LANA – Capítulo 15 – Capitão



Assim como naquele fatídico dia em que Lana foi capturada, um destacamento de soldados seguia por uma das estradas do reino em busca de mais prisioneiros. Liderados pelo capitão o comboio principal seguia em marcha constante até que se depararam com um soldado de outro agrupamento. Ofegante ele contava o motivo de sua urgência, seu olhar assustado revelava a veracidade do pânico contido em suas palavras. Um pequeno grupo de soldados logo prontificou-se a atender as solicitações do homem até que o capitão, que até então não havia dado sinal de que prestara atenção na história tomou a frente. Ordenou que o grupo permanecesse com o comboio. Ele pessoalmente resolveria a situação.

Ele e o soldado desceram por um barranco e adentraram na mata fechada. Levou quinze minutos quando finalmente pararam no topo de uma elevação. Lá embaixo havia uma pequena vila abandonada. Os soldados já haviam levado as pessoas, quase todas.

O soldado apontou para um celeiro que ficava ao fundo da segunda casa.

— Aquele é o local? — perguntou o capitão.

— Sim.

— Não vejo nada.

— Já vai aparecer — respondeu o soldado tentando manter a calma.

O capitão suspirou e olhou um pouco arrependido para o homem ao seu lado, havia passado quase dez minutos e quando estava pronto para repreende-lo ele escutou um som alto vindo lá do celeiro. Um forte impacto de alguma coisa sendo quebrada.

O soldado agachou, e por um reflexo quase levou também o seu superior ao solo.

— Estamos longe, pare com isso — disse perturbado com o medo o homem apresentara.

Fez-se então silêncio novamente.

— Eu vou lá — disse o capitão já descendo a elevação, sem ao menos esperar por uma resposta do soldado que apenas o encarava confuso.

Assim que passou em frente da primeira casa viu alguns soldados caídos próximos a uma parede. Ele não soube reconhecer se eram seus comandados ou se pertenciam a outra divisão. Não era uma cena agradável de se ver. Além dos corpos mutilados o sangue tingia as paredes e o chão.

Passou pela segunda casa e notou mais alguns corpos, eram provavelmente de moradores, a situação era muito parecida com a anterior, pelo odor forte que tomou conta de suas narinas ele entendeu de que se tratava de um evento ocorrido das mortes dos soldados.

Ele começava a entender o receio daquele pobre soldado, e com uma passada mais cautelosa ele seguiu rumo ao celeiro.

Do segundo andar da construção, através de uma portinhola ele viu uma mulher e uma criança. Assustada ela gesticulava para que ele fizesse silêncio.

“É impressão minha ou ela não está com medo de mim?” — pensou o homem curioso com o fato. Ele acenou positivamente e ela então apontou discretamente para o fundo do celeiro.

Com a mão direita repousada no cabo do sabre ele foi ao local indicado. Aos poucos um som repugnante tomava conta do ambiente, e aumentava de intensidade a cada passo que ele dava. Era preciso agora virar a esquina e ele ouvia, era como se algum animal selvagem estivesse ali.

Ao virar ele não viu nada. Ele respirou bem aliviado e então o som ficou mais próximo, havia algo se alimentando no lado de dentro do celeiro. O capitão então deslizou a mão pela parede, calculou a distância e com um forte golpe atravessou madeira. Primeiro veio um grito alto e bizarro, era dor e raiva mesclados de forma animalesca, em seguida o aço do sabre retornou vermelho da fresta feita na madeira e por fim sons de passos apressados.

Repentinamente toda situação culminou num grande estouro na parede. Um homem alto, forte como um touro atravessou o celeiro com facilidade, e agora corria descontroladamente em direção do capitão. O homem gritava enlouquecido, seus olhos fundos e avermelhados com grandes olheiras e em sua boca o sangue escorria abundante. No punho um facão riscava o ar desordenadamente casando dano por onde passava.

Surpreso o capitão recuou alguns passos para trás. Observou bem o ferimento que causara no homem, e logo tratou de repetir o ataque no mesmo local. Para sua surpresa era como se não causasse dano algum ao seu alvo.

O homem o encarava com raiva, mas seu olhar era vazio, suas pupilas estavam pequenas e opacas, gritava coisas sem sentido.

O capitão tomou distância, colocou a sabre a frente e preparou-se para conter o avanço do seu oponente. Um rápido e poderoso golpe, e logo o facão voava pelos ares junto com o punho de seu inimigo.

O homem furioso caiu ajoelhado, constatava ausência da própria mão enquanto gritava em plenos pulmões.

