DE – Volume 1 – Arco 1 – Capítulo 6




Arco 1 – Pequenas Patas
Capítulo 6 – Reunião Amba

 

Escalar essa montanha é uma maldição. Como não tenho equipamentos para subir, preciso cravar as minhas garras na parede gélida dessa desgraça. Tem momentos que preciso pular em algumas plataformas para descansar e subir mais. O problema real é simples; muita neve, muito gelo e um terreno mais escorregadio que um chão lambuzado de óleo!

Agora entendi o motivo dos Tigres Amba usarem essa montanha para a reunião, nenhuma criatura em sã consciência pensaria em escalar essa merda para apenas importunar.

Para escalar essa porcaria de montanha, preciso ativar meu Manto Amba quase toda santa hora. Para entender o grau da dificuldade dessa porcaria, primeiro; preciso derreter plataformas escorregadias para que meu equilíbrio se mantenha! E se não bastasse, quanto mais eu subo, mais difícil fica de cravar minhas garras na parede da montanha, que agora está virando gelo puro!

As coisas só pioram cada vez que subo mais…

Como se não fosse suficiente, plataformas escorregadias, paredes de gelo que não consigo cravar as garras, ainda existem outros problemas.

O gelo pode, simplesmente, quebrar se eu cravar as unhas onde não devo!

Essa escalada vai ser demorada e lenta. Isso pode ser comparada com uma escalada do inferno para o céu, não?

Só para quem não entendeu quão horrível isso está sendo, vou dar uma explicada rápida.

Eu preciso derreter a parede de gelo inteira para eu poder escalar! E, Sim! Estou muito puto!

E para complementar o kit desgraça, o meu manto só dura 3 minutos e essa montanha é tipo, duas vezes a maior montanha da minha outra vida? Deve dar uns 14 quilômetros de altura! E SIM! EU JÁ ESCALEI A MAIOR MONTANHA PARA COMPARAR!

Caso não tenham entendido mesmo a minha indignação, isso é um ótimo meio de aumentar a duração do meu Manto Amba. Mas também é uma raiva real que estou sentindo.

Enfim, acho que entenderam que eu vou demorar muito para escalar, né?

Se pudesse usar o Manto Amba a cada 3 minutos seria incrível, mas se eu usar de fato os 3 minutos com ele, preciso de muito tempo descansando para repor toda minha Mana e Chi, logo, mais tempo perdido.

Isso ignorando o fato que parece que o material na montanha muda de acordo com a altura. No início era bem fácil de escalar, sendo que era apenas pedra coberta por alguma neve. Porém, após uns 2 quilômetros de altura, comecei a notar uma camada de gelo, e mesmo a derretendo, ainda era difícil de cravar as unhas, e as plataformas ficaram mais instáveis.

Depois de um tempo, nem mesmo minhas garras conseguiam entrar na camada de gelo. Que é basicamente onde estou no momento.

Concluindo: Ou o gelo e as rochas da montanha estão mais resistentes, ou minhas garras estão ficando mais fracas.

Obviamente concluo que é a primeira opção.

Graças a Jeanne que existem algumas Bestas Mágicas Aéreas, que acham que tô para morrer por subir essa porcaria, senão, eu já estaria morto há horas.

Como estou utilizando o Manto Amba quase toda hora para escalar, comecei a entender melhor ele.

Primeiro, como eu havia dito antes, quanto mais expresso raiva ou sinto, mais posso utilizá-lo. Isso afeta tanto na duração quanto no poder dele.

Segundo, posso controlar qual prefiro utilizar. No caso, sou capaz de decidir se priorizo a duração ou o poder das chamas. Basicamente, se eu preferir ter uma duração maior, utilizarei menos Mana e Chi, porém, o poder fica bem mais fraco, e assim vice-versa.

Por fim, mas não menos importante; consigo mudar a “qualidade” da minha chama!

Eu sei, eu sei, é muito repentino e estranho, mas é o que aconteceu!

