LOVCI – Capítulo 12 – Chegada em Vertó



Vertó, Mar de Haiarys – Tarde, 16:34

O porto estava repleto de navios de guerra e guerreiros vestidos pomposamente, assim como Chi Ah comentou, havia todo tipo de raça presente. Os olhos estrangeiros do trio não conseguiam evitar encarar, a mixagem de povos era algo estranho, mas ao mesmo tempo impressionante.

Elfos gêmeos vestidos em uma armadura prateada reluzente, passaram por eles sem se quer olhar por cima dos ombros, tinham cabelos loiros sedosos e pele leitosa, possuíam uma beleza celestial que fazia Aura parecer perto deles uma simples mortal.

Você não é do clã deles? Questionou Ezza ante a frieza dos elfos para com Chi Ah.

Alguns deles são assim mesmo. Chi Ah não parecia magoado com isso, mas demorou seu olhar nos dois jovens elfos que se afastavam.

Olha só aquela mulher! ― Mabuchi comentou apontando para uma mulher de cabelos azulados que pareciam ter vida própria, eram como tentáculos.

Para de apontar, tá querendo arranjar briga?! ― Moh advertiu amedrontado.

Então é aqui que nos separamos. ― Ezza se virou para Chi Ah. ― Obrigada pela carona, assim que eu consegui o dinheiro, virei deixar no veleiro!

Faça isso, Moh e Rich ficarão aqui para vigiar o navio, então você pode vir quando quiser durante os jogos. ― O pescador apontava para os dois, desanimados, ajudantes.

Rich e Moh não estavam contentes em ficar com a parte de vigilância, não poderiam aproveitar os jogos.

Obrigada por tudo! ― Aura agradeceu aos pescadores com um sorriso amigável.

Como assim separar? Você por acaso conhece Vertó? O mais sensato é continuarmos com ele, não é mesmo Aura? ― Mabuchi procurava a aprovação da médica que apenas se calou, não ficaria entre os dois novamente.

Você faça o que quiser, não estou te convidando a vir comigo. ― Ezza disparou ríspida.

Caralho, essa doeu até em mim! ― Moh comentou soltando uma risada sem graça diante do clima pesado que caiu sobre o grupo.

Você está certa, nunca me convidou em momento algum para te acompanhar, então acho melhor eu seguir meu caminho. ― Mabuchi tinha uma voz magoada, mesmo acostumado com a grosseria de Ezza, essa ofensa foi a mais dura de se escutar.

Não é melhor resolvermos isso com calma? ― Aura entrou no meio, não queria que o trio se separasse.

Estou indo. ― Ezza ignorou e seguiu pelo caminho que todos os outros do porto seguiam, deduziu ser o caminho para o centro da cidade.

Aura olhava angustiada para a garota que se afastava cada vez mais, não conseguia tomar uma decisão.

Siga com ela Aura, Ezza está doente e precisa de você, não se preocupe comigo. ― Mabuchi usou toda sua maturidade para se resolver, não insistiria em algo tão bobo.

Sinto muito. ― A médica se desculpou e depois correu para alcançar Ezza.

Chi Ah observou a cena sem reação, o clima entre Mabuchi e Ezza estava estranho desde a fronteira dos mares, foi uma viagem de olhares e palavras insultantes.

Estou indo para casa de um amigo, os jogos principais só vão começar amanhã, você pode passar a noite lá! ― O pescador ofereceu já que Mabuchi parecia perdido sobre que atitude tomar.

Agradeço e peço desculpas por incomodar tanto. ― Mabuchi estava visivelmente triste, seus olhos vagavam melancolicamente pelo porto.

Eu sei como as mulheres podem ser cruéis, vocês só precisam de um tempo. ― O pescador consolou, mas Mabuchi continuou desanimado. ― Então vamos, vocês dois cuidem de tudo e não sejam roubados!

Sim senhor! ― Moh acatou.

Traga lembrancinhas! ― Rich pediu ao chefe, no entanto ele apenas o ignorou enquanto se afastava. ― Olha só isso… grosseirão!

 

Vertó, Taverna Olho Mole – Tarde, 16:40

A taverna Olho Mole é a mais famosa de Vertó, show ao vivo e bebidas de todas as partes do mar. A única que possuía assentos para todos os tipos de povos, os Trolls por exemplo, tinham uma mesa especial onde poderiam se mover sem quebrar nada, pois eram criaturas troncudas e espaçosas.

Os elfos gêmeos os observavam com nojo, os trolls possuíam um cheiro forte por causa da pele úmida, era algo natural da biologia deles e não incomodava quem estava ao redor, mas os elfos torciam o nariz com repugnância.

Se eu soubesse que coisas nojentas como essas estariam aqui… ― Ele fez uma expressão de enjoo. ― Arg! Que nojo, quero vomitar!

O elfo que falava era o irmão mais velho, nasceu dois minutos antes do irmão, Nael Daskavan.

Aquela pirralha imunda nos fez vir até aqui, é melhor que ela apareça logo! ― O irmão mais novo comentou bebericando cuidadosamente seu chá, era Corin Daskavan.

