LOVCI – Capítulo 14 – Os Sovereigns


Vertó, Arredores do Templo – Manhã, 08:12

Ezza leu as regras do jogo e agora já sabia como ele funcionava, no geral era:

 

Todos os jogadores pertencerão a um time composto por três integrantes, escolhidos entre eles;

O jogo é composto de três fases e o maior objetivo é permanecer vivo até o último desafio, onde quem capturar a pérola de Téch será o vencedor;

O jogador pode matar o adversário da maneira que desejar;

Assim que o jogador for a óbito ele será trazido de volta ao plano real;

O jogo Pentatlo ocorre em um plano especialmente feito para os desafios, criado pela feiticeira real;

 

Ela não sabia em que grupo estaria, ao redor todos já criavam suas alianças, então Ezza ficou apenas sentada à sombra de uma árvore, esperava se juntar aos que sobrassem.

Você já tem equipe? ― Um rapaz se aproximou parando bem a frente de Ezza.

Ela olhou para cima franzindo o cenho. Era um cara alto e de pele escura, tinha dreads longos presos em um coque e olhos castanhos avermelhados, tinha um jeito desleixado e usava uma bainha de ombro com uma espada curta embutida.

Não. ― Ezza respondeu.

Agora tem! ― Ele lhe sorriu.

Ezza estreitou os olhos, mas não disse nada de volta, se ele desse trabalho era só deixá-lo de lado. Levantou-se tirando a poeira da roupa, olhou mais a frente tentando ver algo no local onde os jogadores estavam sendo transportados.

Me chamo Serp! ― Ele estendeu a mão.

Ezza olhou indiferente para sua mão se recusando a apertá-la.

Ele riu.

Você é do tipo difícil, gostei de você! ― Ele brincou e recebeu outro olhar cortante de Ezza. ― Ganharemos, e então você me dirá seu nome, ok?

Apenas saia. ― Ezza ditou e saiu de perto do rapaz, caminhou com passos largos para longe dele, mas ele continuou a seguindo.

 

Vertó, Templo da Deus Téch – Manhã, 08:12

Mabuchi ainda estava muito abalado com a participação de Ezza no jogo Pentatlo, mas as surpresas ainda não haviam acabado.

Agora teremos o discurso do Rei Odiges, soberano de Vertó e o primogênito da linhagem Queixo! ― O apresentador anunciou.

A transmissão focou no rosto quadrado do rei, ele estava pálido e apesar de falar com animação, parecia bastante preocupado, era um velho pardo e pelancudo.

Agradecemos a presença dos visitantes ao nosso reino Vertó, hoje estamos realizando o lendário jogo Pentatlo, uma tradição que se segue por séculos no reino. Esperamos que todos possam se divertir e que lhe tragam um sentimento nobre, pois aqueles guerreiros já são vencedores apenas por tentarem…

Tch! ― Marshmallow zombou do seu assento, distraindo o rei.

A garota estava no camarote com o Rei e ao seu lado estava Pascau a Fênix de Fogo, um Sovereign assim como Mister. Ele estava distraído como de costume, era um homem muito comum para seu posto.

Os Sovereigns são reencarnações de deuses ancestrais, pessoas com habilidades sobrenaturais capaz de causar grandes catástrofes. No mundo atual existem cinco deles, alguns com mais de dez mil anos de idade e outros com pouco menos de cem. Ninguém sabe como isso acontece, eles apenas nascem e ascendem até se tornarem extremamente poderosos.

― … hoje contamos com a presença mais que especial do Sovereign, Pascau a Fênix de Fogo. ― Quando o Rei Odiges anunciou, uma tensão caiu sobre a plateia que começou um burburinho incontrolável.

Estavam todos sobressaltados, quando a câmera pegou o homem, os trolls que estavam no bar, agora nas arquibancadas, arregalaram os olhos. Era o mesmo homem que tinha parado a confusão entre o troll e a elfa na taverna, para quem estava no local no momento do acontecido, essa revelação causou uma sensação de temor.

