LA – Capítulo 12 – Vigor



Quando abriu os olhos Aline sentiu uma brisa gelada entrando na pequena tenda pela manhã. Ao seu lado Lana ainda dormia e recuperava-se dos ferimentos sofridos. A menina olhou vagarosamente para os lados, e quando restabeleceu plena consciência notou que sequer recordava de ter se deitado ali ao lado de sua amiga.

Veio uma leve preguiça matinal, quase um convite para virar para o lado e continuar deitada por mais algumas horas, mas em vez disso ela sentou-se e respirou fundo. Por um instante olhou fixamente para a jovem ruiva e disse baixinho:

— Ainda está respirando, mas porque não acorda? — ficou ali, gastando um bom tempo neste assunto até que finalmente a fome chegou.

Havia um pano grande estendido no gramado ainda molhado pelo orvalho, e sobre ele alguns pães e diversas frutas frescas. Eram maças, peras, uvas e ameixas. Um pouco receosa Aline pegou apenas uma maçã e um pequeno pedaço de pão, contudo ao perceber que toda aquela comida era para ela, já que o homem não vinha lhe fazer companhia e a amiga não se levantava, acabou por comer até sentir-se satisfeita.

Apesar da generosidade do homem, o humor da menina não estava no seu melhor e então ela resolveu permanecer boa parte da manhã calada, enquanto o monge Daniel se ocupava pescando, cuidando de Lana e meditando.

Por volta das onze horas da manhã a pequena já havia se banhado, pois banho era algo que não vira a um bom tempo e como estavam as margens de uma lagoa, a ideia foi inevitável e assim ela também aproveitou para lavar também seu surrado vestido. Passou o resto do dia enrolada num pedaço longo de pano que o monge providenciou até que suas roupas secassem.

Mais tarde ela resolveu preparar o almoço em retribuição aos favores recebidos. Fez um ensopado com alguns legumes que encontrou na carroça.

– Muito bom o almoço, está de parabéns. — disse o monge.

A garota acenou com a cabeça em sinal de gratidão e só. Pela sua expressão o homem entendeu que era melhor continuar em silêncio, e isso foi tudo o que foi dito naquele dia.

A tarde passou e o estado Lana permanecia inalterado. O monge sentou de costas para a tenda e como uma estátua guardiã feita de pedra ficou assim até o anoitecer e além. Se ele dormia ou meditava Aline não sabia, no entanto, precisou o sol nascer para que ele tornasse a se mexer.

Na manhã seguinte Aline sentiu-se muito melhor ao despertar, não fosse talvez pelos machucados e arranhões nas pernas e braços causados pelo tombo que levou quando fora derrubada da paliçada durante a fuga, poderia dizer que estava plenamente recuperada.

Já a ruiva continuava a desfrutar de um longo sono profundo. Aline levantou e foi verificar novamente. A encarou por alguns segundos, colocou os dedos próximos a narina de Lana e sentiu o ar sair muito lentamente.

Sentia-se menos apática ou talvez fosse a necessidade de obter uma segunda opinião, e então foi conversar com o religioso durante o desjejum.

— Lana continua dormindo. Isso é normal, por que ela não acorda?

O monge que estava sentado no chão permaneceu em sua pose de meditação. Apenas levantou um pouco o rosto e perguntou:

— Quem de fato é ela? Sua guarda-costas, sua protetora?

Aline não tinha uma resposta pronta, começou a gaguejar e por fim não disse nada que pudesse ser entendido.

— Desnutrida, fraca, exausta e se não bastasse tudo isso ela ainda perdeu sangue. Não me admira que seu corpo reclame tanto tempo para se recompor.

— Ela perdeu sangue? Não me recordo dela ter sido ferida gravemente durante as lutas. — Aline arregalou os olhos surpresa com a notícia.

— No braço esquerdo havia um corte. A julgar pelo sangue endurecido no pano que cobria o ferimento eu suponho que tenha ocorrido há algum tempo.

Nesse momento Aline ficou estática, sua memória voltou aos dias do plano da fuga, era como Lana falasse ali na sua frente: — … eu vou atrair a atenção do guarda. Ele vai abrir a porta e então eu conseguirei escapar… — aquele fragmento de memória ressoava tão intenso que ela repetiu baixinho as suas próprias palavras como se revivesse a cena:

— Ainda não entendi como fará o guarda abrir a porta.

— Deixe isso comigo, será fácil. — foram as palavras de Lana. Por fim Aline repetiu em voz alta como se terminasse se completar um quebra-cabeças: — Já tenho a faca e isso é o suficiente.

— Devo dizer que o mais impressionante de tudo é o tempo que ela aguentou. Outro no lugar dela já teria sucumbido. — disse o homem.

Isso porque Aline não entrou em detalhes, ela não contou nada sobre a escalada pela paliçada, não detalhou os combates e muito menos o tipo de tratamento que Lana vinha recebendo.

— Ela realmente demonstrou o verdadeiro vigor do guerreiro. – completou o monge.

— Vigor do guerreiro? – repetiu Aline quase que automaticamente.

— Isso é raro, ainda mais nos dias de hoje em que colocam qualquer um para empunhar uma espada e o mandam para a guerra. Existe uma qualidade onde a pessoa é capaz de concentrar todas as suas energias e esquecer-se da dor, do cansaço, da fraqueza ou até mesmo de ferimentos graves. Tudo para que possa cumprir a sua missão. Este estado de espírito ou de concentração é denominado por alguns de vigor do guerreiro.

— Isso parece incrível! — disse Aline recapitulando mentalmente todos os feitos realizados até então pela sua amiga.

— Sem dúvida, mas há um senão. Após concluir a sua tarefa haverá um preço a ser pago. Dependendo da saúde, do grau do ferimento, ou ainda da duração do esforço aliado à falta de um repouso adequado, a pessoa simplesmente pode morrer.

— Isso não!

— Teremos que esperar. — disse o monge levando as mãos aos joelhos e levantando-se em direção ao lago. — Só o tempo dirá o que irá acontecer com a jovem, agora é hora de pescar.

Aline entrou timidamente na tenda, sentou ao lado da amiga, e disse baixinho enquanto comtemplava o semblante sereno de Lana que continuava a dormir.

— Quem é você? — de repente Aline passou a sentir um grande orgulho pela amiga, um leve sorriso apareceu em sua face e ela se encheu de esperança. — Você vai ficar melhor.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves


 


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