DA – Capítulo 11 – Arrumando uma noiva…



— Pai, esse é o Mythrio — Mits responde, pulando nos braços de seu pai.

— Mythrio? — Mitri olha estranho para o pequeno que acompanha seus filhos.

— É Mythro, creio que ela está confundindo nossos nomes. — Mythro responde

— Ah, entendo… E como você chegou a nos conhecer?

— Eu fui ajudado por seus filhos. Pelo que entendi, me safei de virar escravo.

— Oh? O velho Rátim anda à espreita até num dia desses? — Mitri falou.

— Sim, pai, devemos ter cuidado com nossos jovens. Você já os alistou?

— Já. Até agora há 87 crianças alistadas ao todo, nossos jovens no meio.

— Devo ir me alistar então. — Mythro avisa.

—Você…?  — Mitri fica surpreso, o estado das roupas de Mythro não é das melhores, ele pensa que o pequeno NOVA é uma criança abandonada.

Trinto então se vira ao seu pai e diz tudo o que se passou.

— Entendo… Fashr realmente degrediu muito.

— Você o conhece?

— Sim, crescemos juntos basicamente. Fashr era vívido, um homem apaixonado por aventuras e artes marciais, assim como eu era. Mas o mau destino nos atraca, a primeira esposa de Fashr morreu dando à luz, e depois disso ele deixou de ser o homem que era. Sua vida se focou toda em Namhr, sua filha… O último presente de sua falecida amada. Minha amada também morreu ao dar à luz a Mits, mas devo ser justo com meus filhos e vila, por isso, nunca me abandonei. Fashr voltou a ser mais ou menos quem era, quando ele se casou novamente, com Krima, mas novamente… e de forma ainda mais impiedosa e suja… — Mitri fecha os punhos e franze o cenho.

— Pai! — Trinto fala alto, batendo com o cotovelo no braço do pai.

— Hã, sim, desculpem—me — Mitri tosse, e continua — Garoto, venha como meu convidado, eu alistarei você.

— Você sabe o que aconteceu com Krima?

Esta pergunta acerta em cheio à Trinto e Mitri, pois ambos arregalam os olhos, e engolem em seco.

— Por que pergunta disso, jovem? — Mitri diz, com tom impaciente.

— Seus olhos. Eles acabaram de irradiar medo e raiva ao mesmo tempo, algo que eu mesmo estou familiar… impotência. — Mitri diz isso, e se vira, caminhando para a entrada das carroças, junto dele vão Trinto e Mits.

Mythro acompanha os três.

— Seus olhos dourados olham fundo na alma, não? De fato, algo horrível aconteceu com Krima, e eu testemunhei. Mas não é algo que uma criança deva ouvir. Não, nem Fashr deve saber disso, pois você verá os mesmos olhos nele. Olhos de raiva, medo e impotência.

“Ela provavelmente foi assassinada com alguém de um clã ou secto mais poderoso do que este da vila da caça, se não, vendo pelas expressões deste homem, ele ajudaria esse tal Fashr a se vingar.” — Gornn explica.

— Mas Gornn, eu ouvi pouco da vila da caça, mas eu sei bem, eles estão em um dos mais fortes do abismo, o que pode dar tanto medo a uma dessas vilas poderosas? — Mythro lança um pensamento.

“Ninguém fará inimigos para sua família, ao prol de outra. Se ele não conta, é porque não vai simplesmente recair sobre seus ombros. Mas de todos seus familiares, e também sobre seu vilarejo. Entenda pequeno, é assim que o mundo funciona.”

— Eu não vou ser assim, eu vou me erguer e lutar, mesmo contra algo mais forte. Eu vou ser o detentor da minha própria justiça e palavra.

“É fácil dizer isso, justiça não é algo que se prova na espada, nem na palavra. Todos os dias quando você acorda, as ações que movem suas pernas são injustiça, e justiça à algo. Se você não reconhece isso, você é simplesmente tolo e arrogante.”

Mythro fica quieto e contemplativo. As palavras de Gornn mexem fundo com ele, embora Namhr o fizesse desafiar mentalmente ideias tradicionais do abismo, jamais foram tão profundas quanto olhar dentro de si mesmo, e entender de que até mesmo o que você acha bom e justo, são visões curtas. E que, em diferentes situações, se aplicam diferentes soluções.

