LANA – Capítulo 6 – Decisão



Aline se divertia mostrando para as crianças que sua parte do trato foi cumprida. Aqueles preciosos fios de cabelos num tom avermelhado opaco, tinham agora o valor de fios de ouro. Atraiam a admiração das crianças, fez com quem um jovem perdera a aposta e parecesse um tolo na frente dos demais.

— Puxa Aline! Você é mesmo incrível! A prisioneira realmente não se importou em lhe dar alguns fios de cabelo assim sem mais nem menos? — perguntou Maria pela vigésima vez naquele dia.

— Como eu disse antes, foi só pedir com jeitinho.

— Eu jamais teria coragem de chegar perto dela! Ela deve ser muito perigosa! — disse outra menina que estava no grupinho.

— Pois é. — disse Aline já meio entediada e levantando-se.

As crianças estranharam, pois Aline adorava ser o centro das atenções e então um menino perguntou:

— Aonde você vai?

— Vou me deitar um pouco — disse Aline com um sorriso amarelo na face, tentando esconder o desanimo repentino.

Quando entrou, Aline procurou por sua cama, deitou-se e encarou fixamente o teto. Os olhos estalados de Lana suplicando por ajuda lhe perturbaram por toda a tarde. Não poderia ser tão perigosa como todos acreditavam.

Aquele pedido desesperado de ajuda lhe vinha a mente incessantemente. Sem a decisão o sono custava a vir. Fechar os olhos era pior, a cena se repetia ininterruptamente. Somente Aline poderia ajudá-la e isso lhe dava um sentimento misto de pavor e remorso. “É só uma faca, o que custa? Não serei pega por isso. Por outro lado, porque vou me arriscar, o que ela faria com uma faca?”

Ao seu redor não havia com quem se afeiçoasse durante todos os meses em que estava presa. Diferentemente, Lana proporcionou um breve porem agradável diálogo. Ela ainda não havia se decidido sobre a faca, mas queria conversar novamente com ela.

No dia seguinte choveu menos pela manhã. Aline tratou de levantar cedo, comeu menos da metade de um pão e saiu do alojamento sem chamar atenção. Percorreu os campos com descrição evitando os olhares dos guardas até chegar à área de confinamento.

Já mais confiante que as vezes anteriores, a jovem entrou firme pelo corredor procurando sinais das sentinelas. Logo percebeu que não havia ameaça, então sentou ao lado da fresta e bateu na porta duas vezes e disse:

— Serviço de quarto.

Após um breve silencio uma voz ecoou um tanto fraca e sonolenta.

— Você voltou? — perguntava Lana incrédula.

— Sim! Tome, eu trouxe o seu café da manhã — disse Aline empurrando o pão junto de algumas frutas secas para dentro da cela.

— Isso é mais do que os guardas costumam me oferecer. Obrigada!

Aline nada respondeu.

Lana notou o silêncio do outro lado e continuou:

— Finalmente o serviço de quarto está melhorando, e já não era sem tempo. Cruzes eu odeio fazer regime.

— Não se preocupe senhora, estamos trabalhando para melhorar as suas acomodações.

— Assim espero — respondeu Lana e as duas riram.

Por duas semanas as amigas se encontravam e conversavam. Sempre pelas manhãs.

Aline sentia uma afinidade que nunca encontrara antes. Lana por sua vez apesar de apreciar a amizade da jovem, tinha esperanças de que de alguma forma teria algum tipo de ajuda para escapar daquele cativeiro. No entanto ao longo dos dias a conversa não evoluía muito na direção que ela desejava, mas nem por isso diminuía o interesse em conversar com Aline. Sua companhia realmente lhe fazia bem.

Durante as conversas Lana conseguiu informações valiosas, como as dimensões do campo de confinamento e a frequência em que as tropas retornavam com novas levas de prisioneiros.

Aline contava tudo, e não poupava os detalhes para sua amiga, sentia-se feliz apesar de toda aquela situação. Mas o assunto da faca passava distante.

Um dia, Lana acordou cedo e como nos demais aguardava pacientemente por Aline. Já era uma rotina estabelecida. Aos poucos a manhã avançava e nada da alegre garota aparecer com o desjejum e com suas típicas frases bem-humoradas.

Oito horas:

— Aline está atrasada.