Quando comecei a usar mais o Manto Amba, desde que minha mãe me mandou para a reunião, houve uma situação em especifico que enfrentei uma Besta Mágica que podia utilizar chamas.

Meu Manto Amba não podia interromper as suas chamas e nem seu avanço, então, essa besta era capaz de me acertar sem nem levar dano. Logo, eu precisava encontrar outra maneira para lidar com essa praga.

Para essa Besta Mágica, meus ataques sequer eram mortais ou problemáticos, então, nessa batalha onde apenas existia desvantagem, me concentrei apenas nas minhas chamas.

Toda vez que ela me acertava, mais raiva e fúria eu sentia. E, quanto mais fúria eu sentia, maior ficava minha chama. Quando eu percebi, eu senti um calor único me rodear. Notando em volta do meu corpo, que era coberto de apenas labaredas alaranjadas, vi um vermelho surgir.

Meu corpo inteiro estava formigando nesse momento. Rugi furioso para a Besta Mágica e meu laranja sumiu, na verdade, a cor mudou. Era apenas vermelho. Uma chama vermelha que queimava muito mais intensamente que a cor laranja.

O chão coberto de neve, que já derretia rapidamente antes, evaporou em um instante. Até eu sentia o calor que causava. Um calor absurdo.

Quando a Besta Mágica reparou nisso, de imediato veio contra mim. Para ela, era como a presa virasse um predador. Deu para ver o medo em seus olhos.

Porém, quando me tocou, sua chama foi engolida pela minha. A chama dela era amarelada, mas quando me tocou, seu corpo foi coberto por chamas vermelhas que queimavam seu corpo e pareciam devorá-la.

Ela se contorcia no cão, mas nada adiantava, minha chama parecia estar se alimentando do seu corpo. Após um tempo, o que restava era apenas uma carne bem tostada na minha frente. Serviu bem de alimento.

Enfim, após isso, percebi que o meu Manto Amba guardava alguns segredos que nem eu imaginava. Sério, me chocou bastante.

Bom, contei isso não apenas para atualizar os acontecimentos, mas também para situar a triste situação que me encontro. Nesse momento estou usando apenas o Manto Amba vermelho para escalar essa porra de montanha.

O gelo se tornou muito mais… estranho? Não sei como chamar, já que minha chama laranja não parece conseguir derreter numa boa velocidade. Então, tive que mudar o manto.

Posso até me cansar um pouco mais rápido que usando o laranja, mas ainda assim, vale a pena.

Hah… Por algum motivo, olhar para essa montanha me faz pensar na primeira montanha que escalei com o Mestre Zi…

 

 

– De volta ao tempo, quando Henry tinha 16 anos em sua vida passada. –

 

“Garoto, sabe por que te trouxe até essa montanha?” Mestre Zi me perguntou enquanto olhava para o cume da montanha, que tinha 4 quilômetros de altura – uma montanha de tamanho médio.

“Mestre, tudo o que você faz não tem sentido. Apenas me leva para os lugares e me manda fazer as coisas.” Respondi com raiva da atitude largada dele. Mesmo quando perguntava algo para mim, ele sempre respondia com uma teoria maluca.

Ignorando minhas reclamações, ele falou: “Garoto, escalar essa montanha forçará seus músculos ao limite! Se você desequilibrar e cair próximo ao topo, obvio que será morte. Se você cair da metade, alguns ossos quebrados. O medo da morte fará com que seu corpo libere todo seu potencial apenas pela sobrevivência. Quando estiver próximo ao cume, seus pulmões estarão ardendo e doendo pelo cansaço e o oxigênio escasso, porém, quando alcançar o pico da montanha, você adquirirá um vigor sem igual!”

Ele abriu um grande sorriso quando explicou.

Quando comecei a escalar, o Mestre me acompanhava pulando em pequenos pontos onde tinham pedras expostas. Ele ficava sobre elas com apenas uma perna, parecia que o seu peso não influenciava nada. Já eu, quando agarrava uma dessas pedras onde ele ficava, a pedra não aguentava e cedia. Quando caí pela primeira vez, pensei comigo que foi um erro confiar por ser um caminho onde o Mestre subiu com facilidade.

