LOVCI – Capítulo 16 – Sangue Rival



Primeiro Plano – Manhã, 09:26

Ezza não podia fazer mais do que recuar dos ataques, o troll estava irritado, mas a ferida em sua mão havia ajudado em algo, agora seus ataques estavam mais lentos. O troll segurava o machado de cabo longo com uma das mãos, já que a outra não estava mais conseguindo ser manipulada.

Um dos gêmeos Daskavan percebeu isso e decidiu tomar frente, saindo de perto da sua equipe ele atravessou o campo de batalha correndo, já retirando seu florete da bainha. Ezza atacava o troll com sua adaga, seus golpes eram baixos e por isso apenas causava ameaça a criatura que recuava com dificuldade, devido ao seu tamanho.

― Saia da frente! ― Corin Daskavan chutou Ezza para o lado com força.

A garota foi jogada alguns metros do troll, e só parou porque atingiu outros jogadores que lutavam entre si. O elfo era exageradamente forte, Ezza precisou de força para se recuperar de um chute como aquele. Antes que percebesse ela estava sendo atacada por outros jogadores, precisou fugir, pois havia perdido sua adaga e não conseguiria lutar contra tantos. Enquanto fugia ela olhou para o gêmeo e guardou bem seu rosto.

Corin atacava o troll com uma força anormal, mas o troll, diferente de Ezza, sabia o porquê de tanta força. Os elfos eram herdeiros de magia, alguns guerreiros utilizavam magia para fortalecer seu físico ou o dano do ataque de suas armas.

― Eu sei que magia custa caro para vocês, então fique esperto “princeso”, assim que você vacilar eu irei parti-lo ao meio! ― O troll avisava enquanto se defendia, com o machado, dos ataques de Corin.

― Antes disso privarei o nosso mundo de uma criatura asquerosa como você, te mandarei de volta ao inferno, de onde você não deveria ter saído! ― O elfo se afastou e ergueu seu florete na vertical, diante de seu rosto.

Uma ventania começou a rondar o corpo do elfo esvoaçando seus cabelos loiros, a lâmina fina do florete começou a se iluminar com uma luz azulada. O troll partiu para cima de Corin, tentando se  aproveitar de sua distração, mas assim que ergueu seu machado contra ele, sentiu o golpe perfurar seu peitoral. A espada entrou e saiu como uma agulha, aparentemente não havia causado muito dano, mas pela expressão de vitória que o elfo fez, percebia-se que algo havia sido feito.

O troll caiu de joelhos e começou a rasgar a própria roupa loucamente, os jogadores ao redor foram atraídos pelos urros de dor da criatura, ele enfiavam as unhas rasgando a própria carne, parecia tentar arrancar algo que estava dentro do seu peito.

Cerina observou com pena, ela sabia perfeitamente o que estava acontecendo.

― O que aquele cara está fazendo? ― Serp parou para observar, como os outros faziam.

― Corin isolou magia de luz dentro dele, agora ela está tentando sair. ― Cerina levou a mão na boca expressando seu horror, o troll ainda estava se mutilando e era algo terrível de se ver.

Então uma explosão fez com que sangue e carne voassem para os lados, o troll estava com um buraco com a circunferência de uma melancia no seu peito. Caiu e morreu na sua própria poça de sangue e carne, com os olhos abertos encarando o vazio.

― LERNNNN! ― O seu companheiro troll berrou desconsolado.

O elfo chutou o corpo morto no chão com nojo e superioridade.

― Um lixo a menos nesse mundo. ― Depois de dizer isso, Corin apenas deu as costas e foi embora.

 

Templo da Deusa Téch, Plateia – Manhã, 09:34

Enquanto a plateia delirava diante da morte terrível do troll, Aura e Mabuchi sentiam uma tristeza enorme. Começavam a querer sair daquele lugar, sentiam medo da reação das pessoas ao redor, elas torciam pela morte de pessoas comuns.

― No final as pessoas são hipócritas e nojentas! ― Mabuchi dizia amargo, sentia sua garganta seca de tanta revolta.

― Quem seria tão horrível para criar um jogo assim? ― Aura estava com as duas mãos no rosto, tentava esconder seu nariz vermelho de chorar pelo troll morto. ― A vida tem importância!

― É um belo pensamento, mas no mar de Haiarys sua vida não passa de brinquedo nas mãos dos outros! ― Udina comentou com seriedade.

