LA – Capítulo 17 – Conversa na fogueira



No meio de uma estrada qualquer do reino de Bravia, Lana havia se deparado com um pequeno acampamento. Ao investigar o local a jovem avistou um rapaz dormindo tranquilamente. Ao deliberar se ela deveria ou não roubar a espada, Aline foi pega por um homem que a mantinha presa pelo braço e o rapaz que dormia agora estava de pé andando em sua direção.

— Quem são vocês? O que querem? — intimou Lana enquanto levava a mão na cintura buscando a pequena faca escondida.

O jovem aproximou-se mais, parou a poucos passos da ruiva e disse:

— Eu é que pergunto, eu estava dormindo tranquilamente. Foi você quem invadiu o nosso humilde acampamento. — falou o rapaz com um sotaque estranho, não era como o do povo do Leste, mas evidenciava que não era um habitante do reino.

— Você não estava “dormindo tranquilamente”, era uma armadilha o tempo todo! — respondeu Lana tentando afastar a atenção de sua mão direita, que de forma discreta já segurava a arma.

— Ainda assim, foram vocês que vieram até nós de forma sorrateira pela mata procurando não sei o que, talvez nos pegar desprevenidos. — relembrou o rapaz em tom calmo.

Lana permanecia em silêncio, calculando qual seria o melhor momento para disparar sua faca. Apesar da pouca iluminação, sua melhor chance seria acertar o homem de meia idade que prendia Aline para que ela pudesse fugir. O problema era a distância que ela se encontrava do jovem. Fatalmente ele poderia acertá-la em retaliação.

Completamente paralisada pelo medo Aline apenas aguardava a decisão de sua amiga enquanto as lágrimas corriam pelo seu rosto. Apesar de não apertar com muita força o seu braço, a mão do homem era firme e envolvia o pulso da menina por completo. Mas como se percebesse o tamanho incômodo que aquilo causava o rapaz disse:

— Solte a pequena Edmundo. Elas não oferecem ameaça para a gente. — disse o mais jovem em tom de tranquilidade. Ele sentou-se ao lado do fogo e continuou: — Olhe para rosto dela e veja o desespero em sua face.

Assim que homem atendeu ao pedido Aline correu em disparada. Ao alcançar Lana, ela permaneceu encolhida em suas costas como se a amiga fosse um escudo e Lana apenas encarava os homens ainda decidindo o que fazer.

— Apesar de que a maior. — o jovem fez uma pausa, pegou um graveto e apontou para a ruiva e continuou a falar: — Essa sim. Só pelo olhar eu sei que ela arrancaria o meu coração com as próprias mãos.

— Mas se não são uma ameaça, são nossas convidadas. Sentem-se. Ainda há um pouco de coelho assado. — completou o outro homem tomando lugar num toco de madeira.

Aline arregalou os olhos e fitou a carne que cheirava bem e parecia suculenta, mas como Lana não se mexia, ela não teve coragem de tomar a iniciativa.

— O que querem? Que eu lhes sirva? — perguntou o rapaz.

— Vamos partir! — respondeu a ruiva.

— Se quiserem podem ir, são livres para isso. — disse o homem mais velho colocando mais carne para assar. — Apesar de que a pequena parece estar um pouco interessada na comida.

As duas então se olharam por um breve segundo e conversaram como que telepaticamente. Aline estava com medo e assustada, mas se pudesse devoraria toda aquela carne, que por sinal havia bastante. Então julgando ser uma boa compensação por todo aquele susto Lana acabou por decidir:

— Minha amiga e eu aceitaremos um pedaço de carne antes de partirmos.

— Perfeitamente, sentem-se. — disse o homem sorrindo com satisfação.

Edmundo era alto e forte, seus cabelos eram grisalhos e a sua barba espessa, apesar do tamanho e das marcas do tempo em sua face, sua fala era gentil e seu semblante era cortês. Talvez por isso Aline comera a carne sem desconfiança, de fato já apresentava ter superado o susto enquanto saboreava aquela comida com incrível deleite. Lana apenas os observava em silêncio.

— Quando foi a última vez que comeu carne assada minha pequena? — perguntou Edmundo admirado com a gula da menina e já entregando outro pedaço para ela.

— Há meses, anos talvez! Quem sabem? Eu estava na dieta das frutas, quando parei com ela, o monge só sabia fritar peixes. — resumiu Aline de forma confusa sem se importar se seria entendida ou não.

— São refugiadas não é mesmo? — perguntou o rapaz.

Aline acenou positivamente com a cabeça enquanto terminava mais um pedaço de carne. Lana então completou:

— Sim. Nós fugimos de um campo de concentração. E vocês?