“Cultive o coração, Mythro. Um homem forte e idiota, cai por sua própria mão”

— Sim, Gornn obrigado. — Mythro sempre fala com Gornn por via de seus pensamentos, isso o ajuda a manter um olho focado e atento ao seu redor, e claro, em constante amadurecimento.

Os quatro seguem pelo caminho da cidade, eles passam por várias vendas e pequenos acampamentos e chegam até uma área em que há uma tenda, e uma pequena bancada atendendo diversas pessoas. Mythro anda até a bancada e vê uma senhora que estava fazendo uma checagem em pergaminho. Ela batia a pena e mexia seus lábios, como se estivesse lendo mudo.

— Senhora, eu gostaria de ingressar na luta. — Mythro chega no balcão e coloca seus braços perto do pergaminho.

A senhora para com a pena e olha o jovem na sua frente.

— Olhos dourados? — A senhora fica com uma séria dúvida — De quê clã você veio?

Neste momento Mitri aparece atrás de Mythro e coloca sua mão na cabeça.

— Ele não veio de clã algum, ele vivia sob os cuidados de Fashr, mas as coisas não deram muito bem e ele acabou saindo de lá, e busca ingressar no caminho marcial.

— Senhor Mitri, sempre um prazer vê—lo! — A senhora reconhece Mitri imediatamente, e se levanta e faz um cumprimento formal do abismo, que requer levar o dorso das mãos a testa e depois abrir os braços, em gesto afável, à altura do peito.

— Marsca, é sempre bom vê—la também. Como vai sua vila, a produção de seda tem melhorado?

— Sim, com a caça aos animais selvagens sendo entregue nas mãos hábeis de sua vila, podemos relaxar e usar mais espaço do que antes, minha vila nunca esteve tão próspera, devemos isso ao senhor e seus bons serviços.

— Sem necessidades disso Marsca, sua vila produz a boa seda que é até mesmo transportada para fora do abismo, e suas tesoureiras fazem do couro que abatemos, armadura. A necessidade mútua de nosso povo traz fortuna e disciplina. Vivemos sob as rédeas de um bom sistema e de boas pessoas.

— Como sempre muito bom com as palavras, você é digno de ser um dos maiores abismais.

“Maiores abismais?” — Mythro pensa.

“O que significa ser um maior abismal nesta terra?” — Gornn ouve o pensamento de Mythro e o pergunta.

— Maiores abismais são aqueles que fazem a economia e segurança do abismo serem o melhor que dá pra ser. Minha irmã tinha tocado no assunto antes, mas era tão chato que eu dormi. Porém, me recordo dela falar de duas vilas e da cidade, vila das tecelãs, vila da agricultura e aqui, a cidade do abismo. Parece que a vila da caça também é uma vila das maiores. — Mythro lança os pensamentos para Gornn

“Um nome muito forte para muito pouco. Existe uma estrela perto de meu quadrante onde tem monstros com 199 tentáculos, eles vivem em uma fenda que emite ondas de energia Yin poderosas suficientes para congelarem Reis, eles são conhecidos como abismais, e os maiores abismais são seus imperadores. Eu mesmo lutei com eles antes, seus tentáculos são deliciosos, e muito mais numerosos.”

— O que é um imperador ou um rei?

“Teríamos que falar de cultivação neste caso, pequeno. Existem 12 reinos, e em determinados reinos você aumenta sua monarquia espiritual.”

— Nada a ver. A Namhr nunca me disse nada disso. Só existem 4 reinos atingíveis, o primeiro é ciclo cósmico pessoal, e então é o segundo, condensação de anima, o terceiro é o de sobreposição de anima, e o quarto… — Mythro então fica com dificuldade de lembrar e franze as sobrancelhas.

— Mythro, tudo bem? — Mitri fica preocupado, Mythro começou a ficar olhando pro vazio do nada, como se tivesse viajado.

O pequeno NOVA volta a si e olha novamente para senhora, que está com uma sobrancelha levantada e olhando para Mythro como se ele fosse maluco.