Desapontado, ele começou a me dar um sermão: “Garoto, sua subida deverá ser apenas sua. Tomar o mesmo caminho de outra pessoa é o mesmo que admitir que tudo o que faz vale de nada. Agora, levante e não siga os outros e suba até o céu!” O Mestre Zi sempre foi meio biruta das ideias, mas comigo, com seus ensinamentos ele mostrou sempre ser gentil – menos quando lutávamos.

Ele estava certo, como todas as vezes. Quanto mais eu subia, sem qualquer equipamento, mais rápido meu coração batia. Meus músculos queimavam, minha respiração era diversas vezes mais pesada. Eu queria gritar de dor e desistir. Porém, quando lembrava das palavras do Mestre; é o mesmo que admitir que tudo o que faz vale de nada. Meu sangue fervia, meu vigor levantava novamente, meu Chi explodia e eu conseguia subir mais e mais.

Forçando todos os músculos do meu corpo ao limite. Minha cabeça parecia explodir de tanto latejar. Contudo, quando escalei até o cume da montanha e sentei lá, era como a recompensa pelo meu esforço. Naquele dia, eu pude ver o pôr do sol mais lindo da minha vida.

Mestre Zi não tinha levado nem mesmo 1/5 do tempo que levei para escalar. Afinal, ele podia subir essa montanha apenas pulando por algumas pedras!

Ele olhou para mim, que estava respirando pesadamente, direcionou seu olhar para o pôr do sol e disse: “Garoto, supere seus limites sempre. Todas vezes que realizar isso, poderá ser livre e ver que a vida só recompensa os verdadeiramente esforçados.”

Essas palavras me tocaram de uma maneira inimaginável. Me fazendo lembrar da minha irmã. Quando estava prestes a falar algo, ele me interrompeu.

“Agora fique aqui e treine 4 dias sem comer. Medite até que sua respiração se adaptar nessa altura. Vou estar tomando chá lá embaixo, tchau.~”

Até esqueci o que ia dizer para ele de bom, só desejei que ele escorregasse na descida e batesse a cabeça.

Mestre Zi sempre foi um velho brincalhão e desgraçado, mas também um professor excepcional.

 

 

Estou alguns metros de alcançar o topo dessa montanha dos infernos. Normalmente o frio não me incomoda, mas quanto mais escalei essa montanha, mais frio estava ficando! Nem mesmo o Manto Amba vermelho conseguia derreter o gelo, na realidade, só servia para me esquentar. Estou sofrendo para subir cada centímetro dessa porcaria.

 

Meu corpo não para de tremer, minha cabeça está quase explodindo e nem meu manto vermelho me esquenta agora. PORÉM! FINALMENTE ESCALEI ESSA MONTANHA!!!!!!

Estou experimentando dois tipos de sentimentos ao mesmo tempo. Isso é algo normal? Sentir ódio e alegria.

O cume não é uma ponta ou algo assim, mas sim plano. Como se tivesse sido cortado por uma espada gigante de forma limpa. O topo da montanha é enorme, algumas vezes maior que a largura da Torre Amestya. Sim, é muito largo, mas é o esperado para uma montanha tão grande.

Bom, pode parecer muito estranho o que vou falar agora, mas… tem algo parecido com um templo na minha frente. Bom, não é próximo, mas também não está distante. Ele é todo branco e erguido por pilares de gelo. A coisa mais estranha disso tudo, é que dá para sentir a presença de outros seres vivos dentro de lá…

Outra coisa que dá para notar, é que vapor sai da entrada e outros lados e algumas auras absurdamente poderosas estavam dentro desse templo. Hah… Espero de coração que minha mãe não tenha me dito o lugar errado.

