LOVCI – Capítulo 08 – Fim dos Feiticeiros


Caixa Mágica, Labirinto – Manhã, 05:10

Mabuchi se sentia profundamente magoado, o gosto amargo de ser traído mesmo sabendo que isso poderia acontecer, era terrível. Ezza sempre foi indiferente com todos, ela não era uma boa pessoa e todos sentiam isso.

Eu confiei em você. ― Ele murmurou choroso.

Ezza revirou os olhos impaciente.

Seja rápido com isso, Mestre! ― Ezza apressou o velho.

Você vai pagar, trapaceiro! ― O bastão começou a se iluminar.

Mabuchi fechou os olhos, aceitaria seu destino, mas não queria assistir sua própria morte. Enquanto o velho estava concentrado, Ezza conseguiu se aproximar o suficiente, e com uma ação rápida ela chutou o bastão da mão do velho e o aparou.

O que você…?! ― O velho se assustou e mal conseguiu acompanhar a ação.

Ezza bateu a ponta do bastão no chão com força e toda a luz verde saiu de dentro quando o vidro se estilhaçou.

NÃOOOOO! ― O velho mago gritou desesperado.

Ezza foi em sua direção e o segurou pela gola da túnica, como era mais alta o levantou até que seus olhos se encontrassem.

Agora seu velho maluco, é melhor nos tirar daqui ou eu vou te moer na porrada! ― Ezza ameaçou furiosa.

Mabuchi olhou a situação pasmo, o bastão estava destruído e ele havia percebido só depois que tudo havia sido premeditado por Ezza.

Fala logo! ― Ela intimidava o mago.

E-Está bem, eu falo! ― Ele cedeu assustado.

Eu odeio mentir, e eu menti! Vocês são os feiticeiros mais toscos que já encontrei! ― Ezza disparou e o velho abriu a boca ofendido.

Mabuchi olhou Ezza envergonhado, no final ela acabou salvando os dois e ele disse coisas horríveis para ela. Esperava que ela fosse lhe tratar com rancor, mas Ezza não parecia nem mesmo tê-lo levado a sério, já que continuou agindo normalmente.

Por um momento eu havia me esquecido dessa coisa de direcionador de magia, todo feiticeiro necessita de um para canalizar a energia, eles não conseguem manter a magia no próprio corpo. Um bruxo é igual um arqueiro, de longe é mortal, mas a partir do momento que perdem espaço eles ficam vulneráveis. ― Ezza explicou, ainda segurando o velho pela gola da túnica.

O velho tirou do bolso um medalhão e entregou a Ezza, ela pegou e jogou o velho de lado para analisar melhor.

Para quê serve? ― Ela remexia no objeto.

O medalhão inibe a magia da caixa, recebendo a luz que sai dela nós seremos expulsos. ― Respondeu o velho, tentando se levantar do chão.

Nós não, você vai ficar! ― Ezza retorquiu e caminhou para perto de Mabuchi, o velho correu até ela desesperado.

Não! Você destruiu o meu bastão e vai levar o medalhão com você, como eu vou sair depois? ― Ele fez uma expressão de piedade.

Ezza, coitado dele. ― Mabuchi se sensibilizou.

Saia, ou terei que espancar um idoso? ― Ezza ameaçou com os dentes cerrados.

O velho recuou alguns passos até se encostar na última parede do corredor, Mabuchi se aproximou de Ezza e ela abriu o medalhão, uma luz azulada brilhou contra eles e tudo aconteceu de novo. Eles sumiram, passaram por dentro de um tornado e caíram em algum lugar.

 

Mar Negro, Farol – Manhã, 05:15

Morgana caminhava contente na direção da torre, os gritos de pânico do trio enjaulado, fazia com que ela se sentisse superior. Sentiu então algo escapar do seu vestido, a caixa mágica caiu no chão, quando se abaixou para pegar um clarão preencheu o lugar e ela se desequilibrou caindo para trás.

Ezza e Mabuchi caíram novamente, já feridos demais eles tiveram dificuldades para se levantar. Com gemidos eles se colocaram de pé, Morgana os olhou sem acreditar.

C-Como…? ― Ela não conseguia acreditar.

Ezza passou seus olhos pelo corpo de Morgana, precisava encontrar a varinha. Então saltou sobre a mulher, Mabuchi ficou assustado com a atitude da garota.

Onde está? ― Ezza começou a revistar o corpo de Morgana.

