LOVCI – Capítulo 05 – O Último Obstáculo


Mar Negro, No Cisne – 03:25

O Cisne deslizava calmamente sobre o mar negro, Gamborie era o único de pé agora, todos se sentaram para ouvir.

Quando começamos essa viagem, eu não esperava que fôssemos ser atacados pelos soldados. O plano seria descer pelas escadas e pegar um barco que eu desci ali meses atrás, iriamos contornar e descer pelo lado leste. Seria uma viagem de dias até encontrar o mar azul de Haiarys, mas evitaríamos o que teremos de enfrentar agora. ― Gamborie explicou e a expectativa começava a criar um clima de ansiedade nos jovens. ― Dizem que no farol do Mar Negro vive um monstro que impede os viajantes de continuar, chamam ele de Guardião do Farol. O que se sabe é que raramente alguém consegue passar por aqui, aquela coisa que nos atacou, provavelmente tem mais dela nos esperando.

E o que era aquilo? ― Mabuchi perguntou se lembrando daquela estrutura mal feita. ― Parecia um morcego, mas além do tamanho anormal ele tinha aquela aparência artificial.

Isso nós teremos que descobrir, vamos descer naquela ilha e tentar pegar um barco. O Cisne nos ajudou até agora, no entanto não podemos permitir que ele se machuque. ― Gamborie propôs e todos concordaram.

Um suspiro pesado foi soltado em conjunto, mais uma coisa para qual eles não estavam preparados. Ezza ficou ainda mais preocupada, não conseguia mover seus braços de forma adequada e isso atrapalharia muito.

O Cisne parou alguns metros da praia onde já dava pé, todos desceram e começaram a caminhar para sair do mar. Aura foi a última, com desalento, ela abraçou o rosto delicado do animal e se despediu.

Obrigada, volte com cuidado.

Quando ela se afastou, o animal deu meia-volta e depois de nadar alguns metros, abriu as asas e voo.

Aura observou se sentindo outra pessoa, alguém que não fazia mais parte do mundo para qual o Cisne estava voltando, teria que começar a ser outra pessoa e não sabia como fazer isso.

Aura! ― Mabuchi a chamou e a garota despertou de seu devaneio.

Estou indo! ― Gritou de volta e começou a pular pequenas ondas para chegar à praia.

A ilha não era grande, mesmo do lado oposto eles conseguiam avistar o fim no outro lado. O que preocupava era a escuridão, por isso assim que Aura chegou ela fez algo bem útil.

Bastão Estrela! ― Ela invocou e surgiu na sua mão um bastão de luz com uma estrela dourada brilhante na ponta.

Estavam todos admirados, mas a luz era tão forte que Saulo, tentando olhar de perto, ficou tonto e vertiginoso.

Não olhem para ela, isso pode cegá-los! ― Advertiu Aura.

Ao redor eles conseguiam ver pedaços do que parecia ter sido navios, andando mais eles encontraram até mesmo a parte inferior de uma caravela.

Seja lá o que for isso, é muito forte! ― Saulo comentou abismado.

Vamos tentar chegar ao outro lado sem sermos vistos. ― Mabuchi aconselhou.

Eles já nos viram. ― Ezza comentou e mostrou na direção da torre.

Algo semelhante a uma pantera rosnava e andava de um lado para o outro furiosamente, mas assim como o morcego, possuía uma aparência estranha. Mabuchi olhou com minuciosidade, aquilo parecia muito com algo que ele conhecia, só não conseguia se lembrar o quê.

A criatura parecia querer avançar, mas sempre que entrava na área em que a luz estava iluminando, a pantera guinchava como se estivesse sentindo dor e recuava. Todos perceberam aquilo, naquele caso seria possível avançar sem problemas.

Vamos ser rápidos, ninguém se afaste da luz! ― Gamborie alertou e todos seguiram o mais perto que podiam da luz.

 

Lá de cima da torre, a mulher observava a situação exasperada. A luz estava estragando seus planos, além de irritar seus olhos acostumados com a escuridão.

Então eles têm uma daquelas coisas… ― Preparou sua varinha a balançado pelos lados e depois apontou na direção de Aura. ― No que devemos transformá-la, Félix?

Uuu Uhu! ― A coruja crocitou.

Eu também adoro gatos, ela poderia ser o meu mais novo bichinho. Você é muito feio Félix, preciso melhorar nas minhas habilidades! ― A mulher atestou e a coruja lhe olhou ofendida.

 

Os olhos observadores de Ezza viram algo brilhar na torre, não sabia o que era, mas assim que viu um raio sendo disparado na direção de Aura, a empurrou para o lado jogando a garota no chão. O raio acertou a areia e causou uma pequena explosão, fumaça começou instantaneamente a sair do local em que o raio caiu, indicando que se tivesse acertado Aura ela poderia ter sido morta.

