LOVCI – Capítulo 04 – Um Voo Entre a Neblina


Em Algum Lugar no Céu Sobre o Mar Negro – Madrugada, 02:23

Ezza acordou atordoada, sentiu um cheiro forte de ervas e ao olhar ao redor percebeu que estava sobre o Cisne. O animal estava planando graciosamente, todos do grupo estavam admirando a vista e conversando baixinho, pareciam cansados e estavam abalados pelos acontecimentos com Tito e Marta.

Então conseguimos”, concluiu Ezza aliviada, só se lembrava de ser carregada por alguém. Ao tentar se levantar não conseguiu mover os braços, estavam pesados e por um momento ela entrou em pânico.

Não se preocupe, coloquei bastante anestesia para que você conseguisse descansar, como se sente? ― Aura se aproximou e tocou a testa de Ezza. ― A febre passou.

Conseguirei usar meus braços novamente? ― Ezza perguntou os olhando, estavam com curativos. ― O que vocês fizeram?

Nós não fizemos nada, a médica Aura que fez! ― Mabuchi revelou deixando Ezza surpresa.

Ela parece ter quinze anos”, pensou Ezza avaliando a garota.

Respondendo sua pergunta, sim, você vai conseguir movê-los novamente. Felizmente nenhum nervo importante foi atingido, já seus ossos vão dar alguns choques pois quase se partiram, você tem osteoporose? ― Aura perguntou fazendo Ezza franzir o cenho. ― Seus ossos, eles são fracos demais. Fiz alguns exames físicos em você, não sabia que tomava adrenalina. Tem problema no coração também?

Porque está fuçando tanto o meu corpo? Agradeço por ter cuidado de mim, mas o resto não é da sua conta. ― Ezza respondeu ríspida.

Aura abaixou a cabeça envergonhada e Mabuchi a consolou olhando feio para Ezza, o Professor concluiu que ela estava bem, já que tinha voltado a ser indiferente com eles.

Saulo e Gamborie tentavam observar o Mar Negro lá embaixo, a neblina ainda não os deixava ver completamente, o silêncio era a forma que eles aproveitavam aquele momento. Aura havia cuidado dos ferimentos de todos, sua mochila foi bem preparada e ela conseguiu levar até mesmo um chá.

Obrigado garotinha, você realmente foi uma heroína hoje. ― Gamborie disse pegando um copo do chá.

Além de conhecer esse Cisne, ainda nos ajudou com curativos, não sinto mais nenhuma dor! ― Saulo completou, havia ferido suas costas no conflito.

Obrigada. ― Aura sorriu lisonjeada.

Esse seu remédio é realmente bom, as feridas desincharam rapidamente como nunca vi antes! ― Mabuchi elogiou já que era um remédio caseiro, ele havia levado alguns chutes aqui e ali durante o conflito.

Eu gosto muito dessa área de fármaco da medicina, eu mesma gosto de produzir meus remédios, porém o Arquipélago é bastante limitado com plantas e ervas. ― Ela explicou e bebericou um pouco do chá, olhou de relance para Ezza que dormia novamente.

Mais tarde eu levo um pouco para ela. ― Mabuchi a tranquilizou. “Aura realmente tem um coração”, pensou ele a olhando com ternura.

Quando você me disse que gostaria de fugir eu fiquei me perguntando, “Por que uma jovem nobre iria querer fazer isso”, até agora continuo me perguntando isso. ― Gamborie se dirigia a Aura, que fez uma expressão opaca ao escutá-lo.

Minha família iria me impedir de continuar na medicina, desde os meus doze anos eu estudava no Instituto de Pesquisas Médicas do Governo Celestial, como nobre eu poderia fazer o que quisesse então optei por seguir os passos da minha mãe. No entanto, não era esse o plano do Governo para mim, no próximo ano eu teria que entrar para Academia Militar e aprender usar minhas habilidades como arma. ― Aura fez uma careta chorosa. ― Eu não queria isso, só vi essa alternativa, não sei se foi o certo.

Verdade, você tem o Selo dos Deuses. ― Mabuchi se lembrou. ― Qual é a sua habilidade?

Aura abriu a palma da mão e uma bola de luz pequena se formou, tudo se iluminou e até o Cisne olhou curioso.

UAU! ― Os três admiraram.

Eu controlo a luz, mas a verdade é que nunca explorei muito. ― Aura fechou a mão e a bola de luz desapareceu.

Que incrível, você poderia ser uma guerreira das fortes! ― Saulo sonhou com os olhos brilhantes.

Você tinha um poder desses? Estou ficando cada vez mais impressionado com você, garotinha. ― Gamborie comentou.

