LA – Capítulo 37 – Caminho na neve



Nevou intensamente por três dias consecutivos. Se não fosse pela chaminé das casas ou pela luz acessa vista pelas janelas, a vila poderia ser considerada abandonada pois ninguém saiu de seus abrigos neste período.

No quarto dia, quando o clima apresentou uma trégua, era possível ouvir um som característico de metal sendo martelado ao fundo da oficina do Armeiro, a chaminé fumegante também denunciava que o forno estava sendo aquecido.

O velho estava diante de sua encomenda, fitou a lâmina com um respeito maior que o de costume. Estava tudo pronto para começar o trabalho, mas ele não se sentia preparado. Tateou a esfera na ponta da arma calculando o esforço necessário para removê-la. Aquecer o metal ou remover a frio? Qualquer que fosse o meio ele não queria provocar avarias no florete. Não numa peça tão antiga cuja a liga que o compunha ele desconhecia.

— Eu não posso errar. — disse para si mesmo, tomando coragem.

Na frente da casa Edmundo preparava seu trenó, Audaz, seu fiel lobo, já em posição aguardava ansioso abanando o rabo e latindo, apenas aguardando o comando de seu dono. Kaia ajudava-o depositando uma pequena sacola de mantimentos no trenó.

— Avise seu pai que eu devo retornar logo. Caso aconteça alguma coisa eu peço que encaminhe a arma com o máximo de urgência ao príncipe Rafael. — instruiu o sagaz.

— Aonde o senhor vai?

— Preciso verificar uma coisa. Tem algo que ouvi que está me deixando intrigado.

— O que seria?

— Kaia, sabe me dizer quando foi a última vez que você foi à costa?

— Faz um bom tempo, acho que uns dois ou três meses. É meio longe daqui.

— Ninguém comentou nada de diferente?

— Não senhor. Por que?

— Seu pai diria que eu sou um tolo por dar ouvidos a um maluco, mas mesmo assim eu preciso investigar.

Assim Edmundo partiu.

Enquanto seguia na neve, sendo puxado por seu lobo branco, as palavras do ferreiro ecoavam em sua mente. Revisitava suas lembranças adicionando agora informações que senão o faziam mudar de opinião o deixava hesitante sobre certos acontecimentos.

Recuava no tempo até o momento anterior à viagem. Pouco antes de partir fora abordado por um mensageiro que o ordenou a esperar numa pequena sala reservada no castelo. A rainha desejava saber dos fatos ocorridos na viagem de retorno do filho.

Incomodado com a situação Edmundo tratou de relatar com brevidade diminuindo a importância dos acontecimentos.

A rainha não se dava por satisfeita, o fez repetir exaustivamente a mesma história e a cada repassada, novas perguntas surgiam e assim naturalmente a história ficava maior e mais completa.

— Está me dizendo que a tal garota recebeu ajuda de Rafael enquanto você consertava a carroça de um monge? Foi para isto que te mandamos, socorrer um monge? — dizia a Rainha decepcionada.

— …. — Edmundo não tinha palavras, ele abria a boca, mas não dizia nada, não encontrava justificativa válida.

— Depois que você e esse tal monge finalmente alcançaram meu filho, o que mais aconteceu?

— O monge intercedeu a favor da moça. Negociou a libertação de todos os prisioneiros de um campo de concentração em troca da vida dos oficias capturados. — repetiu Edmundo enquanto ele ouvia em suas memórias sua própria voz de desaprovação daquilo em que se via tomando parte.

— E para onde vão todas estas pessoas? Sem abrigo, doentes e sem comida? Serão capturados novamente! — analisava o sagaz enquanto centenas de pessoas, numa fila de miseráveis atravessavam os portões dos centros de contenção. — Vocês precisam ao menos de um plano e de provisões.

— Até mesmo o seu parceiro concorda que isso é uma loucura! — falou um dos soldados ainda amarrado.

— Se tivermos que morrer que seja lutando, contra os soldados, contra o frio ou mesmo contra a fome, mas não aqui onde a esperança morre um pouco a cada dia, onde somos obrigados apenas a assistir passivamente toda essa desgraça! — respondeu Lana em seu temperamento habitual.

— Em tempos de guerra, a liberdade é um luxo que custa caro mocinha! — retrucou um dos soldados.

Lana subiu numa rocha e enquanto as mulheres, crianças e doentes passavam ela gritou em voz alta:

— Povo do meu reino! Povo de Bravia! Sou apenas mais uma vítima desta guerra, assim como vocês! — ela fez uma pausa enquanto vislumbrava ao redor e todos pararam e lhe deram atenção. Lana tomou fôlego e continuou. — Alguém aqui acha que seria melhor continuar no campo de contenção esperando pelo fim da guerra? Existe aqui alguém que não esteja disposto a tentar lutar pela sua liberdade? Alguém quer voltar? Nós não temos plano, não temos comida e nem mesmo abrigo! Tudo que estou oferecendo agora é a liberdade, todo o resto terá que ser conquistado!

