LOVCI – Capítulo 07 – O Guardião do Labirinto


Caixa Mágica, Labirinto – Madrugada, 04:20

Mais um maluco. ― Mabuchi suspirou desanimado.

Parece que quanto mais a gente anda, mais doido aparece. ― Ezza completou.

Por sorte dos dois, o velho tinha problema na audição e por isso não escutou os insultos. Apontou o bastão na direção de Ezza, era ela quem estava mais perto.

Eu não gostei de você menina, terá que pagar o preço por tentar trapacear! ― Sua voz era rouca e falha, revelando sua idade avançada.

E eu muito menos de você! ― Ela refutou.

A garota conseguiu sair da frente antes que um raio verde lhe acertasse, pulou de bruços no chão e sentiu o impacto nos seios.

Ai! ― Reclamou da dor.

Vamos conversar, não precisa nos matar. ― Mabuchi levantou as duas mãos e falou manso para tentar acalmar o velho. ― Não iremos trapacear, prometemos!

Deixarei vocês vivos se aceitarem meu desafio, eu o chamo de… ― Ele fez uma pausa dramática. ― “O Desafio Supremo”.

Mabuchi o olhou impaciente, “Esse velho é mesmo louco, nesse ritmo vamos morrer aqui mesmo”.

― Se a gente ganhar… ― Ezza se levantou o desafiando. ― Você nos tira desse labirinto?

Ninguém nunca ganhou “O Desafio Supremo”! ― Ele rebateu orgulhoso.

Se você ganhar nós aceitaremos a morte, mas se nós ganharmos você vai nos tirar desse lugar, combinado? ― Ezza sugeriu de forma sorrateira.

O velho pensou um pouco, enquanto desenhava um círculo no chão com o pé. Mabuchi olhou para Ezza em pânico, o que ela estava fazendo?

Eu aceito! ― O velho mago concordou. ― E agora o desafio!

Os dois se preparam ficando de pé frente ao velho. Estavam doloridos e com novos ferimentos, tinha sido uma queda perigosa, mas no geral eles estavam bem.

APAREÇA! ― O velho ordenou e o silêncio se abateu sobre o lugar.

Alguns segundos depois uma sombra surgiu na parede, era gigantesca e fez Mabuchi recuar alguns passos imaginando algo terrivelmente grande, no entanto apareceu um gnomo de pouco menos de um metro.

É isso? ― Mabuchi estava incrédulo.

A pequena criatura possuía uma cor avermelhada e usava um gorro azul, seus membros eram pequenos e os olhos dele brilhavam como o de um cão dócil.

Se vocês conseguirem capturar o gnomo Juju em menos de meia hora, eu realizarei o desejo de vocês. ― O velho se sentou no meio do corredor e colocou uma ampulheta ao seu lado.

Mabuchi foi em cima da pequena criatura com os braços abertos, o Juju não se moveu até que ele estivesse bem perto. Assim que o Professor ficou próximo o suficiente, ele fechou seu pequeno punho e atingiu o rosto de Mabuchi sem nem mesmo fazer algum esforço.

O Professor voo para o lado com uma velocidade fora do comum, quando atingiu o muro o local se despedaçou e ele já caiu desmaiado. Ezza olhou a cena com as sobrancelhas erguidas em surpresa.

Eita”, foi tudo que ela conseguiu expressar.

 

Mar Negro, Torre – Madrugada, 04:21

Morgana sentiu algo gelado e afiado sobre sua pele, pensava que estava sonhando. Deitada sobre sua majestosa cama, a feiticeira apenas relaxava tentando se recuperar do desgaste que a magia lhe causou, sentiu algo caminhar sobre seu corpo. Abriu os olhos e a coruja a encarava.

Uuu Uhu! ― Crocitou.

KYYYAAA! ― Ela gritou e bateu a mão na criatura a jogando no chão. ― FÉLIX, MALDITO!

Depois de se recuperar do susto a feiticeira escutou o que a coruja tinha para lhe dizer, trocou-se o mais rápido possível e desceu antes que algo mais saísse do seu controle. Ao ouvir que todos os origamis foram derrotados, Morgana ficou possessa de raiva.

Ela avistou o grupo há alguns metros de distância da torre, os três tentando passar pela área sem serem vistos. Morgana apontou sua varinha e mirou no trio.

Peço ajuda aos espíritos, não tenho energia o suficiente, peço que me ajudem e em troca os recompensarei. ― Rogou ela e depois disparou o raio vermelho.

Gamborie carregava Aura em suas costas, a garota ainda dormia, Saulo carregava a mochila da médica. O trio tentava não fazer nenhum barulho, todavia Morgana acabou os encontrando com sua incrível visão noturna.

O raio veio na direção do grupo e quando eles perceberam tentaram desviar, no entanto o raio não acertou nenhum deles, apenas subiu assim que chegou perto. Dividindo-se em várias linhas vermelhas, o raio desenhou no ar, ao redor do trio, uma jaula e assim que o raio se apagou a matéria de luz se tornou sólida.

O que é isso? ― Saulo olhou ao redor, encostou na jaula e sentiu o ferro gélido. ― Uma jaula?

