FNR – Capítulo 23 – A cidade de Harp (2)



Foi um longo dia, mas conseguimos limpar o maldito cômodo, apesar de parte do piso quebrado pelo mau uso ficou bem limpo.

Eu limpei minha testa e declarei:

— Hunf! decente!

— Urgh! Apenas decente? Você é muito exigente com limpeza, jovem!

Eu me virei e vi Hiekf acabado em um canto, a senhorita Stela já havia ido a muito tempo, eu pedi para deixar conosco, pois ela tem seu negócio para cuidar, apesar disso, sua ajuda foi uma mão na roda.

— Ei Hiekf! Vamos! Pare com preguiça!

— Ora! Me dê um desconto jovem lobo! Eu não tenho a sua juventude ok.

O problema era se livrar de todo o lixo, basicamente toda a propriedade dos lobos cinzentos que botei para correr era porcaria, mas tive uma ótima ideia.

{Espaço dimensional}

Eu abri meu espaço dimensional e o fiz passar por todo o local tragando a sujeira e lixo deixado pelos idiotas.

Hiekf grita:

— POR QUE VOCÊ NÃO FEZ ISSO NO COMEÇO!

Eu o encaro sem levá-lo a sério.

— Não diga besteiras! E quanto ao cheiro horrível? De um jeito ou de outro temos que limpar!

Hiekf fez uma cara vazia e reclama:

— Você é bem fresco quando o assunto é limpeza né?

A acusação dessa hiena me ofendeu.

— Tsk! Higiene não é frescura sua hiena de merda! Só porque eu tenho uma cauda e orelhas de lobo não quer dizer que tenha que feder como um!

Hiekf me encarou de uma forma irritante e dá uma sugestão:

— Por que não usa sua magia para dar um jeito nisso?

— Hã? Como vou tirar a sujeira e o cheiro com minha magia?

— Affs! Ferus! Pense sempre, quando puder fazer uma coisa com sua magia, você geralmente pode fazer o contrário também!

Eu fiz meu habitual rosto de “não entendi nada” para Hiekf.

Ele suspirou e explicou:

— Veja rapaz! Você não pode misturar as substâncias com a sua magia de {Sintetizar}?

Eu começo a entender onde Hiekf quer chegar.

— Está dizendo que posso separar as substâncias também?

— Exatamente!

— Hiekf! Eu sempre quis perguntar, mas como você pode ser tão inteligente? Sério! Você é a pessoa mais sábia que vi em minha vida! É como se soubesse de tudo!

Hiekf riu amargamente e respondeu com ironia:

— Ahahahahaha! Digamos que li uma biblioteca inteira, por isso sei de muita coisa!

— UMA BIBLIOTECA INTEIRA!? Só o livro que você me deu já foi difícil para mim!

— Ahahahaha! Leitura é algo bom rapaz!

— Não obrigado! Minha cabeça dói, além do mais eu já aceitei ser o personagem idiota.

— Você…. Fala muita besteira né?

Eu respondi com um sorriso cínico e me abaixei no chão.

Resolvi experimentar a sugestão de Hiekf, vou tentar separar as substâncias, no caso vou separar a sujeira do chão.

Eu me concentrei e toquei minhas mãos no chão infundindo minha mana nele, concentrei-me na sensação de querer separar a sujeira do chão.

Em poucos segundos a partir de minhas mãos a sujeira começou a se afastar como se fosse uma pequena onda de poeira negra, a poeira saia do chão revelando um brilho marmorizado no piso de madeira, fiz isso até chegar nas extremidades das paredes.

O resultado foi surpreendente, o chão ficou tão limpo que parecia novo, a poeira negra é a própria sujeira que encrostou no chão com os anos, eu usei meu espaço dimensional e recolhi toda a sujeira dali.

Hiekf exclama:

— Uau! Eu não esperava tanto!

Como ainda não era o bastante para mim eu repito o processo com as paredes e o teto, recolhendo em seguida a sujeira deixada com o espaço dimensional.

*Nova magia desenvolvida:

  • {Separação}: Capacidade de separar substâncias e misturas, essa magia só é restrita para criaturas vivas.

— Ei Hiekf acabei de ganhar uma nova magia!

