DA – Capítulo 7 – Conhecendo o primeiro imperador



— Eu não sou um lobo, sou um leão. Uma criatura diferente. Como pode estar tão calmo assim? Mesmo que seja a primeira vez que tu vês um leão, somos seres que intimidam com nossa forte estatura e tamanho. Um mortal ao me ver correria por sua vida. E você tem a mente de um mortal nesse momento.

— Eu consigo ver nos seus olhos, você não quer me fazer mal. Na verdade, é como se você tivesse sofrido muito. Eu quase sinto que vou desmoronar em lágrimas ao te olhar. É como se tivessem tirado a coisa na qual você mais se importava. E então você… você mudou.

Gornn encara os olhos de Mythro. Ele se levanta, seu tamanho sentado não era tão intimidador. Mas quando ele se levanta é como se uma montanha estivesse se movendo, para cair direto em sua cabeça.

O leão rubro, com seus quase 4 metros de altura, caminha a passos lentos. Logo ele chega cara-a-cara a Mythro.

— Coloque sua mão em minha boca.

— Você quer algo com meu sangue?

”Ele me leu novamente?”

— Toma. – Mythro levanta sua mão direita, e coloca um de seus dedos nos caninos de Gornn, o pouco contato já faz sangue deslizar do pequeno dedo.

Provando o sangue, Gornn faz seus vereditos.

”Definitivamente NOVA, faz muitos milênios, mas lembro deste sabor, embora esteja quase apagado… E também há…?”

— Garoto, faça a marca de uma mão com seu sangue, aí mesmo no chão e me espere brincando em algum lugar.

Mythro deixa sangue escorrer pela palma de sua mão e depois grava no chão, carimbando com sua mão.

— Posso ir nadar?

— Nadar?

— Sim, ali no rio.

— Você pode ver aquilo também?

— Sim, o rio com neblina e estrelinhas caindo.

— Você o vê completamente?

— Sim.

— …

Mythro então sai andando. Ao se aproximar do rio, ele funga, como se procurando o cheiro do rio a qual ele presencia.

— A natureza do primeiro reino não tem cheiro. O máximo que vais sentir é o cheiro de Qi de terra, que está sendo estimulado devido à movimentação contínua dos mistérios e energia que emana do tesouro caennmico.

— Tem cheiro de chuva também. E de abraço.

— Cheiro de abraço?

— É? – Mythro diz e curva a cabeça com seus dedos no queixo, em estado contemplativo.

Gornn então fecha os olhos e pensa em tudo que Mythro fez até este momento, depois os abre com um novo brilho.

”Entendo… Uma habilidade rara, ele possui augúrio em seu corpo, manifestado principalmente pelos olhos. Pessoas desse tipo aprendem rápido e conseguem lutar de forma criativa e dominante, podendo até mesmo carregar o título de ”exército de uma pessoa”. E isso é somente um dos benefícios… Os véus que só podem ser baixados com cultivação e compreensão, são vistos diretamente pelos seus olhos divinos.”

— Esse cheiro de abraço que fala, deve ser a aceitação da natureza para com você. Nade até o centro, ao lado da árvore e encoste sua testa nela.

O pequeno então pula na água e nada, nada lentamente, como se tudo ao seu redor tivesse sido desacelerado.

O leão rubro encara a palma de sangue gravada no chão e começa a mexer sua boca, como se fazendo um encantamento. Momentos depois, do sangue, três cores se separam. Uma é vermelha, a outra é dourada… e a outra azul.

”Sangue vermelho devido à raça vertebrada, sangue dourado, pela divindade de sua alma e corpo, e azul… azul pela extensão de sua vontade celestial, e os caminhos que somente os celestiais podem tomar. Ele é Arfoziano… e Nova… Esta criança não nasceu das bençãos de Caenn, e sim foi deliberadamente criada por dois membros das raças supremas. Ele devia ter ascendido diretamente ao quarto reino, mas por ter caído aqui seu corpo foi manchado com a poluição do ventre das fadas. E ainda mais, sem uma essência a qual assimilar, ele jamais colocaria o pé no quarto reino de qualquer forma. O que deu na cabeça de seus criadores, criar algo tão fantástico e depois largar? Não faz sentido algum!”

Gornn então se volta e olha para o progresso de Mythro. Ele se surpreende com a visão. Mythro já estava ao lado da árvore e colocando sua testa nela.

Na alta árvore, diversas linhas vermelhas com tons azulados partem do toque da testa do pequeno para a árvore inteira. Todo o rio para e a neblina começa a desaparecer, as partículas que flutuavam, dançando e rodopiando em meio a neblina desvanecem como as estrelas com a chegada do sol.

