LOVCI – Capítulo 09 – Fronteira dos Mares e a Despedida


Em Algum Lugar do Mar Negro – Manhã, 07:34

Cansados, grande parte do grupo dormia dentro da cabine. Apesar do espaço pequeno, eles acabaram se organizando e todos conseguiram um lugar para dormir.

Ezza estava no convés estreito, sozinha ela observava o mar pensativa. Já era manhã, mas continuava tudo escuro ao redor, a neblina atrapalhava a visão do horizonte.

O Professor saiu da cabine enrolado em um cobertor, caminhou até a garota e se sentou ao seu lado. Deitou a cabeça no parapeito e ficou ali com ela durante alguns minutos, os dois em silêncio. Em algum momento Ezza olhou para Mabuchi pensando que ele estava dormindo, assim que virou encontrou aqueles dois olhos negros a encarando.

Você realmente ia queimar aquela mulher? ― Ele perguntou com voz rouca, se enrolou um pouco mais no cobertor, estava frio.

Provavelmente. ― Ela afirmou ainda fitando o nada.

Ainda estou pensando naquele velho preso dentro da caixa. ― Mabuchi se referia ao velho mago, pensou bastante nele nas últimas horas.

Silêncio.

Para onde você vai? ― O Professor perguntou a garota.

Ainda não sei. ― Ezza estava obviamente incomodada com a aproximação de Mabuchi, e ele sentia isso, ela era como um animal arisco.

Mabuchi queria conhecê-la melhor e tentar quebrar o preconceito que tinha dela, mas percebeu que não conseguiria nada dessa forma, então resolveu apenas não se intrometer demais.

Durma um pouco! ― Mabuchi se levantou e jogou o cobertor em Ezza. ― Vai saber o que pode acontecer, agora estou esperando o inesperado!

Ezza pegou o cobertor e observou o Professor voltar para a cabine.

Alguns minutos depois, enrolada no cobertor, a garota se ajeitou no cantinho e fechou os olhos, com o barulho da água batendo no casco ela pegou no sono.

 

Algumas Horas Mais Tarde – Manhã, 10:34

É sério isso? 

Ezza acordou quando escutou a voz de Aura.

Estamos chegando! ― Saulo estava animado.

Ezza? ― Mabuchi a chamou, a garota se levantou atordoada, estava suada pois tinha ficado quente durante o tempo que ela passou dormindo, o céu começava a clarear.

Chegamos? ― Ezza perguntou olhando ao redor, a neblina também tinha desaparecido.

Gamborie viu a ilhota, estamos quase lá! ― Aura respondeu dando pulinhos de alegria.

Gamborie estava em cima da cabine observando tudo com um binóculo, conseguia ver a ilhota cercada por barcos, centenas de pessoas indo e vindo. Estava muito aliviado de ver pessoas, o local parecia até mesmo ter uma feira.

Mais quinze minutos, crianças! ― Ele avisou e escutou a empolgação dos jovens no convés.

Ezza lavou o rosto para despertar, se sentia bem melhor e mais leve.

Aura havia se trocado, usava agora um vestido amarelo e parecia ter dado um jeito nas feridas do seu corpo.

Mabuchi tinha voltado a sua serenidade, estava com um curativo na cabeça, mas parecia estar se curando bem.

Saulo ainda estava com suas roupas sujas e os cabelos arrepiados, mas bem animado e com sua espada ao lado.

Estou com tanta fome, infelizmente perdi minha mochila. ― Lamentou Mabuchi.

Pagarei para todos, vocês deixaram suas mochilas de lado e se esforçaram para salvar a minha, é minha forma de pagar por isso! ― Aura anunciou.

É melhor ter bastante, pois irei comer muito! ― Adiantou Saulo fazendo Aura rir.

Lá está! ― Gamborie avisou e todos foram para as extremidades para contemplar.

Passando pela praia eles avistaram alguns pescadores em seus barcos, outros saindo e outros chegando. A feira estava agitada, enquanto contornavam para encontrar algum lugar livre para colocar o barco, os tripulantes começaram a se preparar para desembarcar.

 

Mar Negro, Farol da Fronteira – Manhã, 10:55

Na feira o grupo parou em uma barraca onde serviam peixe dormidos por metade do preço dos frescos, estavam todos comendo o tanto que podiam. Aura, Ezza e Mabuchi comiam com classe, usavam os talheres e mastigavam devagar. Já Gamborie e Saulo comiam feito dois animais, mastigavam com a boca aberta para impedir de se queimarem, e mal engolindo uma parte já estava enfiando mais peixe na boca, com as mãos.

