DA – Capítulo 39 – A direção apontada



Naquela noite Mythro tirou o couro dos lobos com as instruções de Gornn. Levaram quase 7 horas para que ele pudesse finalmente começar assar a carne dos animais.

O pequeno NOVA saiu pela floresta buscando folhas secas e diversos galhos, e deixou os lobos juntos perto de suas roupas. Para carregar os galhos Mythro pega o saco cinza que Aurio o deu, onde estava contido sua terra santificada. Felizmente ela não se desprendeu dele enquanto ele se teleportou com o feitiço, ou então durante a árdua luta nos extremos da fenda abismal.

Depois de colher o suficiente ele volta ao lugar e se senta perto de suas presas, ele joga os galhos e folhas juntos e começa a encará-los.

“Faça o fogo.”

— Como?

“Invoque raios nas suas mãos e eletrocute as folhas e galhos. Mas eu quero que você faça os raios choverem”

— Como se eles tivessem caído dos céus?

“Sim, para fazer isso você terá que entrar em contato com o seu Sol. Esta vai ser a próxima parte de seu treinamento.”

— Mas o meu poder não vem da árvore?

“Você inteiro é seu poder, desde os fios de cabelo até sua alma. Nada em seu corpo é menos importante, entenda isso. Mas quando você usa uma arte, interações diferentes devem ser colocadas em moção.”

Mythro acena, ele levanta e se foca no seu dantian.

“Você se lembra o que seu sol significa?”

— Ele é a minha vontade de ser a luz na escuridão, o alto trovão que todos escutam, o relâmpago que cai dos céus desimpedido.

“Você pode ser mais que isso, e isso pode aumentar eventualmente, mas por enquanto está ótimo. Mas esta é a vontade de seu primeiro reino. Primeiro você deve entender a diferença da cultivação viva e a cultivação espectral.”

— Não seria cultivação morta?

“Cultivações espectrais não estão mortas, elas estão vivas também.”

— Mm?

“Chamamos a cultivação viva, de ”viva”, porque ela possui certa consciência. Enquanto isso a espectral não possui, ela é o literal espectro da alma, sua sombra.”

— Então minha cultivação pode lutar sozinha?

“Não, é por meio da cultivação que seu corpo e alma se fortalecem. A cultivação é o intermediário da aceitação cósmica. Pense neste planeta, ele pode ser considerado uma cultivação, nele está a amalgamação de diversos elementos e partículas que se juntam em um só lugar para fazer todas essas maravilhas nas quais você poder observar, sentir, ver, cheirar e participar. Nesta descrição encontram-se seu corpo e alma também, seu corpo é todas as partículas e elementos, sua alma é a maravilha resultante pelo qual tudo veio a se unir. A alma é o produto indelével de seu corpo, o todo puro de seu ser, por isso não pode ser corrompido, quebrado ou devorado.”

— Por que não?

“Se sua alma quebrar, sua mente despedaçará com ela, isso pode levar a torturas mentais sem fim e divisão de personalidade, se sua alma for corrompida, você se tornará algo que não é. Quando eu troquei minha divindade, foi como corromper minha alma, às vezes os restantes da coroa de Saz me fazem ser uma besta sanguinolenta, completamente vazia de empatia, que busca a morte à tudo ao meu redor.”

— E se a alma for devorada?

“Então você deixará de existir. Não existirá mais reencarnação para você, nem nesta forma, nem em qualquer outra.”

— Entendo, devorar almas acarreta grandes responsabilidades.

“Mm, você deverá escolher bem em quem usará o poder de Ammit. Mas não se preocupe, existirão muitos corações para comer, onde quer que você vá.”

— Entendi toda essa parte, como eu faço minha cultivação entrar em contato comigo?

“Você deve encontrar por meio da cultivação, comunicação entre corpo e alma, assim você entrará no caminho da terra, o primeiro terço.”

Mythro invoca alguns relâmpagos na sua mão, ele fecha os olhos, e se concentra novamente no seu dantian. Ele vê seu sol e os diversos raios que dançam em volta da esfera, como se diversos raios tivessem formado uma bola.

Ele toma uma respiração, ele vê na árvore a inscrição rúnica que Aurio o passou, então a imagina em seu dedo.

Ele expira, os raios começam a ficar com pulos mais longos em suas mãos. Mythro aponta para os galhos e folhas, os raios se desprendem de sua mão e vão direto no material de fogueira, e assim, o fogo inicia.

“Ótimo. Coma, sente-se de pernas cruzadas e faça os raios ficarem por volta de todo seu corpo, desse jeito você irá se tornar um com o relâmpago.”

O pequeno NOVA pega um dos lobos, e apoia seu pé, ele então segura uma das pernas e arranca a perna. Depois ele se senta e a começa a assar no fogo que foi feito. Duas horas depois Mythro consegue comer o lobo inteiro.

— Jamais pensei que ia poder comer tanto.