Os gêmeos chamavam atenção pelas vestes e suas maneiras delicadas, o dono da taverna, Hibrigis, atendia no balcão e revirava os olhos sempre que eles abriam a boca.

Olha só para esses dois, parece duas senhoritas, só faltou cruzar as pernas! ― Resmungou ele para o homem sentado no canto.

O homem riu, tinha cabelos e olhos escuros, um cavanhaque bem desenhado no rosto, usava calça de couro e uma camisa vermelha desbotada. Ao lado do homem estava uma mulher silenciosa, usava um kimono branco sem estampa e os cabelos negros presos em um coque, seu rosto era gracioso e pálido, ela fumava um cigarro e encarava o nada entediada.

Os elfos são os mais civilizados de todas as raças, deve ser natural deles. ― O homem comentou de volta, observava os elfos com seus olhos inquisidores. ― Mas se eles continuarem falando coisas tão descuidadas assim…

Entrou na taverna ofegando e tropeçando nos próprios pés, a garota de longos cabelos carmesim e olhos azulados, usava uma armadura de couro claro com detalhes esverdeados no tronco e ombros, tinha orelhas pontiagudas saindo de dentro dos seus cabelos.

Lá está ela! ― Corin indicou ao seu irmão.

Hump! ― Bufou Nael com indiferença. ― Então ela veio mesmo, pensei que fosse acovardar!

Cerina procurou pelos gêmeos pela taverna e ficou aliviada ao vê-los no balcão. A elfa estava tão apressada que passou por uma mesa e acabou derrubando, sem intenção, uma garrafa com seu florete, prendido na lateral do seu quadril.

Me desculpe, eu… ― Ela pegou a garrafa e ao erguer o olhar ficou paralisada.

O grupo de cinco trolls encarava a pequena garota que bateu queixo sem saber o que dizer, ela recuou alguns passos, o troll mais próximo dela se levantou para confrontá-la.

Isso não vai acabar bem. ― A mulher de kimono comentou, ela e todos da taverna observavam a situação, apreensivos.

O troll agarrou Cerina com sua mão bruta, a segurava pela cabeça e a ergueu no ar com a intenção de esmagá-la no chão. A pequena elfa se debatia no ar em vão tentando se soltar, sons abafados dos seus gritos eram escutados. Não adiantaria de nada, tinha o corpo muito leve e fraco, o troll deveria ter mais do dobro do seu tamanho e parecia bastante irritado.

Sua rata nojenta! ― O troll rosnou.

Esmaga ela, acaba com essa aberração! ― Um dos trolls do grupo incentivou.

Os gêmeos elfos observavam tudo como meros espectadores, continuavam a bebericar o chá com tranquilidade.

Vocês não vão ajudá-la? Ela é uma elfa como vocês! ― Hibrigis questionou os guerreiros.

Ela é uma desertora! ― Corin afirmou, não tinha empatia qualquer em seus olhos.

Se ela morrer será vantagem para o nosso clã, não precisamos de desertores andando por aí sujando o nosso nome. ― Nael voltou a bebericar seu chá.

Hibrigis estava repugnado, não queria ver algo tão macabro acontecer na sua taverna. Procurou pelo conchafone, mas assim que ia discar o número sentiu uma mão pará-lo.

Eu resolvo isso, não vamos incomodar a guarda real. ― O homem de cavanhaque o assegurou, se levantou e caminhou até o centro da confusão.

Hibrigis sentiu medo do que poderia acontecer, os trolls possuíam quase o dobro do tamanho do homem e ele não carregava arma alguma. A mulher de kimono observava com tranquilidade, havia acendido outro cigarro.

Ei! ― Ele chamou a atenção do troll. ― Deixe a menina, ela pediu desculpas!

HUUMM? ― O troll encarou a figura comum a sua frente. ― E quem é você? Conhece ela?

Não, mas não vou deixar que machuque uma criança na minha frente. ― O homem não estava intimidado pelo porte físico do troll.

Ao redor se ouvia cochichos temerosos:

Esse cara é louco!

Sai daí!

Tomara que acabe esmagado, gentinha aparecida!

Vou embora daqui, não quero ser expulso do reino por causa deles!

O troll jogou a elfa no chão, o pequeno corpo da garota se debateu e ela tossiu tomando ar. O homem a observou verificando se havia algum ferimento, ela parecia bem apesar do susto.

Se quer bancar o cavalheiro, então pague pela sua tolice! ― O troll fechou o punho e o empurrou na direção do homem, o mesmo ficou imóvel. ― DESAPAREÇA DAQUI!

O soco causou um atrito tremendo que ocasionou em uma explosão de luz, os presentes precisaram estreitar os olhos, o flash era muito forte e cessou com forte impacto que tremeu o chão da taverna. Uma estranha e não natural onda trêmula atingiu todos os corpos físicos, causando até mesmo arrepios em quem tinha pelos pelo corpo.

O-O quê….?! ― Cerina gaguejou ainda caída no chão.

Quem é aquele cara? ― Corin estava boquiaberto.

