FNR – Capítulo 64 – O início da tempestade (1)


O vento está forte, as folhas balançam em meio ao poder intimidante do vento, mesmo as imponentes árvores de Lemur, se curvam diante desse possante sopro frígido.

O céu cinzento mostra que o clima não encontra satisfeito com essas terras. O frio traiçoeiro do outono deu suas caras, nuvens carregadas são a mensagem lógica de que uma tempestade se aproxima.

Uma gota d’água cai do céu cinzento, a mão grande e poderosa coberta com branco da pelagem alba que a revestia se estendeu gentilmente e acolheu aquela pequena gota. A insignificante gota d’água explodiu naquela palma branca espalhando-se e depois escorrendo por entre aqueles dedos peludos.

Um majestoso bestial observa a água insignificante secar entre os pelos de sua poderosa mão, ao fechar sua palma o bestial contempla o céu cinzento com seu punho cerrado.

Esse bestial tem como sua marca a forte ligação com sua contraparte animal, medido mais de dois metros e meio de altura o bestial respirou fundo ao notar a hostilidade do clima.

Todo seu corpo é coberto por uma invejável pelagem branca, esse bestial distinto é um membro do raríssimo clã dos ursos brancos. Assim como todo o bestial de sangue puro suas características animalescas são muito aparentes e seus traços são tão marcantes que diferenciá-lo de um urso branco normal seria difícil.

A face deste distinto bestial é como a cabeça de um urso polar sem muitas diferenças, suas características humanóides se resumem a sua envergadura bípede e suas mão e pés, ainda que sejam peludas como as patas de um urso normal.

Sua presença esmagadora em si já chama a atenção de todos, contudo é preciso ressaltar que essa não é a marca que mais chamativa que se distingue nesse misterioso bestial do clã dos ursos brancos, há ainda outro fator marcante nele.

O imponente urso branco trajava uma grossa armadura metálica, essa armadura cobria todo o dorso dele deixando poucas falhas a serem exploradas naquela região, em suas costas um imenso machado de lâmina branca mostra o quão feroz pode ser esse guerreiro.

O urso branco suspirou sozinho e disse para si mesmo enquanto encarava aflito o céu cinzento:

— Aaaah! O tempo não parece satisfeito com nossa presença, pergunto-me se o lobo negro é querido pelos deuses.

Em meio a sua reflexão, o grandioso bestial baixou sua cabeça com seus olhos fechados, como se estivesse pensando profundamente em suas ações.

Por de trás de sua imensa silhueta surgiam três sombras, contudo suas formas foram apagadas pela presença esmagadora do majestoso urso a sua frente, pois sua altura no mínimo era duas vezes mais que o maior deles.

Os três recém-chegados vestem trajes furtivos que ofereciam ocultação das suas faces devido a seus capuzes e mantos longos.

O primeiro deles se aproximou e com um gesto respeitoso colou seu joelho ao chão mostrando subordinação ao grandioso bestial urso a sua frente.

— Mestre Bertis, trago uma mensagem do senhor Ranpa.

O urso branco se virou e defrontou os três, com um tom imperativo ele ordenou:

— Prossiga.

O lacaio acenou com sua cabeça e começou a falar:

— O grupo de simpatizantes da predatory está reunido em um vilarejo rural próximo aos arredores de Harp, lá há cerca de duzentos bestiais aguardando sua chegada mestre.

Bertis andou para frente pensativo, as ações de Ranpa não condizem com suas articulações habituais, em outras palavras, o grande urso simplesmente não confiava em Ranpa, por esse motivo, em seus pensamentos ele não conseguia deixar de pensar que havia algo a mais, um objetivo oculto no qual Ranpa estava focado.

Bertis, colocou sua mão no queixo pensativo, isso chamou a atenção de um de seus lacaios que se aproximou e assim como o primeiro se ajoelhou.

— Mestre Bertis? Há algo lhe incomodando?

Bertis suspirou, mas não negou a responder à pergunta de seu lacaio:

— Hmmm! Não posso negar que não esteja desconfiado, afinal é de Ranpa que estamos falando.

O terceiro que até o momento manteve-se imparcial, finalmente se posicionou com um questionamento, embora não mostrasse o respeito a Bertis como os outros dois:

— Não entendo sua aflição, Ranpa é um lixo, mas ainda é um membro ativo da Predatory, digo mais, ele é nosso patrono, se não fosse seu patrocínio nunca teríamos feito frente contra os objetivos da realeza.

