LOVCI – Capítulo 13 – Paixão Perigosa


Vertó, Pensão Carneiro Feliz – Noite, 20:12

Ezza e Aura passaram o resto da tarde comprando ervas e frascos, foi exaustivo já que elas acabavam se perdendo a todo instante. Quando a noite caiu as garotas visitaram dezenas de pensões até conseguirem encontrar uma que não estava lotada e cabia no orçamento.

A pensão Carneiro Feliz não era nada feliz, o quarto das meninas possuía paredes extremamente úmidas e as camas eram apenas pelo de carneiro jogado no chão, a janela era minúscula e não tinha banheiro próprio. Ezza não se importou, mas Aura estava obviamente incomodada com cada detalhe.

Ezza entrou no quarto e se sentou no couro de carneiro do lado esquerdo, tirou suas botas e começou massagear seus pés, estava tão cansada que poderia dormir em qualquer lugar.

― Ezza, você vai dormir? ― Aura ainda estava de pé olhando ao redor, não conseguia nem pensar em deitar naquele chão sujo.

― Não. ― Ezza esticou as pernas soltando um gemido de alívio, tinha andando muito por causa de Aura e suas ervas.

Aura ficou por alguns minutos de pé, esperava que Ezza fosse repensar e decidir sair de lá, mas no final acabou se rendendo e foi se sentar no couro de carneiro.

― Será que o Professor está bem? ― Aura perguntou, mas Ezza apenas a ignorou. ― Amanhã podemos ir vê-lo…

― Eu vou sair um pouco… ― Ezza se levantou calçando suas botas.

― Onde? ― Aura já se preparava para ir junto.

― Vou ao banheiro. ― Ezza foi na direção da porta e a bateu forte atrás de si quando saiu.

Aura se sentia triste, aquele lugar apenas piorava seu estado, se deitou prometendo esperar pela volta de Ezza acordada, mas pegou no sono.

Ezza saiu da pensão e se sentou em uma carroça de feno nos fundos do local, não conseguia dormir em lugares fechados com outras pessoas, tentaria tirar um cochilo ali mesmo.

― É o que eu estou dizendo, esse ano as apostas já arrecadaram mais de um milhão de gralhões! ― Ela escutou uma voz e passos se aproximando.

― Mas é claro! O Pentatlo é transmitido para o mundo inteiro, sem contar que grandes guerreiros participam, ano passado só uma pessoa saiu viva de lá. ― A outra voz refutou.

Ezza se levantou e avistou dois rapazes comuns caminhando na direção da carroça, ao vê-la os dois se calaram e já iam se afastando.

― Ei! O que é essa coisa de Pentatlo? ― Ezza perguntou os forçando a mudar o trajeto.

― Está brincando comigo? ― O mais alto se aproximou incrédulo. ― É simplesmente a grande atração dos Jogos de Téch, até a família real vai pessoalmente assistir!

― Mas se você tiver o estômago fraco nem recomendo, ano passado um cara arrancou os olhos do outro, as garotas geralmente são mais frágeis e acabam vomitando. ― O outro aconselhava, mas Ezza apenas lhe deu um olhar entediado.

― Como faço para participar disso? ― Ezza saltou da carroça, ficando de pé frente aos dois.

Os dois passaram os olhos pelo corpo de Ezza, era magra e alta, sem músculo algum e apesar dos olhos de psicopata, ela continuava sendo mais fraca do que eles.

― Tem certeza disso? ― O mais alto estava preocupado. “Ela não vai durar nada, vai ser esmagada como uma barata”, pensou ele com pena.

― Se o problema for dinheiro saiba que tem vários jogos mais leves, não dá tanto dinheiro assim, mas… ― O outro tentava encontrar uma solução, todavia foi interrompido por Ezza.

― Eu realmente quero esse, apenas me digam como me inscrever! ― Ela estava firme sobre isso, Ezza não teria medo de algo desse tipo, mas talvez ela devesse ter repensado melhor.

