LANA – Capítulo 35 – A caverna



Quando abriu os olhos Edmundo sentiu uma forte dor de cabeça. A visão era turva, estava escuro. Ele levou a mão ao rosto, mal conseguia sentir a própria face anestesiada pela neve, no entanto quando tocou a nuca sentiu uma dor imensa, seus dedos ficaram molhados.

Com muito esforço ele se levantou, olhou ao arredor e foi em direção da lamparina que apesar de fraca iluminava uma pequena parte do local.

Ainda confuso o homem colocou seus dedos contra a luz e notou que estavam sujos de sangue.

— Por quanto tempo fiquei desacordado?

Ele respirou bem fundo e então ouviu um uivo.

— Audaz? É você? — disse seguindo em passos curtos o som.

Após uma boa caminhada deu de encontro com o animal que ao perceber a presença do seu dono veio festejando em sua direção.

— Está feliz? É eu também estou — disse passando a mão na cabeça do lobo. — É impressão minha ou aqui era a saída da caverna?

Ao se aproximar da parede Edmundo ergueu a lamparina e viu uma grande quantidade de neve bloqueando o local.

— Está fechada. Venha Audaz! — disse seguindo para o fundo.

— Talvez a nossa única saída seja pelo teto — disse o homem removendo o longo casaco que o protegia. — Sabe escalar? Hum eu acho que não. Não é mesmo? — disse encarando o animal que apenas o observava sentado ao seu lado. — Pelo jeito terei que ir eu mesmo — disse escalando novamente o paredão de gelo.

Chegando ao topo ele tomou uma medida preventiva. Primeiro o cabo do machado avançou para fora do buraco, por alguns segundos rodeou e nada aconteceu. Ainda desconfiado, Edmundo encheu o gorro do seu casaco de neve e colocou para fora.

— Virou para a direção errada — gritou uma voz masculina. — Estou vendo o seu boneco de neve! — continuou.

— Quem está aí? — gritou Edmundo.

— Isso importa? Por acaso você me conhece?

— Apenas quero saber se posso sair sem ser atingido novamente por uma pedra!

— Isso vai depender de quanta carne de urso o seu lobo deixou para mim! Aquela presa era minha! Essa armadilha é minha!

— Garanto que eu não tinha a intenção de atrapalhar a sua caça! Mas acredite existe bastante carne ainda lá embaixo!

— Então primeiro me dê a carne do urso!

— A entrada está fechada! Acho que ouve um deslizamento!

— E daí?

— Como quer que eu erga os restos do urso por este buraco?

— Primeiro a carne! Depois eu deixo você sair!

— Eu posso pagar por ela! Quanto você quer?

— Pagar? Eu não quero o seu dinheiro, eu quero o meu urso! E se não me entregá-lo eu vou fechar esse buraco também!

— Certo, certo! Me dê alguns minutos e eu vou ver o que posso fazer! — disse Edmundo.

— Seja rápido! Ouviu?

E assim Edmundo desceu novamente.

— Que sujeito mais estranho. Vamos Audaz, vamos ver se conseguimos encontrar o nosso trenó no meio daquela neve toda.

Enquanto cavava na neve da entrada Edmundo se deparou com um estranho objeto metálico. Curioso ele começou a remover toda a neve em volta do objeto.

Assim que sua superfície estava limpa percebeu que era uma espessa chapa de metal. A sua parte visível tinha em torno de um metro e meio e era toda ornamentada com estranho símbolos.

— Mas o que é isso? — disse perplexo com o que encontrara.

Então sem saber o que fazer Edmundo sentou para descansar e nesse momento notou que uma parte do trenó estava visível, isso o animou e então ele voltou ao trabalho.

Liberando o trenó, Edmundo amarrou as rédeas e com mais algumas cordas ele prendeu uma extremidade no urso, depois subiu novamente pelo buraco e chamou pelo homem.

— Escute! Eu vou jogar uma corda e então é só puxar o animal para cima! Tudo bem?

— Acha que vou conseguir erguer um animal destes sozinho? — disse o homem pegando a corda.

— Eu vou ajudar!

— Não! Não pode sair daí!

Edmundo hesitou, sentiu sua paciência diminuir.

— Você puxa e eu empurro, está bem? — sugeriu a voz de fora do buraco.

E assim foi feito. O homem passou a puxar enquanto Edmundo servia de apoio com as costas. O sangue do animal escorria pelo seu corpo tornando a tarefa ainda mais ingrata. Após uma longa hora de esforço finalmente a dupla conseguiu tirar o animal do fundo da caverna.

Assim que saiu do buraco Edmundo sentou exausto no chão e encarou o homem que o havia prendido no buraco.

— Quem é você?

Era um velho de estatura média, de cabelos grisalhos e barba rala, estava vestindo trapos feitos com diversas peles de animais. Ele nada respondeu.

O velho só tinha olhos para o urso que com uma faca tratava de cortar a pele do animal.

— Seu lobo, ele estragou boa parte da pele do urso! Maldito seja seu animal! — gritou o homem furioso.

— Eu já disse que posso pagar por isso — respondeu Edmundo em tom conciliador.