Certa vez fiz um artigo sobre os Orasukiros, o Governo Celestial não fornece muitas informações sobre isso, mas procurei bastante até encontrar algumas coisas que eles esqueceram de acobertar, tipo o Dragão Negro. ― Mabuchi disse aquele nome e todos ficaram sérios, quem não conhecia a história de Teresa?

Já ouvi falar sobre esse tal de Dragão Negro, algumas pessoas dizem que foi invenção do Governo para acobertar o massacre de Teresa. ― Saulo disse e Mabuchi discordou.

O Governo Celestial realmente costuma fazer isso, mas o Dragão Negro foi o verdadeiro responsável por dizimar a cidade de Teresa, as pouco mais de cem pessoas que sobreviveram o viram. ― Mabuchi afirmou.

Minha vizinha foi uma dessas pessoas, a mulher ficou com graves sequelas mentais. Ela disse que foi uma criança que fez aquilo! ― Todos ficaram alarmados com o que Gamborie disse, essa informação era nova.

Impossível, crianças não podem ser Orasukiros Demoníacos, algo assim explodiria o corpo delas feito um balão, ainda mais o Dragão Negro! ― Mabuchi contrariou.

Disso não sei, mas a mulher jurou de pés juntos. Disse que viu uma criança arrancar membros, envolta de uma fumaça negra e com olhos dourados, também não acreditei no início, mas sei lá… ― Gamborie suspirou pensativo.

Um Orasukiro Celestial, como Aura, nasce assim por causa do poder menos agressivo da essência do deus. Vocês sabem como isso funciona? ― Ele perguntou e todos negaram. ― Um Orasukiro não tem mais sua essência humana, ele troca isso pela essência de um deus, no caso dos Orasukiros Demoníacos por um Deus Caído.

Então Aura é uma deusa? ― Saulo perguntou a olhando admirado.

Sim e não, esses deuses que trocam suas essências são como espíritos comuns no plano espiritual. Os Orasukiros Demoníacos são deuses fortes que foram jogados no submundo, eles são 70% mais fortes que um Orasukiro Celestial por causa da Ambição. ― Mabuchi estava prendendo a atenção de todos.

O que é essa Ambição? ― Gamborie perguntou.

Cada Orasukiro Demoníaco tem algo que o deixa mais forte, algo sombrio, o Dragão Negro é movido pela ira. Talvez seja esse o motivo dele ter destruído a cidade inteira, quanto mais raiva ele sente, mais ele fica forte. A ambição é um pecado já que vai contra o que é bom, não conheço muito sobre isso, mas sei que o Governo Celestial ficou aliviado quando o Dragão Negro desapareceu. ― Mabuchi esticou suas pernas. ― É um assunto polêmico, no final Aura é semelhante ao Dragão Negro, o Governo Celestial criou essa coisa de Selo dos Deuses, mas não existe nada disso.

Aura não gostou de ser comparada ao Dragão Negro, mas ficou quieta.

Se um Orasukiro Demoníaco não nasce assim, então como acontece? ― Saulo parecia interessado, especialmente nessa parte.

Depende do Deus Caído que você deseja invocar, cada um te um ritual diferente que somente bruxas sabem fazer, mas sei que envolve sacrifícios humanos e outras coisas macabras. É algo muito pesado, a essência de um Deus Caído é algo muito forte e difícil de controlar, por isso tenho certeza que não foi uma criança que fez aquilo. Como uma criança controlaria algo que se move pela ira? ― Mabuchi levantou o ponto e todos concordaram com sua linha de pensamento.

Ezza escutava tudo, abriu os olhos e encarou o céu escuro. Sempre que se lembrava daqueles olhos dourados sentia um vazio dentro de si, puxou de dentro da sua blusa o pingente de cristal negro. “Como é que você está?”, pensou aflita com o olhar perdido.

 

Mar Negro, Farol – Madrugada, 03:12

A pequena porção de terra pedregosa com apenas uma torre, era a marca de que o Mar Negro estava chegando ao seu fim, para muitos o alívio de enfim poder entrar no mar azul de Haiarys, mas para outros o pesadelo de ter seu objetivo frustrado. O farol do mar negro era um lugar perigoso, principalmente para os desavisados.

No topo da torre uma mulher de longos cabelos negros observava o céu entediada, seus olhos azuis cintilantes apenas devaneavam. Uma coruja pousou na janela onde ela estava escorada, a criatura tinha uma aparência estranha, mas ainda assim era uma coruja.

Uuu Uhu! ― A coruja crocitou para a mulher.

O que foi Félix? ― Perguntou ela irritada.

Uuu Uhu! ― Crocitou novamente.

Sério? ― A notícia lhe arrancou um sorriso, olhou na direção do céu novamente. ― Isso vai ser ótimo, estava mesmo precisando de diversão!