― Passamos a desejar a morte alheia para que a morte não seja nossa. ― Vrik acrescentou com um misto de vergonha e tristeza.

Aura segurou a mão de Mabuchi, estava assustada e não conseguia evitar chorar. Ela mesma não entendia o que estava sentindo, só sabia que seu coração estava apertado em seu peito. Mabuchi entendia o sentimento de Aura, eles eram inocentes perdidos em um turbilhão de verdades amargas. Pela primeira vez começava entender Ezza, agora começava entender o porquê de ela ser daquele jeito, ela era alguém que já sabia da realidade e eles eram apenas crianças sonhadoras presas em valores que não significavam nada no mundo real.

 

Primeiro Plano – Manhã, 09:40

Alguns jogadores conseguiam marcar o aro e as esferas desciam, a grande maioria eram espadas, porretes e até picaretas, não eram armas de longo alcance e isso desanimava Ezza de tentar tomar de algum dos jogadores.

O campo já estava começando a ficar vazio, os jogadores que morriam eram levados de volta ao plano real. Haviam chegado cem, e trinta já haviam sucumbido, sem contar os feridos, que apenas se arrastavam pelos cantos esperando pela morte.

Um reptiliano era responsável pela grande parte de jogadores mortos, estava com um revólver que disparava balas elétricas, então tudo que ele precisava era de um cartucho de energia e nada mais. A criatura era silenciosa e impiedosa, possuía uma pele cor nude meio transparente que permitia o vislumbre de seus órgãos internos. Tinha olhos pequenos e uma cabeça encolhida, mas seu corpo era enorme e musculoso. Era assustador, nenhum jogador tinha tomado a iniciativa de lutar contra ele.

Serp havia destruído a lâmina da espada que comprou na feira, o metal não era tão resistente para seus golpes boçais, acabou de mãos limpas precisando partir para o mano a mano.

Ezza encontrou uma gládio caída junto ao corpo morto de um jogador, assim que o corpo evaporou junto de uma luz, a garota pegou a espada do chão. Uma gládio era uma espada para lutas de corpo-a-corpo, possuía a lâmina curta com mais ou menos 60 cm, de dois gumes e mais larga na extremidade.

O reptiliano se aproximava de Serp, o revólver havia descarregado e agora ele parecia disposto a uma luta corporal. O espadachim não fugiu, ficou diante ao reptiliano que era maior tanto na altura como no diâmetro, mas Serp continuava inabalável.

― EI! ― Ezza gritou e Serp olhou, ela lhe jogou a gládio.

O rapaz a pegou pelo cabo de couro, olhou para a lâmina grossa e aprovou, então olhou intrigado para Ezza.

― Quero ver se você é mesmo tudo isso que dizem! ― Ezza desafiava o espadachim.

― Essa luta é para você, Ezza! ― Ele dedicou e lhe abriu um sorriso convencido.

O reptiliano também possuía uma arma, uma barra de ferro ondulada, a criatura se colocou em posição convidando o oponente a atacá-lo.

 

Sache se levantava após se recuperar da dor que lhe foi causada pelos seus ferimentos, havia retirado todas as flechas e lambido suas feridas. Sua saliva era anestésica e mesmo que não tivesse curado em si, ela só precisava se aliviar da dor para se reerguer.

Procurou por sua arma e a avistou alguns metros ao lado, rastejou para pegá-la. Como não era de fácil manuseio, ela não havia sido roubada. Com ela em mãos, a grande guerreira Sache se levantou sedenta por vingança.

“Não posso desonrar o nome do meu clã!”, com esse pensamento ela seguia a procura de Kite. O jovem guerreiro atacava uma equipe habilidosa, mas ele parecia mais preparado e conseguia facilmente competir com os três.

Sache tentou conter sua fúria, nesse momento precisava usar sua sabedoria, Kite era escorregadio e se movia muito rápido. Precisava prendê-lo para garantir que o acertaria com sua arma, somente assim conseguiria limpar o nome de seu clã.

Kite sentiu em suas costas a premonição do golpe, conseguiu desviar antes que fosse atingido pela lâmina de Sache. A mulher atacava sem parar, girava com rapidez a corrente, a levava de um lado para o outro. O rapaz conseguia fugir dos ataques facilmente, recuava e saltava de um lado para o outro com leveza, quando percebeu a guarda aberta ao lado esquerdo, ele não pensou duas vezes e tentou executar o golpe na garganta novamente.

