia tão bonito. ― Aura se escondeu atrás de Mabuchi.

O Professor pensava, poderia ser só uma lenda.

― E quanto ele custa? ― Perguntou estudando o navio.

― Você quer comprá-lo? Não escutou o que eu disse? ― O estaleiro estava estressado, sempre era a mesma coisa, um grupo de corajosos que ousavam desafiar entidades malignas. ― Meio milhão.

― Não compra o navio cara, vamos acabar todos mortos! ― Serp revelava um lado mais medroso, o que era novidade.

― Essas coisas não existem, além do mais já temos um Deus Caído com a gente, o que seria pior? ― Mabuchi estava anestesiado, não conseguia mais entender a gravidade da situação e nem queria.

― Falando mal de mim. ― Ezza se aproximava, olhou interessada para o navio.

Viu uma mulher parada no convés, exibia um pescoço quebrado para o lado e os olhos intactos, era assustadora. O navio possuía grandes manchas negras espalhadas nas extremidades e elas se moviam, rastejavam como insetos esmagados, Ezza via vultos e escutava gritos.

“O que é isso?”, se perguntava abismada, olhou para os outros e eles não pareciam ver o mesmo que ela estava vendo.

― Fique longe do meu navio, Dragão Negro! ― A mulher gritou com uma voz grossa, seus dentes eram enormes e ela parecia ser forte.

― Você é alguma entidade? ― Ezza perguntou a encarando de volta.

O grupo observava a cena sem entender, Ezza estava olhando para o convés e conversando sozinha. O estaleiro então notou a marca de Ezza, sua feição se contorceu até criar uma expressão de medo.

― Ela é uma daquelas coisas? ― Ele perguntou recuando.

― Sim, ela é. ― Mabuchi respondeu e continuou observando Ezza.

Ezza pegou distância andando para trás, então correu pelo tablado e saltou se agarrando em uma das cordas presas nas laterais do píer. Subiu com agilidade, quando tocou no navio centenas de vultos começaram a gritar e a evaporar, Ezza franziu o cenho incomodada com o barulho.

Ao redor os animais começaram a emitir sons, um gato eriçou e fugiu, cães ladravam e pássaros voavam para longe.

― O que está acontecendo? ― Aura perguntou olhando para o céu, estava inundado de aves que fugiam do porto.

― O que será que ela está vendo? ― Serp estava intrigado, não tirava os olhos de Ezza.

Ezza subiu no convés e ficou de frente para a mulher, ela era a única a ficar. A presença do Dragão Negro assustava os espectros comuns, mas não as entidades poderosas.

― Parece que esse navio agora é meu, então pegue suas trouxas e vaza! ― Ezza ditou.

A entidade possuía olhos fundos e cabelos negros que arrastavam no chão, também possuía um enorme buraco no estômago dando uma visão perturbadora para o seus órgãos embolorados, ela usava uma túnica listrada e também possuía algumas marcas brancas no rosto, pareciam nativas de alguma tribo indígena.

― Esse navio pertence ao meu povo, vocês roubaram nossa grande mãe e levaram para longe nossos ancestrais. ― Enquanto falava ela se contorcia, seus membros cresciam e seus dentes ficavam cada vez mais afiados.

Ezza não sabia o que fazer, ela não era daquele mundo, assim sendo, não poderia apenas acertá-la com um soco. Ela estava nervosa e sentia o desconforto lhe tomando cada vez que a entidade ficava maior.

A criatura guinchou e então correu na direção de Ezza, a reação da garota foi correr e tentar fugir, mas foi derrubada e ficou debaixo da criatura. Ela não era real, mas Ezza sentia o cheiro podre e sentia também o frio dos mortos. Debateu as pernas e conseguiu atingir a criatura como ponto sólido, uma luz acendeu na cabeça de Ezza.

“Eu posso tocá-la”, percebeu e já disparou um chute diagonal nas costelas magras da criatura. A entidade cambaleou parecendo sentir o impacto, a mesma parecia confusa.

― Como…? ― Ela questionou.

― Eu sou o Dragão Negro, e agora também discípula do Deus da Morte! ― Ezza discursou de forma arrogante.

Ao entender a situação, a entidade correu na direção do castelo de popa. Ezza, no entanto, foi mais rápida e conseguiu alcançá-lo antes que ela atravessasse a parede. Agarrou os longos cabelos da criatura e a manteve no chão pisando em suas costas, firmou o outro pé no chão e começou a forçar as costas da criatura, que estalava como madeira velha.

