DA – Capítulo 63 – Primeira ceifa, lago obscuro, sabedoria



— Você… você!

Os outros três meninos ficam espantados. Mas não perdem tanto a compostura.

— Merda. Matem esse moleque, ele é apenas um.

Eles se movimentam em um padrão. Puxando suas armas de seus sacos.

Mythro balança o corpo do menino de um lado para o outro, até que o garoto morto caia no chão. Na mão do pequeno NOVA, um coração que ainda bate aparece. Seu coração está acelerado, seus sentidos gritam uma fome que ele nunca tinha sentido antes. Sua própria alma se rebela em desejo, desejo de consumir, rasgar e depredar.

Seguindo este instinto primitivo, ele encara o coração arrancado e abre sua boca. Suas presas aumentam por alguns segundos, do coração partículas azuis voam até a boca do pequeno NOVA.

Quando as partículas param de voar a sua boca, o coração também encontra seu último batimento.

A Aura Primal Mortal de Mythro fica mais forte, mais densa. Seu corpo é tomado por uma sensação inebriante de força. Suas pupilas afinam em filetes, suas unhas crescem como garras.

Um dos garotos usa arco e flecha. Ele energiza sua flecha e a atira na direção da cabeça de Mythro, que parecia estar em um estado estranho.

Mas como se voltando no momento exato, Mythro move sua cabeça e pega a flecha com os dentes. Ele pega a flecha com sua mão direita e, energizando-a com seus raios, ele a joga de volta para o garoto que a desferiu.

Sem que pudesse haver arrependimentos, a flecha atravessa o olho do garoto, que cai no chão.

— Merda, merda!

Um dos meninos tenta sair correndo, mas Núbia aparece na sua frente e pula em cima dele. Suas garras douradas logo se mancham com sangue.

O último garoto pega o machado de um dos caídos e ativa um feitiço. Um raio de energia que Mythro não ia conseguir desviar percorre rapidamente a distância. Mas contra tudo que podia ser previsto, ele soca o raio e absorve a energia!

— Pegue de volta, três vezes mais forte!

Uma serpente é invocada na mão de Mythro, ela é a técnica em que ele mescla a mão buscadora de corações com a serpente de energia.

Com um impulso, a víbora sai de sua mão como um demônio sai de suas correntes. Com o machado em mãos, o menino tenta batalhar com a serpente, mas a criança na sua frente vai se aproximando dele, e mais serpentes deslizam de seu corpo, como se ele tivesse carregando um ninho com ele.

— Por quê? Por que você nos atacou? Não fizemos nada contra você!

— Vocês tocaram no que não deviam, agora suas almas serão minhas!

Usando a cauda para fazer um salto reação, Mythro chega rapidamente ao lado do garoto. Ele o joga para cima e lança sua ‘’serpente buscadora de corações’’. A serpente pega o menino no ar e o joga contra Mythro, que estava em terra a 2 metros de distância, antes do garoto encontrar o chão. Mythro prepara um “soco de duas faces” e soca o menino que caia em sua direção. O som de ossos quebrando viaja até mesmo as indefesas garotas, que gritam em uníssono.

Terminando com esse, Mythro se vira para ver que Núbia carrega a cabeça do outro ofensor.

O pequeno NOVA abre sua boca e presas novamente saltam. No lado esquerdo do peito de cada um dos quatro que acabaram de morrer, partículas azuis viajam até ele, e som de gritos são ouvidos mais uma vez, mesmo dos corpos sem vida.

No corpo de Mythro, novas transformações ocorrem.

“Agora que você provou de almas corruptas, você começou a realmente usar os poderes de seu corpo.”

As artérias enérgicas transmitem energia em um fluxo constante. O coração de rubi de Mythro brilha em seu peito, embora não pudesse ser visto pelo lado de fora.

Neste momento, as almas desses pobres garotos viraram nada mais do que energia para ser consumida pelo corpo do pequeno NOVA. A energia vai se integrando forçadamente e isso é doloroso. Imagens de dor nascem na mente de Mythro, ele enxerga a última visão que os garotos tiveram.

Embora os garotos já estivessem mortos, suas almas continuam lutando. A energia trazia algo a mais consigo, uma natureza violenta e doentia.

A energia que ele acabou de devorar era conhecida como “essência anímica”. Era a primeira provação de um devorador lutar com a alma que foi tomada à força. Mythro teria que derrotar não só seus corpos, mas também suas almas.