Não posso ficar apenas olhando e com dúvidas, estar parado nesse inferno congelante com ventos cortantes já tortura suficiente. Se é para ser morto que seja lutando e não pelo clima do ambiente. Andando até lá, ouvi diversos sons. Bom, aos meus ouvidos são vozes, mas possivelmente são grunhidos e outros tipos de sons.

Quando pisei na entrada, que nem era a entrada do templo, mas sim onde os pilares iniciais – que seguravam o teto – da área da frente ficavam, um calor tomou todo meu corpo. Era um calor gradativo, que não machucava, na verdade, fez todo o frio que sentia sumir quase que em alguns segundos. Isso me chocou. Do lado de fora do templo é quente, mesmo sendo uma área aberta!

Bom, agora menos um problema… eu acho.

Adentrando o templo, todos os sons se aquietaram.

Eh… A situação não é boa.

Diversos pares de olhos estão me encarando. Não pequenos olhos, mas sim olhos gigantescos.

Eram diversos Tigres Amba. Dá para perceber que há apenas adultos e filhotes aqui, só tem uma coisa que tá me deprimindo aqui. Todos aqui são maiores que eu.

Assim como mostrava por fora, o templo era gigantesco por dentro. Todos Tigres Amba estavam enfileirados lado à lado, posicionados em algo parecido como uma arquibancada, só que gigante, já que era para caber um tigre de 10 metros ou mais.

Havia três arquibancadas, uma de cada lado e uma no lado oposto da porta, que era onde eu estava olhando. Também tem outros cômodos pelo visto, só que ficam do lado das “arquibancadas”.

Na arquibancada da frente, havia um tigre que era maior que todos os outros. Parecia ter cerca de 15 metros de altura, com uma pelagem que parecia dourada, era como se tivesse perdido o tom com o tempo. Bom, devo concluir que esse é o líder dos Tigres Amba e, também, o mais velho.

Todos me encaravam sem dizer uma palavra, então, o Tigre Amba dourado falou primeiro comigo: “Filhote, onde está seu pai?”

Quando ele falou tão claramente, não pude evitar me surpreender. Era muito diferente da minha mãe. Parecia muito mais sofisticada a maneira que falava, até sendo capaz de falar frases sem dar pausas!

Eu apenas fiquei quieto. Afinal, nem mesmo eu sei onde ele está!

Então, ele pareceu me analisar mais profundamente e me questionou de maneira diferente: “Filhote, você ao menos sabe falar? Como chegou aqui sem seu pai?”

Bom, pelo jeito não tem como não responder. Ficar quieto só me traria problema, talvez até incomodaria os outros Tigres Amba.

“Desculpe. Filhote, não saber, pai-han. Mãe-han, mandar vir reunião. Dourado, líder?”

Falar é uma tristeza. Dá para notar quão diferente é a maneira que o dourado e eu falamos… Não fique triste, Henry! É uma língua que acabou de aprender, você vai melhorar!

Saltando do seu lugar, o líder chegou próximo de mim e começou a me farejar.

Após farejar, ele soltou uma baforada longa e falou: “Você é o filhote da Kan-en… Isso será complicado…”

Complicado? Por que será que sinto que vai dar merda?

E como esperado, um Tigre Amba levantou do seu lugar e rugiu: “FILHOTE DA KAN-EN?! COMO OUSA O FILHOTE IMUNDO DO ZAN ENTRAR AQUI?!”

Sem nem entender quem diabos era Zan e se minha mãe se chamava Kan, então só pude ficar quieto.

O dourado respondeu ainda mais feroz: “QUIETO LE’IN! COMO OUSA GRITAR NO SALÃO DE REUNIÕES COMIGO PRESENTE?! VOCÊ DESEJA TANTO PERDER ESSA MALDITA LÍNGUA?!”

O tal “Le’in” pareceu se controlar e respondeu com respeito: “Desculpe, Kei-en. Entretanto, todos sabemos os problemas que Zan trouxe há 3 anos. Kan-en, a maior e mais especial guerreira da nossa raça, pode ter se casado com ele, mas isso não significa que os pecados dele foram perdoados!”