KYYYAA! TIREM ESSA TARADA DE CIMA DE MIM! ― Ela gritou tentando afastar Ezza do seu corpo.

Ezza rasgou a parte frontal do vestido e então enfiou a mão dentro do decote de Morgana, Mabuchi corou furiosamente perante aquilo e até virou o rosto.

E-Ezza o que você está fazendo? ― Questionou o rapaz, embaraçado com a situação.

Ezza não achou o que estava procurando então pegou os pedaços de pano rasgados do vestido de Morgana, amarrou as mãos e as pernas da feiticeira.

Onde está? ― Ezza perguntou ofegando.

Eu sabia que vocês tentariam roubá-la de mim, mas vocês nunca vão encontrá-la! ― Morgana sorriu vitoriosa.

O que você está procurando, Ezza? ― Mabuchi procurou no chão ao redor, pensou que ela houvesse perdido algo.

A varinha, é o direcionador dela. Não me diga que você a escondeu em outro plano? ― Ezza perguntou e respirou fundo tentando conter sua fúria.

EZZA! MABUCHI! ― Eles escutaram as vozes dos outros três os gritando.

Mabuchi estreitou os olhos para tentar ver no escuro e conseguiu compreender um pouco da situação.

Eles estão enjaulados? ― Tentou entender o porquê daquela situação.

Magia, precisamos quebrar a varinha, assim todo o feitiço que a feiticeira lançou com ela será quebrado. ― Ezza se abaixou na frente de Morgana. ― Tira logo a varinha de lá!

Não tiro! ― Ela encarou Ezza de volta, estava decidida.

Então você não me deixa escolha. ― Ezza se levantou e procurou algo no bolso do casaco, tirou um isqueiro. ― Vou ter que te queimar.

O QUÊ?! ― Morgana gritou tão alto que sua voz ecoou por toda ilhota.

Ezza…? ― Mabuchi fitou a garota preocupado, não duvidada da capacidade dela de realmente fazer aquilo.

Ezza parecia determinada, acendeu o isqueiro e começou a aproximar do vestido de Morgana, a feiticeira tentava fugir com um semblante de pavor.

Eu sempre quis ver alguém queimando, dizem que as feiticeiras explodem feito fogos de artifícios. ― Ezza comentou em tom ameaçador.

NÃO! KYYAA! SOCORRO! ― Morgana tentou fugir, mas Ezza a segurou pelos cabelos.

Vai tirar ou não? ― Ezza perguntou séria e determinada a seguir em frente.

VOU! EU TIRO! ― Ela se rendeu e Ezza se afastou guardando o isqueiro.

Então faz logo! ― Ordenou a garota impiedosa.

Mabuchi observou tudo paralisado, Ezza realmente sabia se virar sozinha. “Por que ela parece uma torturadora profissional?”, se perguntou. Estava abalado pelo comportamento de Ezza.

 

De longe os três enjaulados tentavam entender o que estava acontecendo, escutaram gritos de Morgana e logo em seguida tudo se acalmou. Estavam os três pendurados nas grades, as cobras lá embaixo tentavam subir a todo custo e pulavam com botes para picá-los.

De repente eles caíram, os três foram com tudo no chão.

BOUF!

Estavam os três espalhados no solo, lentamente eles foram voltando a se mover e recobrando a lucidez.

O que foi isso? ― Saulo se levantou com o rosto coberto de terra.

Desapareceu, a jaula e as sucuris! ― Aura constatou olhando ao redor.

Ai! Ai! ― Gamborie lamuriou. ― Não aguento mais isso, cai aqui e cai ali, eu sou um idoso, não um atleta de salto com vara!

Mabuchi se aproximou contente por encontrá-los, Ezza veio em seguida cambaleando, sentia todos os seus ferimentos doerem ao mesmo tempo.

Como vocês estão? ― Mabuchi perguntou feliz por encontrá-los outra vez, tudo que eles passaram juntos havia criando um laço de companheirismo.

Ezza! ― Aura correu até a garota que desabou de joelhos. ― O que aconteceu?

Ezza e eu apanhamos de um gnomo, depois ela ameaçou de queimar a feiticeira e aí ela quebrou a varinha. ― Mabuchi resumiu.

Ela vai ficar bem? ― Gamborie se preocupou com o estado de Ezza, ela parecia estar sofrendo.