— Parabéns garoto!

Eu encaro a lareira e a acho muito antiquada, eu decido a remodelar.

{Moldagem}

Eu fiz uma estrutura mais moderna e bonita também reparei as inúmeras rachaduras e fissuras que haviam nela.

Com as tabuas rachadas no chão eu fiz a mesma coisa, só que não estava tentando remodelá-las e sim reparar suas estruturas, felizmente deu certo.

*Nova magia desenvolvida:

    • {Reparar}: Capacidade de reparar estruturas danificadas, exceto estruturas vivas.

Hiekf apenas observou atentamente cada passo meu, eu entendi que ele também aprendia sobre as possibilidades da minha magia observando meus movimentos.

Eu perguntei:

— Hiekf! Você disse que eu posso fazer o oposto daquilo que minha magia pode fazer não é?

— Sim, eu disse!

— Eu acabei de criar uma magia chamada de {Reparar} ela pode reestrutura as coisas, isso significa que posso desestruturar também?

Hiekf fez um rosto pensativo e respondeu:

— Provavelmente!

— Não gosto disso!

Hiekf olhou para fora da janela que ali havia e contou uma estória:

— Sabe Ferus! O Deus que criou a vida, provavelmente foi o mesmo que criou a morte, eu me pergunto se ele falou a mesma frase que você disse agora!

Eu não entendi o que ele quis dizer.

— Hiekf! Eu sou muito burro para entender frases profundas como essas!

— Contudo, foi esperto o suficiente para dizer que não gosta de algo que simplesmente destrói em vez de construir!

Hiekf se levantou e passou a mão em minha cabeça argumentando com um sorriso:

— Você não precisa entender, só precisa saber que não é certo, esse sentimento que sentiu agora, me deixou feliz…

Eu simplesmente não consigo entender onde Hiekf queria chegar com essa conversa, mesmo assim eu escutei o que ele dizia.

— Ferus! Instintivamente você se recusou a aceitar a capacidade que tem para destruir, um dia com certeza terá que usá-la, mas eu sei agora que vai fazer bom uso dela, lembre-se que você é único, só você pode fazer o que fez aqui, ninguém no mundo tem a capacidade que você tem, eu sei que seu coração possui muitas feridas, mas também sei que quer fazer a coisa certa e é por isso que vou caminhar com você até o fim de meus dias.

Quando Hiekf disse que ficaria comigo até o fim dos seus dias, senti muito alívio em meu coração, o terror de estar sempre sozinho é algo que assombra meus sonhos.

Mesmo assim eu não consigo esquecer o ódio que sinto por aqueles que carregam o símbolo de Isoltis, eu ainda penso em vingança, só que agora acho que meu sentimento é errado.

Eu agarrei forte meu peito ao lembrar da minha família que foi tirada de mim, meus dias de paz no meu antigo mundo se foram para sempre, até mesmo a minha existência é apenas uma sombra do que foi um dia.

Sou apenas um resquício do que sobrou de Willian Greivis, sei bem disso, meu apego a vida mesmo sem ter nada foi o que me deu a escolha de renascer como Ferus, Graças ao contrato que fiz com a besta lendária, o Fenrir, ele me deu esse corpo que vinculou nossas almas e existências em um só ser.

Eu pensei que poderia apenas esquecer e viver novamente, aproveitar coisas que nunca experimentei, todavia o rancor e a mágoa não me deixam avançar, talvez seja hora de tentar dar um passo à frente.

— Hiekf! Eu quero te contar algo!

— Hun? O que seria? Pensou em uma nova magia?

— Não! Quero contar a você tudo sobre mim!

Hiekf fez um rosto complicado e amaciou sua expressão:

— Fico feliz que já confie em mim agora jovem!

Naquela noite eu contei tudo a Hiekf, tudo mesmo, o fato de ter vindo de outro mundo, sobre o culto de Isoltis, sobre a minha família, sobre a masmorra de Ferus, sobre meu trato com o Fenrir e sobre meu renascimento.

Em nenhum momento Hiekf interrompeu minha história, não falou que era absurdo, ou contestou a veracidade, ele apenas me escutou, em nenhum momento ele deixou de me olhar nos olhos.

