LOVCI – Capítulo 15 – O Primeiro Desafio, Pitz!


Primeiro Plano – Manhã, 09:02

Ao tocarem os três ao mesmo tempo na esfera brilhante no campo de transporte, Ezza passou pela experiência já conhecida, ser levada para outro plano era como estar dentro de um tornado. Mas dessa vez não caiu ao chegar, apenas se sentiu um pouco zonza.

O local era uma caverna gigantesca, uma luz vinha da parte de cima, mas era tão alto que Ezza não soube identificar se era a luz do sol. Ela se assustou quando um inseto semelhante a uma abelha passou perto de seu rosto, tinha um olho gigante, mas não parecia um olho em si. Existiam dezenas deles, ficavam circulando de um lado para o outro.

― São insetos de transmissão. ― Cerina explicou a Ezza ao notar sua confusão. ― Estamos sendo transmitidos para vários locais nesse momento.

― Então minha família está me vendo? ― Serp parecia empolgado com isso, quando um dos insetos passou perto ele começou a acenar. ― O EU AQUI! EI! ABRAÇOS PESSOAL ESTOU COM SAUDADES! EI, VOLTA AQUI!

Cerina avaliou o rapaz, estava tentando se lembrar de onde conhecia o símbolo no bracelete que ele usava, mas não conseguia.

Ezza estava examinando bem o campo de batalha. “Em uma batalha observe bem onde está, saiba onde pisar e essa será sua vantagem”, se lembrou do que seu velho amigo lhe ensinou. Algumas esferas começaram a flutuar acima dos participantes, a luz pálida preencheu a parte superior e chamou a atenção de todos os jogadores.

Dentro de cada uma das esferas possuía um tipo diferente de arma, no entanto elas estavam altas demais até para os trolls. Ezza se lembrava de ter lido a respeito disso, mas havia se focado muito nas regras e não tinha prestado atenção na explicação dos desafios.

― O que é aquilo? ― Serp indagou, ele nem mesmo tinha lido o manual.

― Está vendo aqueles aros? ― Cerina apontou para os aros espalhados pela caverna, Serp e Ezza olharam atentos. ― Precisamos acertá-los com as bolas espalhadas pelo campo, sempre que um ponto for marcado, uma esfera descerá e quem estiver perto poderá pegar a arma.

― Mesmo se eu não tiver feito a cesta? ― Serp questionou a elfa e ela concordou com a cabeça. ― Vixe!

Ezza pegou uma bola que encontrou por perto, era de madeira e oca, poderia se partir facilmente, parecia uma estratégia para limitá-las, já que ao cair elas provavelmente se partiriam. As mesmas estavam espalhadas nas extremidades da caverna, nas partes mais escuras e próximas as paredes pedregosas.

“Preciso focar em ficar viva nos dois primeiros desafios”, arquitetou Ezza.

O primeiro a atacar foi o arqueiro vestindo negro e usando um capuz, típico dos membros do Clã das Sombras, Kite dos Olhos de Águia. Ele usava uma arma de difícil manejo comum, mas bastante útil para atiradores treinados, uma chu-ko-nu. A arma era parecida com uma besta só que poderia ser encaixada no antebraço e não precisava de duas mãos para ser disparado, ao colocar a flecha o usuário só precisava manejar uma alavanca, com prática do atirador, a chu-ko-nu se tornava uma perigosa arma de disparo.

Kite conseguiu atingir cinco homens de uma vez, ele se movia rapidamente e quanto mais perto do alvo, maior era o estrago feito pelas flechas. Ele mirava na cabeça e as flechas atravessavam em uma velocidade tremenda, deixando grandes buracos nas cabeças dos adversários.

O arqueiro das sombras estava focado em eliminar um grupo que tentava marcar o aro, mas acabou dando de cara com uma oponente ao seu nível, Sache.

― Calma aí, garoto das sombras! ― A mulher carregava uma lâmina de foice presa a correntes grossas.

Sache era uma mulher grande e musculosa, tinha uma juba negra que escondia seus seios e olhos verdes como musgo, sua pele era roxa e ela usava apenas uma tanga esverdeada. Ninguém poderia identificar qual era sua raça, já que ela era do Clã da Equidna, a criadora de monstros.

 

Templo da Deusa Téch, Camarote – Manhã, 09:05

A transmissão estava focada em Kite e Sache, os dois estavam de frente um para o outro ameaçando de se enfrentar. A plateia delirava, alguns torcendo por Sache e outros para Kite.

― Essa é a tal mulher do Clã da Equidna? ― Kei não conseguia reconhecê-la.

― Ela tem a marca do clã, mas apesar da aparência monstruosa, não creio que seja páreo para Kite. ― Masaka afirmava, acreditava no potencial do rapaz.