Apague essa luz! ― Ezza pediu e tudo voltou a escuridão. ― Precisamos de um plano, só sair andando por aí sim vai acabar nos matando!

Tem razão. ― Condescendeu Mabuchi.

O que foi aquilo? ― Gamborie checou o local em que o raio pousou.

Parecia um laser. ― Saulo comentou e chegou a uma conclusão. ― São robôs!

Para mim parece coisa de feiticeira. ― Ezza declarou e todos lhe olharam sobressaltados. ― Aqueles animais não são de verdade, estão enfeitiçados. Esse raio que caiu aqui tinha uma cor vermelha, conheci uma bruxa que soltava raios vermelhos.

ORIGAMI! ― Mabuchi deu um grito assustando todos. ― Aquelas coisas são origamis, tem aquelas dobras estranhas e eles são mais finos que o normal!

Verdade, parece mesmo ser papel. ― Aura concordou, ainda caída no chão.

Então estamos lidando com uma feiticeira… ― Gamborie pensou em voz alta. ― Mas se essas coisas são de papel, vamos só colocar fogo em tudo!

Não parece ser tão simples assim, se não por que tanta gente não conseguiu passar? ― Mabuchi questionou e Ezza concordou com a cabeça.

Não subestimem uma feiticeira, elas são grandes oponentes em batalhas por causa do uso da magia, dependendo do nível que ela está na hierarquia das bruxas… ― Ezza pensou um pouco. ― Posso dizer que ela poderia simplesmente voar até aqui e nos matar!

Depois dessa afirmação todos ficaram alarmados, no Arquipélago de Jade nunca foi relatado casos envolvendo feitiçaria, até chegar no farol muitos deles pensavam que a existência desses seres era apenas mito.

Como você sabe tanto sobre isso, Ezza? ― Aura perguntou, enfim se levantando do chão.

Como eu disse, conheci alguém assim no passado. ― Ezza respondeu sem dar muitos detalhes.

Quero ouvir mais sobre isso, vamos tomar um chá e conversar, claro, se sobrevivermos a esse lugar. ― Mabuchi ofereceu, curioso como de costume.

Nesse momento de distração e carentes de iluminação, o grupo se expôs ao perigo e antes que pudessem reagir ao ataque, Aura foi capturada pela pantera.

KYYAAA! ― Ela gritava enquanto era arrastada pelo braço.

Saulo correu e atacou o animal com a espada na vertical, um tinir de aço contra aço e uma faísca saiu do corpo do animal. A pantera soltou Aura, mas não parecia ter sido afetada.

Aura! ― Mabuchi a ajudou, o braço da médica agora sangrava. ― O que faremos?!

Estão tentando pegar ela! ― Ezza avisou e o grupo se uniu ao redor de Aura criando uma barreira humana.

Eles sabem da habilidade, protejam ela! ― Gamborie reforçou.

Saulo continuou perante a fera, a pantera desajeitada era ainda mais assustadora por causa do formato, quando andava era completamente desengonçada e até mesmo seu rosnado era artificial. O rapaz avançou para cima do animal e assim que desferiu o golpe, a espada tentou escapulir de suas mãos, era como bater em uma barra de ferro.

Está surpreso? ― Uma silhueta feminina surgiu diante de Saulo.

O rapaz recuou, amedrontado, até ficar perto do grupo. Aura acendeu uma luz fraca na ponta do seu dedo indicador e a mulher chiou de raiva cobrindo os olhos com o antebraço.

Que irritante! ― Reclamou ela.

Você é a feiticeira? ― Mabuchi indagou.

A mulher não era muito alta, usava vestes negras e tinha longos cabelos que escorriam por suas costas e busto, seu nariz era muito fino e ela tinha os dois dentes da frente protuberantes. Tinha um belo corpo com curvas sensuais, mas tinha um rosto estranho.

Sou a Guardiã desse lugar, a mais poderosa feiticeira desse mar, Morgana! ― Ela discursou vaidosa.

O que você quer? ― Gamborie estava sério.

A mulher olhou para Aura caída, estreitou os olhos azuis cintilantes.

Quero apagar a luz. ― Morgana encarava de forma ameaçadora a médica. ― Como vocês ousam invadir minha casa tão grosseiramente?

Sua casa? ― Ezza olhou para a torre do farol. ― O farol?

O Mar Negro! ― Ela abriu os braços dramaticamente para mostrar ao redor. ― Eu sou a Rainha, a Guardiã e a única dona desse mar. Como ousam tentar passar por aqui sem minha permissão?