Bertis sorriu um pouco e concordou:

— Sim! Você está certo, mas Ranpa não é um revolucionário ou um político, ele é um comerciante, ou seja, uma criatura que se move pela ganância e pelo lucro. Não posso deixar de agradecê-lo pela ajuda que tem oferecido, mesmo assim não pretendo idolatrar tal homem, pois diferente de nós quatro, ele não tem um ideal ou princípios, apenas se move pelos próprios objetivos gananciosos, em outras palavras, somos apenas peões descartáveis que ele utiliza em suas articulações.

O primeiro, que ainda estava ajoelhado pergunta:

— Mestre, apenas ordene, e esse servo fará sua vontade.

Bertis sorriu diante da devoção fiel de seu lacaio, em seu íntimo, o grande urso ficou feliz em saber que ainda conta com servos fiéis e capazes.

Com um rosto sério, Bertis ordenou:

— Investiguem Ranpa, descubram qual é seu real objetivo, quero também saber se ele tem alguma conexão com o aparecimento de alguns membros da família real de Deva em Lemur, sejam discretos e me informem qualquer mudança.

— Sim! — os três respondem ao mesmo tempo.

Com o brandir de seu braço, os lacaios de Bertis, somem de sua frente como vultos.

Mais uma vez o urso branco encara o céu cinzento, de alguma forma seus instintos diziam que algo maior estava para acontecer.

Capital de Lemur, Bérius:

Chovia forte. A água da chuva se acumulou no chão criando assim grandes poças de lama, era impossível caminhar nessa estrada sem ter as botas atoladas no solo amolecido, mesmo assim alguém ousava enfrentar esse clima hostil.

Em meio a forte tempestade, alguém se aventurava corajosamente enfrentando a chuva e o vento sem temer. A pessoa em questão cambaleava com seu corpo ao enfrentar a força insana da chuva e do vento. Ainda que trajasse roupas grossas que a protegia desse clima perigoso essa pessoa demonstrava de forma visível sua silhueta com feições femininas.

O horário não era superior ao meio dia, porém o céu salientava o cair da escuridão de um final da tarde.

A pessoa misteriosa continuava seu percurso, mesmo em meio às dificuldades que o tempo lhe proporcionou.

Caminhando sem descanso, essa misteriosa pessoa avista seu destino logo a frente, um alívio instalasse em seu coração ao perceber que sua árdua jornada chegava ao fim.

Em sua frente havia uma pequena passagem estreita, nas paredes rústicas de um rochedo, se ela não fosse delgada o suficiente, não poderia se espremer por esta fresta, felizmente a estranha pessoa atendia bem o requisito, portanto foi fácil forçar passagem.

Finalmente dentro, ela olha bem seus arredores e percebe que o interior da fenda não condiz com seu exterior, pois um enorme espaço estava a sua frente. Não era como uma gruta abandonada, pelo contrário, o espaço na verdade foi bem elaborado.

O lugar não chegava a ser aconchegante, mas não podia se subestimar a aparência bem cuidada, tendo em conta sua entrada.

As paredes dessa gruta foram habilmente esculpidas, havia tochas iluminando todo o espaço, a estranha figura chegou à conclusão que a entrada simples era apenas uma fachada para esconder o interior desse lugar.

Incomodada com suas vestes ensopadas com a água da chuva a pessoa se dispôs de seu capuz revelando seu rosto.

Uma linda donzela revelou seu rosto, usando seus braços, ela retirou das grossas vestes seus cabelos negros que eram longos o suficiente para alcançar a metade das costas.

A garota é uma bestial do clã canino, suas orelhas caninas felpudas balançavam em felicidade depois de se livrar do capuz.

Sem perder tempo a garota se livra de seus trajes molhados, felizmente ela vestia suas roupas casuais por debaixo de tanto pano.

O som de passos se aproximando quebram o silêncio e as orelhas caninas da garota ficam eretas prestando atenção em quem viria a seu encontro.

Felizmente a garota já tinha uma vaga ideia de quem seria, por esse motivo não agiu tão hostil em relação a aproximação súbita.

Em um corredor mal iluminado a garota tem o vislumbre de uma silhueta que se aproximava lentamente, seus olhos eram acostumados com aquela forma, por isso foi fácil para garota saber de quem se tratava.

