LOVCI – Capítulo 23 – O Bando



Vertó, Estradas do Sul – Manhã, 08:21

7 dias mais tarde…

Mabuchi já não comia há dias, sem energia ele se escondeu em um depósito de uma das paradas abandonadas. Depois de ser enganado pelo senhor que lhe ofereceu carona na capital do reino, o Professor foi roubado e abandonado no meio do nada. Roubaram tudo, até mesmo seus sapatos. Após vagar por dois dias, ele acabou encontrando uma parada de estrada onde resolveu ficar, apenas esperava a morte.

Estava muito magro e debilitado, não conseguia nem mesmo se mover, seus ossos haviam paralisados. Pensava em tantas coisas, mas já não conseguia falar mais nada. Ao redor muitas pessoas morriam, os abutres infestavam o depósito. O cheiro de corpos em decomposição era ruim no início, mas agora era comum.

Em alguns momentos parecia ser apenas um sonho, sua mente devaneava. “Vou acordar na minha cama fria, olhar ao redor e encontrar meu apartamento silencioso. Vou me sentar e calçar meus chinelos, depois vou ao banheiro tomar banho, me trocarei e então farei meu café. Irei para a escola, mas antes terei que passar na biblioteca para entregar um livro…”. E assim se seguia, era sempre o mesmo sonho e o mesmo pensamento. A loucura veio depois que a fome passou, tudo que restou foi um buraco em seu estômago, até mesmo engolir sua saliva era doloroso.

Em algum momento começou a pensar sobre Ezza, talvez no final ela não fosse culpada por suas desgraças, ele que não tinha sorte. Pensando tanto nela, começou a ter alucinações, a via andando de um lado para o outro e o examinando com aqueles olhos negros frios. “Idiota, por que continua pensando em mim?” ela ria, Mabuchi riu rouco. Ele também não entendia, talvez sentisse alguma obsessão inexplicável por ela.

Em uma de suas alucinações ela apareceu totalmente diferente, entrou no depósito pisando firme e marchou elegante em sua direção. Ezza era Ezza, só que também não era. Usava botas com meia calça arrastão, short jeans e um corpete que deixavam seus seios fartos saltando, seios que Mabuchi nunca notou antes. Ela estava esguia e atlética, seu corpo era como o de uma deusa, seus olhos dourados inquisidores e os seus cabelos negros compridos, presos em um rabo alto. Ele também conseguia ver a marca do Dragão Negro sobre sua clavícula, ela a exibia com orgulho.

Ele estava admirado e hipnotizado, ela caminhava em sua direção com aquele olhar frio de sempre, mas agora ele conseguia ver algo mais. Talvez medo? Ela parecia nervosa, parecia tão humana que ele abriu um sorriso vago. Era uma bela imagem, fechou os olhos e adormeceu com essa imagem.

 

Vertó, Pensão Carneiro Feliz – Manhã, 08:40

Serp e Aura juntavam seus lucros para conseguirem pagar as despesas, Aura estava atendendo algumas pessoas das proximidades e cobrando algumas moedas. Serp estava ajudando o estaleiro a cortar troncos, mas mesmo assim ainda era pouco, logo eles não conseguiriam mais pagar o quarto.

― Você é um Orasukiro Celestial, mas não sabe controlar suas habilidades? ― Serp a questionava, eles conversavam sobre o assunto enquanto comiam pão e bebiam água à sombra do salgueiro nos fundos da pensão.

― Eu não sei, só não vai! Eu faço, mas eu não consigo fazer nada mais. ― Aura não sabia explicar, apenas não sentia que aquela habilidade fazia parte de seu corpo.

― Talvez você ainda não tenha despertado toda a sua habilidade. ― Serp sugeriu e Aura concordou com a cabeça.

― Já se passaram alguns dias, você acha que ela volta? ― Aura estava incerta, não queria mais continuar naquele lugar.

― Estou começando a duvidar, pensei que ela voltaria por você, mas acho que no final você não era tão importante para ela. ― Serp foi sincero.

Aura se sentiu magoada com aquelas palavras, todavia suspeitava do mesmo.

“Nunca fui importante”, pensou desmotivada.

 

Vertó, Estradas do Sul – Manhã, 08:52

Mabuchi abriu os olhos ao sentir algo molhado em sua boca, encontrou Ezza lhe empurrando uma fatia de melancia. Ela parecia irritada enquanto fazia isso, depois de alguns minutos tentando raciocinar, ele enfim percebeu que não era uma alucinação. Ezza estava ali, como não conseguia falar, apenas a olhou intrigado.