A surpresa e o espanto não puderam ser escondidas em sua face, cada vez que contava sobre mim e minha família seu rosto torcia, no entanto ele não me perguntou nada, apenas ficou ali como um bom ouvinte.

Quando terminei de contar tudo a ele, Hiekf pareceu profundamente abatido, foram muitas coisas para contar tudo, já estava de madrugada.

Com uma voz fraca ele pediu:

— Vá dormir rapaz será um dia cheio amanhã!

Eu senti um pouco de medo e falei:

— Hiekf! Eu não estou mentindo!

O gnoll coçou a cabeça e respondeu:

— Eu sei! Ter um vínculo com um ser lendário explica sua condição racial única, eu não duvido de você, nunca duvidei… Eu só não sabia que tinha sido tão duro para você! …

Hiekf forçou um sorriso e mais uma vez pediu:

— Vá descansar! Logo vai amanhecer.

Eu obedeci Hiekf, como não tínhamos camas dormimos com os equipamentos de acampar.

Ter dito tudo a ele tirou um peso de mim, me senti aliviado, acho que sempre quis falar desse assunto com alguém.

Pela primeira vez em muito tempo tive uma boa noite de sono.

Um novo dia chegou hoje será o dia em que vamos nos registrar na guilda de aventureiros da cidade de Harp.

Eu olhei para o lado e Hiekf parece já ter acordado, infelizmente não há um local para me lavar no cômodo que alugamos, acho que podemos dar um jeito nisso depois.

Outra coisa que vem me incomodando são as roupas usuais, infelizmente não tenho nenhuma, na floresta é comum andar de armadura para lá para cá, mas me sinto estranho na cidade.

Umas roupas, uns móveis para o novo cômodo, há muito a ser feito hoje, sem contar com o principal, que é o registro de aventureiro.

Eu desci até o andar de baixo e me surpreendi com uma nova pessoa que me comprimenta.

— Hun! Bom dia! Você deve ser o novo residente! Eeeh? Ferus? Se não me engano?

A pessoa que me comprimento educadamente era uma pequena garota de excelente aparência do clã roedor, ela tem cabelos azuis e longos, como todo membro de seu clã suas grandes e redondas orelhas de camundongo estavam no topo de sua cabeça, sua calda é bem fina e delgada, assim como e de um pequeno rato.

Eu abaixei minha cabeça e respondi:

— Bom dia senhorita! Como você mesmo disse, meu nome é Ferus! Espero que possamos nos dar bem! Hun? Seu nome é?

— Eu me chamo Millin! Cuide de mim!

— Igualmente!

Ele deu um sorriso brilhante e voltou a seu trabalho.

As pessoas do clã roedor são como as do clã coelho, tem uma excelente aparência, chego a sentir inveja de como são belos.

Calmamente caminhei até o centro do restaurante e vejo Hiekf tomando o café da manhã, eu me sentei na mesma mesa e reclamei:

— Por que não me acordou?

Hiekf sorriu:

— A guilda está fechada hoje, então não tem como fazermos nossa inscrição, realmente não vi necessidade de lhe acordar.

Eu caio com a cabeça sobre a mesa.

— Urgh! Que droga! Eu estava tão empolgado!

— Ahahahaha! Paciência jovem, ao menos podemos adiantar outras coisas não é?

Eu levantei minha cabeça com um olhar triste para Hiekf e revelei:

— Hiekf quero comprar roupas, andar vestido na cidade como se fosse lutar a todo momento me deixa sem jeito!

— Isso é uma esplêndida ideia, Ferus!

— Também quero tomar um bom banho! Já fazem dois dias que não tomo um!

Stela interrompeu repentinamente:

— Sobre o banho, pode usar o do restaurante, temos um bom aqui, apesar de ser velho!

Virei-me para Stela e a vi com um novo vestido, hoje ela parece ainda mais bela.

Eu a agradeço:

— Obrigado! Eu vou aceitar de bom grado sua gentil oferta!

Repentinamente uma nova garota que ainda não conheci deu as caras, parecia uma regra dessa loja que as garotas aqui fossem tão bonitas, mas essa fez meu coração palpitar.

Com um olhar felino ela me analisou enquanto jogou seus longos cabelos negros, claramente pertencia ao clã dos gatos pretos.