Após ouvir esse dialogo só pude concluir que o Kei é o líder mesmo.

No momento, estou desconfortável com o estava sendo dito, então me senti obrigado a responder Le’in: “Filhote, não saber quem, Zan, mas mãe-han, falar, vir até reunião.”

Kei encarava sério para Le’in. Sem tirar os olhos de Le’in, ele me respondeu com gentileza: “Filhote, Kan-en, a sua mãe, é um dos poucos laranjas que restam na nossa raça. Havendo apenas 4, contando contigo. Filhote, qual sua idade?”

Ele parecia muito gentil com filhotes, era como um avô conversando com um de seus netos. Respondi a pergunta dele: “Filhote, nove meses, Kei…-en…?”

No final, mostrei dúvida com o honorífico. Quando falo mãe é anexado imediatamente, mas como eu não sei como é que devo tratar o Kei, levei algum tempo e pensei no único honorífico que foi usado para se referir ao Kei. No caso o honorífico que Le’in usou, que era o “-en”.

Só que pareceu ser um erro.

Le’in interrompeu a conversa com uma risada.

“NOVE MESES? HAHAHAHA! QUE PIADA! Filhote, você sequer sabe usar os honoríficos e ainda quer mentir para nós!” Disse ele debochando de mim. Parece que esse é um daquele babacas que adora implicar com outros.

Hah… Até no mundo das bestas tem esse tipo pelo visto.

Não dei nem mais um olhar, perguntei diretamente para Kei, já que sabia que Le’in riria da pergunta.

“Filhote, falar, algo, errado?”

Kei suspirou e me explicou com cuidado: “Filhote, os honoríficos na Língua Bestial são; -han, -en, -in e -un. Começando pelo primeiro, o -han é usado para mostrar respeito aos mais velhos, no caso, seus superiores e seus pais. O -en é usado para alguém que você já tem intimidade há muito tempo, ou seja, usado por amigos ou companheiros de longa data ou de verdadeira confiança. Já o -in é usado para irmãos. Por fim, -un é usado para seu companheiro de vida, no caso, sua fêmea, a sua keter.”

Entendi. É como as vogais. Essa língua parece ser muito básica, e não são muitos honoríficos também, igual outras línguas que já estudei. Bom, devo usar com mais cuidado isso.

Retornando ao assunto, falei para Kei: “Kei-han, filhote, não mentir. 9 meses. Mãe-han, dar, ouvidos e voz. Gema (B-).”

Kei também parecia duvidoso com a minha idade. Então, sem demora, ele fez algo parecido com a minha mãe. Levantando sua pata, ele levou uma das suas garras para trás da minha cabeça e tocou minha Gema de Energia. Bom, ao menos é onde eu acredito que ela esteja. Deu para sentir uma energia entrando nela, não era Chi, isso eu tenho certeza. Possivelmente seja Mana, já que é a outra energia nesse mundo.

Após alguns segundos, ele disse: “De fato, nove meses… incrível. Filhote não mentiu, mas, Kan-en te trouxe até aqui, por que eu não a vejo?”

Respondi com a cabeça baixa: “Kei-han, mãe-han, levar irmãos, outro território. Mãe-han, disse, perigo lá. Filhote, subir, sozinho.”

Kei parecia ter ficado surpreso e, com curiosidade, perguntou para mim: “Filhote, você escalou a montanha inteira sozinho? Isso é verdade? Como?”

Le’in não aguentou mais, parecia ter chegado ao seu limite. Era como se fosse o acontecimento mais impossível na sua vida. Então, começou a me xingar: “Esse filhote mente! Nem mesmo se tivesse 10 anos conseguiria subir até aqui! Mesmo que ele tenha uma Gema (B-), com o fraco manto de um filhote, ele jamais subiria além da metade da montanha!”

Eu olhei ao redor, todos pareciam confusos e duvidosos com isso. Até Kei parecia assim, mas, pelo menos, ele não me irritava como Le’in.