Ela nos pegou. ― Gamborie murmurou olhando ao redor, colocou Aura no chão e chutou com força a grade. ― É ferro!

YAAAHHH! ― Saulo atacou a grade com sua espada, mas a arma escapou de suas mãos e voo para o outro lado da jaula.

Não adianta, fomos pegos! ― Gamborie aceitou sua condição, não sabia o que faria a partir disso.

Não acredito nisso, estávamos tão perto! Essa garota não vai acordar? ― Saulo se abaixou ao lado de Aura, segurou os dois ombros da médica e a sacudiu. ― ACORDA! RÁPIDO!

Não incomode ela! ― Gamborie ralhou e chutou o rapaz o jogando para o lado. ― Ela fez muito por nós, que tipo de guerreiro você pretende ser se depende de uma garota para sobreviver?

Nesse momento eu dependo não só dessa garota, mas da outra também! O que eu posso fazer? Me diga?! ― Saulo estava irritado em ter que admitir sua fraqueza.

Um homem só deve parar de lutar quando seu coração parar de bater! ― Gamborie disparou convicto.

― “Um homem isso”, “Um homem aquilo”, me poupem dessa ladainha! ― Morgana surgiu próxima a jaula fazendo os dois ficarem em alerta. ― Vocês carregam essas espadas por aí, estufam o peito e bradam que são guerreiros, no final acabam assim, derrotados! Eu sinto pena de pessoas como vocês, já vi tantos bradando que conquistariam Haiarys. Ahahahaha! Hilários!

Como ousa? ― Saulo rosnou. ― E quem você pensa que é? Usando essa magia ridícula, não sabe nem fazer um origami direito!

Pelo menos sei me defender, vocês dois só estão vivos até agora porque se aproveitaram de uma garotinha, olha só para ela… ― Morgana olhou com falsa piedade para Aura deitada no chão. ― Tão frágil e tendo que carregar dois marmanjos nas costas!

AHHHH SUA MALDITA! ― Saulo foi na direção de Morgana, que estava do lado de fora da jaula, e tentou agarrá-la enfiando seus braços para o lado de fora e os debatendo.

SAULO! ― Gamborie advertiu com voz firme e o rapaz parou. ― Ela está fazendo isso de propósito, não caia nisso! Você por acaso é uma criança?!

O rapaz ficou calado, olhou para o lado irritadiço. Morgana ria da situação, seu maior prazer era provocar suas presas.

O que eu deveria fazer com vocês? ― Morgana caminhava ao redor da jaula. ― Vocês destruíram meus monstros, quero vê-los sofrendo.

Segurou sua varinha pensativa, enquanto isso Gamborie se aproximou de Saulo e lhe explicou o que eles deveriam fazer por enquanto.

Esperar por ela? ― Saulo perguntou confuso, se referia a Ezza.

Ela deve saber como parar essa mulher, precisamos ficar vivos até que ela apareça novamente. ― Gamborie constatou.

Como pode ter tanta certeza assim que ela vai voltar? Eles podem estar mortos agora. ― Saulo estava pessimista, depois de tudo que aconteceu, só queria chutar o balde de vez.

Você não viu como ela lutou na muralha? Tenho certeza que ela sabe de algumas coisas, mesmo sendo fraca ela ficará bem e voltará, nesse momento precisamos acreditar nisso. ― Gamborie tentou passar essa confiança ao jovem espadachim, sem escolha Saulo apenas concordou com a cabeça.

O que vocês dois estão cochichando aí? ― Morgana se aproximou da jaula e Saulo retorceu o rosto em pavor.

Como uma mulher pode ter um rosto tão feio assim? ― Ele provocou e a feiticeira chiou raivosa, ao perceber que ela estava caindo ele continuou. ― Só de olhar para o seu rosto já me sinto torturado!

Nos meus sessenta e seis anos de vida, nunca vi uma mulher tão estranha. ― Gamborie completou, entrando na onda de Saulo.

SEUS…! ― Ela apontou a varinha para dentro da jaula. ― Venham até mim, SUCURIS!

As cobras apareceram em dezenas no chão e começaram a se espalhar pela jaula rapidamente. Saulo pegou Aura nos braços tentando afastá-la das serpentes, Gamborie subiu na grade antes de levar o bote de uma delas. Morgana os fitou ácida e dilatou o nariz fino, colérica.

Vocês não valem nem meu tempo, voltarei mais tarde para descartar seus corpos! ― Dizendo isso ela deu meia-volta e caminhou na direção da torre.

Aura acordou e percebeu que Saulo a segurava em seus braços, ela não entendeu direito, mas assim que avistou a cobra rastejar em sua direção, saltou na grade e grudou feito uma lagartixa.

O-O que está acontecendo? ― Aura estava eriçada como um gato.

Até que enfim você acordou! ― Saulo sentiu um alívio lhe preencher.

 

Caixa Mágica, Labirinto – Madrugada, 04:30

Ezza corria atrás do pequeno gnomo, sempre que sentia que estava encostando nele, ele escapava. Quando a criatura tentava atacá-la com socos poderosos, Ezza escapava como conseguia.

