LA – Capítulo 10 – Monge



Descendo por uma colina em uma carroça puxada por um burro, o monge Daniel seguia despreocupado. O sol forte da tarde não lhe incomodava já que ele usava um chapéu cônico de fibras trançadas.

O homem de trinta e oito anos de idade tinha o rosto arredondado, e sobre ele um óculos de armação fina. Gordinho usava uma túnica azul indicando que era de algum templo distante, vindo provavelmente da região nordeste do continente, de algum ponto além do grande Deserto Central.

A estradinha que ele passava era tortuosa, e com o entrono repleto de uma vegetação alta e diversificada. Às vezes algum galho mais baixo de uma árvore lhe atingiam o rosto, ele sequer pensava em esquivar-se. Estava meditando.

O animal seguia em frente puxando seu dono em velocidade lenta porem constante. Na traseira do transporte ele carregava uma grande quantidade de palha e um pouco de comida. Sobre os pés do monge um rústico bastão de madeira.

Assim que concluiu sua descida a carroça passou por um posto provisório construído pelas forças do Leste a fim de controlar o movimento na região. Havia dois guardas em pé olhando a aproximação do religioso.

A carroça manteve sua velocidade e seguiu de forma indiferente. Os guardas se entreolharam e um deles gritou indignado:

— Alto! O que pensa que está fazendo?

A carroça seguiu seu curso sem parar e o monge sequer olhou para trás. Revoltado um dos soldados correu em direção do veículo e tentou chamar a atenção do monge novamente.

— Ei você! Não está me ouvindo? — falava o homem ao mesmo tempo em que corria para não ser deixado para trás.

— Quem você pensa que é? Não vai dizer nada seu monge gordo?

Finalmente o monge Daniel abriu os olhos, com os pés suspendeu seu bastão, com uma das mãos agarrou a arma e bateu de leve na cabeça do soldado.

— Mais respeito! — disse o monge indignado.

—Ora! Como assim? Nós o abordamos amigavelmente e é assim que nos recebe? — disse o soldado massageando a cabeça e ainda tentando manter o ritmo da carroça.

— Você me fez parar minha meditação para responder dúzias de perguntas retóricas? Sou um monge, estou de passagem e estou te ouvindo, mas estou ocupado meditando. E sim eu vou passar por aqui porque os monges têm livre acesso garantido. — desatou a falar o monge com calma e clareza típica dos religiosos, e sem ao menos conter o animal que mantinha sua marcha.

— Ao menos poderia ter nos cumprimentado.

— Eu devolveria a sua saudação se eu tivesse recebido uma.

— Bem, não quero problemas com o senhor, mas preciso saber para onde vai.

O monge bateu novamente na cabeça do homem com o bastão que tentou em vão se esquivar do ataque.

— Outra pergunta retórica! Estou aqui para prestar ajuda humanitária as vítimas da guerra. Você já sabe de tudo isto, é a minha função como monge.

— E esta palha toda? – arriscou o soldado.

O monge apenas o encarou por alguns segundos com o bastão em punho e foi o suficiente para que o guarda sentisse vergonha de si mesmo e desistisse de qualquer outra investida.

E assim o monge Daniel seguiu sua viagem sem ser incomodado, ao menos por enquanto.

 

***

 

No dia seguinte o monge seguia sua jornada por uma outra estrada qualquer. Naquela manhã em especial, um dia tranquilo e de sol agradável, ele havia feito seu desjejum, mas algo que comera não lhe caiu bem.

O andar da carroça lhe provocava certa vertigem, suava frio, seu estomago roncava e por dentro tinha a impressão de ter engolido um redemoinho. Tentava aparentar tranquilidade, afinal era um monge e não se permitia quebrar a postura.

Entretanto após trinta minutos de tortura contínua, em pleno desespero o homem saltou da carroça, amarrou o burro de qualquer jeito na primeira árvore avistada e foi à mata procura de algumas ervas.

Ofegante, ele rastejava com dificuldade, pois a visão e o condicionamento físico não eram dos melhores e enquanto procurava por qualquer pedaço de mato que pudesse lhe render um bom chá, ele deparou com uma cena intrigante. Era uma pessoa imobilizando o braço de outra.

O monge empurrou os óculos com o dedo contra o nariz para enxergar melhor. Então viu que era uma garota que se defendia de um soldado enquanto uma outra, mais nova por sinal, passava correndo entre eles.