Espero que sim, se não fosse por ela… Tipo, ela é muito estranha e assustadora, hoje eu vi ela ameaçar duas pessoas de morte. ― Mabuchi tentou encontrar as palavras certas para se expressar, mas ainda estava bastante impressionado.

Precisamos encontrar um barco, vamos dar o fora desse lugar antes que outra coisa surja! ― Gamborie marcou e seguiu uma direção, os dois rapazes foram juntos.

Aura ficou furiosa ao ver os pontos arrebentados de Ezza, enquanto tentava reverter a situação, Ezza a examinava com olhos oscilantes.

Você parece mal. ― Ezza comentou com a médica.

Eu nunca passei por nada disso antes, monstros gigantes de papel e cobras numa jaula. Isso é loucura! ― Aura parecia animada enquanto dizia isso, mesmo que fosse para ser uma reclamação.

Ezza suspirou pesadamente, não gostava dessa sensação de não poder fazer nada, precisar trapacear e usar de golpes baixos. “Você ficaria furioso comigo”, pensou se lembrando de um velho amigo.

 

Mar Negro, Torre – Manhã, 05:30

O grupo procurou por toda ilha e revirou cada canto da torre, mas não conseguiram encontrar nada. Após ser medicada e ter seus pontos restaurados, Ezza parecia melhor. Quando escutou sobre o que estava acontecendo, soube no mesmo momento o que estava errado.

Morgana ainda estava amarrada, emburrada ela apenas se virou para a parede e evitou olhar para o grupo. Ezza a virou para que ela pudesse vê-la, mas a feiticeira tentou desviar o olhar.

Onde está o barco? ― Perguntou com calma e paciência. ― Você está atrapalhando nossa partida, só fale logo onde está.

Me solte e eu vou revelá-lo! ― Pediu a feiticeira ainda emburrada, se sentia humilhada por ter perdido para pessoas fracas.

Ezza começou a desamarrar a feiticeira.

Tem certeza disso? ― Aura perguntou preocupada, ela poderia voltar a atacá-los.

Ela sabe que se tentar alguma coisa eu não vou perdoar, não é? ― Ezza ameaçou e a feiticeira apenas seguiu na direção da praia obediente.

Morgana parou em uma parte vazia da praia, não havia sinal de barco algum. Ela tirou algo do bolso e apontou para o nada, era um broche.

Revele-se! ― Ordenou e um barco surgiu.

Aura arregalou os olhos em surpresa, piscou rapidamente extasiada.

Muito bem. ― Ezza se aproximou da feiticeira e juntou os braços da mulher para trás, amarrando suas mãos. ― Agora você pode voltar para o seu cantinho.

Não! Espera! ― Ela reclamou, mas Ezza a levou de volta sem se importar com seus protestos.

O veleiro não era grande, mas possuía uma cabine e um convés espaçoso o suficiente para caber os cinco. Aura ficou ali esperando pelos outros, estava animada de enfim poder seguir viagem. Também estava triste, assim que chegassem ao mar azul de Haiarys todos seguiriam seu próprio caminho, a médica não sabia para onde iria e agora já havia se acostumado com o grupo.

Uau, é um veleiro! ― Escutou a voz de Saulo atrás de si.

Virou-se para vê-los caminhando em sua direção, todos empolgados e mesmo cansados, surrados, com fome, o grupo parecia determinado. Aura olhou para o seu próprio corpo, as feridas e a sujeira, nunca tinha experimentado isso. O gosto de entrar em um conflito onde todos precisavam pensar juntos, cada um dar o máximo de si, ela ainda se sentia fraca por ter usado sua habilidade, mas se sentia orgulhosa de si mesma e era aquela sensação que ela gostaria de sentir sempre.

Vamos empurrar o veleiro para o mar e dar o fora desse lugar! ― Gamborie tomou a frente e todos o seguiram.

Com dificuldade o grupo conseguiu levar o veleiro para a água, embarcando eles seguiram viagem. Gamborie ensinou aos leigos como deveriam manusear a vela, continuaram para o leste e logo chegariam a fronteira entre os mares.

Pescadores do mundo inteiro vão para lá, a fronteira entre os mares é o melhor lugar para a pescaria, lá vocês vão conseguir carona para onde quiserem ir. ― Gamborie informou com uma certa tristeza.

O silêncio dizia que todos estavam pensando sobre isso, estava enfim chegando o momento de dizer adeus…


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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