Tão aparecido. ― A mulher do kimono bufou e revirou os olhos.

Em seguida o troll estava caído no chão e o homem continuava de pé, não havia se movido nem um milímetro sequer. Os outros trolls não conseguiram reagir, nenhum dos presentes conseguiam dizer palavra alguma, o homem então voltou ao seu lugar silenciosamente.

Ele não morreu, mas se me desafiarem novamente, não sei se continuarei bondoso. ― O homem disse aos trolls e eles se apressaram em dar o fora dali.

O silêncio reinou por um longo tempo envolvido em perguntas internas: quem seria aquele homem e o que foi aquela explosão?

 

Vertó, Salão do Palácio Real – Tarde, 16:45

Ao ouvir o nome de quem estava no salão real, o Rei Odiges Queixo se apressou pelos corredores do palácio, seu coração estava acelerado e seu estômago se revirava. “O que ela está fazendo aqui?”, se perguntava aflito. Assim que as enormes portas do salão se abriram, ele a avistou parada diante do trono.

A garota pequena de cabelos lilás cacheados, tinha olhos roxos brilhantes e usava roupas meigas. Tinha aquela aparência angelical e infantil, mas ele sabia que ela era o próprio demônio e por isso ficou paralisado ali mesmo.

Vossa Alteza Odiges. ― Ela cumprimentou com uma reverência.

Marshmallow. ― Ele a olhava com temor óbvio.

Vim prestar os cumprimentos do Mister, estarei assistindo os jogos como representante do meu clã. ― A garota olhava ao redor curiosa, o salão real era muito simples se comparado ao templo do seu mestre.

O Rei Odiges engoliu seco, ficou parado na entrada com seus servos atrás com a mesma expressão de terror, todos conheciam as histórias sobre Marshmallow do clã do Mister.

Me sinto insultada, pode entrar e conversar comigo formalmente? ― Ela indicou o trono, seus olhos continham uma ameaça delineada.

O Rei se virou para seus servos e os dispensou, os mesmos saíram dali com todo prazer e vontade do mundo, fecharam as portas do salão e deixaram o Rei a sós com a garota. Ao passar por ela sentiu um frio na espinha, se sentou no trono, estava tão pálido que parecia ser feito de papel.

Muito bem. ― Ela aprovou a obediência do Rei.

Você… Não cause confusão, peço por favor que se comporte! ― O Rei temia pela segurança dos jogos, era algo muito importante para o reino e qualquer confusão arruinaria tudo.

Prometo me comportar. ― Ela sorriu e ele conseguiu ver a perversidade desenhada em seus olhos.

Algo ruim está prestes a acontecer, mas como eu devo lidar com isso?”, o Rei se sentia encurralado, via a tragédia caminhando em sua direção, mas não conseguia reagir.

 

Vertó, Ruas do Centro – Tarde, 17:03

Mabuchi seguia Chi Ah por entre a multidão, as tendas haviam sido montadas no campo acima da cidade, mas havia muita movimentação pelas ruas do centro. Quando olhava para o horizonte na direção do campo, Mabuchi conseguia ver algumas tendas e muito barulho, estava ansioso para poder conhecer e descobrir coisas novas.

Um movimento estranho começou, as ruas tão movimentadas e abarrotadas de pessoas, de repente abriu um caminho. Mabuchi não entendeu o comportamento das pessoas, ficou parado no meio da rua até ser puxado bruscamente por Chi Ah.

O que foi? ― O Professor estava confuso.

Shiii! ― Chi Ah aconselhou silêncio.

Um grupo de encapuzados passava, eram cinco deles vestidos com armaduras de couro negro e capuzes escondendo seus rostos, em seus braços haviam um símbolo tatuado, se assemelhava a um escudo negro.

São do Clã das Sombras, um dos clãs mais poderosos de Haiarys. ― Chi Ah cochichou com Mabuchi.

Mabuchi sentia a energia que eles emanavam, era algo que lhe arrepiava até a alma. “Mais assustador que olhar nos olhos de Ezza”, concluiu ele.

Depois que eles se foram o movimento voltou ao normal, os outros continuaram seus caminhos, mas Chi Ah ficou parado coçando o queixo pensativo.

O que foi Chi Ah? ― Mabuchi questionou o comportamento estranho do pescador, já que ele estava sempre otimista e sorrindo.

Hoje de manhã no porto eu vi o navio do Clã Ninja, agora vendo o Clã das Sombras eu posso dizer que algo não parece certo. ― Ele explicava, mas apenas confundia ainda mais Mabuchi.

O Professor já ia perguntar, mas Chi Ah explicou de forma que ele entendesse:

Se o Clã Ninja e o Clã das Sombras estão aqui, isso significa que algo ainda mais poderoso também está. ― O homem piscou atordoado, quando encarou Mabuchi com os olhos temerosos, o Professor ficou imediatamente preocupado. ― Eu me enganei, nesse momento Vertó deve ser o lugar mais perigoso de Haiarys!

Mabuchi não conseguiu reagir, mas de uma coisa ele tinha certeza: “Azarado, eu sou muito azarado!”.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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