”Ele já está colocando a natureza do primeiro reino em sua imagem espectral, isso dará a silhueta de como ele deverá trilhar o primeiro reino. Mesmo com os talentos de um Nova, isso seria difícil, afinal, este tesouro é sagrado, a todo momento ele está sendo provado, ser o  hospedeiro de algo como a natureza de um dos reinos… É algo que todo cultivador quer, mas não pode ter.”

Mythro nesse momento está completamente absorto. Todo seu ser está focado na absorção da natureza do primeiro reino para o seu corpo. Ele sente a energia sendo diretamente levada de sua testa até o centro de seu corpo.

Mas então algo que não devia acontecer, acontece. A energia começa a voltar pela boca de Mythro e começa a esvair de volta ao ar.

Gornn encara o que se passa e começa a se mover, segundos depois ele começa a pisar no ar e voar na direção de Mythro.

”Ele não entende nada de cultivação, esse lugar é o paraíso de artes perdidas, mas ninguém daqui passou do quinto reino, então elas se tornaram bem inúteis.”

— Garoto, há três lugares importantes no corpo de um ser. Estes são seus três dantians. O olho do céu, é o dantian que está situado em sua cabeça, na testa, no meio de suas sobrancelhas. Ele é o dantian do céu, Shen, ele é o que se refere a seu espírito e consciência. O segundo dantian, o do meio, chamado Qi, é localizado no coração, ele se refere aos seus pensamentos e emoções. E o mais importante, o dantian inferior da terra, Jing, é nele onde agregamos a energia cósmica que há ao nosso redor, é por ele em que podemos interferir com os dois dantians acima, sem ter energia suficiente nele é impossível que você possa unir os três para cultivar tudo, mente, corpo e coração…

Gornn explicou o básico de cultivação para Mythro. Embora, sejam apenas conselhos menores, com isso Mythro poderia entender mais de seu corpo, mente e coração.

Embora Mythro estivesse absorto, dentro de sua mente, as palavras de Gornn ecoaram, calmas e profundas, elas fizeram com que ele finalmente pudesse absorver a natureza do primeiro reino sem que ela escapasse.

O leão ao andar calmamente, finalmente alcança o lado de Mythro. Ele pausa para encará-lo e então sopra em seu ouvido. Este sopro é cálido… e cheio de intenção assassina. O leão começa a desaparecer, como se tornando etéreo, diversas partículas vermelhas começam a viajar no sopro, que também começa a se tornar mais denso e levemente vermelho. Horas depois o leão rubro desaparece completamente, e Mythro termina de absorver a natureza do primeiro reino.

Quando ele abre os olhos novamente, ele está em uma posição antes desconhecida, ele está em pé com os joelhos virados ”para fora” e seus braços estão esticados em forma de abraço, sua coluna está corretamente posta e sua cabeça na ponta de sua extensão. Mythro suspira, e de seu hálito, uma fumaça branca sai e esvai.

Ele olha ao redor procurando o leão, percebe que não há mais nada ao seu redor, até mesmo a luz escassa que vem pelo túnel da caverna começa trái-lo.

— Foi tudo um sonho?

— Não.

Mythro fica surpreso e cai da posição que estava. Ele novamente olha os arredores, e além de algumas plantas nada mais se vê.

— Onde você está?

— Estou em Shen.

— Shen? – Mythro se lembra das palavras do leão e começa a tocar no meio de sua testa.

— Sente-se de pernas cruzadas e relaxe. Você deve se concentrar na área Shen. Assim poderá me ver novamente.

Mythro então segue os passos que Gornn o passou e se senta, ele inspira forte e contrai seu corpo, então com uma expiração deixa toda a tensão sair. Ele repete esse movimento, às vezes segurando e esperando certo tempo passar.

Na área Shen, no dantian superior, Gornn está sentado no ar. Acima do rio da natureza do primeiro reino.

”Ele está meditando e fazendo exercícios de respiração… É tão natural e calmo. Eu já me esquecera de como é ser um novo ingressante neste mundo… Talvez eu nunca tenha sido. Os leões dourados nascem com tudo que precisam saber sobre cultivação em seu sangue. Nossos corpos são feitos para absorver energia até mesmo no ventre de nossas mães. Conforme avançamos em cultivo, mais memórias despertam e nos ensinam o caminho a seguir. Embora eu já tenha derrotado um Nova antes, me pergunto se é o mesmo com eles em circunstâncias normais, afinal, eles são uma raça reclusiva.”

Minutos depois, Mythro consegue conectar com sucesso a sua área Shen. Ele primeiro observa uma área completamente vazia, sem luz, nem nada. Então ele olha para cima, e vê a natureza do primeiro reino na distância, e o leão rubro deitado em meio ar.