Em um suspiro farto, a garota indagou:

— Não há necessidades de vir me receber todo a vez em eu apareça aqui Kiel.

Um bestial canino de meia idade se mostrou no meio das sombras, sua envergadura modesta realçava sua forma elegante de andar, com uma pelagem castanha clara o canino de olhos negros abriu um sorriso gentil e respondeu com um arco gracioso:

— De forma alguma senhorita Leslie, é meu dever como servo fiel do clã Cannis mostrar o devido respeito a um membro da família principal. Não se incomode comigo senhorita, pois é uma honra servi-la a todo o momento.

Leslie sabia que era inútil argumentar com esse homem, embora sua atitude servil fosse muitas vezes irritante, sua devoção e lealdade faziam desse contratempo um pequeno detalhe sustentável.

Kiel vestia-se como um mordomo típico do reino humano, trajando um meio-fraque negro com golas brancas, uma calça negra com sapatos de couro, parecia um nobre, embora sua gravata borboleta vermelha desse a esse homem um toque elegante, ele ainda não parecia combinar com o ambiente onde se encontrava no momento.

Leslie preferiu mudar sua abordagem e ir direto ao assunto:

— Kiel, como está o tratamento dos prisioneiros?

Kiel sentiu um tom levemente sério na pergunta de sua mestra, por esse motivo respondeu sem rodeios:

— Se a senhorita se refere ao gnoll peço que fique tranquila, pois o mesmo é tratado com a melhor das cortesias. Claro que os demais prisioneiros que vieram com ele partilham do mesmo tratamento especial.

Leslie suspirou aliviada ao escutar o relatório de Kiel, contudo o homem ousou perguntar:

— Senhorita Leslie, sei bem que o mestre Aurus ordenou tratamento especial para esses prisioneiros em específico, contudo fico incógnito com o motivo, poderia me dizer? Claro, se isso não for um incomodo.

Leslie sabia bem que Kiel é um servo fiel que servil ao clã Cannis por anos, por esse motivo não achou necessário ocultar nada.

— O gnoll tem uma ligação com os três aventureiros adamantiun que estão na capital, o tratamento justo foi uma exigência deles, uma vez que eles deixaram claro que ele é um amigo importante.
Kiel juntou suas sobrancelhas grossas e murmurou amargo:

— Argh! Mestre Aurus como sempre se metendo em situações ridículas — Kiel coloca a mão em seu rosto preocupado — Espero que ele fique bem, embora não saiba o que se passa em sua mente.

— Não se preocupe Kiel, meu irmão sempre age pela lógica, ter feito esse prisioneiro tem um argumento profundo ou pelo menos um fundamento lógico, embora também não tenha ideia de seus pensamentos.

Kiel admirou a confiança que a jovem tem por seu irmão mais velho, então resolveu mudar o assunto:

— E então senhorita, ao que devo a sua visita?

— Ah! Sim, vim verificar pessoalmente os prisioneiros, também pretendo trocar algumas palavras com o gnoll, seria problema para você?

Kiel fez um arco respeitoso e respondeu:

— De modo algum, senhorita. Fico feliz que venha sempre a esse esconderijo esquecido pelo nosso clã.

— Ahahahahahaha! É verdade que não fazemos tanto uso deste lugar quanto antigamente, contudo ele nunca foi esquecido ou deixou de ser importante para o clã Cannis. A confiança que exercemos em você nos faz tranquilos quanto a proteção deste local.

— Suas palavras animam meu coração senhorita, entretanto gostaria de uma visita de seu irmão de vez em quando.

— Quanto a isso não se preocupe, meu irmão aparecerá em breve em algum momento deste mês, uma vez que ele pretende falar pessoalmente com o prisioneiro.

— Oh! Essa é uma boa notícia.

Kiel percebe que estendeu muito o diálogo e rapidamente pegou as vestes molhadas de sua senhoria:

— Deixarei suas vestes secando ao fogo, por favor me acompanhe senhorita!

— Sim — respondeu Leslie com um sorriso.

Kiel começou a andar em direção a um corredor mal iluminado e se desculpou:

— Perdoe-me pela penumbra senhorita, mas é que essa parte da caverna fica úmida durante as chuvas, por esse motivo torna-se inconcebível manter a iluminação plena.

— Entendo.