Isso “tá” tão bom! ― Saulo elogiou com a boca cheia.

Nojento… ― Ezza comentou observando a cena.

Tomem cuidado com os espinhos rapazes, vocês podem acabar engasgando! ― Aura aconselhou.

Mabuchi olhou ao redor curioso, as pessoas pareciam bem adaptadas aquele lugar. Se levantou quando terminou, Ezza viu ali sua chance de fuga e se levantou junto com o Professor.

Está indo dar uma volta? Vou com você! ― Ezza não esperou o rapaz responder, apenas seguiu para fora da barraca.

Voltaremos em breve. ― Avisou Mabuchi e seguiu Ezza.

Aura queria ir, mas quando decidiu eles já haviam desaparecido, foi obrigada a ficar e continuar assistindo a grosseria de Saulo e Gamborie.

 

Caminhando pela feira os dois olhavam curiosos para tudo e todos, era a primeira vez que viam pessoas de outros lugares. O céu ainda estava escuro, mas o local estava mais claro que na ilhota anterior.

Vamos para o porto, lá deveremos conseguir alguma informação. ― Mabuchi sugeriu e Ezza concordou.

No porto a correria e movimentação dos pescadores, fez com que os dois acabassem se separando por um tempo, quando Mabuchi reencontrou Ezza, depois de procurar por alguns minutos, ela estava perto de um barco conversando com um homem alto e bronzeado.

Ezza! ― Ele estava aliviado por encontrá-la, foi na direção dos dois. ― Onde esteve?

Conversando com esse cara, como é o seu nome mesmo? ― Perguntou ela ao homem sorridente.

Sou Chi Ah! ― Estendeu a mão grande e máscula para Mabuchi, o rapaz sentiu seus ossos estalando quando ele apertou.

Prazer. ― O Professor se sentiu intimidado.

Estava dizendo para sua amiga que posso dar uma carona para ela até o Reino Vertó, também falei sobre os jogos de apostas que estão acontecendo por lá! ― Ele explicou.

Decidi participar dos jogos, com o dinheiro que eu ganhar talvez possa comprar um barco, ou pelo menos pagar para chegar até meu destino. ― Ezza já estava decidida e isso deixou Mabuchi frustrado, ela havia decidido tudo sozinha.

Você gosta de jogos de aposta? ― Mabuchi franziu o cenho.

Esses jogos de apostas são diferentes, esse evento anual é muito famoso em Haiarys, o tradicional jogo dedicado a Deusa Téch, a Deusa da astúcia, artimanhas e truques. Lá você pode apostar nos jogadores ou pode ser um jogador, muito dinheiro é ganho, guerreiros de todas as partes de Haiarys vão para lá e lutam sem envolver as alianças! ― O pescador Chi Ah estava animado enquanto falava.

Que tipo de desafios tem esse jogo? ― Mabuchi perguntou, curioso como sempre.

Tem todos os tipos, dos mais simples que envolve raciocínio lógico, até os mais perigosos, que envolve lutas até a morte. ― Chi Ah respondeu e Mabuchi engoliu seco.

Você vai para um lugar assim, Ezza? ― O Professor estava preocupado com a garota.

Sim, partirei em uma hora. ― Ela então se virou para Chi Ah. ― Avisarei aos outros que estou partindo e voltarei!

Não se atrase! ― Avisou ele e voltou a cuidar das redes de pesca.

Mabuchi seguiu Ezza preocupado, mordiscava o lábio inferior e piscava sem parar. Não sabia porque estava agindo daquele jeito, Ezza provavelmente não iria fazer nada idiota, mas ela estava indo para um lugar daqueles depois de tudo que aconteceu.

O que foi? ― Ela perguntou ao notar o nervosismo do rapaz.

Ezza, tem certeza disso? Você não conhece nada daquele mar, vai conseguir se virar sozinha? ― Mabuchi foi sincero, até demais.

A minha vida inteira eu me virei sozinha, a partir de agora qualquer lugar para onde eu vá será desconhecido! ― Ezza estava confiante.

Mabuchi não entendia esse sentimento, estava inseguro e assim que viu Ezza entrar na barraca e avisar todos que estava indo embora, se sentiu vazio.

Também arranjamos uma carona para uma ilha do Sul, o dono da barraca vai para lá no fim do dia! ― Gamborie informou.

Me leve com você Ezza, por favor! ― Aura implorou chorosa.

Não quero ninguém atrás de mim, vá com os outros para o Sul. ― Ezza retorquiu indiferente.