― Ele é um Erudito? ― Kei estava interessado, sabia que o Clã das Sombras possuía grandes guerreiros com a dominação do Graal.

― Ainda é muito cedo para ele, mas está entre os grandes prodígios. ― Masaka explicou e Kei não disse mais nada.

“Vamos ver como anda os prodígios do Clã das Sombras”, o ninja passou a prestar atenção com olhar crítico na luta que estava prestes a começar.

 

Plateia – Manhã, 09:05

Aura e Mabuchi estavam impressionados com o tamanho de Sache, ela tinha músculos gigantescos e estava quase nua, o que era ainda mais chocante.

― Espero que Ezza não lute com ela, seria o fim! ― Aura torcia, roendo as unhas, estava tão aflita que não conseguia ficar quieta.

― De qualquer forma ela vai acabar se machucando, você não viu o tamanho daqueles trolls? ― Mabuchi sentia um misto de preocupação e raiva. ― Morrer por dinheiro? Que idiota!

― Quem é a amiga de vocês? ― Udina perguntou interessada.

― Quando passar a pessoa mais magra e com cara de psicopata, é ela! ― Mabuchi explicou e Udina riu.

― Mas o jogo do Pentatlo não é sobre quem é mais forte, e sim quem é o mais esperto! ― Vrik era um grande fã do jogo e sabia muito sobre. ― No ano retrasado alguns gigantes participaram, mas quem venceu foi uma arqueira da cidade.

― Ezza é esperta! ― Aura afirmou, começou a ter esperança.

Mabuchi bufou. “Se fosse esperta não estava lá”, pensou mal-humorado.

 

Primeiro Plano – Manhã, 09:07

Sache atacava Kite que fugia dos ataques com agilidade, a mulher arrancava pedras do chão quando pousava a pesada lâmina de foice, manuseava as grossas correntes com facilidade e rapidez. Mas assim que deixou a guarda aberta, o ágil atirador passou por baixo de seus braços e lhe atacou com um golpe na garganta. A mulher sentiu o impacto e ficou desorientada, perdendo o ritmo do ataque, Kite então disparou mais de dez flechas seguidas contra o corpo da criatura, o sangue azulado da monstra manchou o chão e ela sucumbiu.

 

Ezza estava distraída, assim como os outros, quando escutou gritos se aproximando. Alguns homens com armadura de placas se aproximavam, carregavam espadas e pareciam focar no trio.

Cerina e Ezza se colocaram em posição de ataque, mas Serp parou na frente das duas e tirou a espada da bainha de ombro. Correu na direção do homem com armadura de placa e saltou, pegando impulso ele atacou com um golpe riscando um X contra o peito do oponente.

― Ele não sabe que aquelas armaduras são de metal? ― Cerina balançou a cabeça desaprovando.

Quando Serp caiu de pé ele chutou o tronco do homem sem colocar muita força, diante disso a armadura começou a despedaçar como sucata velha. Os outros que vinham correndo com frenesia, pararam derrapando os pés e trombando uns nos outros.

Cerina estava boquiaberta. “Ele cortou metal?”, se perguntou incrédula.

― Ué, ficaram com medo? ― Serp indagou os outros jogadores. ― Venham, enfrentem o Búfalo da Montanha!

Quando Serp disse isso, Cerina se lembrou no mesmo momento.

― Clã do Sol Nascente! ― Ela apontou para o espadachim que lhe olhou sem entender. ― V-Você é de lá, não é?

― Eu era, agora sou um desertor. ― Ele explicou e isso fez com quem estava ao redor olhasse diferente para Serp.

Estavam todos receosos, Ezza foi a única que não entendeu nada, principalmente os comentários:

― Ouvi que o Búfalo da Montanha era o mais rebelde de seu grupo!

― Mesmo sendo um desertor ele é perigoso, é melhor deixarmos ele para algum dos caras fortes!

― Vamos manter distância dele e das garotas, precisamos garantir nossa sobrevivência.

Ezza riu, era uma risada irônica e de desdém. Olhou com desprezo para Serp que lhe encarou confuso, fez com que o espadachim se sentisse desconfortável pela primeira vez.

― Então você tem nome, pensei que fosse só um idiota, mas é um idiota com um apelido! ― Ela zombou.

― Até os idiotas possuem suas honras. ― Ele refutou.

Serp e Ezza estavam se encarando com olhos ameaçadores, o que fez com que todos ao redor ficassem tensos, Cerina se afastou quando Ezza ameaçou tirar algo de sua jaqueta.

“O que ela está fazendo? Não devemos lutar entre nós!”, a elfa pensava aflita.