— Que cabeça! Nem nos apresentamos. — mas antes que Edmundo terminasse o rapaz mais jovem completou:

— Meu nome é Rafael e este é meu amigo Edmundo. Somos viajantes, pertencemos ao gélido reino do Norte.

Ao ouvir estas palavras Lana sussurrou:

— Polaris.

— Isso mesmo minha jovem, somos de Polaris. — completou Edmundo.

— Lana você já esteve lá? — perguntou Aline.

— Não, nunca. Dizem que a cordilheira do Norte é intransponível e que por isso não entrariam na guerra, pois estariam seguros do outro lado. O que fazem aqui?

Por um breve momento fez-se silêncio, e então Aline percebendo que talvez aquela pergunta soasse inapropriada se antecipou a dizer:

— Queiram nos desculpar. Acho que isso não é da nossa conta. — falou enquanto levava um pedaço de carne a boca e por trás desta era possível ver um pálido sorriso amarelo em seu rosto. Em seguida ela cutucou com o cotovelo a amiga e sussurrou: — Ei Lana, você não quer causar um incidente internacional, não é?

A jovem nada disse, enquanto os homens continham o sorriso ao ouvir o que a menina havia acabado de falar.

— Viemos de Porto Celeste. A notícia da guerra de fato nos faz retornar para casa. Mas ainda não sabemos da decisão do supremo de Polaris sobre a guerra. — disse Rafael.

— Supremo? — perguntou Aline.

— É como eles chamam o rei deles. Mas o que você disse é pura besteira, a decisão já está tomada. Todos sabem que exército algum consegue atravessar aquelas cordilheiras. Seu rei está se aproveitando de uma vantagem geográfica para fazer vista grossa aos horrores que estão sofrendo os povos vizinhos! — disse Lana num discurso que mesclava raiva e emoção em sua voz.

— O supremo não está alheio as coisas que acontecem. Eu creio que tudo não seja assim tão simples como você descreve. — disse Rafael em tom conciliador.

De súbito Lana levantou-se irritada e falou aos berros:

— Você não pode convencer alguém que acabou de sair de uma droga de um campo de concentração de que as coisas não são simples! Muito pelo contrário, as pessoas estão morrendo! Me fale qual a complexidade disso?

Os olhos de Lana marejaram, mas sua expressão permanecia a mesma, de pura revolta. Sem palavras para contestar, os homens ficaram em silêncio num misto de comoção e vergonha e então a jovem continuou:

— E como se não bastasse ainda temos que lidar com a doença! Certamente vocês não se envolvem com a gente por causa da guerra, e se escondem com medo da contaminação.

E então sem jeito Rafael tentou mais vez:

— Lamentamos que estejam sofrendo tanto, é certo de que ninguém deve passar por isso.

Edmundo logo acrescentou:

— Veja, no momento o que podemos oferecer é um pouco de comida e abrigo até o amanhecer.

— Se quiserem vir conosco para o norte poderemos providenciar abrigo para vocês. — completou Rafael.

Aline prontamente levantou o braço e questionou enquanto roía um osso:

— Mas e a cordeira? Não está indisponível?

— Cordilheira, Aline! E ela é intransponível. — corrigiu Lana sentando ao lado da amiga já falando num tom de voz mais calmo.

Edmundo conteve o riso e tratou logo de explicar:

— Exércitos grandes minha pequena, não atravessam pelas estreitas passagens subterrâneas que nós viajantes utilizamos, e se tentassem passar um a um seriam literalmente dizimados do outro lado. Atravessar pelas montanhas também é inviável, pois muitos morreriam de frio antes mesmo de completarem o percurso.

Impaciente com toda a situação Lana virou para a amiga e anunciou:

— Vamos embora Aline, acho que já perdemos muito tempo aqui!

— Embora? Você acha que vou conseguir andar quanto com a minha barriguinha toda estufada deste jeito? — falou apontando para o próprio umbigo enquanto soluçava.

— Não sei se você se lembra, mas antes você estava chorando! E agora quer dormir perto destas pessoas?

— Ah! Isso foi antes da carne de coelho. Se eles fossem fazer algo com a gente, já teriam feito! Não acha?

Lana fez uma careta e ponderou por alguns segundos na argumentação da amiga e relutante disse:

— Pois bem. Então trate de dormir logo, pois amanhã partiremos assim que o sol nascer.

— E você Lana? Não vai dormir? — perguntou Aline.

— Daqui a pouco. — disse em tom desconfiado encarando os dois homens.

E assim os quatros passaram a noite no pequeno acampamento, mas somente três dormiram de verdade.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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