Kei olhou para mim e pediu: “Filhote, se o que fala é verdade, peço que você ative seu Manto Amba e use toda sua energia. Dessa forma provará o que diz.”

Bom, eu não acho que preciso provar algo, já que subi essa montanha desgraçada com puro esforço e paciência. O que diabos ganharia mentindo uma hora dessas?

Que seja. Não estou mentindo, se eles querem ver tanto assim, que vejam. Vou mostrar para todos que fui capaz de subir essa merda de montanha!

Ativei meu manto com toda a raiva que senti no momento.

O laranja queimava alto, suas chamas eram violentas, mas não era o suficiente. Logo, mudei para o vermelho. Todos os Tigres Amba adultos levantaram, ao mesmo tempo, espantados.

Kei não parecia espantado, mas sim interessado. Ele sequer disse algo. Pessoal, eu gastei quase toda minha energia para subir aqui… Se ninguém dizer que posso parar, vou acabar desmaiando…

Finalmente, Kei notou que estava imerso nos seus pensamentos e falou: “Filhote, é suficiente. Precisa ser muito talentoso para mudar as chamas do Manto Amba. Kan levou 5 anos para alcançar a cor vermelha. Porém, mesmo com o poder dessas chamas você só poderia chegar próximo do cume, mas não nele. Você não tem mais para a dizer?”

Por mais que ele tenha me elogiado, parecia cético com a minha subida.

Juntando toda minha experiencia com velhos teimosos e orgulhosos – desculpe Mestre, mas sua personalidade também me ensinou isso –, respondi com muito respeito e sinceridade: “Kei-han. Filhote, subir, não importar, maneira. Gelo, ser forte, mas, vontade maior. Mãe-han, dizer, filhote, ir reunião. Filhote, não poder, voltar.”

Kei entendeu o que quis dizer. Com um rugido alto, ele falou para todos os outros Tigres Amba: “O filhote da Kan-en é um dos nossos! Irmãos! Mesmo que seja o filhote de Zan, aquele que trouxe a maior desgraça para nossa raça, o filhote também é de Kan-en! Um talento ainda mais raro! Um filhote feroz!”

Ele olhou para Le’in de novo e avisou em tom sério: “Se ousar tocar no filhote, por qualquer que seja seu motivo, irei acabar com sua vida, Le’in. Eu sou o líder. Seu pai já morreu e você não tem o direito de tomar decisões. Entendeu?”

Le’in, rangendo seus dentes e sem mostrar raiva, respondeu: “Entendido… Kei-en.” Após dizer isso, se ajeitou em seu lugar, ao lado do seu filhote também negro.

Com apenas a sua enorme pata, Kei me levou até seu lado na arquibancada da frente, o lugar mais alto de lá e começou a explicar: “Todos aqui, de diferentes territórios das Terras Gélidas, sabemos o que está invadindo nosso amado lugar, onde nascemos e morremos. Não apenas de um lado, mas também de trás!” Ele rugia com raiva e ferocidade. “O filhote acabou de chegar, então, espero que não liguem que eu explique nossa situação para ele.”

Ninguém disse nada, então, acho que é uma aceitação?

Olhando para mim, com seus olhos gigantescos, Kei disse: “Filhote, os Elfos Prateados estão tentando invadir pela frente. Já atrás, uma Horda está se formando. Nós, Tigres Amba, não participamos de Hordas. Temos orgulho em apenas viver em nossos territórios nas Terras Gélidas. Le’in, Ka’in, e Yan defenderam nossa amada terra dos Elfos Prateados. Contudo, esse avanço repentino só pode significar uma coisa. O nascimento daquela aberração foi percebido pelas Aldeias.”

Ele parecia extremamente irritado quando falava dos Elfos Prateados e das Hordas. Então, questionei mais sobre o assunto: “Nascimento? Por que, invadem? Hordas?”