Deve ter sido difícil para essas garotas ter tido que aguentar o assédio dos vagabundos que botei para correr.

Para não ficar paralisado como um pateta, tentei me apresentar:

— Bom… Bom dia! Meu nome é Ferus! Muito prazer!

A garota no entanto bufou insatisfeita:

— Hunf! trocar seis por meia dúzia? Se livrar de lobos para abrigar lobos? Aposto que ele é como aqueles cinco sacos de esterco! Um pervertido espreitador ladrão de calcinhas.

Eu fiquei impressionado agora, a garota mal me conheceu e me chamou de pervertido… calma… vamos pensar com calma… ela teve uma péssima experiência com os vagabundos que botei para fora… então vamos tentar novamente:

— Hun! Eu não sou como…

— Não fale comigo! lixo!

Ela me cortou com um olhar cheio de frieza e desprezo.

O sangue subiu ao máximo na minha cabeça, nunca em toda minha vida uma garota me irritou tanto.

Eu me levantei e coloquei meu rosto bem próximo ao dela, a abusada nem sequer suou.

— Você não devia julgar as pessoas sem conhece-las sabia?

— Eu não preciso! Olhe só para você, esse olhar malvado, essa pose de delinquente, o jeito largado de andar e de se comportar! APOSTO QUE NEM SEQUER RESPEITA OS MAIS VELHOS!

Droga! Tudo que ela disse é verdade! Mas mesmo assim me chamar de pervertido é demais.

— Ora sua….

Hiekf caiu na gargalhada no chão:

— MUAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Ele não parava de rir, ele batia a mão no chão de tanto rir, ele estava até chorando com as gargalhadas.

— Você… Ahahahahaha! …. Você se deu mal nessa, rapaz! ….. Arf! Arf! E então o que vai dizer de volta?

Abaixando a cabeça e me sentindo pequeno eu murmurei:

— Eu… Eu não sou pervertido!

Sem poder dizer nada eu me sentei e tomei meu café, naquela manhã eu me calei.

Naquela tarde eu sai com Hiekf, ele que deveríamos vender todo material que caçamos na floresta, eu aproveitei o momento e despejei em uma esquina todos os detritos da limpeza que armazenei no meu espaço dimensional.

Graças a deus meu espaço dimensional e de alguma forma organizado por compartimentos, então eu sempre armazenei as coisas por “tipos” como por exemplo, materiais, comidas, equipamentos, etc.

Os detritos que despejei, haviam sido colocados em um compartimento longe de todo o material importante.

O local que Hiekf escolheu para a venda do material foi o mesmo no qual eu comprei a pulseira de ocultação para ele, contudo a barraca ainda estava fechada por não ser um dia de feira.

Hiekf Bateu na barraca fechada:

— Toc! Toc!

— Vá embora! Oinc! Hoje não abrimos!

— Creio que tenho uma oferta que vai ser de seu agrado!

— Hunf! é melhor valer a pena! Oinc!

A barraca se abriu e o homem javali do outro dia apareceu, ele me encarou e eu apenas sorri.

Após ver o bracelete no braço de Hiekf o javali murmurou:

— Entendo!

Hiekf diz:

— Tenho muitos materiais de boa qualidade para vender ao senhor!

O javali cruzou os braços e perguntou desconfiado:

— É mesmo? Oinc! E onde está esse material de “qualidade”?

— Ferus!

Eu invoquei meu espaço dimensional e despejei tudo em cima dele, menos uma boa parte da carne do javali deviante, afinal é minha carne favorita.

O Javali saiu do meio de tudo assustado e Bradou:

— Que diabos! Essa quantidade? Quantos anos levou para caçar tanto?

— Vamos nos abster de detalhes ok, o importante são os valores!

O javali entendeu o ponto de Hiekf e não fez mais perguntas, ele começou a organizar tudo e comentou satisfeito:

— Todo o desmantelamento…. Foi um trabalho profissional, foi tão bem feito que chega a ser artístico! Eu nunca vi em minha vida peles tão bem tratadas, a realeza e a nobreza vão brigar por essas peles, Tsk!