E-Ele é a Fênix de Fogo? ― Um dos trolls gaguejou.

Chi Ah ficou nervoso e mais uma vez Mabuchi não entendeu nada.

O que é isso? Um Sovereign? ― Questionou ao pescador.

Algo muito pior do que um Orasukiro, um deus de verdade! ― Chi Ah engoliu seco ao dizer isso e completou pensativo. ― Agora tudo faz sentido…

Mabuchi não havia entendido, mas não conseguiu perguntar nada, pois logo em seguida um rosto conhecido surgiu no telão concha.

E também o braço direito do Sovereign Mister, a senhorita Marshmallow. ― Ele disse relutante, conseguia sentir os olhos inquisidores e sádicos dela em suas costas.

Mabuchi reconheceu a garota, ela sorria graciosamente, mas novamente a plateia ficou assustada.

O Professor escutava a conversa das pessoas ao seu redor:

Nunca vi um Sovereign pessoalmente…

O que essas pessoas estão fazendo aqui?

É a guerra, com esses dois aqui posso dizer que ela vai começar em breve!

Sempre que aquela garota aparece coisas horríveis acontecem!

Vou embora o mais rápido possível de Vertó!

Estão falando dela?”, Mabuchi se perguntou confuso. Olhou na direção do camarote e a viu, ela ainda parecia como quando a conheceu, meiga e frágil.

Quem é aquela? ― Perguntou a Chi Ah, mostrando a garota.

Uma das pessoas que pode destruir nosso mundo. ― Chi Ah estava sério quando disse isso.

Mabuchi não conseguiu reagir, só ficou piscando aleatoriamente se sentindo impactado.

 

Vertó, Arredores do Templo – Manhã, 08:20

Aura veio ao encontro de Ezza antes da convocação, os jogadores já estavam sendo chamados para serem transportados. A confusão e gritaria, revelava a desordem e o futuro provável para o jogo.

Ezza… ― Ela chorou a abraçando. ― Não morra!

Ezza a afastou e lhe olhou feio.

Vá encontrar o tagarela, fica com ele! ― Ezza estava preocupada com o fato de Aura ficar vagando sozinha.

Quem é “o tagarela”? ― Ela limpava o rosto com as costas da mão.

Mabuchi. ― Ezza revelou de forma maldosa.

Aura acenou com a cabeça concordando.

Serp observou a cena surpreso, quando Ezza veio em sua direção ele lhe deu um olhar zombador. Começou a caminhar junto com ela e a fazer gestos furtivos com os ombros, apenas para irritá-la.

O quê? ― Ela questionou seu jeito estranho.

Então você é do tipo cascuda, mas com coração quente. ― Ele a empurrou de leve e Ezza lhe olhou estressada. ― Que bonitinha!

Eu vou quebrar sua cara, seu idiota! ― Ela ralhou.

 

Cerina correu na direção dos gêmeos Daskavan, mas eles já tinham outro membro no trio. Era uma mulher alta com terno marrom desbotado, tinha cabelos curtos vermelhos e usava uma cartola. Ela semeava um olhar vago e mascava um palito, quando Cerina se aproximou ela começou a lhe observar com olhos sorrateiros, escondidos pela cartola.

Pensei que fôssemos lutar juntos! ― A elfa estava decepcionada.

Não seremos vistos com você, apenas faça como combinamos e talvez façamos um pedido para que o grande líder deixe você retornar ao clã. ― Nael nem mesmo olhava para Cerina ao falar com ela, estava lustrando sua armadura.

Mas apenas se fizer como te orientamos! ― Corin acrescentou e em seguida os dois saíram andando na direção do círculo de transporte, se exibiam com pompa e andavam pisando alto.

Cerina ficou parada se sentindo abandonada, seus próprios irmãos de espécie a desprezavam e a tratavam como uma indigna. Ao sair a mulher da cartola lhe sorriu e lhe fez uma pequena reverência com a cabeça, um gesto que lhe pareceu uma ameaça e lhe deixou de orelha em pé.