 

Templo da Deusa Téch, Plateia – Manhã, 09:14

A transmissão saiu de Kite e Sache, agora estava em Ezza e Serp que se encaravam como dois animais silenciosos. Os jogadores ao redor haviam parado tudo, estava um clima tenso e a plateia não estava entendendo nada.

― É ela! ― Mabuchi apontou para o telão concha. ― Quem é aquele cara?

― Ele é da equipe dela, por que ela vai lutar com ele? ― Aura estava confusa.

― Aquela garota tem alguma habilidade? ― Vrik avaliava bem a jovem, ela tinha algo que o incomodava.

― Não, mas ela sabe se virar. ― Mabuchi a defendeu.

A plateia estava ficando tensa, Ezza e Serp estavam quietos.

― Acaba com ela!

― Arranca a cabeça dele!

Mabuchi olhou para trás assustado, as pessoas começavam a gritar empolgadas.

Ezza levou a mão dentro da jaqueta sem tirar os olhos de Serp, então tirou um saquinho transparente, tirando um comprimido ela o engoliu.

― Hora do remédio. ― Ela informou e o espadachim riu, quebrando a tensão do momento.

A plateia ficou revoltada.

― Sua puta desgraçada!

― Mata ela!

― Alguém arranque a cabeça dessa vadia!

Aura estava orgulhosa por ver seu comprimido passando no telão, mas Mabuchi estava horrorizado pelos insultos que os haters de Ezza estavam disparando.

 

Camarote – Manhã, 09:18

Marshmallow era a única a dar risadas no camarote, precisou até enxugar o canto dos olhos.

― Eu gostei dela! Ahahahaha! Ela pegou aqueles idiotas! Ahahahaha! ― A garota mal conseguia terminar o que queria dizer.

― Ela repensou o que iria fazer, sabia que não conseguiria derrotá-lo. ― Pascau analisou enquanto coçava o queixo. ― No final ela é fraca, não acho que ela avançará mais que isso!

― Cala boca velhote! Eu agora estou apostando nela, é claro que ela vai ganhar! ― Marshmallow refutou irritada.

― Gente fraca se apoia. ― Ele lhe sorria sarcástico e Marshmallow lhe fitou.

O Rei Odiges sentiu sua pressão voltar a cair, o clima estava tenso novamente, então a câmera voltou para o duelo entre Kite e Sache. A mulher estava caída em sua própria poça de sangue azul e o arqueiro já estava em outra luta.

― Eu vou apostar nesse rapaz, ele é esperto! ― Pascau afirmou o examinando com afinidade.

― Eu espero que alguém arranque suas tripas em breve, os guerreiros do Clã das Sombras não passam de covardes que se escondem e apenas se defendem, assim como o Clã Ninja! ― Marshmallow possuía um ódio mortal em suas palavras, olhou de relance para o outro camarote enquanto falava.

 

Primeiro Plano – Manhã, 09:20 

Ezza estava se virando bem quando sentiu uma presença abafante em suas costas, ao se virar deu de cara com um troll que tinha o dobro do seu tamanho, e ele olhava diretamente para ela.

― Você nos fez de bobo, mulherzinha! ― Ele tinha uma voz alta e rouca.

― Eu fiz? ― Ezza se fingiu de tola.

Serp e Cerina que lutavam não perceberam que Ezza estava com problemas, agora era cada um por si.

O troll desferiu golpes de machado contra Ezza, ela saltava recuando, mas ao chegar em uma das extremidades precisou se abaixar. Quando o troll atacou, seu machado acabou preso na parede, isso deu uma chance de ataque a Ezza.

A garota tirou da bota a adaga e subindo no machado que lhe serviu de pedestal, ela saltou na direção do pescoço do troll. No entanto, ele foi mais rápido e a segurou com as duas mãos. Ezza acabou presa entre as mãos gigantes do troll, ela tentava fugir enquanto ele apertava cada vez mais, comprimindo seus órgãos.

― Grita para eu ouvir! ― O troll pediu de forma zombadora.

― Grita… você. ― Ezza começou a enfiar a adaga na mão do trol compulsivamente.

O troll sentia dor, mas não queria soltá-la. Então a garota usou de algo mais doloroso, enfiou a adaga entre os ossos das costas da mão da criatura, puxou com as duas mãos rasgando a carne e forçando os ossos para quebrá-los.

― RUUUU! ― O troll lamuriou, não conseguiu mais segurá-la e a soltou.

Ezza caiu buscando o ar sentindo seu tronco dolorido, mas voltou a posição de defesa o mais rápido que conseguiu.

― Agora você me irritou! ― O troll rosnou com a mão ensanguentada.

Ezza segurou a adaga de forma defensiva e se colocou em posição de ataque novamente, lutaria até o fim.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia


 


Fontes
Cores