LANA – Capítulo 21 – Promessa



Lana havia derrotado o capitão, e o mantinha prisioneiro junto com mais dois oficiais quando Rafael chegou ao anoitecer nos restos da antiga casa de Lana.

— O que faz aqui? — perguntou a ruiva.

— Um monge na estrada pediu que eu viesse a toda velocidade em seu auxílio, mas vejo que foi desnecessário — disse Rafael em seu habitual tom calmo de voz.

— Tão desnecessário quanto a sua adaga — respondeu a moça, dando as costas para o jovem.

— A adaga? O que houve com ela? — disse Rafael seguindo-a.

Lana parou e apontou para a mata.

— Está por aí. Aço inútil! É disso que é feito as armas de Polaris?

Sem entender, Rafael olhou para Aline buscando alguma explicação. A menina fez apenas uma cara de desentendida enquanto ainda enxugava as lágrimas no rosto.

Logo à frente Rafael deparou com uma cena inusitada. Três homens amarrados. Eles estavam ajoelhados, um deles possuía um ferimento na boca que ainda sangrava.

— Escute Lana. Você… você por acaso fez isso, prendeu estes homens? É impressionante! — disse Rafael notando o florete preso a cintura da jovem. — Eu não sabia que você era uma esgrimista.

Naquela noite Lana não disse mais nenhuma palavra. Rafael manteve a guarda e assim a duas jovens tiveram algumas horas de descanso.

No dia seguinte logo pela manhã o som de uma carroça anunciava a chegada de mais dois visitantes. Era o monge Daniel acompanhado de Edmundo.

Assim que desceu da carroça o religioso logo notou a presença dos três prisioneiros. Eles passaram a noite amarrados a uma árvore. Ao notar a cena o religioso ficou zangado.

— O que está acontecendo aqui? Por que estes soldados estão presos? O que a garota está aprontando?

— Um bom dia para você também meu bom monge — respondeu Rafael curvando-se em saudação ao religioso.

— Me poupe da sua ironia. Onde está a jovem guerreira?

— Jovem guerreira? Se está se referindo a Lana, ela está lá em cima naquela colina, mas eu acho melhor esperar por aqui — disse o Rafael enquanto apontava a direção indicada.

— Não se preocupe comigo e sim com a sua amiga! — falou o monge enquanto caminhava apressado.

— Ela não é minha amiga! — gritou Rafael enquanto o monge lhe dava as costas.

“Aquela garota vai acabar se metendo numa confusão muito séria! Esse era o tal assunto que ela ia resolver?” — raciocinava o monge.

Muito ofegante ele concluiu sua escalada. Curvou sobre os joelhos e respirou profundamente. Não era uma subida muito íngreme, apenas o suficiente para cansar o monge que já não estava no melhor da sua forma.

Assim que o ar voltou aos seus pulmões o monge Daniel se endireitou, ajustou seus óculos e procurou por Lana, o que não foi difícil. Ela estava ajoelhada, parecia estar rezando. Na sua frente uma cruz rudimentar e ao lado Aline sentada na grama.

O monge se aproximou lentamente e tocou o ombro da jovem e disse:

— Eu havia preparado algumas palavras para você, e eu ainda as direi, mas não agora.

Durante a manhã o monge, como havia prometido realizou uma cerimônia. Era a despedida dos vivos para Helena, para que sua alma fosse guiada para o paraíso, segundo as tradições dos monges do Leste. Incenso foi acesso, rezas foram feitas, e todos assistiram em silêncio.

Apesar de não partilhar da mesma crença, Lana considerou que aquilo seria o mais digno de uma despedida que poderia providenciar naquele momento.

Todos os eventos recentes se distanciavam na memória da garota, apenas os momentos felizes em que viveu com sua mãe lhe vinham à mente. Era como se a prisão, ver a sua casa queimada, o confinamento na solitária, todos aqueles acontecimentos fossem um pesadelo tão estranho como aquele que tivera com a torre da rosa e a rainha da morte. Até mesmo os encontros fortuitos¹ pelas manhãs com Aline, a elaboração do plano de fuga, a faca, a luta pela liberdade eram eventos que anestesiados pelo momento pareciam de pouco importância.

Nem mesmo a conversa com o monge no lago, a dura recuperação, a caminhada pelas estradas e o encontro com os viajantes, até mesmo o seu recente duelo com o capitão. Nada do que passou lhe ocorria a mente. Era como se tivesse descido do bosque agora, como se acabasse de colher flores e todos ali, Aline, o monge Daniel, Edmundo e Rafael estivesse esperando a sua chegada para a despedida de sua amada mãe.

Lana não chorou, mas também não estava em fúria ou raiva como de costume. Por um momento, naquele dia ela se acalmou. A chama havia parado de arder, ao menos um momento.

Já no entardecer Lana subiu uma última vez na colina para se despedir de sua mãe, somente Aline estava presente. Ao descerem Lana pegou a pequena faca rústica que havia recebido de Aline. Apontou a arma para a amiga e disse:

— Fico contente de finalmente poder honrar a minha parte no trato.

Sem entender nada Aline apenas observava atentamente o braço de Lana se levantando e então a ruiva cortou uma generosa mecha do seu cabelo e entregou para a amiga. Aline um pouco encabulada disse:

— Sabe, não era mais preciso…

— Sim era. E prometo aqui no túmulo de minha mãe que seremos amigas para sempre! Não importa o que aconteça eu guardarei esta faca como prova de nossa amizade e dos momentos difíceis que passamos juntas! — disse Lana esboçando um sorriso de satisfação.

— Sendo assim eu guardarei bem guardado essa mecha de cabelo! Será o símbolo da nossa amizade! — falou Aline empolgada.

Assim as duas desceram a colina. Finalmente estavam livres e esperançosas para confrontar o seu destino, qualquer que fosse ele, pois agora não estavam mais sozinhas. Tinha uma à outra para se apoiar.

Nascia uma amizade verdadeira.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves



1. Fortuito: ao acaso, acidental.

 

 


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