O javali se virou e foi sincero:

— Tudo que tem aqui são itens de ótima qualidade, a carne do javali deviante está em alta no mercado, aqui também tem partes da carapaça de uma rara tartaruga dragão, ao meu ver tudo aqui ficaria em torno de 500 mil peças de ouro.

— Uau!

Hiekf não se impressionou com o preço como eu, ele esperou o javali terminar.

— Infelizmente eu não possuo essa quantia, tudo que tenho comigo são duzentas peças de ouro, mas se me venderem em parcelas eu juro que pagarei tudo com juros de cinco por cento sobre o valor total.

Hiekf Faz sua jogada:

— Dez por cento!

— O QUE? oinc! Quer me falir? Seis por cento!

— Nove!

— Tsk! Sete e não se fala mais nisso!

— Nem eu e nem você! Oito por cento, o lucro será eminente, como você mesmo disse são matérias de alta qualidade, também prometo fidelidade na venda.

O javali coçou o rosto com a oferta de fidelidade de Hiekf e estendeu a mão:

— Negócio fechado! Você é páreo duro! Como esperado de um gnoll!

Recebemos as duzentas moedas de ouro e fomos ao mercado comprar roupas. Havia muitos modelos legais, eu escolhi um estilo habitual que combinou um modelo de jaqueta preta mais uma calça e botas, combinou muito comigo.

Hiekf escolheu algo muito simples, foi a cara dele, mas eu pedi para ele tentar algo melhor que passasse a imagem que ele realmente tem, uma pessoa intelectual.

Ele vestiu uma roupa mais completa, geralmente ele usa coisas com menos tecido, parecendo que saiu de uma caverna, mas agora ele parecia um nobre, caiu perfeitamente nele.

— Ferus! Isso não parece certo!

— Ficou muito legal! Você devia se vestir conforme seu personagem!

— Affs! Por favor menino pare com esses delírios!

Depois disso compramos alguns móveis e outros itens de utilidade diária, graças a meu espaço dimensional, foi fácil carregar tudo.

Voltamos ao restaurante “A toca da coelha” já no final da tarde, eu estava com a fome consumindo minha alma.

Eu entrei no restaurante como se fosse minha casa, o ambiente estava bem movimentado hoje, as garotas trabalhavam a todo vapor, mal havia lugar para sentar.

— Tsk! Droga…. Vou ter de esperar esvaziar!

Hiekf cansado subiu para os aposentos.

Eu decido então tomar um banho, ao entrar no banheiro do restaurante, vejo muitos problemas ali, para começar a parede está cheia de furos, achei estranho aquilo, tinha uma banheira também, mas está rachada.

Minha empolgação para o banho se foi, mas eu resolvi reparar o banheiro, eu me concentrei e reuni minha mana, toquei minhas mãos no chão e usei minha magia:

{Reparação}

Me concentrei em unir e ligar todas as estruturas danificadas, logo os furos rachaduras e outros problemas foram reparados.

Para deixar o serviço completo:

{Separação}

Eu usei minha magia de separação para higienizar o banheiro, tirando todas as impurezas dali.

O formato da banheira também não me agradou então eu usei minha magia de moldagem para mudar sua forma para uma maior e mais aconchegante.

Eu também mudei a estrutura do banheiro para uma mais funcional, daí finalmente tomei meu banho em paz, foi relaxante e muito bom, pena que a água estava fria.

Uma ideia me ocorreu, minha magia basicamente mexe em tudo ligado a substâncias, será que também posso alterar as temperaturas?

Eu me concentro e derramo minha mana sobre a água.

A temperatura da água subiu a uma que foi relativamente agradável.

— Fufufu! Eu consegui!

*Nova magia desenvolvida.

  • {Alteração de temperatura}: essa magia pode alterar a temperatura dos objetos e substâncias, mas não pode superar o ponto de fusão e nem o zero absoluto das substâncias. obs: exceto seres vivos.

Depois do excelente e relaxante banho do qual não posso viver sem, eu finalmente me visto e volto ao salão do restaurante, graças aos deuses ele esvaziou bem.

Hiekf esperava em uma mesa, eu me sentei junto e perguntei:

— Já fez o seu pedido?

— Ah! Jovem! Sim, já o fiz.