Nove horas:

— Que estranho ela ainda não ter aparecido.

Dez horas:

— Alguma coisa aconteceu! Ela não virá hoje — questionava Lana andando em círculos dentro de sua cela.

Foi um tempo difícil, pois Lana percebeu que algo ruim poderia ter acontecido com a menina, talvez ela tenha sido pega durante o trajeto, talvez tenha sido punida. Não havia como saber.

Os dias voltaram a ficar menos interessantes e mais longos. Sem uma companhia, Lana voltava sua mente para o objetivo de escapar por conta própria da cela, e ir ao encontro de seu pai.

A jovem ruiva começou a formular um novo plano. O chão era de terra, Lana tentou cavar com os dedos já que não possuía nenhum instrumento. Mas desistiu quando seus dedos começaram a sangrar sem ter alcançado resultado algum. Precisaria de sua mão intacta no caso de uma luta.

A comida era jogada pelo vão da porta diretamente ao solo uma vez por dia, e não havia talheres ou bandejas para utilizar como ferramenta de escavação. Era alimentada como um cachorro. No começo não se importava, não pretendia comer mesmo, mas quando percebeu que sem forças não poderia fugir, se sujeitar a comer aquela comida suja de terra passou a ser sua única opção, principalmente quando Aline não a visitava com o desjejum.

O gosto da terra lhe causava ânsia, de fato mais cuspia terra do que comia o arroz.

Em desespero tentou arrancar lascas de madeira da porta. Novamente ela apenas feria os dedos, nada mais.

Sua mente não parava de planejar, mas cada vez mais suas chances de fuga diminuíam, e seu ânimo gradativamente era minado pela falta de esperança.

E assim, durante quinze dias Lana ficou sem companhia até que no décimo sexto, logo pela manhã ouviu uma voz sussurrando pelo outro lado da porta.

— Ei! Lana, acorde. — Era Aline novamente.

Lana ouviu, incrédula ela permaneceu deitada sem dar muita atenção.

— Sou eu Aline — sussurrou a menina.

Lana pulou em direção à porta e colou o rosto rente à fresta.

— Aline! O que aconteceu? Você sumiu por um tempão!

— Não posso falar muito agora, mas tenho um presente para você. — Enquanto dizia, Aline empurrou um objeto envolto de um pequeno pedaço de pano.

Lana pegou o embrulho e o desenrolou rapidamente com os seus dedos machucados. Assustou-se ao perceber que tinha em suas mãos uma pequena e rústica faca. Não tinha cabo, era feito à mão. O metal foi desgastado sem nenhum preparo. Um objeto artesanal feito por um prisioneiro.

— Não é muito afiada, mas ainda assim é uma faca — disse Aline.

Lana impressionada com o feito da menina admirava o pequeno pedaço de metal.

— Espero que sirva — disse Aline um tanto receosa.

— Sim posso cortar uma mecha para você. — Mas Lana foi interrompida antes que terminasse.

— Não! Eu digo, para a sua fuga. Não é para isso que você queria a faca desde o começo?

Lana observava o pouco fio da lâmina e por um breve instante se envergonhou, pois sentiu-se encurralada pela jovem menina.

— Acho que sim — respondeu Lana sem rodeios.

— Ótimo.

— Eu sinto muito. Não queria te enganar, mas eu estava, digo estou desesperada.

As duas se encaravam agachadas pela fresta.

— Não se preocupe, eu também tive lá os meus motivos para ter vindo aqui desde o começo. Mas o importante é que agora estamos sendo sinceras uma com a outra e sei que você não merece ficar presa neste lugar.

— Obrigada! Não tenho como te agradecer! — disse Lana emocionada.

— E quanto ao motivo de você estar presa aqui? Foi mesmo um engano?

— A verdade é que eu sei me defender sim, e não estaria aqui se o capitão não tivesse intervindo.

— Não acredito! O capitão te prendeu pessoalmente?

— Uma coisa eu te digo, nem mesmo ele terá tanta sorte numa próxima vez.

— É eu imaginei que fosse algo do tipo. Enfim sentirei saudades — falou Aline.

Então Lana esboçou um sorriso. Não era possível ver seus lábios, mas percebia-se pelo contorno do rosto e pela expressão dos olhos e logo ela disse:

— Ué, você não virá comigo?


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


Fontes
Cores