Logo a frente uma porta de carvalho rústico barrava a caverna, apesar de ser uma porta de madeira, forçá-la provaria ser uma tarefa árdua mesmo usando fogo, pois a mesma porta era muito bem
trabalhada e fortificada. Os detalhes talhados a mão eram o emblema que representava o clã Cannis, um escudo com duas alabardas cruzadas.

Kiel abriu a fechadura mostrando um salão bem cuidado pelo outro lado, como um ato cavalheiresco ele permitiu que sua senhora passasse primeiro em seguida fechando a porta após entrar.

A sala era bela, possui uma luminária de prata em seu teto, coisa inimaginável tendo em conta que este lugar basicamente é uma caverna, o chão foi pavimentado e cuidado assim como as paredes, de certa forma era difícil crer que este local de fato era uma caverna.

Haviam móveis funcionais, não chegavam a ser luxuosos, mesmo assim tinham uma boa aparência, provando que tanto sua fabricação quanto os devidos cuidados dados a mobília foram de primeira.

Kiel que caminhava graciosamente, passou a frente de sua senhorita e puxou uma cadeira perto de uma mesa redonda de quatro lugares. Leslie aceitou com agrado a oferta de seu servo e se sentou.

Curioso sobre a situação em questão, Kiel resolveu se informar mais sobre os prisioneiros com quem no momento tem a função de carcereiro.

— Senhorita Leslie permita-me, poderia me dizer ao menos sua opinião sobre o interesse do mestre Aurus sobre o Gnoll cativo?

Leslie suspirou fundo e conversou:

— Bem, eu não sei o que se passa na mente de meu irmão, conhecendo ele diria que é algum de seus pensamentos a longo prazo, embora não consiga enxergar as coisas como “um todo” como ele, suspeito que tenha alguma correlação com o jovem aventureiro novato que vem chamando muita atenção em Lemur.

— Oh! Lobo negro Ferus.

— Hmm! Mesmo você que vive isolado neste lugar já escutou sobre ele? De fato, esse jovem vem chamando a atenção.

— Ahahahaha! Embora viva nessa situação, sempre procuro me manter atualizado sobre os assuntos exteriores. Claro que a história do mestiço que matou Laruk, derrotou Jù Yuán e venceu Darts não ficaria fora do meu escopo.

— Isso é verdade Kiel, esse rapaz que saiu de lugar nenhum é um mistério, o pior é que ele não aparenta a idade que tem, apesar de parecer mais velho como um jovem de dezoito anos, sequer atingiu a maioridade. Ferus tem apenas quatorze anos.

— Hou! Escutei sobre isso, mas achei que fosse um boato exagerado!

Leslie abriu um sorriso irônico, colocando o cotovelo sobre a mesa e em seguida descansando a face sobre sua mão, Leslie comentou:

— Nada que escutar sobre ele é um exagero, o garoto talvez seja tão poderoso quanto Alba Lepus.

Kiel mostrou um olhar incrédulo e em seguida colocou as roupas ensopadas de Leslie para secarem ao fogo da lareira ali próxima. Leslie notava uma certa ironia na face de Kiel, por esse motivo ela perguntou:

— Minha comparação pareceu exagerada na sua opinião, Kiel?

— Com todo o respeito senhorita, creio que seja absurdo comparar um novato qualquer com Alba. Afinal a coelha branca é considerada até mesmo por aventureiros da liga adamantium como uma futura integrante entre eles. Desculpe-me pela sinceridade, mas não acho que exista um bestial que se iguale a Alba Lepus, ainda mais um mestiço de origem duvidosa.

Leslie entendia bem o questionamento de Kiel, se ela em pessoa não tivesse contemplado o lobo negro com seus próprios olhos, certamente não acreditaria em nenhuma descrição feita por terceiros.

Nesse momento, Leslie teve um breve vislumbre de quando conheceu Alba pela primeira vez, a coelha branca não passava de uma criança de doze anos, mesmo assim sua presença era aterradora, aqueles olhos selvagens encarando tudo ao seu redor como hostil arrancou de Leslie suspiros preocupados.

A coelha branca era arisca e insociável, até o momento em que Jedhar se dispôs a cuidar da menina. Jedhar era bom em cuidar dos outros, o tempo passou e esse relacionamento evoluiu ao ponto da velha pantera adotar a pequena Alba.

Para Leslie, o ponto foi a sensação que sentiu quando viu Ferus pela primeira vez, a mesma sensação que sentiu de Alba, a atmosfera intimidadora que parecia engolir tudo a sua volta.