Caminhou pelo quarto escuro arrastando a longa cauda do seu vestido negro, abriu um baú no canto mais escuro do local, tirou uma varinha dos seios fartos e tocou com a ponta sobre o conteúdo do baú.

Despertem meus filhos, já é hora! ― A luz vermelha brilhou por todo o quarto e até a coruja se encolheu diante do que saiu do baú em seguida.

 

Em Algum Lugar no Céu Acima do Mar Negro – Madrugada, 03:20

Ezza já conseguia mover um pouco seus braços, mas em consequência do fim da anestesia vinha a dor. Começava pinicando e depois torturava aos poucos com pequenas ondas de choque. Ficou sentada no canto tentando inibir a dor por si mesma, Aura percebeu que talvez ela pudesse está sentindo dor e procurou mais um pouco do seu remédio.

Você deveria deixá-la sozinha, acho que ela não quer companhia. ― Mabuchi aconselhou.

Ninguém gosta de ficar sozinho Professor, ela está sentindo dor e eu cuidarei dela mesmo que ela me rejeite, sou uma médica e me considero agora sua amiga! ― Aura disse firme e caminhou na direção de Ezza.

Aura se abaixou ao lado de Ezza e lhe ofereceu um comprimido de aparência estranha, Ezza apenas o bebeu sem hesitar e deixou Aura checar seus pontos.

Vai aliviar um pouco, mas ainda vai sentir dor, se quiser posso aplicar um pouco mais de anestesia. ― Aura ofereceu, mas Ezza recusou.

Não posso ficar sem mover meus braços, ninguém pode prevê o que acontecerá. ― Ezza olhou para os braços decepcionada consigo mesmo. ― Estou doente, meu coração está parando, por isso preciso tomar adrenalina.

Aura ficou extremamente preocupada com aquela notícia, Ezza poderia precisar de um transplante urgente.

Posso sentir seu pulso? ― A médica pediu permissão e Ezza lhe ofereceu o pulso direito, o ritmo era algo realmente preocupante. ― Quando começou isso?

Não importa, eu já aceitei… é o preço. ― Ezza murmurou pensativa.

Preço de quê? ― Aura perguntou curiosa.

Pode me dar alguns desses comprimidos estranhos? Vou carregar comigo por garantia. ― Ezza mudou o assunto e Aura apenas deixou para lá, entregou cinco comprimidos.

Eu não sei fazer do jeito tradicional, por isso ficou feio, mas funciona! ― Ela garantiu e Ezza acenou com a cabeça.

Obrigada. ― Agradeceu deixando Aura surpresa.

D-De nada! ― Gaguejou ela.

O Cisne arensou fazendo todos se preocuparem, Gamborie e Mabuchi correram para perto do pescoço e avistaram uma torre, estava escuro então não conseguiram ver quando um morcego gigante com formato estranho surgiu e rasgou o espaço do cisne. O animal bateu as asas tentando mudar a rota fazendo todos rolarem, Aura ajudou Ezza a se segurar em algum lugar.

O que é isso? ― Gamborie perguntou ao ver a coisa voar na direção do Cisne novamente.

Isso era para ser um morcego? ― Mabuchi franziu o cenho confuso.

Ele está tentando nos derrubar! ― Alertou Saulo.

A criatura dessa vez atingiu o Cisne que perdeu o controle e começou a tombar para o lado, emborcando, o Cisne mirou na água e então pousou. A criatura veio na direção deles, nenhum deles conseguia ver nada já que a criatura se camuflava na escuridão.

Aura, acenda aquela bola! ― Mabuchi pediu se lembrando da habilidade da médica.

Aura assim fez e tudo ao redor se iluminou, aquela luz espantou a criatura e ela mudou o curso voando para a ilhota mais a frente.

O que é aquele lugar? ― Mabuchi tentou visualizar algo.

Por que esse lugar é tão escuro? ― Saulo perguntou.

O sol não consegue atravessar as nuvens do Mar Negro, por isso sempre é noite aqui. ― Mabuchi explicou, como um bom professor.

Então como tem sol lá no Arquipélago de Jade? ― Questionou o jovem espadachim.

Por causa dos refletores, eles captam a luz solar no mar de Haiarys e reflete na ilha. ― Gamborie quem respondeu.

Exatamente! ― Concordou Mabuchi e acrescentou. ― Por isso o Arquipélago mesmo tendo sol não passa dos vinte graus.

Ezza estreitou os olhos quando viu algo se movimentar perto da torre.

Tem algo lá. ― Constatou ela e todos olharam na direção.

Bem… ― Gamborie se levantou. ― Acho que é hora de falar para vocês que lugar é esse.

Todos lhe olharam apreensivos, Gamborie estava com uma expressão séria e isso não significava boa coisa.


Autor: Ana Júlia | Revisor: Ana Júlia


 


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