LANA – Capítulo 41 – Forja



Era quatro da manhã quando o primeiro golpe do martelo atingiu a espada quebrando o silêncio que reinava até então em Porto Arpoador. Seguido deste, outros golpes foram dados em cadência, com mesma força e precisão. Era uma melodia de um único instrumento, de uma nota só, que perturbava o sono daqueles que dormiam por perto.

O choque do metal. O som estridente ecoava e quando retornava era como se houvesse um novo choque, um pouco mais distante, mas de igual valor que logo que fundia ao novo golpe produzindo um novo som, um pouco mais encorpado, menos refinado, o eco agora retornava mais rápido e mais potente.

O próximo golpe se tornou ensurdecedor. Era como se batessem com um machado contra o elmo de Edmundo. O choque não o matou, mas o arremessou bruscamente ao solo. Ainda zonzo, ele de joelhos, levantou a cabeça e notou que aquela melodia, antes solitária, agora era composta por uma orquestra inteira. Milhares de espadas, machados e martelos chocavam incessantemente. Às vezes o som produzido era um pouco menos agudo, era quando a arma errava e no lugar da outra peça de metal rasgava a carne e trazia consigo invariavelmente um grito de dor e agonia.

Edmundo estava na guerra.

Vestia uma armadura mista de placas de metal e couro e sobre ela um longo pelo de urso. Caído no chão repousava o seu machado. A arma longa como uma lança, possuía dois gumes afiados e entre eles uma proeminente seta. Ele cuspiu um pouco de sangue, mirou o horizonte e avistou alguns vultos em meio à tempestade de neve. Um deles rapidamente vinha em sua direção e aos poucos ganhava uma forma mais definida.

O soldado inimigo corria com seu machado sobre a cabeça na intenção de executar Edmundo num único golpe vertical.

Ainda ajoelhado o sagaz esperou que o homem se aproximasse o máximo possível e então Edmundo pisou na ponta do cabo do seu machado, com as mãos apoiou a arma tal como se fosse uma lança e ela então fez o seu trabalho perfurando com a ponta o peito do soldado que com a própria velocidade ajudou a terminar o serviço.

Em seguida ele se levantou, livrou o machado do cadáver e partiu em direção ao coração da guerra. Com poderosos golpes ceifou a vida de vários inimigos e aos poucos parecia criar uma vantagem para o seu lado. Foi quando lhe atingiram com força pelas costas.

O golpe o jogou alguns metros à frente deslizando pelo gelo como se fosse um boneco. Rapidamente ele se levantou e notou que sua arma estava longe. Mais dois soldados vieram em sua direção. Sacando uma machadinha da cintura o sagaz esquivou-se do primeiro golpe e cortou a barriga do seu adversário. O segundo veio e ele esquivou-se mais uma vez, a espada do soldado cravou nas costas do primeiro inimigo que agonizava à sua frente. O tolo insistiu em livrar a arma que estava presa ao corpo do companheiro, apenas por um segundo, pois no momento seguinte ele também estava morto, a machadinha fazia o seu serviço mais uma vez.

Edmundo guardou a pequena arma na cintura e assim que recuperou o seu machado avançou sobre uma pilha de corpos e em meio aos estrondos que ecoavam viu quem o havia arremessado para longe.

Era alto, trajando uma armadura negra chegava facilmente a dois metros e meio de altura. Na mão a estrela da manhã, um bastão com uma bola de aço cheio de espinhos preso à ponta. Toda vez que o gigante balançava a arma de um lado para o outro, varria vidas pelo campo de batalha.

Por um segundo Edmundo hesitou, sua mente divagava entre a forma de derrubar aquele ser e a possiblidade do mesmo existir diante dele.

Assim que o notou, o cavaleiro negro avançou. A arma descreveu um veloz arco vertical, mas Edmundo conseguiu esquivar-se para trás. O golpe seguinte veio de cima, como uma marretada que o sagaz defendeu apontando o machado contra a arma. A pressão foi grande ao ponto de Edmundo ajoelhar-se e o cabo do machado se enterrar em meio à neve.

O cavaleiro bateu mais uma vez, e depois outra e mais outra, como se estivesse fincando uma estaca na terra e não era pela eficácia da técnica, mas pela satisfação, ele ria ao ver Edmundo ajoelhado e fazendo força para resistir. Pedregulhos ao redor explodiam conforme a lança entrava cada vez mais para dentro do solo.

O cavaleiro resolveu dar o golpe derradeiro, levou a estrela da manhã até as costas, tomou folego e bateu com toda sua força. Uma enorme faísca se fez assim que a arma chocou com o machado. Ao mesmo tempo Edmundo largou sua arma e passou pelo cavaleiro. Sacou sua machadinha e talhou a perna direita na altura do joelho.

O homem fraquejou e então com raiva caçou Edmundo com um poderoso golpe, este se agachou e num rápido ataque de cima para baixo, decepou o braço direito do inimigo.

Desesperado o cavaleiro acertou uma cotovelada, atordoando Edmundo. Em seguida o pegou pela cabeça e o lançou contra uma rocha.

O mundo começou a girar enquanto o homem incessantemente o chocava contra a pedra que se fragmentava. O elmo do sagaz começava a desmanchar e o seu sangue espirrava pelas pedras e escorriam até o chão.

Num último e desesperador esforço Edmundo colocou os braços sobre a rocha de forma a oferecer resistência as investidas do cavaleiro negro que decidiu acertar um soco nas costelas do sagaz. Este então acertou uma forte cotovelada na cabeça do cavaleiro levando-o ao chão.

Edmundo caminhou até a mão decepada de seu inimigo e tomou a estrela da manhã. O cavaleiro se levantava quando viu o brilho de sua própria arma empunhada por outro, inutilmente estendeu o braço e no momento seguinte seu elmo voava longe enquanto ele caia sem vida na neve.

Edmundo deu três passos para trás, exausto largou a arma e caiu. Comtemplou o céu. Todo aquele frio suavizava a dor do seu corpo. Estranhamente nuvens cinzas tomaram conta do firmamento, um raio iluminou o horizonte, fez-se ouvir um estrondoso trovão e então começou a chover.

A água era quentíssima, quando tocava o chão fazia um barulho ensurdecedor, o vapor subia rapidamente enquanto a neve era derretida, de súbito Edmundo viu-se tomado por uma violenta correnteza que o arrastou por metros até desembocar num caudaloso rio de sangue.

Entre os corpos que eram arrastados Edmundo conseguiu segurar-se num firme tronco. Ficou ali por minutos e sentiu que não duraria muito mais, com dor e o cansado, estava fraco e desorientado, prestes a perder a consciência quando finalmente uma mão lhe foi estendida. Ele a segurou firme e então se viu sendo levado até a margem do rio.

— Você está bem? — perguntou o Armeiro.

— Essa foi por pouco — respondeu Edmundo ofegante.

— O que foi por pouco?

— O rio! — insistiu Edmundo.

— Que rio homem?

Edmundo sentiu-se confuso, tudo girava, ele cerrou os olhos com força e quando abriu, viu-se novamente na casa do Armeiro deitado na cama em que dormia.

Pai e filha encaravam curiosos o sagaz que permaneceu em silêncio enquanto tentava assimilar tudo que se passava.

Edmundo engoliu seco, olhou para o amigo ferreiro e disse com a voz rouca:

— Terminou a espada?

— Sim terminei.

— Bom, muito bom.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves



Fontes
Cores