Que maluca. ― Mabuchi comentou baixinho para si, mas Morgana acabou escutando.

Vocês não têm permissão para passar! ― Ela esticou a mão e uma caixa pequena se materializou. ― Mas primeiro preciso dar um fim nessa garota irritante.

Ela vai fazer alguma coisa! ― Ezza alertou e correu na direção oposta.

Gamborie e Mabuchi ajudaram Aura a correr, Saulo ficou perdido por um momento, mas correu junto seguindo os três. A caixa, que tinha um pequeno círculo na parte da frente, emitiu uma forte luz vermelha que pegou Ezza, a única que estava em seu alcance.

Não é você que eu quero, mas serve. ― Morgana estabeleceu seu alvo e continuou apontando a caixa na direção de Ezza.

Mabuchi deixou Aura com os outros dois e correu na direção de Ezza para avisá-la, já que a garota não havia percebido a luz em cima dela.

EZZA! ― Ele puxou seu braço a parando. ― Você está no alcance!

Quê?! ― Ela olhou para trás.

Agora Mabuchi e Ezza estavam no alcance, os dois olharam para o flash.

SUSH!

Desapareceram…

Os outros três olharam céticos, a luz da caixa apagou e a mulher a guardou novamente.

O que você fez com eles? ― Saulo perguntou assustado.

Vai saber…, mas saibam que eles nunca mais voltarão! ― Ela respondeu de forma ameaçadora.

Professor… Ezza! ― Aura lamentava.

Corram! ― Gamborie preceituou, ele tentava levar Aura para longe da feiticeira.

Saulo correu junto com os dois, passou um dos braços de Aura ao redor do seu pescoço, dessa forma eles conseguiram fugir mais rápido.

Não adianta, irei encontrá-los onde estiverem, eu sou a Rainha desse lugar! ― Morgana chamou a pantera com a mão, o animal veio obediente. ― Vá atrás deles, não me decepcione!

A pantera os seguiu determinada, suas mandíbulas poderiam ser de papel, mas eram bem afiadas. O animal corria com dificuldade, as dobras de suas patas eram desiguais e isso causava declives. Gamborie se lembrou dos destroços na praia e decidiu pelo trio fugir para lá, precisavam se esconder até descobrir o que fazer.

Morgana, no entanto, não estava disposta a esperar, gostava de caçar suas presas e deixá-las desesperadas. Tirou sua varinha do busto, apontou ela na direção do céu e soltou um raio forte que explodiu como um trovão no céu. Logo em seguida algo negro começou a cair do céu, eram como gotas, só que com formatos pontiagudos.

O que é isso? ― Saulo olhou para o céu e a coisa caiu sobre seu ombro, cravou em sua carne e arrancou um gemido de dor.

Gamborie observou os fragmentos estranhos caindo e se fincar em tudo como se fossem…

Shuriken! ― Saulo arrancou a lâmina de seu ombro incrédulo. ― Está chovendo shuriken?!

Precisamos fugir, essa mulher é louca! ― Gamborie se apressou com Aura e Saulo na direção da praia.

Morgana observou o desespero do trio e apontou a varinha na direção dos três, não iria deixá-los desaparecer do seu campo de visão.

Está na hora de algo mais perigoso. ― Sorriu mostrando seus dentes avantajados.

O trio olhou para trás no momento que foram pegos em cheio, os corpos foram separados e arremessados com violência para os lados já caindo inconscientes.

 

Mar Negro, Lugar Desconhecido – Madrugada, 03:54

Mabuchi caiu primeiro e logo em seguida Ezza caiu sobre ele, pareciam ter viajado dentro de um tornado. Ezza se levantou de cima do rapaz, ao olhar ao redor eles viram um corredor com paredes altas de concreto.

Corredores? ― Ezza analisava o local.

Será que ainda estamos no Mar Negro? ― O professor olhou para cima e só conseguiu identificar uma cobertura negra, não parecia o céu.

Uma saída. ― Ezza encontrou e já andou na direção.

Espera! ― Mabuchi se levantou, atrapalhado, a seguindo.

Saindo daquele corredor eles acabaram entrando em outro, cada vez que andavam apenas caiam em outros corredores, alguns sem saídas e outros que davam no mesmo lugar de antes.

Um labirinto! ― Compactuaram os dois.

E agora? Como vamos sair daqui? ― Mabuchi fitou Ezza, receoso.

Ela olhou para cima e estreitou os olhos.

Será…? ― Pensou em voz alta. ― Não é possível!

O quê? ― Mabuchi olhou para cima também. ― Isso não parece um céu, não é? Parece madeira…

Estamos dentro daquela caixa! ― Ezza concluiu, pessimista.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia



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