Milin a garota bestial do clã roedor veio até mim e perguntou educadamente:

— Qual é o seu pedido senhor Ferus!

— Ah? Senhorita Milin! Primeiro vamos parar com o negócio de senhor ok, eu tenho quatorze anos, então me sinto estranho.

Milin arregalou os olhos e falou alto:

— Eh? EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEH? Você é mais jovem do que eu?

Eu arregalei os olhos:

— VOCÊ É MAIS VELHA DO QUE EU?

Hiekf Não aguentou:

— Pffffss! Ahahaha! Escute menina, pode não parecer, mas o rapaz aqui realmente tem apenas quatorze!

Milin pareceu estupefata com a informação que Hiekf deu a ela, tentando mudar de assunto a menina pergunta para mim:

— Hun! …. Eh! Ferus… O que deseja para hoje?

— Qualquer coisa com carne… eu acho…

Milin saiu dali sem graça.

Eu me virei para Hiekf e perguntei:

— Ei Hiekf! Eu pareço tão velho assim?

— Pffss! Não é que pareça velho, só parece mais maduro que sua idade real, mesmo seu modo de agir é um pouco precoce, então fica difícil adivinhar sua idade real, sua aparência condiz com um jovem normal de dezoito anos.

— Argh! Pareço quatro anos mais velho do que realmente sou? Tsk que droga!

As refeições chegam até nós, mas não foi Milin que as trouxe e sim a garota gato, que ainda nem sei o nome, ela colocou gentilmente a refeição de Hiekf sobre a mesa:

— Aqui está senhor Hiekf!

É um belo prato de carne cozida com legumes, fiquei ansioso com o meu.

Rudemente a garota joga sobre a mesa meu prato, que quase derramou o conteúdo sobre mim.

— Sirva-se lixo!
O prato está cheio de ossos velhos e ruídos, como as sobras que damos aos vira-latas por pena.

Com muita raiva eu perguntei:

— Ei gata! Que diabos é isso?

Com habitual olhar frio ela respondeu:

— Sua comida lixo! Contente-se, os ossos são de hoje!

Ela me deu as costas e saiu.

Eu cheguei no meu limite da paciência com essa felina, parece que felinos e lobos não podem se dar bem no final das contas.

Hiekf que viu minha aura de ódio tentou me acalmar:

— Ei! Ei! Rapaz… vamos ser racionais nesse momento ok!…

Cada minuto que olhava para o prato de ossos velhos minha dignidade se exauria, as veias saltaram ao limite na minha cabeça, achei que teria um AVC.

O restaurante está praticamente vazio agora, apenas eu e Hiekf éramos clientes, eu olhei para o lado e vi o balde da limpeza cheio de água, um sorriso se formou em minha face.

Na cozinha:

— Hun? Helen… a refeição que pedi para ser entregue ao Ferus ainda está aqui, desse jeito ela vai esfriar!

A gata negra fez um sorriso desdenhoso e respondeu a amiga roedora:

— Fique tranquila Milin! Eu já dei a ele um jantar digno de sua laia!

Milin ficou com o rosto azul e bravejou:

— Helen! Você não fez nada contra o rapaz não é?

— Quem sabe? ahahahahaha!

Uma luz inesperada foi vista de cima de uma das paredes da cozinha as duas olham para cima e veem um buraco no alto que nunca esteva lá antes.

A gata murmurou:

— Mas o que é isso?

Ferus colocou a cabeça ali surpreendendo as duas, ele soube exatamente onde fazer o buraco com sua magia graças a sua audição, com isso fez o buraco exatamente onde cada uma estava.

Ferus falou:

— Olá gata! Aqui está a devolução!

Com um sorriso maquiavélico e cínico Ferus derramou sobre a felina um balde inteiro de água fria.

A felina tremeu de frio ao sentir a água bater em sua pele, para finalizar Ferus pegou o prato de ossos velhos e jogou sobre ela, toda a roupa e a aparência da garota ficaram arruinados, seus cabelos negros estavam agora cobertos por ossos velhos.

Ferus se debruçou ali e desdenhou:

— Agora sim! O visual condiz com a sua beleza interior, tenha uma boa noite, por que eu vou ter! Tchau!