E o povo olhou calado. Havia desesperança no coração de todos, as mães abraçavam seus filhos, os feridos eram amparados, havia todo tipo de dor na expressão daquele povo. E no meio daquele silêncio fúnebre um homem muito velho apoiado em sua bengala exclamou:

— Nossas casas foram destruídas, a capital foi tomada assim como quase todas as nossas cidades! Dizem até que a família real foi feita de refém, isso se já não estiverem mortos! Sabemos muito bem que agora dependemos de nós mesmos para sobreviver! Não podemos esperar que você faça tudo por nós, você já nos deu a liberdade e por isso somos todos gratos a você!

Lana dirigiu-se para os seus críticos e disse:

— Agora este assunto está encerrado.

— Não há como oferecermos abrigo no Norte, pois muitos morreriam de frio no caminho, eu acho que seria melhor escoltar toda essa gente para o Oeste. — dizia Rafael em seu habitual tom conciliador.

Rafael e Edmundo se ofereceram em acompanhar aquelas pessoas por alguns dias para dar um mínimo de segurança, para que se distanciassem o máximo possível da guerra e alguns dias depois quando cruzaram um grande rio o monge Daniel decidiu despedir-se do grupo, ele pretendia seguir ao sudoeste de barco pelas águas do rio Bravia.

— Minha missão está terminada por aqui. — dizia o religioso.

— O que fará de agora em diante monge? — perguntou Edmundo.

— Estamos há vários dias seguindo sem grandes dificuldades e falta pouco para chegarem em Álbion. Fiz o possível para ajudar este povo, agora preciso me ajudar. Ouvi dizer que além do mar existe um pequeno continente e nele há uma cidade portuária aonde estão construindo um monastério fabuloso. Dizem que será o maior do mundo!

— Tenho certeza que sua presença lá será bem-vinda. — respondeu o sagaz. — Só mais uma pergunta monge.

— Pois não?

— O que pode me dizer sobre aquela garota? — disse se referindo a Lana.

O monge Daniel sorriu.

— Ela é jovem, impulsiva e temperamental, mas ela é muito promissora. Realmente é uma pena.

— Pena?

— É um talento desperdiçado. Ela é jovem e tem muito para aprender, mas sozinha e no meio da guerra, quais são a chances de sobrevivência?

— Não muitas.

— Não gosto de fazer previsões, mas se ela continuar correndo em direção a guerra com essa fúria… também temo pela pequena, realmente é uma pena.

— Não há nada que possamos fazer?

Daniel sorriu novamente, fez uma longa pausa, ajeitou os óculos na face e então respondeu:

— Adoraria leva-las comigo, mas sei que isto não acontecerá, Lana está decidida e aonde ela for Aline a seguirá, por outro lado sou um monge, não um soldado, o meu lugar não é no campo de batalha, o mais provável é que até as minhas chances de sobrevivência se reduziriam drasticamente.

— Que é isso? Palavras pouco animadoras vindo de um monge.

— Se preferir posso dizer que irei rezar por elas. — disse juntando as mãos.

— É, acho que dá na mesma.

— Aquela garota nasceu sob uma estrela trágica e enquanto as cordas do destino estiverem conduzindo-a, tal como um mestre faz com a sua marionete, não sobram muitas alternativas, além do mais você já tem com o que se preocupar. — disse o monge direcionando o olhar para Rafael no alto da ponte.

— Sim, é uma grande responsabilidade.

— Se aceita o meu conselho, convença-as a permanecerem em segurança em Álbion e então leve o garoto para casa o mais rápido possível.

— E o que aconteceu em seguida? — perguntou a rainha.

— Deixamos aquele povo sofrido nas regiões de Álbion e seguimos para o norte.

— Mas sem a espada? — questionou a mulher em tom severo.

— Sim, nós nos comprometemos a reparar a espada da jovem. O príncipe deixou sua lâmina como garantia.

— Aquela espada é um tesouro de família. Realmente preciso lembrá-lo disso? Com tantas formas de ajudar, tinha que deixar justa a glacial para trás? Eric ficará furioso se souber disso.

— Eu tentei argumentar, mas o seu filho, o príncipe estava convicto de sua decisão.

— Está bem, vá para Porto Arpoador atrás do Armeiro. Por enquanto direi para Eric que é glacial que está indo para reparo, será melhor assim.

— O príncipe pode não concordar.

— Por isso é importante que você parta agora e retorne o mais rápido possível para desfazer esta troca.

— Perfeitamente minha rainha. — disse Edmundo se curvando em reverência.

Quando deu conta de si Edmundo havia chegado em seu destino, a região costeira de Porto Arpoador.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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