Sache o viu preparar o golpe e soltou sua arma no exato momento, fechou o punho e acertou em cheio o rapaz. Enquanto ele estava tonto pelo golpe, foi pego pelo pescoço e erguido no ar, se debatia para conseguir fugir, mas era tarde. A mulher o levou na direção da pedra pontuda e com toda força monstruosa que possuía, enfiou o rosto do rapaz contra a pedra.

― GAAARRRR! ― Ela rosnou de forma determinada.

O rosto do rapaz se partiu ao meio, com a tremenda força de Sache foi atravessado pela pedra pontuda, o que fez com que ele morresse imediatamente. A visão que ficou era perturbadora, Sache urrava e continuava empurrando a cabeça do rapaz extravasando seu ódio. Quando a cabeça se soltou tudo que restou foi um corpo com uma cabeça estourada, o rosto de Kite era irreconhecível.

 

Templo da Deusa Téch, Camarote – Manhã, 10:01

Masaka estava muito abalado, quando a transmissão deu zoom no corpo irreconhecível de Kite, ele sentiu ódio e apertou seu punho indignado. O rapaz nem parecia mais humano, os restos do seu encéfalo estavam por todos os lados, era apenas um cadáver destruído.

― É uma pena. ― Kei comentou, sem emoção alguma. ― Mas ele lutou bem!

― Por favor… ― Masaka pediu com os dentes cerrados, não conseguia nem mesmo respirar. ― Pode calar a merda da boca? Você não tem o direito de dizer algo sobre isso!

Kei não disse nada e nem levou a sério o que ele disse, sabia que ele estava sendo irracional por causa da frustração, mas olhou firme para o rapaz.

“No final eles não são nada sem o conhecimento, me pergunto se estamos fazendo um bom negócio”, Kei se questionava.

 

Marshmallow estava deliciada com o momento, seus olhos brilhavam e ela ria sem parar.

― Vossa alteza, quando poderemos apostar? Quero apostar naquela mulher, ela me conquistou! ― Marshmallow perguntou ao Rei Odiges.

― As apostas são abertas apenas no terceiro plano. ― O Rei avisou e recebeu um “Tch” emburrado da garota.

― Que brutalidade. ― Mei desaprovava. ― Kite era um rapaz tão bonito, coitadinho.

― Era só ele ter ficado na casa dele, em uma batalha não pode se esperar misericórdia! ― Pascau refutou duramente.

― É isso aí, velhote! ― Marshmallow concordou. ― Em uma batalha precisamos deixar nosso inimigo irreconhecível, para que até após sua morte ele traga sofrimento!

Mei olhou para Marshmallow atordoada, começava a entender o porquê de sua péssima fama, todos a chamavam de “Garota Demônio”. Marshmallow era responsável por centenas de massacres, era um dos membros mais fortes do Clã do Mister e obviamente tinha um motivo para ser seu braço direito.

O Rei Odiges não só conhecia histórias sobre Marshmallow, como já havia visto pessoalmente o estrago que ela fazia em suas batalhas. Sentia arrepio sempre que se lembrava dos corpos pendurados, do sorriso de satisfação e da naturalidade em que ela tratava a situação. A todo o momento durante o evento ele pedia a Deusa Téch que ela os protegesse, que evitasse que Marshmallow atacasse, que apenas pudesse manter todos a salvo de sua maldade.

 

Plateia – Manhã, 10:05

Um homem aparentemente comum, sentado duas arquibancadas acima de Mabuchi e Aura, os observava desde o início. Quando seu conchafone tocou, ele atendeu sem tirar os olhos dos dois.

Ela está ai? ― A voz do outro lado perguntou.

― Não chefe, ela está no jogo… ― O homem explicou e escutou o chiado exasperado do outro lado da linha.

A quero morta e quero que me tragam o corpo para que eu tenha certeza! ― A voz ordenou imponente.

― E ela será, pelo que vejo talvez ela nem sobreviva ao jogo, mas se sobreviver teremos certeza de matá-la! ― O homem garantiu e recebeu aprovação do homem no outro lado da linha. ― Além do mais, estou olhando para os dois amigos dela nesse momento, devo pegá-los como garantia?

Faça o que for preciso, Ezza precisa morrer o quanto antes. Você sabe que a existência dela me apresenta perigo, não sabe? ― A voz voltava a se irritar. ― Mate-a! Mate essa desgraçada pelo que ela me fez, eu… O poderoso Dragão Negro!


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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