Ela o entupiu de melancia e depois o ajudou a ficar de pé, era doloroso, mas ela foi bruta e o obrigou a andar. Depois de andar por alguns metros, deixando o depósito, ele sentiu a circulação voltar.

Ezza não dizia nada, apenas o ajudava a comer de forma hostil, enfiava as frutas em sua boca o fazendo engasgar. Após ser alimentado ela o vestiu com um casaco e lhe calçou sapatos, então o obrigou a continuar andando com ela, agora pela estrada.

― Não me interprete mal, preciso da sua ajuda, depois você pode morrer. ― Ela revelou em algum momento do caminho.

Mabuchi não conseguia parar de encará-la, Ezza agora emanava uma aura forte e intimidante, ela parecia ser dona do mundo em que pisava. “Então essa é a verdadeira Ezza”, concluiu ele.

 

Vertó, Atalho Pelo Bosque – Tarde, 17:32

Mabuchi sentia sua energia voltando, agora já conseguia conversar novamente e estava preocupado com isso. Ezza o observava como um falcão, era assustador ser encarado por aquelas íris estreitas, ela realmente parecia uma predadora.

― Preciso ir até um local chamado Templo das Ninfas, tenho dinheiro o suficiente para comprar um barco, mas não sei navegar. ― Ezza explicou.

― Você quer que eu te leve até lá? ― Mabuchi soou incrédulo. ― Não!

― Então eu posso te deixar aqui, você não consegue andar sozinho e esse lugar é repleto de feras carnívoras. ― Ezza chantageou.

― Você me trouxe aqui para isso? ― O Professor começou olhar ao redor em pânico.

Ezza lhe deu um sorriso maléfico.

― Achou que eu iria cuidar de você porque te amo? É mesmo, você tem uma queda por mim. ― Ezza riu jogando a cabeça para trás, agora Mabuchi conseguia ver o brilho perverso nos seus olhos. ― Patético.

― Pode me deixar aqui, prefiro morrer a fazer algo para você. Aura ainda deve estar te esperando, você não vai voltar? ― Questionou ele impaciente, sentia seu rosto queimando de vergonha e irritação.

― Eu só precisava dela antes, quando estava doente, pensei que ela seria útil para me manter viva até me reencontrar com Arcana, mas nem para isso ela serviu. ― Ezza falava com desprezo óbvio, o que deixou Mabuchi ainda mais indignado.

― Você é mesma a pior, como eu suspeitava, Dragão Negro! ― Mabuchi tinha um repúdio delineado em cada palavra pronunciada, isso fez Ezza estreitar os olhos.

― Vocês são mesmo inocentes, ela não é nada mais que uma cadela vira-lata carente, só bastou um carinho para que ela me seguisse por ai. Nobre? Pufff! ― Ezza zombou. ― Para mim está claro o que ela é, é uma…

― JÁ CHEGA! ― Mabuchi gritou a calando.

Ezza lhe olhou divertida.

― Já chega… ― Ele estava transtornado, se perguntava se ainda estava sonhando.

― Você precisa de mim para sobreviver, se eu te deixar agora você morre. ― Ezza não estava exagerando e Mabuchi sabia disso, mesmo se não fosse devorado por alguma fera, poderia ser novamente roubado. ― Não preciso da sua admiração e nem do seu amor pegajoso, preciso que me leve até o Templo das Ninfas, até lá te protegerei de qualquer coisa que ameace sua vida.

― Eu levo… ― Ele ergueu o olhar, encarou a garota de pé logo a frente. ― Mas terá que levar Aura também, e irá protegê-la!

― Por que eu faria isso? ― Ezza cruzou os braços. ― Ela é inútil nessa viagem, será apenas um estorvo, assim como foi desde o início.

― Eu irei apenas se ela for junto, vamos voltar e levá-la! ― Mabuchi estava decidido, era a primeira vez que ele não parecia um completo covarde.

Ezza riu o deixando confuso, uma risada carregada de ódio contido. Quando ela caminhou em sua direção, ele sentiu seu sangue gelar. Ela se curvou e o encarou bem de perto, emanava fúria.

― Faremos assim, mas não se esqueça de quem eu sou, então não me provoque. ― Ezza ditou com os dentes cerrados.

Quando ela se afastou o Professor voltou a respirar, sentia sua perna tremer. Não poderia evitar sentir medo, ela era o Dragão Negro. “Ela matou todas aquelas pessoas, não somos nada perto disso”, pensou ele mordiscando o lábio inferior.