— Gornn!

— Suba aqui.

— Mas eu não sei voar!

Gornn ri um pouco e então lança à Mythro:

— Aqui também não tem chão, então pequeno, me diga, o que fazes para estar assim, ereto no ar?

Mythro olha para baixo e vê que é como Gornn diz, ele então entra em pânico e começa a se debater, como se estivesse se afogando.

— Ora, deixe disso! Venha logo aqui!

Então o corpo que se debatia, fica completamente parado, como se tivesse ficado paralisado. Instantes depois o corpo paralisado começa a subir.

— Gornn eu estou voando!

— Eu estou fazendo isso, nem mesmo em sua própria mente você tem controle completo!

Mythro então alcança rapidamente a altura de Gornn, o leão rubro o encara com seriedade.

— …Cara de lobo… achatadinha… – Mythro diz bem baixinho e depois ri.

Gornn então se põe de pé e Mythro consegue ver um outro olhar em seus olhos. Como se uma besta selvagem e anciã tivesse sido acordada.

— Você será meu pupilo, você deverá se ajoelhar à mim, e me chamar de mestre.

— Namhr já é minha mestre.

— Não, ela é uma garota da terra acima da raiz moribunda. Ela é vazia de conhecimento e cultivação.

— Não fale assim de Namhr!

— Garoto, sem mais brincadeiras! Você deverá honrar o débito que há entre nós, eu lhe salvei e agora você deve me ajudar a sair deste lugar!

— Jamais ajudarei alguém que falou mal de Namhr.

Gornn encara por alguns segundos à Mythro, e então seus olhos dourados brilham. Ele abre sua boca e rosna.

— Eu sou Gornn! Ancião dos leões sagrados, um grande Imperador! O que eu digo…

Enquanto Gornn esbraveja, sua forma normal cresce exponencialmente, de um leão de que já supera facilmente a altura de Mythro, ele vai até os 10 mil metros. A enorme diferença faz Mythro tremer! E não é tudo, de sua cabeça, no centro, uma coroa vermelha viva, cheia de jóias aparece, e dois chifres a acompanham de cada lado. E de suas costas, enormes asas abrem, tampando mais 15 mil metros de extensão.

— …é lei!

Mas então, o que nem Gornn podia ter previsto acontece. Da natureza do primeiro reino, direto da árvore, correntes douradas saem em uma velocidade incapaz de ser vista. É como se um breve vulto dourado tivesse passado diretamente indo à garganta de Gornn!

— Correntes místicas de selamento imperial!

Gornn grita, e então ele olha para cima e ruge!

Este rugido faz com que Mythro simplesmente vire seus olhos e desmaie.

O corpo de Mytho, que estava sentado com suas mãos na parte onde seria o dantian inferior, cai no chão, completamente desacordado.

Onde devia haver somente uma criança parda de olhos dourados, agora há um caixão de pedra gigantesco!

A tampa do caixão desliza lentamente, até que ela cai, e faz um enorme tremor viajar…

**

Na vila Fashr.

— Mythro… morreu?

— Sim, filha, para todo caso, nenhuma pessoa poderia sobreviver esse tempo todo fora de uma vila, onde há fogo e braços de guerra. Ainda mais uma criança.

— Não, não pode ser! Meu irmão… não está morto! — Quando Namhr diz isso, seus olhos cheios de lágrimas brilham roxo, como a ponta de seus cabelos. E seus cabelos começam a se tornar completamente roxos.

— Namhr!?

Fashr vai em direção à Namhr, mas um poderoso terremoto se inicia e começa a sacudir todo o abismo!

**

Quase meia hora depois, o tremor termina. E do caixão, uma pessoa se levanta. Ou melhor… um esqueleto de uma pessoa.

O esqueleto fica em pé, e pula para o chão. Caindo perto de Mythro, que está inconsciente.

— Nova e Arfoziano… Brincaram bem com seu corpo. A minha ausência fez Lucem ficar bem desesperado… Ou será que as forças de Lornum se movem sem mais maquinações e disfarces? Seja o que for… Está na hora de alguém suceder o método de cultivação deste planeta…

O esqueleto então começa a se ajoelhar, e estende sua mão em direção a testa de Mythro. Enquanto ele faz essa moção, um brilho azul o envolve, carne começa a ser feita, proveniente do nada. Nem mesmo um segundo se passa até que seu corpo carnal seja completamente restaurado, e até mesmo roupas são colocadas em seu corpo.

Se Mythro estivesse acordado, ele veria um senhor de longos cabelos brancos e olhos azuis intensos…


Autor: Mateus Lopes Jardim  Revisor: Bczeulli CQ: Gabriel Lucas



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