— Eu estou bem, perdoe—me, bem podem me ingressar?

— Tens que decidir a quem você vai beneficiar antes.

— Como assim?

— A vila que tiver uma criança fora do abismo receberá maiores cuidados da parte do senhor da cidade, por isso, é interessante que você diga a quem vai beneficiar.

— Entendi.

— Mythro assina para gente! — Mits que estava ao lado de Trinto, apenas alguns passos atrás de Mitri, grita para o pequeno NOVA.

— Mas nem que eu quisesse poderia, né?

— De fato, srta Mits, se este garoto veio da vila Fashr, ele tem que beneficiar ela. — Marsca avisa.

— Mas o Fashr deixou um crime acontecer contra ele. —  Mits diz com os ombros jogados baixo.

— Como assim um crime? — Marsca pergunta, já apertando a pena.

— Eles pensaram que eu era um Markho, e tentaram me matar. — Mythro revela o crime, com um rosto indiferente.

Marsca olha para Mythro e começa a tremer, e seu rosto fica vermelho.

— Isso é completamente proibido! Nosso abismo tem uma cultura de etnias enormes, se sairmos matando qualquer um que for diferente, entraríamos em uma eterna guerra civil, isso é um crime dos maiores! — Marsca fica tão brava quanto Trinto tinha ficado.

— Bem, então, não poderia me colocar para beneficiar a vila da caça? — Mythro pergunta como alternativa para poder ingressar na disputa dos 100.

— Segundo a lei, isso é proibido, a não ser que as vilas sejam atadas por casamento ou hereditariedade. — Marsca diz se acalmando, mas chamando um guarda da cidade que estava por perto. Ela fala algo para o mesmo, que parte com pressa.

— Bem, então acho que isso não será problema. — Mitri diz e abre um sorriso.

— Por que não, pai? — Trinto fica confuso por um momento, mas depois ele olha para Mythro, e depois para Mits e sorri também.

— O jeito é… Mythro se casar com Mits! — Mitri diz e então, de um dos bolsos de sua roupa de couro, ele tira um colar.

Mythro encara o colar que foi removido das vestimentas de Mitri e o encara, ele sente algo estranho à respeito desse colar, pois ele era feito de uma simples corda, mas como principal adorno tinha dois dentes, ambos de pelo menos 4cm, completamente cinzas por óbvia tintura.

— P—pai? — Mits fica completamente surpresa.

— Que tal garoto? Fiquei sabendo que você se apaixonou à primeira vista por minha filha. — Mitri segura o colar e segura tão forte que sua mão chega a tremer.

— Eu desmaiei alguns segundos e não percebi? — Mythro pensa.

“Aceite! Essa garota tem um bom sangue. Embora não seja o melhor para você fazer cultivação dupla, é melhor que nada.”

— Cultivação dupla? E como assim sangue  bom?

“Cultivação dupla é quando casais cultivam juntos, assim intensificando a rapidez do cultivo para ambos. E quanto ao sangue, você não entenderia, mas esses aqui provavelmente tem o sobrenome Paschi, eu posso ver através dos olhos deles, suas almas têm jóia líquida.”

— Do que você está falando? — Mythro fica completamente confuso com o que Gornn está narrando.

“Seja o que for, case—se. Vai me agradecer quando tiver uns 15 anos. “

— Bem, senhor Mitri, creio que casar eu não posso, mas eu poderia ser o noivo dela, e nos casaremos quando tivermos… 15 anos.

Mitri e Trinto franzem um momento, então eles olham Mythro das cabeças aos pés, e relaxam o semblante.

— Gornn por que eles me olharam assim? — Mythro acha estranho e pergunta à Gornn.

“Bem, ele provavelmente já sabe o destino da filha dele. Nenhum pai está pronto para isso, mas quando o momento chegar, você se tornará um homem e ela mulher.”

— Você está me escondendo alguma coisa.

“Você é jovem, entenderá no futuro, agora, pegue o colar.”

Mythro então segue para perto de Mitri e pega o colar.


Autor: Mateus Lopes Jardim Revisor: Bczeulli  CQ: Gabriel Lucas



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