O capitão dava as costas ao inimigo indo em direção ao celeiro confiante de que a luta havia sido encerrada.

— Está tudo bem agora. Infelizmente terei que levar vocês como prisioneiros, mas acreditem em mim quando digo que será um destino melhor do que aquele monstro havia reservado para vocês.

— Aquele monstro era meu marido — disse a moça em tom soturno enquanto abraçava o filho que chorava desesperado com desfecho da luta.

— Afinal, o que aconteceu com ele?

Antes que pudesse responder o capitão notou a face da mulher se contorcendo em pavor, seu olhar indicava que ainda não estava terminado. Não houve tempo para virar, com fúria o homem veio por trás e jogou o capitão ao solo que na queda bateu com a cabeça numa pedra. Atordoado ele mal sentia os golpes seguintes que tomava no rosto e que o impedia se se levantar.

O massacre durou por longos três minutos até que o homem parou. Cessou totalmente seus movimentos e caiu inerte ao lado. Nas costas dois sabres fincados profundamente indicavam o motivo de sua parada.

Ao fundo o soldado olhava incrédulo o que acabara de fazer.

 

***

 

Depois dos acontecimentos recentes o capitão optou por retornar para o campo de contenção. Sentia necessidade de descansar e pôr os pensamentos em ordem. Mal sabia que os problemas não iriam abandoná-lo.

Veio a notícia da fuga de duas prisioneiras, depois soube que três homens foram mortos e que havia outros feridos.

Não foi preciso dizer quem havia fugido, ele já sabia. Partiu imediatamente para a cela da solitária. Conferiu o sangue que ainda sujava a porta e o solo do local, reparou na terra revirada, nos panos que cobriam as frestas da cela. Depois andou em direção as paliçadas e viu as marcas na madeira.

— Como ela conseguiu fazer tudo isso? — perguntou perplexo enquanto tentava remontar todos os eventos descritos pelos soldados.

— Está parecendo que ela teve ajuda de uma menina que fazia parte da limpeza, não está claro ainda qual foi o envolvimento dela, mas estamos apurando — disse um dos oficiais.

— Pensando bem, isso já não importa mais, mesmo que tentem ninguém conseguiria fugir, não como ela fez.

— Um grupo saiu à caça delas pela região, mas após um confronto na mata fechada a perderam de vista.

— Essa garota … tiveram sorte de que ela apenas queria escapar, do contrário teria dizimado o campo inteiro.

— Como assim capitão?

— Ela não matou mais porque não quis. Os três que ela esfaqueou, não foi coincidência, ela matou exatamente os homens que entraram na sua casa. Isso foi vingança.

— Uma garota não pode ser tão ser tão perigosa assim — respondeu inconformado o soldado.

— É exatamente isso que ela quer que você pense. Aquela “garota” recebeu treinamento especial e não foi de qualquer um. Vejo aqui proezas que nenhum desses esfomeados aprisionados ou mesmo a maioria dos meus homens não seria capaz de realizar.

— E quanto as buscas, o que devemos fazer?

O capitão esfregou a mão no rosto, tinha que tomar uma decisão que gostaria de postergar ao máximo.

— Sabe? No fundo eu até gostaria de que ela escapasse. Mas não é isso que vai acontecer. Ela matou meus homens, sejam lá quais foram os motivos. E conseguiu fugir daqui. Eu a trarei de volta, nem que eu tenha que arrastar a sua carcaça sem vida para este campo. Isso também vai servir de exemplo para que ninguém mais tenha a estúpida ideia de fugir, não que eles sejam capazes, mas nos poupará o trabalho de repreende-los.

— Então devo preparar a tropa senhor?

— Não. Envie alguns mensageiros pelas estradas das regiões mais próximas informando que caso a localizem, me notifiquem imediatamente, eu proíbo que confrontem a garota. Deixe isso bem claro na mensagem.

— Sim senhor.

— Aproveite e peça que preparem três cavalos para amanhã.

— Apenas três?

— Sim. Apenas para eu você e mais algum oficial. Tenho um palpite, e se eu estiver certo, nós a localizaremos em breve.

O capitão entrou em seu aposento e sentou na cama, ele finalmente poderia descansar, mas os eventos recentes ainda borbulhavam em sua mente e impedia que se aquietasse. Ele passou o resto do dia pensando no assunto, invariavelmente chegava a conclusão de que terrível era o destino que se desenhava em torno daquelas pessoas que viviam no reino de Bravia.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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