— Está vendo alguma loja por perto? O que vou fazer com seu dinheiro?

— Posso providenciar comida e roupas.

O homem parou de trabalhar no urso e então levantou-se e disse indo na direção de Edmundo.

— Você é do reino! Não é mesmo?

— Do reino? Naturalmente. Que pergunta é essa? — perguntou Edmundo.

— De qual? — questionou o homem com um sorriso no rosto.

— De Polaris.

— Ah, então você vem do reino da torre de gelo?

— Sim, mas eu não entendi a sua pergunta, isso tudo é parte do reino — respondeu Edmundo.

— Sei, sei! Seu senhor, seja lá como ele é chamado, acha que é dono de todas as terras? É dono de cada pedra, urso, caverna, lobo e homem? É também dono dos céus e da neve que caí? Por acaso é dono de toda esta imensidão vazia também? É dono de cada gota do oceano que banha essas regiões?

— Você é um eremita?

O homem sentou ao lado de Edmundo, jogou a faca no chão e sorriu.

— É talvez eu seja mesmo e talvez você tenha atrapalhado o meu isolamento. Você invadiu minha caverna e seu animal comeu o meu urso, a carne era a minha refeição e a pele a minha proteção.

— Eu peço desculpas por isso, apenas estava procurando por um abrigo. Eu teria saído pelo outro lado se a entrada da caverna não estivesse bloqueada.

— Fui eu que provoquei a avalanche. Seu lobo, ele não me deixou chegar perto de você ou do urso, então eu corri de volta para a entrada e a fechei antes que ele me atacasse!

Edmundo perplexo com o que acabou de ouvir apenas encarou o homem em silêncio.

— Sabe o que é mesmo curioso?

— O que? — perguntou Edmundo desinteressado e se esforçando para manter a paciência.

— Toda essa sua calma. É maior, mais forte do que eu, possui um machado e ainda está agindo desta maneira. Esta terra é de ninguém, a natureza não pede por gentilezas. Você não faz a ideia de quantos eu já enterrei aqui antes de você, você é a primeira exceção, não a segunda eu acho.

— Estou somente de passagem, quero chegar em Porto Arpoador, apenas isso — resumiu o sagaz. — E depois, na minha idade já não anseio tanto por manusear o meu machado.

— E quando chegar na minha idade vai se arrepender por pensar assim.

— Não vejo necessidade do uso de força se podemos chegar num acordo.

— Ah, temos um diplomata aqui! — debochou o velho. — Então porque não tenta usar de sua autoridade para me impressionar? O que você é? Lorde, duque, conde ou alguma coisa assim?

Edmundo jogou um graveto ao longe e sorriu.

— Se eu fosse alguma coisa assim não estaria nesta situação e depois eu acho que tempestades de neve, ursos ou mesmo eremitas não vão se impressionar com títulos de nobreza.

— Até que você é esperto, um pouco lento, mas esperto! — disse o velho gargalhando. — Eu começo a gostar de você.

— É verdade… e ainda me chamam de sagaz. — Edmundo respondeu rindo.

— Então você tem um título — disse o velho que se levantou andou em direção ao urso e pegou a corda. — Venha, vamos içar o seu lobo e assim vocês podem sair da minha caverna.

— A caverna é sua?

— Acho que tenho mais direto a ela do que o seu senhor! Estou aqui a mais tempo do que possa imaginar, aliás como seu senhor pode ser dono de uma coisa que ele sequer faz ideia de que exista?

— Você não é um eremita qualquer, não é mesmo?

— Você, você viu algo de diferente lá embaixo? — desconversou o homem.

— Se está se referindo a chapa de metal, sim eu a vi. O que é aquilo? É seu também?

— Está a mais tempo do que eu ou você aqui, é uma placa de adoração.

— Adoração? Para qual deus?

— Eu pensei que soubesse, se não é do seu reino, então deve ser do outro.

— Outro?  Que outro reino? — perguntou Edmundo intrigado.

— Seguindo para oeste após a encosta, quando chegar próximo ao mar, vai ver o que estou falando.

Depois de mais uma hora de muito esforço içaram o lobo, o florete e o trenó. Edmundo agradeceu mais algumas vezes e se desculpou um outro tanto e então partiu para concluir sua missão.

As horas que se sucederam foram as mais calmas possíveis, não houve tempestades ou qualquer outro contratempo. Finalmente Edmundo chegou no pequeno vilarejo de Porto Arpoador.

O trenó parou em frente da porta de uma antiga casa de madeira. O lobo cansado sentou-se na neve. Edmundo não se mexia.

Uma jovem olhando de dentro de casa saiu para ver do que se tratava.

— Pai! Tem alguém na nossa porta! — gritou enquanto saía para investigar.

A jovem chegou bem perto do trenó e então se aproximou cautelosamente de Edmundo que estava com a cabeça baixa.

— Olá… — disse receosa a jovem.

Sem resposta Edmundo apenas levantou o rosto e deu um passo.

A jovem recuou assustada ao ver o rosto pálido do homem que em seguida desabou sobre ela.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


Fontes
Cores