LA – Capítulo 3 – Contato



Passaram duas semanas desde que a prisioneira “especial” chegou. Confinada num cubículo de madeira, pouco se ouvia falar da jovem.

No seu interior, Lana passava a maior parte do tempo sentada. A luz do sol entrava por pequenas frestas, a única maneira pela qual diferenciava o dia da noite. Não que isso importasse. Comida e água, apenas uma vez ao dia.

Com o tempo, a vigilância sobre a garota foi reduzida, ninguém mais lembrava direito do ocorrido, e ela não causava problemas. Esporadicamente um guarda passava pelo corredor e das frestas conferia se ela estava lá, apenas isso.

Na tenda principal do acampamento, o capitão se irritava com as ordens que recebia de seus superiores. “Enquanto a guerra durar, mantenham todos aprisionados, já estamos dominando a maior parte do país, mas ainda existe um foco de resistência na região sudoeste. É importante mantê-los isolados e guarnecidos”.

— Como se esse bando de inúteis e doentes prestassem para alguma coisa! — gritava o capitão com o mensageiro que se encolhia assustado.

Alguns soldados presentes riam discretamente da cena.

— Seria melhor deslocar as tropas a luta, senhor. — disse um oficial de confiança.

— Sim, eu também acho. Estamos perdendo tempo aqui. Por onde avançamos só vejo pobreza e doença. Aliás como a praga tem se alastrado em nossas tropas?

— Registramos poucos casos recentemente, senhor. Nada alarmante. Todos os soldados doentes também estão sendo tratados. — informou o oficial.

— Certo. Por falar nisso, eu já ia me esquecendo, e aquela menina que capturamos no bosque?

— Ainda no confinamento senhor. Para falar a verdade acho um exagero mantê-la onde está.

— Pode ser, mas é melhor assim. Tenho alguns soldados que não estão muito felizes por terem sido confrontados por ela. — disse enquanto entregava uma carta selada de resposta. — Mensageiro, diga ao comando que recebi as ordens e que as seguirei a contento. — em resposta, o homem bateu continência e saiu do local.

Enquanto os oficiais conversavam uma pequena jovem agia longe dali. Despretensiosamente varria e limpava. Cada vez mais, como se nada desejasse, se aproximava inocentemente da solitária. Uma vassourada aqui, outra ali e dissimuladamente ganhava terreno passando despercebida pelos olhos das sentinelas que não viam intenção alguma naquela atitude.

Aline estava bem próxima do seu objetivo. Era um pequeno corredor coberto que ao final dava para um cubículo de madeira. Varria agora o corredor, olhar atento, sabia que se fosse pega poderia perder suas regalias. Era um risco calculado, pois por outro lado queria mesmo provar não só para seus amiguinhos como para si mesma que o desafio poderia ser cumprido.

Aline conversaria com a prisioneira perigosa.

Assim que adentrou o corredor, percebeu que fugia da vista dos guardas, isso por um curto espaço de tempo, até que o mesmo, em sua ronda, desse a volta em torno da área. Imaginou que tivesse ao menos cinco minutos.

A jovem deu uma última conferida e respirou fundo para tomar coragem. Cantarolava alguma música, anunciando a cativa sua chegada enquanto varria displicentemente tentando completar a encenação.

Esperava ouvir algum som, um sinal de aproximação. Tensa, a menina com os olhos arregalados encarava a porta de madeira e apenas o silêncio respondia. Minutos que duravam horas.

Nada. “Será que não tem ninguém aí? ” Pensou enquanto se abaixava próximo a fresta por onde passavam os alimentos para a prisioneira.

“Talvez não tenha me ouvido ou esteja dormindo. Sei lá!” Raciocinava quando bateu com o ouvido contra o solo de terra e viu da fresta uma silhueta sentada e abraçada as pernas ao fundo do cubículo.

— Toc, toc. Tem alguém aí? — tentou Aline de forma amistosa estabelecer um diálogo.

