LANA – Capítulo 32 – Escolta



Como eu havia dito meu irmão, Lana havia derrotado o capitão de um campo de concentração. Por algum motivo foi um duelo, e não uma captura, não tenho certeza dos motivos que levaram o homem a renunciar a sua vantagem, pois estavam em três e somente ele lutou. Lutou e perdeu. Pode ter sido orgulho, pode ser que ele tenha a subestimado por ser tratar de uma garota. O fato é que trocamos a vida deles pela libertação das pessoas que estavam num campo de concentração. Isso foi possível graças à intervenção de um peculiar monge vindo do Leste.

Depois optamos por escoltar aqueles refugiados até as terras de Álbion sendo que ao chegarmos nas margens do grande Rio Bravia o monge optou por nos deixar dizendo a sua parte já havia sido concluída e foi assim que aconteceu:

Enquanto todos, inclusive Edmundo acenavam das margens do rio para o religioso que seguia num bote pequeno rumo ao sul, do alto de uma pequena colina eu, Lana e Aline observávamos de olho na movimentação de possíveis inimigos.

— Até o astuto e prestativo monge foi-se embora — disse eu, aliviado daqueles jogos de palavras irritante que o monge tanto dominava. — Já vai tarde monge chato.

— Você é que é o chato aqui! — disse a pequena Aline me acertando em seguida um chute na canela e correndo em disparada.

— Aline! — disse Lana surpresa com a atitude da amiga.

— Está tudo bem, eu mereci esse chute — disse massageando o local do golpe. — Quem mandou eu pensar em voz alta.

— Ela não costuma fazer essas grosserias.

— Não, realmente não, isso soa mais com outra pessoa.

— O que disse?

— Digo, é admirável ver que ela é leal aos amigos, é uma nobre qualidade.

— Bem, eu não havia visto por este lado — disse Lana estampando um sorriso de orgulho pela amiga.

— Acho que até agora tivemos opiniões bem distintas. Não é mesmo?

— Com certeza. Não conte a ninguém, mas quanto ao monge, eu concordo totalmente com você — falou ela baixinho e sorrindo e então adiantou o passo em busca de sua amiga.

Admirado eu a observava enquanto ela andava em direção da amiga e assim que a alcançou, ela lhe deu um abraço e nesse momento olhou de relance para mim, novamente sorriu e então seguiu em frente. Será que finalmente estava baixando a aguarda a relação a mim?

Preciso dizer que ainda não havia visto ela lutar, mas algo me dizia que eu não me arrependeria se pudesse esperar mais um pouco e no final daquela tarde avistamos ao longe um pequeno comboio inimigo. Vinte soldados do Leste e com eles sete prisioneiros acorrentados uns aos outros. O ímpeto de Lana, apoiado por alguns poucos homens feridos e debilitados fizeram com que nós nos envolvêssemos em mais uma missão de resgate.

Dado o estado lastimável daquela gente, camponeses simplórios e abatidos, não havia outra coisa a fazer senão tomar a frente daquela ação. Lembro de um velho dizer que não era a nossa guerra e que Edmundo e eu deveríamos apenas ficar para trás e cuidar das mulheres e crianças. Eu propus exatamente o contrário:

— Tenho certeza de que um pequeno grupo será suficiente para cuidar deles. Lana e eu faremos o contato inicial. Chamaremos a atenção deles logo a frente e então quero um outro grupo liderado por Edmundo que agirá pelas costas do inimigo iniciando a libertação dos presos. Isso irá desorientá-los. Se puderem entregar qualquer tipo de arma para os prisioneiros, pedaços de pau, pedras, o que puderem, vamos garantir a vantagem numérica.

Lembro do olhar geral de descrença que foi lançado a mim. Era um plano adequado as nossas capacidades e contingente, mas é claro, eles não sabiam das minhas habilidades ou de Edmundo. Em seguida todos se voltaram para Lana buscando algum tipo de censura.

Ela hesitou por alguns segundos e então disse:

— Para mim parece um bom plano, podemos pegá-los assim que fizerem a curva mais à frente na estrada se nos apressarmos. Nós poderemos dar a volta pela colina — disse a jovem me apoiando. — Só espero que simples viajantes saibam se cuidar tão bem quanto elaboram planos.

— Bom, nós sabemos nos defender e além do mais estamos descansados — desconversei rápido.

Deixei que ela fosse na frente e em pouco tempo contornamos a colina e nos posicionamos atrás de uma grande rocha.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — insistiu Lana.

— De onde eu venho todo homem tem que saber se cuidar.

— Dizem que os homens de Polaris são durões, mas isso não é sobre cuidar de si mesmo.

— O que você faria no meu lugar? Se pudesse ajudar de alguma forma, o que faria? Daria as costas somente porque o problema não é seu? Conseguiria passar por isso apenas como um expectador?