Com um sorriso amargo, a jovem devolveu os argumentos de Kiel com uma curta frase:

— Você entenderá se o ver.

Kiel, que até o momento ficou com seu rosto inexpressivo, mostrou uma rara saliência em sua testa levantando as sobrancelhas, pois não é do feitio de sua mestra falar tanto sobre um determinado alguém, isso o fez no mínimo curioso sobre o tão falado lobo negro Ferus.

Leslie não quis estender esse assunto, então o finalizou perguntando sobre o que era importante no momento:

— O gnoll, como ele está?

— Oh! Para um gnoll ele é assustadoramente calmo, por sua forma polida de falar diria que esse ilustre prisioneiro é um estudioso ou algo do tipo.

— Estudioso? Porque pensa dessa maneira Kiel? Pode me explicar?

Kiel coloca sua mão sobre o queixo e fala com um tom casual:

— Os três prisioneiros que vieram juntos a ele pareciam bem tensos, mas ele conseguia mantê-los calmos explicando fatos e contando algumas estórias de seu passado, claro que ele não disse nada relevante, o que me chamou a atenção foi a forma na qual ele explicava, como posso dizer… ele é muito didático, como um professor adotando uma conduta docente. Sei que parece bobagem, todavia sua bagagem instrutiva me leva a crer que ele cresceu em um ambiente rico em informações, ou conhecimentos.

Leslie nunca subestimou os apontamentos de Kiel, já que ele era alguém capaz de enxergar detalhes que mesmo seu irmão as vezes deixava escapar, contudo ela não enxergava utilidade para essas informações ainda.

Pensativa, Leslie decide falar pessoalmente com o gnoll e tirar suas dúvidas, talvez ela conseguisse adiantar algumas informações úteis para seu irmão Aurus.

— Kiel, leve-me até o gnoll!

— Certamente senhorita — respondeu Kiel com um arco elegante.

Guiada por Kiel, Leslie era levada até a parte mais profunda da caverna, um lugar usado como masmorra.

Embora a atmosfera não fosse a melhor, o local estava bem cuidado e iluminado com tochas.

Haviam sete celas fortemente gradeadas, porém apenas quatro estavam ocupadas.

Leslie passou pelas primeiras celas e viu dois jovens bestias do clã dos leões, no começo ela se impressionou, mas não foi difícil perceber que se tratavam de mestiços.

Norne e Gruvus eram os nomes destes bestiais, ambos mostraram um olhar intimidador. Leslie seguia seu caminho guiada por Kiel, a cela seguinte ela viu como prisioneira uma jovem onça, também mestiça.

Leslie parou na frente da cela dessa bestial e perguntou:

— Qual é o seu nome?

Com um olhar áspero a jovem onça respondeu em um tom rancoroso:

— Quando se pede o nome de alguém é normal que a pessoa primeiro se apresente.

Kiel suspirou farto, mas não podia retrucar a prisioneira, pela regra da etiqueta ela estava completamente certa.

Leslie deu um breve sorriso e admitiu sua falha:

— Perdão, meu nome é Leslie Cannis, agora que me apresentei por favor diga-me seu nome.

— Hunf! Chamo-me Tânia, qual é o seu assunto comigo?

— Nenhum, apenas fiquei curiosa sobre você, afinal parece que acompanhou o gnoll até esse lugar, por que motivo iria tão longe para alguém assim?

Tânia abriu um sorriso irônico e respondeu cheia de sarcasmo:

— Ahahahaha! Você é uma daquelas garotinhas que teve uma vidinha fácil não é mesmo?

Leslie não entendeu o porquê, mas as palavras de Tânia a fizeram irritada, de fato Leslie não teve uma vida difícil, isso porque seu irmão Aurus sempre foi superprotetor com ela.

Kiel percebeu a expressão amarga de sua mestra, por isso decidiu interferir findando o assunto:

— Senhorita, o gnoll está por aqui.

Tânia exibia em sua face um sorriso zombeteiro, todavia Leslie era madura o suficiente para ignorar a provocação.

Kiel continuou seu caminho e Leslie o acompanhou, na parte mais profunda da masmorra Leslie confrontou a cela do gnoll.

O gnoll estava sentado no chão com suas pernas cruzadas como se estivesse meditando.

Leslie pergunta a Kiel:

— É esse?

Kiel balança a cabeça confirmando.