― Tudo bem, venha conosco. ― Eles desistiram, só poderiam desejar uma morte menos dolorosa e um pós-morte tranquilo.

 

Vertó, Porto – Madrugada, 03:23

Os trabalhadores descarregavam os caixotes de vinho, estavam atrasados já que a abertura dos jogos Pentatlo seriam em poucas horas. O encarregado era um homem baixinho, tinha cabelos crespos arrepiados e estava sempre estressado. Já imaginava a bronca que receberia, eles haviam sido pegos por uma tempestade e estavam quase dez horas atrasados.

― RÁPIDO! ― Ele apressava os trabalhadores responsáveis por descarregar o navio.

Os homens desciam a rampa do depósito do navio um atrás do outro, eram dezenas deles e isso agilizava bastante, eram oito mil caixotes que precisavam ser levados para o templo de Téch antes das oito da manhã.

“Quem bebe vinho oito horas da manhã?”, o encarregado se perguntava exasperado.

― CHEFE! ― Um grito e um dos trabalhadores desceu a rampa tropeçando.

― O que foi agora? ― O encarregado nem precisou de respostas, olhou na direção da rampa e viu um homem estranho saindo do depósito. ― Mas o quê…?!

Era um homem esguio e musculoso, usava bermuda verde desbotada e uma regata manchada, nos pés chinelo de couro e tinha longos dreads presos em um coque, tinha a pele negra e olhos avermelhados pelo excesso de bebida.

― Ele bebeu um caixote sozinho! ― O trabalhador informou.

― O que esse idiota estava fazendo lá dentro? ― O encarregado estava ainda mais irritado, foi na direção do homem com os braços cruzados e olhos inquisidores. ― Idiota, quem é você seu imbecil? Por que estava ai dentro?

Assim que ele chegou ao local com luzes todos conseguiram vê-lo melhor, não parecia ser tão velho assim, era um rapaz desleixado e esquisito. No entanto, assim que eles viram o símbolo em seu bracelete, todos se calaram. O encarregado recuou na ponta dos pés e se escondeu atrás de uma pilha de caixotes.

― Ele é do Clã do Sol Nascente… ― Um deles murmurou atemorizado.

― Nossa, estou muito louco! ― Ele respirou fundo tentando voltar a si, estava muito tonto pelo vinho. ― Desculpa beber o vinho de vocês, fiquei entediado durante a viagem.

― Imagina, é um prazer. ― O encarregado refutou, ainda atrás da pilha.

― Agora eu tenho que ir, vocês sabem para que lado fica o templo? ― Perguntou aos trabalhadores que não conseguiam dizer nada, apenas balançaram a cabeça concordando ao mesmo tempo.

Depois de desenharem um mapa para o rapaz, ele partiu agradecendo e sorrindo animado. Só depois que ele desapareceu completamente que os trabalhadores conseguiram respirar, o encarregado precisou beber um pouco de água com açúcar.

― Eu vi a morte, eu sobrevivi a morte… ― Ele murmurava ainda muito abalado.

 

Vertó, Rua do Mercado – Manhã, 07:23

Mabuchi estava bem descansado e empolgado, dormiu em um quarto confortável e até conseguiu roupas novas. Chi Ah estava negociando na rua de cima, antes de irem para a abertura do Jogo Pentatlo, ele decidiu dar uma olhada na livraria por onde havia passado no dia anterior.

Seu dinheiro era pouco e só por isso não levou mais livros, estava tão animado com tanta informação nova que deixou o dono da livraria assustado com suas reações. No final comprou um volume da enciclopédia dos Elfos, um livro sobre a teoria da criação do universo e um guia sobre os Orasukiros.

― Que mundo injusto, ser pobre é muito injusto! ― Lamentava ele ao sair da loja apenas com três livros.

Andava pela calçada pensativo, não sabia como ou para onde seguiria a partir de agora. Mais a frente avistou uma garota pequena com muitas sacolas que pareciam pesadas, não pensou duas vezes, a alcançou e se ofereceu para ajudar.

― Obrigada. ― Ela agradeceu timidamente.

