LANA – Capítulo 5 – Barganha



Aline deu um grito e caíra sentada no chão com o susto. Definitivamente não esperava aquela recepção, não esperava recepção alguma.

— Não faça barulho menininha! Vai atrair os guardas!

Aline se recompôs, levou a mão direita ao peito e disse em voz alta:

— Deste jeito meu coraçãozinho não vai aguentar! Tenho que parar de tomar estes sustos. Esta semana tem sido realmente bem atípica.

Em seguida Aline abaixou novamente o rosto rente à fresta e continuou:

— Você me assustou! Da próxima vez não apareça assim do nada!

— Desculpe! Eu escutei os seus passos de longe, mas imaginei que talvez você fosse passar reto por aqui.

— Então se abaixou para gritar pela fresta? — completou Aline.

— Exato. E depois você não pensou que eu poderia ter saído para dar uma volta, não é mesmo?

— Acho que não….

— Qual o seu nome menininha? O meu é Lana — perguntou a ruiva, antes mesmo que a jovem completasse o seu raciocínio.

— Menininha? Quantos anos por acaso você acha que eu tenho?

— Onze! — disse Lana.

— Quinze! — retrucou Aline.

— Doze!

— Quatorze!

— Certo, certo, pode ser quatorze, mas você ainda não me disse o seu nome.

— Olá meu nome é Aline! Muito prazer! — disse de forma dissimulada como se estivessem se encontrando somente agora.

Por alguns segundos fitaram uma à outra. Cada uma tinha algo de urgente a dizer, mas por um momento parecia pouco natural ir direto ao assunto. Nenhuma queria quebrar o protocolo.

— Chovendo muito aí dentro? — perguntou Aline.

— Um pouco. Sabe como são estas acomodações, pouco confortáveis, ainda mais em tempos de guerra — respondeu Lana.

— É verdade, não fazem mais estalagens como antigamente. Mas pode deixar que eu vou reclamar com o capitão!

Logo as duas riram.

— Escute, preciso lhe pedir um favor antes que alguém chegue — disse Lana agora em tom sério.

— O que posso fazer por você? — falou Aline, já calculando quantos fios de cabelos pediria em troca.

— Eu preciso de algo. Se puder me ajudar ficarei eternamente agradecida — sussurrou a ruiva de dentro da cela.

— Olhe, se você precisa de algo, está falando com a pessoa certa — respondeu Aline.

— Que bom!

— Mas tudo tem um preço! Não posso sair por aí fazendo favores para todo mundo. Eu ando bem ocupada ultimamente.

— Claro que irei recompensá-la menininha, mas é que no momento eu não tenho muito a oferecer — concluiu Lana.

— Pode começar parando de me chamar de menininha.

— Certo, algo mais Aline?

— Por hora eu não quero muito. Mas você pode começar me explicando por que você veio acorrentada e está aqui no confinamento? Os homens eles mandam para o trabalho forçado, as mulheres ficam nos alojamentos junto com as crianças. Por que só você está aqui?

— Fui presa por engano! Acharam que eu era uma mulher procurada e perigosa. Eu até tentei argumentar, mas não acreditaram em mim.

— Nossa, coitada!

— Olhe para mim, eu pareço perigosa?

— Eu mal posso ver os seus olhos daqui. O que dirá o resto. Ei! Qual a cor do seu cabelo?

— Sou ruiva. Por quê?

— Jura? Me deixa ver o seu cabelo?

Assim, Lana levou alguns fios de cabelo através da fresta. Seu cabelo estava sujo, mas ainda assim mantinha um tom avermelhado, porém opaco.

Vermelhos, eram fios vermelhos de uma genuína ruiva. Aline esboçou um sorriso que era um misto de satisfação e alívio. Mais que depressa ela deu um puxão. Lana deu um grito e recuou.

— O que está fazendo? — nervosa Lana voltou para a fresta.

— Nossa, seu cabelo é avermelhado mesmo — disse Aline analisando os fios contra a luz do dia.

— Gostou do meu cabelo? Posse te dar uma mecha se quiser.

— Jura?

— Sim, mas para isso eu vou precisar de uma faca.

— Uma faca? Não sei não — hesitou Aline.

— Escute! Eu sei que você consegue, é só me trazer que eu corto uma mecha bem grande para você!

Aline estava pensativa. Com aqueles fios acabava de escapar de uma grande enrascada. Por que se arriscar novamente? Enquanto celebrava por dentro, ela via os olhos suplicantes de Lana pela de fresta.

— Olhe, eu preciso ir! Acho que estou ouvindo passos! — rapidamente Aline se levantou e foi em direção a saída.

— Espere, por favor! Você precisa me ajudar! — gritou Lana enquanto a menina se afastava.

Lana escorou na porta e sentou-se. Frustrada, ela sabia que no momento a garota era a sua melhor chance para escapar daquele lugar. Contemplando a água que gotejava pelo teto ela percebeu que no momento não havia muito mais a fazer. Esperar era a única opção, mas mesmo esta poderia ser em vão. Assim, uma enorme onda de ansiedade percorreu o corpo de Lana, e ela respondeu com um forte soco na porta de madeira. Seus olhos marejaram.

— Não vou chorar! Ainda não! — disse para si mesma em meio a escuridão de sua cela.

A chuva não deu trégua, fez frio e Lana passou toda a tarde sentada num canto desolada.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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