— Jamais!

— Então temos mais uma coisa em comum.

— Você está ficando convencido.

— Mais outra coisa em comum.

— O que? Agora eu sou convencida? — perguntou Lana.

Eu nada respondi.

— Vai. Fala. O que você quer dizer com isso? — insistiu Lana.

— Digamos que talvez você exagere um pouco na autoconfiança.

— Eu exagero? — perguntou incrédula.

— Vejamos, garota que luta sozinha com espada cega contra um exército e ainda protege a amiga.

— Mas eu posso. — Aquilo soou de forma tão inocente que eu quase acreditei que sim, ela poderia e ninguém a impediria.

— Pode ser, mas você não pode ser arriscar assim. — Enquanto falava Lana se levantou e prostrou-se bem no meio da estrada me deixando falando sozinho. — É mesmo muito irresponsável.

— Vocês! Soltem os homens e sumam daqui! — gritou Lana enquanto eu fui correndo atrás dela.

É obvio que eles não iriam nos atender. Era hora de colocar em prática o plano. Lana correu em direção dos homens e atacou com incrível ferocidade. Com pouquíssimos golpes ela ia vencendo um a um o pequeno grupo de soldados. Era surpreendente ver aquele estilo singular de luta. Seu florete chicoteava com sua ponta de aço, os soldados incautos eram atingidos na face ou nos punhos, eram postos para fora de combate com incrível facilidade.

De onde veio aquela garota e como ela era capaz de manusear uma arma daquele jeito? De todos os meus anos de treinamento de esgrima jamais vi, seja mestre ou discípulo, com aquele estilo, graça e perícia. Por um momento aquilo não foi uma luta, era uma dança mortal. E eu praticamente assistia tudo enquanto derrubava alguns poucos soldados.

Certamente o comandante inimigo não partilhava de mesma opinião que eu. Ele um homem grande vestindo uma pesada armadura dourada que cobria todo seu corpo. O grandalhão empurrou dois dos seus soldados tomando a frente do campo de batalha.

— Saiam da frente! Estão com dificuldades para lidar com uma garota? Eu vou mostrar a vocês como se faz! — gritou o homem enfurecido de dentro de sua armadura enquanto sacava uma longa e larga espada de sua cintura.

Lana apenas esperava o homem em sua fúria se aproximar. Assim que ele bateu sua pesada espada em sua direção, ela pulou em esquiva e desferiu um potente golpe no rosto do homem que fora absorvido pelo elmo. Aparentemente não havia um ponto fraco naquela armadura para que seu florete pudesse chicotear.

Ele continuava avançando em movimentos lentos, seus ataques chegavam cada vez mais perto e todos as investidas de Lana pareciam ser insuficientes para contê-lo. Para piorar ainda haviam mais dois soldados no meu caminho, me impedindo de partir em seu auxílio.

No meio do combate o comandante conseguiu acertar um golpe em Lana, que foi arremessada e bateu com as costas contra uma arvore, ela gritou de dor e caiu ajoelhada. Me livrando dos meus oponentes eu corri o mais rápido que pude em sua direção.

O homem parou em frente da garota, levantou bem os braços para preparar o golpe fatal. Foi nesse momento que me deparei com um dilema muito comum em tempos de guerra, pois para salvar alguém eu teria que matar um homem pelas costas e para um duelista não há coisa mais desonrosa, mas sejamos franco, eu não o conhecia e não havia tempo para debates, dificilmente um grito seria suficiente para distraí-lo e em tão pouco tempo para se pensar só me restou mesmo cravar a minha espada com todas as forças nas costas do inimigo, a lâmina entrou por entre a juntas da armadura e o sangue começou a escorrer. Ele não gritou, apenas tombou sem vida.

— Você está bem? — perguntei enquanto ajudava Lana a se levantar.

— Desnecessário — disse ela indiferente.

— Não quer ajuda para se levantar? — perguntei sem entender.

— Deixa para lá — disse ela se recompondo e indo em direção ao restante do grupo.

Inconformado fui recuperar minha lâmina que ainda estava presa ao corpo do comandante. Retirei-a e enquanto limpava o fio da arma eu fitei o corpo caído no chão. Isso me fez evocar as palavras de Lana. O que seria desnecessário? Tive um leve arrepio e então analisei cadáver de perto.

Tive um grande susto quando percebi que todos os pontos de articulações foram atingidos, pelo pescoço escorria sangue abundantemente, nem sei como aquele homem ainda estava de pé, de toda forma ele já estava morto antes mesmo do meu golpe.

Olhei novamente para Lana cético de como ela poderia ter feito tudo aquilo sem que ao menos eu pudesse ter percebido.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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