 

Precisamos de mais uma pessoa! ― Serp informava a Ezza que parecia não se importar com o fato. ― Eles não vão nos transportar sem outra pessoa!

Só chame qualquer um! ― Ezza refutou irritada, Serp estava conseguindo tirá-la do sério.

Cerina os observou cuidadosamente. “Pode ser minha oportunidade, apesar deles serem estranhos”, concluiu ela.

Eu posso me juntar a vocês! ― Se voluntariou, aproximando com um sorriso amistoso. ― Me chamo Cerina!

Olá chuchu, me chamo Serp… a propósito, acho as elfas as mais belas mulheres do nosso mar. ― Serp beijou a mão de Cerina deixando-a constrangida.

Obrigada… ― Ela puxou a mão rapidamente do domínio de Serp, se virou para Ezza. ― E você…?

Ezza não lhe respondeu, apenas seguiu na direção do círculo de transporte. Os trios que chegavam tocavam juntos em uma esfera opaca no centro do círculo e desapareciam.

Acho que ela não é muito sociável, mas ouvi a amiga lhe chamando de Ezza. ― Serp a informou e depois seguiu Ezza com a mesma expressão contente de sempre.

Ezza… ― Cerina a examinou intrigada.

Ela tem mesmo uma energia horrível”, pensou a garota se sentindo desconfortável.

 

Vertó, Templo da Deusa Téch – Manhã, 08:31

Mabuchi não conseguiu tirar mais informação alguma de Chi Ah, o mesmo precisou sair do templo para resolver alguns problemas e pareciam ser bem sérios. Depois que viu o Sovereign e Marshmallow, o pescador ficou extremamente incomodado e não conseguiu mais aproveitar o evento.

O Professor ficou sozinho, ainda estava confuso sobre Marshmallow e todas essas coisas sobre deuses de verdade. “Estamos muito desinformados”, concluiu ele, preocupado com esse fato.

Enquanto esperava o primeiro desafio começar, Mabuchi acabou fazendo amizade com um casal sentado na arquibancada abaixo da sua. Eles eram de uma raça que parecia muito com os humanos, mas eram maiores e mais fortes. Não chegavam a ser como os trolls, mas possuíam membros mais avantajados do que os humanos normalmente possuem. Os dois eram ruivos e com um jeito bruto, mas apesar da aparência, eles eram extremamente gentis.

Explicando no geral sobre os Sovereigns, eles são deuses de verdade, mas acabaram nascendo no nosso mundo. Não são como os Orasukiros que são apenas a essência, eles são completamente, deuses. ― Udina explicava a Mabuchi sobre os Sovereigns, era uma mulher educada e tinha uma voz agradável, estava com uma barriga protuberante de gravidez.

Suas habilidades apocalípticas causam medo nas pessoas, mas isso é bobagem! ― Vrik explicava convicto, parecia saber do que estava falando. ― Nos dias atuais eles não são os únicos assim, tantos guerreiros que dominam artes lendárias sem habilidades sobrenaturais alguma, eles poderiam vencê-los se unissem uns com os outros.

Por isso estão todos preocupados com a profecia do Oráculo, não sabemos quem pode vencer a guerra, mas será algo que pode destruir nosso mundo, será como a Guerra dos Véus. ― Udina parecia preocupada, tocou em sua barriga. ― Mas eu espero que a guerra demore acontecer, assim meu filho poderá crescer tranquilamente.

Vrik lhe sorriu carinhosamente e acariciou sua barriga. Mabuchi sentiu que estava sobrando, estava deslocado quando avistou Aura subindo as escadas laterais.

AURA! ― Gritou agitando os braços. ― AURA! AQUI!

A médica demorou lhe ver, mas assim que o reconheceu foi em sua direção com um misto de empolgação e preocupação no semblante.