Já se foram cinco minutos! ― O velho informou, ainda sentado tranquilamente no meio do corredor.

Ezza se distraiu por um segundo olhando a ampulheta, quando voltou seu olhar para a criatura ela estava bem a sua frente, o punho acertou em cheio no estômago da garota que caiu no chão rolando até ser parada por uma das paredes.

Cof! Cof! Cof! ― Ezza tossiu sentindo falta de ar e uma sensação ácida no estômago.

Mabuchi acordou, mas estava muito debilitado, o golpe desferido contra ele e o impacto contra a parede de concreto, havia deixado sua mente nebulosa e seus ouvidos zumbindo. Vendo Ezza caída no chão ele se sentiu mal por não poder fazer nada, eles certamente morreriam nesse ritmo. “Não acredito que cheguei até aqui para morrer pelas mãos de pessoas assim, mas pessoas fracas não escolhem nem mesmo como vão morrer”, concluiu o Professor.

Ezza se sentou um pouco atordoada, se levantou cambaleante e olhou firme para o gnomo. Correu na direção da criatura, quando o gnomo saltou alto Ezza tentou segurá-lo, a criatura, no entanto chutou o rosto de Ezza. A garota sentiu forte a pancada e até seu nariz sangrou, mas ela segurou a criatura com força.

Peguei! ― Ela anunciou o segurando com força.

Tem certeza? ― O velho questionou com olhos espertos.

O gnomo escorregou das mãos de Ezza como um sabonete molhado. Antes que ele lhe chutasse novamente, Ezza recuou e consegui desviar do ataque que feriria sua perna.

Ezza… ― Mabuchi sussurrou a vendo borrada, se sentou e tentou organizar seus pensamentos, sangue saia pelo seu nariz e ouvidos.

Ezza continuou tentando pegar o gnomo durante os minutos restantes, cada minuto a mais ela ficava mais cansada, depois do soco no estômago ela mal conseguia se manter ereta e precisava correr atrás da criatura curvada. Antes que percebesse estava no chão, o gnomo brincava diante de seus olhos e tentava acertá-la, Ezza passou usar toda sua energia restante para desviar dos golpes da criatura.

O último grão de areia então caiu, o velho pegou a ampulheta e guardou, se levantou e apontou o bastão para Ezza.

Acabou o tempo de vocês. ― O velho avisou contente com o resultado, se virou para o gnomo. ― Pode ir Juju, bom trabalho!

O gnomo então voltou pelo mesmo caminho que veio, Ezza estava sentada tentando capturar o oxigênio. Mabuchi estava conseguindo ver e escutar normalmente, mas ainda não conseguia se mover sem parecer que sua cabeça explodiria de dor.

― Agora vamos… ― O velho mago começou a falar apontando o bastão para Ezza, mas foi interrompido.

― Deveria saber desde o início que era uma batalha perdida, como nós poderíamos ganhar do Grande Mago? Um homem tão magnífico e tão poderoso assim? Serei muito honrada de ser morta pelo seu bastão, se me permite chamá-lo de Mestre. ― Ezza lamentava de forma convincente e o velho passou a lhe dar atenção. ― Eu disse para o meu amigo não trapacear, como ele ousou fazer isso com o Grande Mago?

Eu? ― Mabuchi estava incrédulo, o velho mago lhe olhou feio e ele se encolheu.

Como pôde? ― Ezza se virou para Mabuchi, ela parecia está falando a verdade, mas ele viu aqueles olhos negros sem emoção e soube que ela estava tentando sair da situação por si mesma.

Então foi ideia dele? ― O velho apontou o bastão para Mabuchi.

N-Não! Ezza, fale a verdade! ― Mabuchi tentou se defender, com olhos suplicantes tentou pedir ajuda para Ezza.

Eu disse a verdade Mabuchi, agora precisamos aceitar a decisão do Mestre. ― Ezza abaixou a cabeça fingindo um choro.

Eu deveria saber, eu nunca gostei desse rapaz! ― O velho agora direcionava todo seu ódio para Mabuchi.

― Tudo que peço aos deuses é que na próxima vida eu possa nascer no mesmo mundo que o Mestre, assim poderei ser sua fiel serva. ― Quando Ezza disse isso, o velho lhe olhou interessado, pensou um pouco enquanto alisava a longa barba.

Eu te pouparei por sua lealdade a mim, mas seu amigo terá que morrer! ― O velho mago declarou.

O QUÊ?! ― Mabuchi estava em pânico.

Que seja feita a sua vontade, Mestre. ― Ezza concordou.

Mabuchi olhou para Ezza pasmo, ela nem mesmo lhe dava atenção, se levantou e foi para o lado do velho.

Eu sempre soube que você faria isso, Ezza! ― Mabuchi estava indignado e não poupou palavras. ― Você só se importa com você mesma, sua psicopata!

Ezza apenas lhe deu um olhar impassível como resposta. “Ela vai me sacrificar para continuar vivendo”, concluiu Mabuchi assustado. O bastão já estava apontado em sua direção e ele não conseguia fugir.

É o fim”.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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