― N-Não! ― A entidade se debatia. ― Isso não é justo, vocês que merecem morrer por ter tomado nossa mãe!

― Ah, cala a boca! ― Ezza usou toda a sua força, um tranco e a cabeça se separou do corpo da entidade.

Baratas começaram a sair do corpo da criatura, Ezza jogou a cabeça de lado e subiu no parapeito para evitar ser pega pelos insetos. Era uma cena nojenta, as baratas até mesmo emitiam um chiado agudo, eram milhares e todas devoraram o resto do espectro. Quando ela enfim evaporou, subiu aos céus como uma fumaça negra e foi levada pela brisa.

O navio ficou silencioso, estava limpo e brilhante. Ezza desceu do parapeito e caminhou para entrar no castelo de popa, depois de alguns minutos ela reapareceu novamente.

― Podem vir, agora esse navio é oficialmente nosso! ― Ezza gritou aos três que esperavam no tablado.

O estaleiro sentiu algo diferente, a luz agora infiltrava pelas janelas e o navio parecia bonito. Antes que pudesse mudar de ideia sobre o preço, Mabuchi lhe empurrou a mochila e correu com os outros para subir no navio.

― Obrigado Sr. Estaleiro! ― Aura agradeceu acenando.

― Dessa vez ele não volta! ― Serp gritou, zombando do homem.

O homem ficou desconsolado, mas ao ver o navio tão bonito se sentiu emocionado.

― Cuidem bem dele, façam uma boa viagem! ― Ele gritou de volta e acenou.

Ficou preocupado, as velas eram pequenas, mas eram pesadas demais para poucos tripulantes. Já ia falar algo quando avistou Ezza e Serp, cada um no topo de um dos mastros, ao soar do grito de Mabuchi os dois com uma força de multidão conseguiram descer as velas. Aura que parecia ser uma garota frágil conseguiu desatar as cordas sozinha e agora o navio deixava o porto.

O estaleiro ficou boquiaberto, todavia sorriu feliz, agora sim parecia que enfim o navio partiria para sempre.

― Essas crianças de hoje em dia são assustadoras.

 

Mar de Haiarys, Pena Sangrenta – Noite, 18:32

Uma chuva forte caia ao lado de fora, o navio era empurrado com velocidade, mas as fortes ondas tombava o navio de um lado para o outro, o que assustava os tripulantes. Serp ficou encarregado de ficar vigiando na primeira noite, enrolado em um plástico grosso, ele se encolheu dentro de um dos castelos de mastro.

Pena Sangrenta era um veleiro antigo e feito para transporte, o castelo de popa era equipado com cozinha e um espaço para refeições, onde as garotas do grupo estavam sentadas observando Mabuchi se esforçar para encontrar uma rota. Abaixo existia uma galeria com cinco cabines e banheiro, no último casco um porão espaçoso e equipado com estalagens para estocar alimentos e água. Algo que eles haviam se esquecido de comprar, passariam a noite com fome e somente quando amanhecesse conseguiriam de pescar.

Aura estava com sono, mas estava com medo de ir dormir sozinha em um dos quartos, o navio era silencioso e ela ainda estava se lembrando das histórias que o estaleiro contou.

― Encontrei uma rota de doze dias, se tudo for bem. ― Mabuchi anunciou, já havia se passado muito tempo desde que ele havia começado a pesquisar o mapa. ― Precisamos de comida e água, deveríamos ter feito isso antes de sair, mas você ficou apressando!

― Vamos atracar na próxima ilha e conseguir mantimentos. ― Ezza respondeu, estava calma e isso fez Mabuchi lhe olhar irritado.

― Você quer dormir comigo Aura? Estou cansado. ― Mabuchi sugeriu e a garota acenou freneticamente com a cabeça de acordo.

Antes de descer ele se virou para Ezza.

― Pode…

Ia pedir, mas foi interrompido por ela.

― Ficar de olho na rota?

Ele suspirou pesadamente, depois desceu pelas escadarias laterais. Mabuchi estava irritado com a tirania de Ezza, a culpava pelas coisas estarem dando errado, como de costume.

Ezza pegou o quadrinho e começou a folheá-lo, a tempestade parecia assustadora para os outros, mas para ela era como cantiga de ninar.

Assim que fechou os olhos começou a sonhar com Teresa.

Estava na cozinha de sua antiga casa, segurava uma faca lambuzada com geleia, preparava um lanche. Olhou para o gato parado em sua frente e sentiu um impulso.

“Como seria matar algo?”, a pequena criança se perguntava aproximando-se lentamente do bichano.

― Miau? ― O gato lhe olhava confuso.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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