Mas eu quero ficar com você! ― Aura insistiu. ― Você precisa de uma médica, precisa de mim!

Me deixa! ― Ezza ralhou.

Eu irei do mesmo jeito, pedirei ao moço do barco para me levar! ― Aura estava decidida.

Eu te jogo para fora do barco! ― Ezza ameaçou.

Eu irei! ― Aura cruzou os braços e a olhou incorruptível.

Saulo e Gamborie riam da situação, Mabuchi não sabia para onde iria. O sensato seria partir com os rapazes, seria isso que ele faria.

Estamos indo, obrigada por tudo! ― Aura disse ao se despedir dos rapazes.

Se cuide garotinha, não vá se machucar! ― Gamborie acenou do lado de fora da barraca.

Ezza apenas deu um “Tchau” seco e já ia na frente, do lado de fora da barraca os três observavam as duas partirem subindo pela rua da feira.

Treine sua habilidade e fique forte, um dia nos veremos novamente! ― Saulo se despediu acenando. ― Eu também serei um grande guerreiro!

Ezza olhou para trás e Aura ainda estava parada acenando de volta.

Anda logo! ― Apressou a garota, Aura a seguiu contente por tê-la convencido.

Mabuchi ficou ali olhando até que elas desaparecessem, Gamborie percebendo a tristeza do rapaz colocou a mão em seu ombro.

Você deveria ir com elas, acho que você se apegou com aquela garota estranha. ― Ele riu.

Não sei, ela está indo para outra confusão, não quero isso. ― Mabuchi não queria se arriscar desnecessariamente.

Essa vida não teria graça sem algumas confusões, mas você viu como ela é esperta, ficar com ela é mais seguro do que ficar com a gente! ― Gamborie estava se sentindo paternal aquela altura. ― Apenas vá, deixe o medo para depois!

Mabuchi respirou fundo tomando coragem e correu o mais rápido que conseguiu, deixando o velho soldado para trás com um sorriso melancólico.

Parece que agora somos só nós dois! ― Saulo apoiou a mão no ombro de Gamborie, estava animado. ― Ainda aguenta algumas aventuras?

O velho soldado sorriu e deu alguns tapinhas nas costas do jovem espadachim. Antes de entrar na barraca novamente, Gamborie olhou a rua da feira por cima dos ombros pensando:

O destino é algo realmente curioso…”.

 

Mar Negro, Porto – Manhã, 11:43

Os três chegaram ao porto, Mabuchi e Aura animados, Ezza começando a se arrepender por concordar em levá-los.

Então você trouxe alguns amigos? ― Chi Ah analisava Mabuchi e Aura.

Desculpe por isso, espero que não seja um incomodo. ― Ezza se sentia mal, pois disse que só seria ela.

Tudo bem, uma viagem animada é uma viagem com muitas pessoas! ― Chi Ah afirmou otimista.

O veleiro de Chi Ah era maior do que aquele que eles utilizaram para chegar a fronteira, tinha uma cabine espaçosa, uma galeria com dois quartos e um porão. Chi Ah cedeu um dos quartos para o trio, seria uma viagem de dias e ele tinha dois ajudantes, um baixinho musculoso chamado Rich e um alto, desnutrido chamado Moh.

Quando partiram, o trio ficou na proa observando o farol ficando para trás, todos pensando em Gamborie e Saulo.

Espero encontrar com eles novamente. ― Aura comentou tristonha. ― Sentirei falta do Saulo e o Sr. Gamborie…

Eu espero um pouco de tranquilidade, estou cansado! ― Mabuchi se escorou no parapeito.

Esse mar não é um lugar de tranquilidade, rapaz! ― Moh se aproximou, descascando uma maçã com um canivete. ― Ainda mais para vocês, pessoas sem aliados.

Por que precisaríamos de aliados? ― Ezza questionou, estava sentada no parapeito.

Para sobreviver. ― Foi Rich quem respondeu, ele se aproximou do trio. ― O mar de Haiarys é um lugar de conexões, os clãs mais poderosos protegem aqueles que se aliam a eles, se você não tem nenhuma conexão é um alvo fácil.

Vocês escolheram um péssimo momento para irem para Haiarys! ― Moh comentou e Rich concordou com a cabeça.

Por quê? ― Aura estava começando a ficar preocupada.

Uma guerra está prestes a começar, os clãs mais poderosos do mundo vão se enfrentar! ― Chi Ah respondeu entrando na conversa. ― Quem não escolher um lado certamente não sobreviverá.

O trio ficou sério, era algo muito desanimador de se escutar.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia


 


Fontes
Cores