A essência anímica destes rapazes tinha uma energia corrupta. Elas se forçam na pele de Mythro, procurando uma saída.

— Vocês acham que vão fazer o que desejarem no meu corpo!?

Antes que Mythro pudesse perceber, sua alma é puxada para um lugar desconhecido. Ele está caindo, caindo em um lugar escuro. Quando ele olha para baixo, em busca do chão, tudo que ele vê é um lago de fogo e relâmpagos negros.

Deste lago é possível ver cinco silhuetas… São os garotos que ele acabara de matar!

— Por quê? Ammit?

Mythro grita por Ammit, mas não tem resposta.

Ele cai direto no lago de fogo e raios negros. A sensação é de uma água densa, ele cai devagar, centímetro por centímetro. Mãos alcançam por suas pernas e corpo, elas começam a puxá-lo ainda mais rápido.

“Então é isso. Essa é a responsabilidade por devorar almas? Eu também… vou ser devorado?”

Eventualmente o pequeno NOVA para de tentar lutar. Ele se pergunta, que tipo de autoridade ele tinha para devorar essas almas. Não era ele, também, um assassino? Um criminoso? Um ladrão do pior tipo, um animal matando por prazer?

Quando o nível do lago alcança sua garganta, ele já sabe que não existirá saída. Que apenas a morte de sua alma, poderá compensar o consumo de outras. Sua boca submerge, o fogo queima seus lábios, os raios partem sua língua, e racham seus dentes. Como um último esforço, ele levanta a mão para fora do lago, buscando uma esperança, talvez vazia.

Mas então…

— Quem és tu, que sem pecado afunda no lago obscuro? — Uma voz conhecida por ele, talvez desde que ele nasceu penetra o lago, e toca seus ouvidos.

— Sou Mythro Zumb’la. Filho de Xaemi e Lucem, discípulo de Gornn. Irmão de Ammit, Namhr e Núbia.

— Com tantos entes queridos no outro lado do lago, como podes afundar propositalmente? — A voz pergunta.

— Como podes saber, se livre de pecado estou? Matei cinco jovens à sangue frio, e de suas almas fiz como bem entendi, e as joguei na minha boca, para devorar de suas essências e fazer delas minhas. — Mythro confessa.

— O dever de um devorador, é devorar. O dever do homem, é ser homem. O dever do criminoso, é pagar por seu crime. O dever do inocente, provar sua inocência.

— Qual destes sou eu?

— Você é o homem, e o devorador.

— Quem são os criminosos e os inocentes?

— Você não sabe dizer?

Uma mão irrompe na superfície do lago, ela pega no braço de Mythro e o puxa para cima. Uma outra voz soa, distante, como se em outro lugar.

— Menino, você está bem? O seu tigre sem pelo já matou o outro, por que você está assim?

O pequeno NOVA sabia de quem era essa voz, era de uma das meninas que Núbia se arriscou para salvar.

— Estão me chamando…?

Finalmente, do lago, a face do pequeno NOVA se liberta. Ele olha para quem o puxa, e de certa forma, não poderia ser outra pessoa.

É ele mesmo. Na sua frente, Kether e….

— Chokmah — Olhando nos olhos do ser a sua frente, ele murmura.

Kether era a coroa de Mythro. A primeira esfera do Sefirot a despertar. A segunda esfera era Chokmah, a sabedoria.

Chokmah era quem estava puxando Mythro do lago obscuro.

— Você caiu aqui por falta de experiência. Tente devorar menos almas na próxima vez, pois elas vão tentar levar sua alma para a perdição.

Após dizer isso, Chokmah desaparece, tão repentino quanto sua vinda. Kether olha para Mythro e ri.

— Estou ansioso pelo dia em que você finalmente poderá me evocar. Pense, quantos se ajoelharão e pedirão misericórdia aos nossos pés? Agora volte, esse lugar não é bom de visitar.

— Por que você geralmente não fala nada?

— Custa muita energia falar com você assim e não estou falando de energia cósmica. Nós somos a sua alma, a sua anima. Nos materializar conscientes toma sua própria alma. Felizmente, quando você devora coisas essa energia pode ser reposta. Aproveitei que você devorou estes cinco e chamei Chokmah para lhe puxar.

— Você não poderia?

— Sim, eu poderia puxá-lo de volta. Mas temi achar mais interessante ver como você queimava e desaparecia.

Kether então desaparece, deixando para trás apenas risadas.


Autor: Mateus Lopes   │   Revisor: BCzeulli



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