“Você se tornou um devorador, só existirá fome, nunca irá se saciar. Após suas primeiras almas você perceberá isso.” — Ammit fala, abraçando Kether.

— O que acontece entre você e Kether?

“Kether é o nome disso? Ele me dá uma sensação de casa.”

— Kether veio do Torá, pelo que me disseram é o livro que explica sobre o começo do universo, você o consegue ler?

Ammit olha para o torá e começa a mexer sua boca. Mas a língua que ela fala não é a língua ancestral, é ainda mais antiga… Gornn não consegue entender uma única palavra, mas Mythro as compreende como se fossem uma canção de ninar.

“Na alvorada do universo, plantada estava a imóvel vontade de nada. E isso perdurou por indeterminado tempo, ou nem perdurou, afinal, não existia memória a ser guardada, nem espaço para onde possa se remeter um caminho. Mas um dia, nada cansou-se, mesmo sem forma, mesmo sem memória, mesmo sem espaço… somente sendo nada, ele criou algo…”

Enquanto Ammit fala, Mythro entra em um novo estado de consciência, ele entra em transe, sua mente e alma se transferem para um novo lugar… um lugar completamente escuro e desacompanhado de qualquer coisa.

Ammit continua: “Nada não tinha matérias, Nada não tinha consciência, nem senciência. Nada não tinha mãos, pés, olhos e boca. Tudo que Nada tinha… era nada. E isso bastou para que se criasse vontade. Em sua vontade, nada se dividiu, mesmo sem ser algo, ele se rasgou. Ainda assim partido, Nada continuou existindo, pois não havia morte há nada, porém, Nada encontrou duas novas identidades… Elas eram Yah e Weh. Quando Yah e Weh nasceram, uma parede se formou onde Nada tinha se rasgado, pura luz foi criada eterna em brilho em um lado da parede, e no outro, escuridão eterna e consumidora prevaleceu. Disso, três coisas foram criadas, espaço, memória e tempo.”

Mythro consegue imaginar tudo que Ammit fala, Nada se rasgando, ambas luz e trevas sendo erguidas, e separadas por um véu sem forma.

Enquanto Ammit lê, em seus braços, Kether acorda e seus olhos brilham, o esquerdo brilha branco, e o direito preto.

O pequeno NOVA também abre seus olhos, e eles estão como os de Kether

Os olhos de Ammit também brilham no mesmo padrão, e até mesmo os de Gornn!

“Yah e Weh não se conheciam, não existia memória prévia a eles. Yah e Weh não sabiam onde estavam, não havia espaço antes deles. Yah e Weh não sabiam quando nasceram, não havia quem dizer isso à eles. Tudo que eles tinham, era o que Nada tinha, vontade. — Ammit então para a leitura, e todos os quatro voltam ao normal — A página acaba aqui.”

A devoradora solta Kether e se senta embaixo da árvore de Mythro, ela cruza as pernas, coloca suas mãos em selos e começa a meditar.

Mythro sai do transe e volta a olhar para a fogueira à sua frente. Ele vê luzes oscilando do seu lado, seus olhos as seguem até o chão, onde ele encontra terra santificada.

Gornn foi o único que ficou sem entender nada, embora algo nele tenha sido tocado, sua ascendência lhe negou o entender da palavra.

“Eu não entendi nada do que Ammit disse, que língua foi essa? E por que eu me sinto tão… tão em casa? — Do rosto do leão rubro, lágrimas que não se faziam a dezenas de milhares de anos se formam, elas caem sobre seu semblante, duvidoso, atônito.

“Língua primordial, o que se falava antes de Lornum e Caenn.” — Ammit responde, sem abrir os olhos ou sair de sua posição.

— Eu te conto Gornn. — Mythro tenta falar a primeira palavra, mas ele sente sua visão escurecer e seu coração parar de bater.

“Não tente, você não tem cultivação. Pregar sobre o Dao do início é para deuses, eventualmente você poderá ler, mas até lá, eu pregarei para você e somente para você”

“Por que eu fui tocado, mesmo sem ser um deus?” — Gornn pergunta à Ammit.

“Porque você já foi um deus, mesmo com poder emprestado. E existem resquícios em você da divindade de Saz. Mythro consegue ouvir porque a página está na árvore dele, se ele tentasse ouvir o primordial com essa cultivação, ele viraria pó e seria negado à ele reencarnação.”

— Onde vou poder encontrar outra página? — Mythro se joga no chão, e fica deitado na terra santificada, luzes dançam ao redor de seu corpo como se fossem vagalumes.

A árvore de Mythro treme, um raio desprende do Sol de Mythro e vai pelo galho no qual Kether está ligado, quando o raio alcança Kether, ele acorda novamente. Ele se levanta e aponta para… o oeste. Então ele se senta novamente, e o raio retrocede ao sol.

“Tens sua resposta.” — Ammit fala novamente.

Mythro levanta sua cabeça e olha além da fogueira, no mar de árvores, a direção apontada.


Autor: Mateus Lopes   │   Revisor: BCzeulli



Fontes
Cores