FNR – Capítulo 01 – A floresta do desespero



A misteriosa luz que havia tomado nossos corpos se dissipou, estávamos todos abraçados uns com os outros, então eu e minha família ficamos juntos.

Meu pai gentilmente nos soltou e olhou ao seu redor, assim como todos nós, e então declarou confuso:

— Onde diabos estamos?

Estávamos em uma floresta bem fechada, no entanto algo era antinatural, nenhuma vegetação se parecia com nada que tínhamos visto, folhas de formas bem peculiares e cores bem vivas estavam ao nosso redor.

Meu irmão arregalou os olhos e comentou:

— Que merda é essa? Não existe vegetação assim na terra!

— Querido! Olhe! Os outros também vieram juntos!

Mamãe chama a atenção do papai que também nota as pessoas nas proximidades, provavelmente foram as mesmas que estavam perto da misteriosa luz.

— UOOOOOO! ISSO É UM MILAGRE!

Um homem que estava com um dos grupos religiosos gritou frenético, todos voltaram sua atenção para ele que continuou:

— VOCÊS NÃO ESTÃO VENDO! A SANTA SAGRADA NOS ABENÇOA TRAZENDO-NOS AO SEU REINO DIVINO, SOMOS ESCOLHIDOS!

Meu irmão bota a mão na testa e murmura enquanto balança sua cabeça cansada:

— Ai meu deus!

O pior de tudo era que muitas pessoas começam a dar ouvidos a pregação infame do homem estranho, muitos até prostraram seus joelhos no chão e começaram a orar.

Meu irmão encarou a cena com negação e desgosto no olhar.

Meu pai coloca a mão no ombro do meu irmão e diz:

— Deixe-os meu filho, no desespero os homens procuram o conforto, já que agimos com a razão, vamos pensar em como sair daqui.

Meu irmão suspira, no entanto ele sabe do peso que há nas palavras de meu pai, minha mãe estava muito assustada, no entanto meu pai a abraçou e sussurrou em seus ouvidos:

—Vai ficar tudo bem!

Isso foi o suficiente para fazer minha mãe se acalmar, eu por outro lado só por ter meu irmão e meu pai por perto já foi o suficiente para manter a compostura.

Meu pai simplesmente afagou minha cabeça e sorriu para mim, ele sabia de tudo, esse era meu pai.

Um grito de pavor quebra a nossa reunião familiar.

Rapidamente voltamos nossa atenção para direção do berro, aquilo que contemplamos foi ainda mais extraordinário que a vegetação estranha dessa floresta.

Uma criatura reptiliana que media mais de dois metros, tinha escamas vermelhas e seus olhos eram sinistramente negros, ele andava com quatro patas, mas ficou em pé apenas com duas quando lhe foi conveniente.

Todos soltaram gritos de pavor, mas o homem que começou a pregação estranha não temeu:

— Vejam irmãos, não julguem pela aparência essa é uma das muitas provas que a santa sagrada está nos impondo.

O homem se aproximou da criatura sem cuidado.

Meu irmão que não aguentava mais a idiotice do estranho, gritou em fúria:

— Saia daí seu idiota! Pela aparência dessa criatura ela é carnívora e caçadora, você vai morrer!

Ignorando o aviso, o lunático religioso tentou tocar a criatura e como resultado em uma única bocada sua cabeça foi arrancada de seu corpo.

As outras pessoas que ouviam as pregações do homem agora morto, ficam paradas que nem patetas assistindo o sangue jorrar de um corpo sem vida.

Ainda mais irritado meu irmão gritou com toda fúria de seus pulmões:

— O QUE ESTÃO FAZENDO AÍ PARADOS BANDO DE IDIOTAS? CORRAM DAÍ! VOCÊS SERÃO OS PRÓXIMOS!

Recobrando os sentidos aos berros do meu irmão os seguidores do finado homem, correram para todas as direções.

Meu pai pegou meu braço e o da minha mãe e falou para mim:

— Você ouviu seu irmão, corra!

Corremos o mais rápido por vários minutos.

— Não se separem!

Meu pai sempre avisava.

Sem mais fôlego, minha mãe não aguentou e se ajoelha no chão.

Faltando opções, caminhamos o restante do caminho até um campo aberto.

Ao sair da floresta sentimos o chão tremer, um barulho estranho foi escutado de longe, meu pai parecia reconhecer o ruído e murmurou:

— Trotes?