Mabuchi lhe sorriu amigavelmente, ela tinha um jeito meigo que o deixava confortável. “Depois de passar um tempo ao lado de Ezza, me desacostumei com garotas normais”, pensou ele e depois se estranhou, “Não sei porque comparo tudo a ela, sai da minha cabeça!”.

― … eu vou para lá! ― Ela terminava de dizer algo, mas Mabuchi não havia escutado.

― Desculpa, o que você disse?

Ela lhe olhou um pouco tristonha, tinha olhos roxos brilhantes, era hipnotizante.

― Você deve estar ocupado né? Sinto muito por isso. ― Ela encarou o chão, parecia constrangida.

― Não! Eu estou bem, só um pouco distraído. ― Se desculpou, a rua estava movimentada e a garota estava do lado de fora da calçada.

Mabuchi segurou seu braço frágil e a colocou na parte de dentro, assim ela não seria empurrada pelos pedestres apressados. Ela lhe deu um sorriso grato e gentil, tinha os lábios pequenos e rosados, Mabuchi corou ao perceber que estava encarando-os. “Ela é tão fofa”, pensava consigo. Mesmo com vergonha, o Professor não conseguia evitar de admirá-la, os cabelos lilás presos em um coque com fios lhe caindo pelo rosto. O vestido azul que lhe caia tão bem, sua pele perfeita e pálida, suas mãos ternas e pequenas.

― Obrigada mais uma vez. ― Ela agradeceu acordando Mabuchi do devaneio.

Eles haviam chegado ao local, era uma pensão luxuosa. “Então ela é rica”, concluiu ele.

― Disponha, aproveite os jogos. ― Mabuchi ia saindo, mas ela se aproximou ficando nas pontas dos pés e o beijou no rosto.

Seus lábios mornos provocou um arrepio pelo corpo de Mabuchi, quando ela se afastou ele sentiu o chão se movendo pelo choque, foi inesperado.

― Espero que nos encontremos novamente. ― Ela lhe sorriu e pegando as sacolas entrou na pensão.

Mabuchi ficou paralisado por um tempo, ainda estava lá mesmo após cinco minutos, o cheiro de rosas ficou grudado em sua camisa. “Nunca mais eu vou lavar”, pensou ele se afastando com um sorriso enorme de felicidade.

De dentro da pensão, a garota o observava se afastar com olhos atentos.

― O que você fez com aquele rapaz? ― Um homem alto de terno se aproximou pegando as sacolas da garota.

― Não fale assim, no final eu também sou uma garota. ― Ela refutou fingindo estar ofendida.

― Todos sabem como você é, Marshmallow! ― Ele lhe deu um olhar sábio e ela riu.

“Mas ele era mesmo interessante…”, pensou ela acariciando os lábios com as pontas dos dedos.

 

Vertó, Arredores do Templo – Manhã, 08:00

Enfim havia chegado o grande momento, os guerreiros se aqueciam e realizavam os últimos preparativos para o início do jogo Pentatlo. Ao redor do templo existiam centenas de tendas com todo tipo de comércio e jogos, milhares de pessoas circulavam por ali e agora todas tentavam chegar o mais rápido possível no templo, onde o jogo seria transmitido.

Aura estava tão tensa que nem conseguia aproveitar a variedade de coisas ao seu redor. O campo era coberto por uma relva esverdeada e estava um belo dia ensolarado, as pessoas se divertiam e ao mesmo tempo se apressavam para assistir a abertura do jogo Pentatlo.

― Ezza, por favor não faça isso! ― Aura continuava insistindo, mas não adiantava.

Ezza estava preparada, usava uma jaqueta marrom de couro grosso que lhe cabia perfeitamente, também havia comprado cotoveleiras e joelheiras para se prevenir, já que seus ossos estavam fracos qualquer queda poderia ser fatal, estava muito bem medicada e também havia conseguido uma adaga afiadíssima, que escondeu na bota.