Ezza suspirou, sentia uma sensação ruim sobre isso. “Aura..”, sempre que se lembrava dela sentia raiva. Se controlou e apenas respirou fundo, agora só precisava encontrar Arcana e seguir em frente.

 

Vertó, Pensão Carneiro Feliz – Manhã, 09:23

Dois dias mais tarde…

Serp foi o primeiro a ver os dois retornando, quando viu Ezza ficou boquiaberto, ela estava completamente diferente de antes.

― Wow, mas quem é essa gracinha? ― Ele foi até os dois que se aproximavam, Ezza lhe deu o mesmo olhar gelado de sempre e ele riu. ― Ainda bem que você continua a mesma, mas que “tchutchuca” você ficou! Pena que você parece minha irmãzinha!

― Esse imbecil ainda está aqui? ― Ezza chiou irritada.

― Professor! ― Serp o viu pela primeira vez. ― Então você estava com ela, sortudo!

Mabuchi estava sério, não conseguia rir das piadas de Serp naquele momento. Ao lado de Ezza, ele sentia como se tivesse um revólver engatilhado em sua nuca.

― Onde está Aura? ― Mabuchi perguntou olhando ao redor. ― Estamos partindo, só viemos buscá-la.

― Oba, já estava na hora, para onde vamos? ― Serp se animou.

― “Nós”? ― Ezza piscou rapidamente, não acreditava no que estava escutando. ― Você que não ouse nos seguir, eu arranco essa sua cabeça podre!

― Eu não duvido disso, mas eu fiquei esse tempo todo te esperando, você vai fazer isso comigo? ― Serp fingiu desconsolo.

― Rarggg! ― Ezza parecia prestes a explodir de raiva.

― Você pode vir! ― Mabuchi o admitiu e recebeu um olhar cético de Ezza. ― Ou ele vem ou nada feito!

― Não vou me responsabilizar por ele, nem será culpa minha caso eu acabe arrancando seu intestino durante a viagem. ― Ezza avisou e Serp lhe olhou magoado.

― Nossa, a mulher tá violenta! ― Serp brincou, mas estava realmente assustado e se colocou em alerta. ― Eu sei me cuidar, sou um guerreiro, não pense que pode me matar tão facilmente.

Ezza manteve seu olhar contra o de Serp, eles se encaravam com igualdade. Mabuchi se sentiu seguro, ao ver Serp agindo daquela forma começou a acreditar que ele os protegeria caso Ezza tentasse algo.

― EZZA! ― A tensão foi interrompida pelo grito de Aura.

A garota correu loucamente na direção de Ezza, já estava chorando antes mesmo de alcançá-los. Mabuchi sentiu pena da médica, ela tinha um carinho verdadeiro por Ezza, mal ela sabia que foi insultada e diminuída pela pessoa que tanto gostava. Apertou seu punho e abaixou o olhar, não queria ver aquilo.

Aura abraçou Ezza, estava muito feliz por vê-la. Ela parecia bem e isso era um alívio, Ezza agora estava mais corada e exibia um ar saudável.

― Você está bem? Parece que sim, estou tão feliz! ― Aura se afastou, estava elétrica. ― Você está tão bonita!

― Obrigada. ― Ezza respondeu ríspida e então olhou para Mabuchi. ― Vamos embora?

Mabuchi explicou a situação aos dois, após um breve resume dos últimos acontecimentos, eles entraram na pensão para buscar seus pertences. Enquanto isso o Professor e Ezza ficaram esperando nos fundos do local.

Ezza ficou em silêncio, Mabuchi não conseguia se sentir bem, não depois de ver a cena de Aura a abraçando.

― Por favor, não a insulte. ― Ele pediu, esperava que Ezza fizesse pelo menos isso. ― Não precisa falar nada, só não a insulte, pode me insultar no lugar dela… Aura gosta muito de você.

Ezza não disse nada, nem mesmo parecia tê-lo escutado.

 

Pegando o bonde que descia para o porto do leste, o grupo começou a jornada que os levaria ao Templo das Ninfas. Aura se sentou entre Mabuchi e Serp, eles conversavam sobre os pontos turísticos da cidade. Ezza ficou de pé perto da saída, estava com seus pensamentos em turbilhão, mas ainda sim em alerta.

Escutava o trio conversando e rindo alto, eles pareciam estar se divertindo. Suspirou, esfregou seu rosto se sentindo incomodada, era como se um inseto rastejasse pelo seu cérebro.

“O que eu estou fazendo?”, se perguntava atordoada.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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