Meu pai fintou seu olhar para o sul e teve uma visão surreal de uma quantidade exorbitante de homens montados a cavalos que seguiam em nossa direção, todos usavam armaduras bem diferentes com coloração dourada e levantavam bandeiras com um símbolo do sol.

Todos os homens que estavam naquele grupo de cavalaria portavam adornos com símbolos referentes ao sol em seu corpo.

Meu pai segurou a mim e minha mãe juntos a ele e se colocou na frente do meu irmão, sem perceber fomos cercados.

— Pai isso não é bom!

Meu irmão comentou.

— Eu sei meu filho, mas seja o que vier vamos enfrentar juntos.

Dois homens com cavalos brancos foram a nossa frente, um deles tirou seu capacete e mostrou uma aparência ridiculamente bonita, loiro e olhos verdes, até mesmo galãs do meu mundo seriam postos para escanteio perto desse cara.

O belo homem falou com o outro que lhe acompanhou:

— ꬺꭂꭈ€ ₭₸₹₪₰ ₰₾₫₭£₰

— ₯Ωᵯᵵᵿ ₰₮₫₼₾

Foi uma linguagem que nunca escutamos em nossa vida.

— Esse é de fato outro mundo!

Meu irmão falou consigo mesmo, como se chegasse a essa conclusão.

O homem de bela aparência desceu de seu cavalo e veio em nossa direção, meu pai não baixou a guarda em nenhum momento.

O homem recita uma canção estranha e apontou o dedo para nós.

De repente um choque foi sentido por todo meu corpo, sem conseguir segurar eu urrei de dor, os gritos de angústia de minha mãe e irmão também foram ouvidos.

Quando me dei conta nossos corpos estavam envolvidos por uma espécie de corda de energia, se forçamos um pouco recebemos uma descarga elétrica.

Meu pai estava na frente ajoelhado perante o homem de boa aparência, ele disse algumas palavras para meu pai e cuspiu em sua face, meu pai que sentia muita dor, sorriu e avisou:

— Natã e Willian! Cuidem da sua mãe!

Com todo seu esforço meu pai se levantou apesar do poder que o prende lhe causar dor, ele deu uma cabeçada na face do homem quebrando o seu nariz.

Enquanto o homem rolava de dor no chão com suas mãos na face, seu companheiro sacou a espada e apunhalou meu pai pelas costas.

Ao cuspir sangue pela boca, meu pai caiu morto no chão.

— NÃÃÃÃÃO!

— PAAAAAI!

Eu e meu irmão urramos desesperados, tentamos de tudo para nos levantar, no entanto não éramos como nosso pai, faltava-nos força, minha mãe entrou em estado de choque.

Eu senti amargura por ser fraco e o olhar do meu irmão mais velho me mostrou o mesmo.

Meu irmão e eu estamos acorrentados um ao outro dentro de uma carroça com forma de gaiola, o sol é bastante intenso por isso sentia náuseas, meu irmão permaneceu calado toda viagem.

Nossa mãe foi separada de nós e colocada em uma carroça só para mulheres, por sorte podíamos vê-la de onde estávamos.

Todos que vieram conosco, parecem ter sido capturados por esses estranhos cavaleiros.

Eu queria fugir a todo o custo, porém as correntes eram grossas e tinham uma energia parecida com a da magia que aquele desgraçado nos lançou.

Meus pensamentos eram muito obscuros nesse momento “eu vou mata-los” isso é tudo que eu pensava naquele momento, tenho certeza que meu irmão partilha do mesmo raciocínio.

Não tínhamos tempo nem para chorar a morte de nosso pai, sobreviver é o único pensamento aqui.

Depois de dois dias sem comer chegamos em uma grande muralha branca, os portões foram abertos e todos que foram capturados vivos, isso incluía aqueles que sobreviveram na floresta, foram levados para dentro como animais.

Eu concluo que essas pessoas não nos consideravam como iguais, eles nos enxergam como bichos ou coisa parecida.

Aproveitamos uma brecha e nos aproximamos de nossa mãe, um dos cavaleiros notou, mas resolveu deixar para lá, o que foi bem-vindo.

Nossa mãe está bem fraca, fizemos o possível para apoiá-la em nossos corpos para que ela descansasse ao menos um pouco.