Ferus saiu dali e a luz misteriosa fez o buraco desaparecer da parede, Milin ficou completamente sem ação.

Com lágrimas nos olhos a felina gritou:

— EU VOU MATAR ESSE LOBO!

Eu despertei e a primeira coisa que vejo é o teto do meu novo cômodo, finalmente me acostumei com o lugar, tive uma noite muito boa, apesar de não ter jantado.

Eu me espreguiço e levantei da cama, após um longo bocejo bato em meu rosto e decido começar as preparações.

Hoje é o dia que me tornarei um aventureiro.

Hiekf já se levantou como de costume, não me lembro de levantar primeiro que ele uma única vez.

O cômodo agora tem os móveis que compramos, contudo ele não parece organizado, pois é grande demais, faltam divisões aqui, tranquilamente se pode fazer uma casa para uma família grande aqui.

Com um sorriso eu decidi:

— Vou colocar minha ideia em prática!

Eu abri meu espaço dimensional e tirei de lá uma quantidade grande de madeira e tábuas que comprei, foi quando Hiekf e eu compramos as roupas e móveis ontem.

Hiekf não me perguntou nada, provavelmente ele já sabe o que tenho em mente, afinal aquela hiena sabe de tudo.

Vou usar essas madeiras para fazer divisórias nesse cômodo, assim esse lugar vai parecer mais uma casa.

Primeiro: precisamos de quartos, dois um para mim e outro para Hiekf, assim cada um terá sua privacidade.

Segundo: uma sala, um lugar para recepcionar aqueles que nos visitarem, infelizmente eu não tenho nenhum amigo, não tenho nenhum orgulho disso, mas Hiekf tem, a prova é a senhorita Stela.

Terceiro: uma biblioteca, Hiekf disse gostar de livros, ele carrega uma boa quantidade, um lugar para armazená-los parece bom.

Quarto: um banheiro, isso é indispensável, desde que vim a esse mundo tenho feito tudo no mato, isso não me deixa nada feliz, também os banheiros desse mundo são nojentos, as pessoas aqui não têm um sistema de encanamento feito para o saneamento, então imagine entrar em um banheiro público desse mundo, seria o mesmo que usar uma latrina das cidades do interior do meu mundo antigo.

Acho que isso é o suficiente, só preciso configurar tudo de modo que meu quarto e o de Hiekf tenham o mesmo tamanho e a lareira fique na sala.

Eu espalhei estrategicamente toda a madeira pelo cômodo, após isso eu me preparei para usar minha magia.

Concentrando a mana na palma das mãos eu toquei no chão do quarto e derramei a mana sobre ele.

Usando minha magia e os materiais que tenho a mão eu reestruturei os materiais ali, levantando as paredes e dividindo os cômodos, também consertei as falhas na madeira tornado a parede lisa e bonita.

Com isso agora o “cômodo” se tornou uma “casa”, a área do futuro banheiro está ali, mas ainda tenho que pensar em uma forma de desenvolver um sistema de encanamento e de descarga, para que finalmente possa usar um “trono” nesse mundo.

A biblioteca foi minha obra prima, fiz as prateleiras embutidas com as paredes, assim uma economia de espaço foi bem feita.

Com apenas alguns minutos arrumei os moveis em seus devidos lugares, agora falta muita coisa, mas com o tempo o espaço vai ser preenchido.

Eu me vesti e desci até o restaurante, uma coisa me chamou a atenção, a senhorita Stela e as outras garotas estão reunidas em círculo fofocando.

Eu me aproximei curioso e perguntei:

— Eh? Algum problema?

— AAAAAAAH!

As meninas deram um pulo assustadas, aquilo quase me matou de medo.

— Ei! O que foi?

Milin com a mão em seu peito suspirou aliviada:

— Ufa! É só você Ferus!

Eu respondi com um olhar farto:

— He! Sinto muito por ser só eu!

— Hun! Não é isso! É que tem um fantasma no restaurante!

Eu inclinei a cabeça por um momento.

— Um fantasma?

— Sim! Quando fui tomar meu banho, parece que entrei em um lugar completamente diferente.

Eu esqueci completamente de falar para senhorita Stela sobre as modificações que fiz no banheiro.