― Vou ganhar cinquenta gralhões apenas por jogar, se eu morrer pague minha dívida com Chi Ah. ― Ezza pediu, continuava andando na direção do templo sem vacilar.

― Se você morrer vai ser por idiotice, vai fazer isso tudo por dinheiro? Você viu aqueles caras que vão competir? Eles vão te esmagar, depois te cortar em pedacinhos e…

― Tá bom Aura, eu já entendi!

Ezza sabia que poderia morrer, e isso a deixava excitada. Precisava de dinheiro, mas precisava ainda mais se sentir viva. “Antes que eu me vá, levarei alguns comigo”, pensava sadicamente com um sorriso de satisfação se formando no canto de seus lábios.

 

Vertó, Templo da Deusa Téch – Manhã, 08:00

O templo construído há milhares de anos para adorar a Deusa Téch, era o maior e mais poderoso local de Vertó. Com capacidade para acolher dez mil pessoas, o templo era todo feito de mármore vermelho e em formato circular, por dentro o piso assentado com cerâmicas azuladas e também havia estátuas em homenagem a deusa, todas eram feitas embutidas nas paredes e decoradas com preciosidades do mar.

A altura do templo chegava há quase três mil metros de altura, até mesmo um gigante poderia entrar ali e andar confortavelmente de um lado para o outro. Ao entrar no templo, primeiro se passava pelo salão onde a gigantesca e principal estátua de dez metros da deusa ficava, era uma mulher de coque e vestida com uma túnica, ela lia um livro. A Deusa Téch é conhecida pelos truques e artimanhas, e sua frase de inspiração: “Antes leia um livro, assim sua espada não terá o peso da ignorância”.

Depois de passar pelo salão eles entravam no enorme auditório, com arquibancadas elevadas em formato circular, dois espaçosos e confortáveis camarotes com vista privilegiada do gigantesco telão concha a frente, no centro do local existia um pequeno palco circular com um mosaico no formato da Deusa Téch.

Mabuchi estava tão impressionado que não conseguia fechar a boca, em meio aquelas milhares de pessoas ele era só mais um deslumbrado. Conseguiu um lugar na décima sétima arquibancada, existiam cinquenta e três andares de arquibancadas de gesso.

― Olha só aquilo! ― Mabuchi apontava para o telão concha. ― Eu poderia ver um gigante em tamanho real nessa coisa, o que diabos é isso? Deuses! Eu acho que vou ter um ataque, que lugar fantástico!

― Acalme-se garoto! ― Chi Ah ria da reação do Professor, ele era como uma criança que ingeriu muita açúcar.

Era impossível se acalmar, quando o telão ligou e um homem baixinho de terno apareceu, Mabuchi saltou da arquibancada assustado.

― Senhoras e Senhores, vamos dar início ao Jogo Pentatlo! ― Ele avisou e a multidão urrou loucamente.

― PENTATLO! PENTATLO! PENTATLO! ― Eles gritavam selvagemente.

Mabuchi sentia a energia contagiante lhe tomar, então se levantou e começou a gritar loucamente junto com o restante.

― E agora vamos dar uma olhadinha nos nossos jogadores! ― O homem desapareceu e uma transmissão ao vivo dos arredores do templo começou.

Guerreiros com armaduras de placas andando de forma rígida, trolls afiando seus machados e reptilianos testando pistolas de choque. Tinha os fortes, mas também existiam os fracos corajosos que se aqueciam ou acabavam de vestir suas cotas de malha.

Mabuchi assistia empolgado e curioso, então viu Ezza lá no meio deles, ela estava com a mesma expressão engessada de sempre e tomava um suco com canudinho, o Professor abriu a boca e fechou duas vezes.

― Deuses, aquela não é Ezza? ― Mostrou e Chi Ah a percebeu pela primeira vez.

― Verdade, olha só, que corajosa! ― Chi Ah elogiou.

― Corajosa nada! Ela vai é morrer! ― Mabuchi esfregou o rosto aflito.

“O que aquela louca vai fazer?”, se perguntou mordiscando o lábio inferior.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



Fontes
Cores