O homem com o braço imobilizado largou a espada de dor, a jovem em seguida chutou a perna do homem na altura do joelho e saiu correndo em disparada. O monge impressionado gemeu de dor como se aquele golpe tivesse lhe atingido. Já o soldado caído no chão, gritava por reforço.

Muito cauteloso, o monge Daniel assistia surpreendido por tudo que ocorria e ponderava se deveria ou não intervir.

Mais guardas surgiam no meio da mata e as garotas desciam correndo em direção da estrada. Foi quando o monge se deu conta da direção para a qual elas estavam indo.

 

***

 

Quando um grupo composto de cinco guardas, sendo um deles amparado no ombro por outro soldado, três deles com cortes pelos braços, e um último com uma perfuração na perna conseguiu chegar a estrada, avistaram apenas um monge sentado em sua carroça. Ele olhava em tom sereno para o grupo.

— Monge! — gritou um dos soldados. — Para onde elas foram?

— Vocês se referem a quem?

— Estamos em busca de duas fugitivas perigosas. — disse um outro soldado.

— Fugitivas perigosas? Não que eu me recorde. Como elas são exatamente?

— Trata-se de uma garota acompanhada de uma menina. São extremamente perigosas!

O monge encarou os guardas, um a um. Com os olhos mediu o grupo miserável que estava a sua frente, deu um leve sorriso balançando a cabeça e disse:

— Devo estar surdo. Pensei ter entendido que os senhores soldados corriam atrás de meninas num bosque. Poderia isso ser verdade? A julgar pela aparência de vocês eu deduziria que lutavam contra um bando de homens perigosos, não com duas meninas.

O grupo se entreolhou envergonhado, e após um breve silêncio um soldado mais irritado tomou a frente e disse:

— Vamos embora! Ele não sabe de nada!

— Será mesmo? — e então um dos homens se posicionou ao lado da carroça. Procurou com os olhos algum ponto específico e espetou o sabre no vão entre os estrados. Pelo som e pelo impacto, a lâmina perfurara algo.

O grupo olhou espantado. O monge sequer moveu-se. O soldado confiante girou o lamina como se terminasse de matar seu inimigo. Em seguida puxou o sabre de volta para si.

A arma saíra limpa. Em questão de segundos começava a escorrer algo pela carroça. Para a decepção do soldado era apenas arroz.

O monge empurrou novamente os óculos contra o rosto e em tom sério disse:

— Satisfeito? Vejo que conseguiu matar meu saco de arroz.

O restante do grupo começou a rir e o monge logo emendou um sermão:

— Não quero saber de quem estavam à procura, mas quero simplesmente que retornem a sua importante missão e me permitam seguir o meu caminho. Já tomamos tempo demais uns dos outros!

O grupo logo se calou e a eles restou apenas assistir a carroça partir.

 

***

 

Em pouco tempo o monge, o burro e a carroça sumiram de vista no horizonte.

Passou quarenta minutos de viagem e a carroça fez sua primeira parada, saíra da estrada principal e passava por uma secundária em direção a um pequeno lago. Assim que o burro parou, o monge saltou da carroça, deu a volta e baixou o estrado da parte de trás e disse:

— Já podem sair!

Demorou cerca de um minuto, então os sacos de comida e palha começaram a se mover. Logo Lana e Aline saiam de dentro da carroça.

— Obrigada por nos ajudar! — disse a mais nova.

— Eu não me lembro de ter oferecido ajuda. Queriam arrumar problemas para mim?

— Queria que a gente fizesse o que? E você ia deixar a gente morrer? — começou a disparar Aline, mas conteve-se quando o braço de Lana pousou em seu ombro.

— Não discuta com ele. Está perdendo seu tempo. — disse Lana quase que sussurrando.

— Certo amiga! Pelo menos tudo acabou e vamos para bem longe daqui!

— Não. Ainda não acabou. — disse o monge Daniel tranquilamente enquanto ajeitava os óculos no rosto com o dedo e encarando a jovem ruiva.

— Como assim? — questionou Aline.

— Ele está certo. — gemeu Lana, ela estava exausta e tremula. Tudo ao redor girava, Lana perdia a firmeza nas pernas, tudo foi ficando escuro e logo ela desabou inconsciente no solo.

— Lana! — gritou Aline assustada enquanto tentava acudir a amiga.


Autor: Breno Lima   |   Revisor: Matheus Esteves



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