Em um tom ainda mais pesado, Kei me respondeu: “Filhote. Um filhote de Dragão está para nascer. Essas aberrações levam 12 anos para chocarem de seus ovos. Há 4 anos um ovo está sendo chocado pelo que sabemos. Hordas são formadas por conta desse ovo. Para protegê-lo. O Dragão Negro, que deixou o ovo, dominou e ordenou as Bestas Mágicas que obedeçam e protejam seu filho…” Com uma pausa, ele encarou com uma expressão complicada a entrada do templo.

Então, ele voltou a contar: “Mesmo nós, os Tigres Amba, não podemos acabar com o ovo ou as Hordas, Bestas Mágicas poderosas estão sob ordens do Dragão Negro. Porém, ele…m-… Zan caiu na tentação. O Dragão Negro o enganou. Zan era um dos mais fortes, logo, corrompeu outros membros da nossa raça para seguir em algumas Hordas três anos atrás. O resultado foi a exterminação dos membros da nossa raça naquela guerra. Os maiores causadores da exterminação foram os Elfos Prateados! Por mais que tenham caído na tentação, todos aqueles que morreram eram irmãos, irmãos de guerra! Nossos irmãos!”

Entendo. O pecado de Zan era muito mais pesado que imaginava. Pelo jeito há muito ressentimento direcionado para o filhote desse pecador. Posso até entender a raiva contra os Elfos Prateados, mas isso não é esperado em uma guerra? Um lado vencedor e um lado perdedor? Bom, é melhor não pensar muito nisso.

Kei tinha mais para falar: “Os Demônios Negros, membros da aliança das Aldeias que rodeiam a grande terra, são capazes de usar as sombras para passar pelos nossos territórios e ver o que está acontecendo dentro do continente.”

PUTA MERDA!!! TEM DEMÔNIOS AQUI?! Sempre quis lutar contra uns na minha vida passada! Eu nunca vi assombração ou demônios, mas o Mestre Zi falava muito dos contos e mitologias do seu país de origem. Sempre havendo grandes história de deuses contra demônios.

Perdido em meus pensamentos, Kei continuava a falar, mas só pude ouvir quando parei de pensar nos Demônios.

“Os Elfos Prateados estão nos invadindo. Possivelmente as Aldeias foram alertadas pelos Demônios Negros no interior da amada terra. Então, os Elfos Prateados vieram ver sobre o que se tratava, contudo, NÃO IMPORTA QUAL SEJA O MOTIVO DESSA MALDITA RAÇA, NENHUM ELFO PISARÁ NO NOSSO TERRITÓRIO! CADA UM DELES SERÁ EXTERMINADO! Os acontecimentos de três anos atrás estão marcados no fundo de nossas memórias! Se eles entrarem, virão em vingança da mesma forma que nos vingaremos por tudo o que fizeram!”

Mesmo entendendo o que ele queria dizer, Kei parecia se perder em loucura e raiva quando se tratava de três anos atrás. Por mais que isso seja pensado como certo, já que mataram membros da nossa raça, não era uma guerra? Não é esperado que um lado seja vencedor e outro perdedor? Bom, que seja, não vou ficar pensando nisso.

No momento só restava uma pergunta, a qual já imaginava a resposta, mas precisava da confirmação de Kei: “Kei-han, por que, reunião?”

Com um rugido que reverberou toda a cordilheira, ele me respondeu: “HAVERÁ GUERRA CONTRA OS ELFOS PRATEADOS! Filhote de Kan-en, todos guerreiros da nossa raça estarão neste campo de batalha junto com os filhotes mais fortes! E você, estará ao meu lado!”

Ele saltou do lugar, ficando no meio do salão, e deu seu discurso final: “Nossa raça exige o sangue daquela raça maldita! Que paguem o que fizeram! Que o sangue deles seja despejado nas Terras Gélidas! Mataremos cada um deles! E IREMOS INVADIR A MALDITA ALDEIA DELES E ESTRAÇALHAR TODOS!”


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Autor: Rose Kethen



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