Chegamos em um grande espaço aberto, o barulho de chicotadas foi ouvido, notamos de longe pessoas como nós sendo açoitadas, as marcas do sofrimento estavam em seus rostos e também em suas costas.

Eu tremi diante daquela imagem, minhas pernas ficaram bambas e meus olhos lacrimejaram.

— Não fraqueje, vamos dar um jeito!

Meu irmão tenta me confortar, minha mãe que pareceu chorar pelo meu pai estes dois longos dias, não tinha forças, eu entendi que devia ajudar meu irmão, sozinho ele não conseguiria manter eu e minha mãe.

Eu bati em meu rosto e retomei minha postura, meu irmão balançou a cabeça positivamente aprovando minha atitude.

De alguma forma fomos colocados em uma fila e eu era o primeiro, seguido de minha mãe e irmão.

Aparece diante de todos um homem trajando vestimentas brancas com um capuz sobre seu rosto, ele se aproxima usando um cajado para se apoiar, pela sua postura e pelas rugas de suas mãos sabíamos que era uma pessoa de idade.

Dois jovens cavaleiros acompanhavam o ancião, um possuía a aparência ainda mais espetacular do que o homem que nos capturou, a outra era uma mulher tão bonita que parecia um anjo.

Todas as pessoas desse lugar tinham cabelos loiros e olhos azuis ou verdes, para eles pessoas com aparência como a nossa, cabelos e olhos negros, devem ser estranhos.

O homem velho chegou em minha frente, pois eu era o primeiro da fila, eu sentia um medo indescritível daquele homem, seus dois acompanhantes me seguraram a força.

Meu irmão gritou em desespero:

— SOLTEM ELE!

Só que depois de atingido com força na boca do estômago por um dos cavaleiros ele caiu de joelhos no chão.

O velho começou uma canção estranha e encostou a ponta de seu dedo enrugado em minha testa, como estava imobilizado não pude reagir, ao final do estranho cântico minha cabeça sentiu como se estivesse sendo inundada de informações, foi uma dor que nunca senti em minha vida.

Sem forças eu fui ao chão, sangue saiu de minhas narinas, e o velho me disse:

— E então criatura inferior, você foi agraciada com a compreensão da linguagem divina, sinta-se grato.

Meu irmão e mãe entraram em desespero com minha situação, como não me mexia isso os deixou ainda mais desesperados.

O mesmo foi feito com meu irmão, que como eu, caiu sem se mexer.

Na vez de minha mãe, algo pareceu dar errado, ela caiu no chão depois do velho ter jogado sua magia nela, mas seus olhos não tinham vida como o meu e o do meu irmão.

Com a pouca força que tinha eu perguntei ao velho:

— O…. o que… aconteceu? …

Simplesmente ignorando-me ele comentou com seus dois comparsas:

— Erro meu! Às vezes um pequeno erro de cálculo acontece, parece que desperdicei um sacrifício, a idade é mesmo uma droga.

Meu irmão que já parecia compreender a língua deles arregalou seus olhos nas declarações do velho e disse para ele:

— Não importa quanto tempo se passe, ou quantas vidas eu tenha que usar, eu vou te matar seu velho desgraçado.

O olhar que meu irmão lançou fez o velho retroceder um passo, um de seus comparsas sacou sua espada, mas o velho estendeu a mão e o impediu.

— Mas senhor?

— Harbor, eu acredito no carma! O olhar desse jovem! Eu o contemplei poucas vezes nesse mundo, se o carma me desejar, ele virá por esse jovem, deixe-o!

Harbor era o nome do servo masculino do velho, ele insatisfeito guardou sua espada, mas o olhar de meu irmão não suavizou nem um pouco.

O velho se virou para meu irmão e disse com um sorriso malicioso em sua face que se mostrou tenebrosa na luz:

— Eu gosto desse seu olhar de ódio, pessoas que olham assim podem mudar o mundo, como um presente de um inimigo odiado eu lhe dou essa cena!

O velho estendeu a mão para o corpo morto da minha mãe e com mais um cântico criou uma pequena bola de fogo e a lançou na minha mãe, o corpo dela começou a se queimar aos poucos.

Eu gritei e chorei em desespero, mas meu corpo não se mexeu, meu irmão teve seu olhar voltado para as chamas que consumiram o corpo de minha mãe até as cinzas.

Os olhos de meu irmão jamais voltaram a ser como os de antes.


Autor: Marcus | Revisor: Heaven

QC: Bczeulli



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