A primeira impressão de Leslie não foi a melhor, tudo que ela enxergava era um bestial velho sem nada de especial, Kiel percebeu o ar de deboche no rosto de sua senhorita, por isso a informou:

— Esse é Hiekf Gnoll, o bestial que venceu Aufis em um confronto direto.

Leslie já havia escutado essa história, mesmo assim achou difícil que alguém tão delgado pudesse ter feito tal façanha, sendo claro, a garota duvidava da veracidade dessa informação.

Kiel, por outro lado era um homem vivido e com muita experiência de vida, jamais iria subestimar alguém o julgando por sua aparência. Uma outra coisa que deixava Kiel inquieto em relação ao gnoll, ele não conseguia pôr em palavras, mas era um tipo de sensação estranha, uma sensação amistosa que vinha do gnoll.

Kiel nunca em sua vida baixaria a guarda perto de um suposto inimigo, mas nesse caso ele temia que de alguma forma cometesse um vacilo.

Em seu íntimo, Kiel pensou:

“Não consigo explicar em palavras, mas acho que é essa “atração” que faz esse gnoll perigoso, um inimigo que não parece ser um. Mestre Aurus certamente viu através disso, contudo receio que haja mais sobre esse bestial…”

Hiekf que finalmente abria seus olhos, encarava Leslie e Kiel com um sorriso cordial.

— Oh! Se não é a pequena irmã de Aurus, se não me falha a memória seu nome é Leslie, não a vejo desde a vez que a aberração de espinhos foi derrotada.

Leslie deu um passo à frente e falou:

— Deixe as apresentações de lado! Vim para que me desse as informações que meu irmão precisa, coopere!

Hiekf deu as mãos com um riso sarcástico e respondeu:

— Informações? E o que quer saber menina?

— Quero saber do motivo de você e Ferus terem atiçado a fúria da Predatory a esse ponto em que estamos, não sei se você sabe, mas a nobreza e a realeza estão a ponto de uma guerra por causa de vocês dois.

— Ahahahahaha!

— Qual é a graça Gnoll?

— Não… é que suas acusações infundadas são demasiadamente hilárias, desculpe-me, mas foi impossível conter os risos.

Leslie apertou seu punho ofendida, Kiel suspirou amargamente e tomou a frente de sua mestra.

— Senhor Hiekf, gostaria que me disse suas palavras, a senhorita Leslie é uma importante membra do clã cannis.

Hiekf se levantou e respondeu:

— Para que eu possa tomar seu argumento, primeiro me responda o porquê de me prenderem aqui, do meu ponto de vista não fiz crime nenhum, sou um aventureiro registrado e a morte de Aufis foi um ato de legítima defesa. Por mais que sua senhorita seja um membro importante de um clã respeitado, não devia ela tomar a responsabilidade de um ato descarado de seu irmão mais velho?

Leslie perdeu a paciência:

— Como ousa! Tudo que meu irmão tem feito é em nome do melhor para o país e…

— Tudo que seu irmão tem feito é colocar um curativo em uma ferida séria, Aurus age com base em evitar problemas, mas talvez evitar o problema não seja a solução.

O rosto de Leslie distorceu de fúria.

— O que está tentando dizer?

— Estou dizendo que seu irmão acha que pode controlar tudo e a todos nas sombras com suas articulações meticulosas, todavia eu duvido muito que consiga, administrar um país por debaixo dos panos não é para qualquer um, também temos o rei Darbas que não é tolo…

Leslie encarou Hiekf com um olhar severo, mas o gnoll não se intimidou e falou mais:

— Téo Linz já percebeu o plano de Aurus!

Escutando isso, Leslie clicou a língua e saiu dali às pressas, com isso Hiekf concluiu aquilo que suspeitava, Téo Linz e Aurus são inimigos.

O Gnoll pensou:

“Como imaginava, Téo Linz quer parar Aurus de alguma forma, mas o rei está cego pela confiança plena que tem no cão negro”

Hiekf, massageia sua testa preocupado e continua seu raciocínio:

“Droga! Ficamos nas mãos de dois malditos articuladores. Isso não vai ficar assim, vou dar o troco nesses malditos, vou ensinar a eles como um articulador de verdade deveria agir”

— Fufufufufufufu!

Rindo sozinho, Hiekf começou e traçar seu plano.


Autor: Marcus | Revisor: Heaven

CQ: Lacaio



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