Que bom que te encontrei, pensei que teria de me sentar lá em cima. ― Ela se sentou ao lado do Professor.

Essa é a minha amiga Aura. ― Ele a apresentou aos novos amigos, depois os apresentou. ― Essa é Udina e seu marido, Vrik.

Olá! ― Aura sorriu amigavelmente.

Para a surpresa de Mabuchi e Aura, o casal se levantou e fez uma reverência para Aura.

É uma honra. ― Udina até mesmo abaixou a cabeça.

Os Orasukiros Celestiais são sempre uma boa companhia. ― Vrik explicou depois que se sentou novamente. ― Em nosso reino eles são adorados, por isso não podemos evitar cumprimentá-la formalmente.

Aura havia se esquecido de cobrir sua marca como sempre fazia, mas desde que chegou em Vertó ninguém havia estranhado nem comentado nada, no Arquipélago de Jade ela sempre era alvejada quando viam sua marca.

Que interessante! ― Aura estava realmente maravilhada. ― Vocês são tão grandes, não são humanos, são?

Somos da raça aesires, somos grandes guerreiros movidos pela devoção aos nossos ancestrais. ― Udina explicou confortavelmente.

Mabuchi agora se sentia idiota, estava curioso, mas no final era só perguntar e eles responderiam normalmente. “Que desconfortável, não saber como me comportar e nem sobre como as coisas funcionam por aqui”, pensava soturnamente.

Os nossos participantes estão chegando ao outro plano, vamos conferir e assistir agora ao primeiro desafio, Pitz! ― O apresentador informou chamando a atenção da plateia.

A transmissão cortou para o local do desafio, Mabuchi e Aura ficaram tensos, era agora que tudo começava.

 

Templo da Deusa Téch, Camarote – Manhã, 08:45

Masaka entrou no camarote sozinho, deixou seus protetores do lado fora, assim como Kei fez. Como membros preciosos dos seus clãs, os dois precisavam de escoltas.

Meu pai me enviou, você é o Dobrador de Sombras? ― Masaka tirou seu capuz revelando seu rosto, possuía cabelos negros compridos e marcas ao redor de seus olhos acanhados.

Masaka era o filho mais novo do líder do Clã das Sombras, um jovem considerado um grande prodígio na arte estudada pelo seu clã, Senki.

Sou o representante do meu clã, Kei. ― Ele se apresentou e os dois fizeram uma leve reverência.

Kei o Dobrador de Sombras era o lendário guerreiro ninja de qual todos já haviam ouvido falar, responsável por assassinar a Imperatriz Sereia, suas técnicas de camuflagem eram tão avançadas que ele entrou e saiu do reino sem ao menos ser notado, sendo Atlântida o reino mais protegido e de acesso limitado aos seres terrestres.

Sente-se, vamos conversar sobre as condições. ― Kei mostrou o assento ao lado do seu.

O rapaz se sentou sem abaixar sua guarda, não poderia saber o que o Clã Ninja realmente desejava, era a primeira vez que eles apareciam em público. Masaka reparou nas vestes de Kei, usava um sobretudo negro, tinha cabelos loiros arrepiados e o único símbolo do seu clã estava na faixa que usava em seu pulso, um círculo com três figuras desconhecidas para ele.

Então é esse um dos grandes guerreiros de Haiarys…”, pensou Masaka admirado, mas igualmente preocupado com o rumo que a situação poderia tomar.

 

Do outro camarote, Marshmallow observava atenta aos dois, sorria com os olhos iluminados de mordacidade. Parecia uma fera segurada por correntes, ela arranhava as laterais do assento com suas unhas pequenas e bem feitas.

Olha só aqueles dois ratos pedindo para morrer, a quem devo me apresentar primeiro?

Pascau teve um pequeno vislumbre do que estava acontecendo, agora conseguia entender os planos de Mister.

É um bom plano, mas você conseguirá lidar com as consequências… Mister?”, o Sovereign especulou dentro de si.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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