Nada.

— Com licença. Você está me ouvindo? — insistiu a jovem aumentando o tom da voz.

Com muito custo o rosto virou-se para fresta.

— Oi meu nome é…. — e antes que Aline concluísse ela viu restos de comida voando em sua direção, atravessaram o buraco e quase lhe acertaram o rosto.

Assustada Aline caiu sentada para trás. Assim que se levantou partiu em disparada. O primeiro contato foi estabelecido, sua missão não foi de todo um fracasso, se auto justificava.

Minutos depois, Aline, bem mais calma, caminhava em direção ao seu alojamento quando deparou-se com a pequena amiga.

— Você não vai nem imaginar aonde eu estava Maria.

A pequena expressou curiosidade, mas em silêncio aguardou pela resposta.

— Fui trocar amenidades com minha a amiga da solitária.

— Aline! Não me diga que você falou com a prisioneira perigosa?

— Depois que você a conhece melhor, até que ela não parece assim tão perigosa. As correntes foram um exagero eu posso garantir.

— Eu não acredito!

— Pois acredite! Ela até me ofereceu comida. — disse limpando alguns grãos de arroz presos ao cabelo.

— Você é demais Aline! Espere até o pessoal saber disso! — a menina se preparou para sair em disparada para contar a novidade quando de súbito parou. — Ah, sim! Já ia me esquecendo.

Aline arregalou os olhos esperando ter que dar mais detalhes de um encontro que não existiu, então a pequena Maria perguntou:

— Aline, o que é uma amenidade?

A jovem apenas sorriu. Ela adorava quando seus planos davam certo.

Por dois dias o seu feito foi o único assunto entre as crianças. Ela se divertia acrescentando detalhes sempre que alguém lhe pedia para repetir a história que alcançou proporções heroicas.

Tudo corria bem até que um garoto mais velho disse numa roda de amigos: “Aline, eu aposto que você é uma mentirosa! Se vocês são tão amigas, eu a desafio a trazer alguma prova! ”

Aline olhou para o garoto, e o encarou como se o pedido fosse algo trivial e simples.

— Não sei se reparou, mas ela está presa numa solitária, não é hóspede na torre de um castelo.

— Mas eu duvido que ela se recuse a lhe dar alguns fios de cabelos como prova. Todos nós sabemos a cor do cabelo dela, certo? — perguntou espertamente o garoto. De fato, ele havia visto a prisioneira sendo conduzida no dia em que chegara ao campo de concentração.

— Alguns fios? Trago logo uma mecha, se for para provar que o que eu digo é verdade!

— Combinado! E se você não trouxer todos aqui saberão que você é uma grande mentirosa!

— Mas tem uma condição! Se eu trouxer, você limpará os campos no meu lugar por uma semana. Não, por um mês. Temos um trato? — apostou alto Aline na esperança do garoto recuar.

Ele por um breve momento vacilou. Sua certeza lhe escapou por poucos segundos. Por ser mais velho se achava o mais esperto e desta vez se sentiu encurralado. “Será que a menina blefava?” Pensou. Crianças e adolescentes olhavam para ele aguardando uma resposta. Se ele voltasse atrás, perderia agora mesmo. Tomou coragem e disse:

— Certo, mas eu vou querer seu estoque de frutas também! Você tem uma semana Aline!

Os dois apertaram as mãos e selaram a aposta. As crianças se dividiram em dois grupos e foram para lados opostos.

Enquanto uma roda de crianças encorajava a menina, Aline estremeceu por dentro quando se deu conta do que apostara. Seu nome não era tão valioso quanto sua riqueza. Para ela, as frutas a tornava especial, contabilizava diariamente sua riqueza em relação às demais crianças do campo, isso lhe dava o sentimento de nobreza e superioridade. Aline perdeu o sorriso na face quando percebeu que nem mesmo o verdadeiro nome da prisioneira ela sabia, o que dizer da cor do cabelo.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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