Com o rosto azul eu abaixei a cabeça e me desculpei:

— Geh! Eu…. Eu sinto muito! Eu fiz alterações no banheiro e esqueci de comunicar!

Stela se espanta com minha confissão.

— O… O que? você está me dizendo que reformou todo o banheiro e esqueceu de me dizer?

Eu cocei a cabeça sem graça e dei um sorriso forçado:

— Ahahahaha! É que pensei em fazer um banheiro mais funcional, mas… mas veja! Eu garanto que ele ficou bem melhor que antes!

Stela correu até o banheiro e abriu a porta.

— Eu… eu não o olhei direito por que estava com medo, mas ficou digno de um palácio.

Sem graça eu tento me defender:

— Eh?… Eh! Viu eu disse… ficou melhor não foi! Ahahahahahaha!

Stela focou um olhar cerrado em mim, o suor escorreu de meu corpo, ao se aproximar ela declara puxando uma de minhas orelhas:

— Escute aqui lobinho! Fico feliz que o banheiro ficou maravilhoso, mas este é MEU restaurante! Qualquer coisa que for modificar no MEU prédio deve me comunicar, FUI CLARA?

— SIM!
Uma coisa me assusta, contudo tenho que dizer antes que a situação piore.

Engolindo seco levantei a mão, Estela me viu e perguntou:

— O que foi agora lobinho?

— Hun! E que… sabe…. Eu fiz algumas modificações no andar de cima! Ahahahahaha!

Com a mão atrás da cabeça tentei explicar a situação.

Um olhar pavoroso saiu do rosto da coelha cinzenta, ainda mais assustador do que o de Hiekf.

Fui puxado pela orelha até o andar de cima, Stela ficou pasmada com o que viu, as garotas também, ficaram boquiabertas com a situação.

Stela me agarrou e me sacudiu gritando:

— QUANDO FOI QUE FEZ ISSO!

— Hoje!

— impossível! Eu não escutei nenhum barulho de obras ou coisa do tipo!

Sem ser opção eu confessei:

— Isso é por que eu tenho uma magia especial para esse tipo de coisa.

A coelha cruzou os braços e perguntou:

— como você trouxe tudo isso para cá?

Eu abri minha magia espacial e falei:

— Assim!

Stela arregalou os olhos e deu sua opinião esfregando forte a cabeça:

— Urgh! Espaço dimensional com essa idade? Ainda por cima sem cânticos! Hiekf me falou que você é especial, mas não me falou que estava em um nível absurdamente alto.

Eu fiquei amargurado com a reação de Stela, do jeito que ela falou parece que não quer lidar comigo, eu entendo.

Stela viu meu rosto e rapidamente mudou o assunto:

— Es… escute garoto! Não é que eu não goste de você, eu só fiquei surpresa… foi isso! Tudo bem?

Eu fui direto com ela:

— Quer que eu vá embora? Se quiser não vou reclamar!

Stela suspirou, ela parou por um momento e passou sua mão pela face, eu continuei olhando para sua resposta, eu já estou preparado para qualquer coisa, para falar a verdade, não me surpreenderia.

A coelha cinzenta relaxou por um minuto e respondeu:

— Não responda a surpresa das pessoas de forma arisca rapaz, não coloque suas deduções como padrão para tudo que acontece com você, eu apenas me surpreendi, só isso! Não todo dia que se vê um tipo raro sabe?

Eu olhei pela janela do cômodo e conversei:

— Hiekf me falou uma vez sobre essa coisa de tipo raro, para falar a verdade eu nem sei sobre isso, o que sei sobre esse “eu” no momento é que sou um bestial lobo de pelagem negra sem clã, tenho que me passar como mestiço para não ter problemas, tenho muita coisa que quero descobrir e muita coisa que quero superar, me pergunto se no final de tudo vou ter um lugar para chamar de lar?

A coelha cinzenta fez uma face triste e desceu as escadas acompanhada de suas duas empregadas, por algumas horas fiquei ali vendo o céu por fora daquela janela, minha mente estava em branco, a única coisa que se passou em minha cabeça foi a imagem do céu azul que meus olhos mostram.


Autor: Marcus | Revisor: Heaven

QC: Bczeulli



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