CDN – Capítulo 02 – Condado de Doragon

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Saímos da casa de Erik pela tarde. Ele morava no Condado de Stavang, onde eu também morava. Condados são enormes e possuem vários vilarejos, alguns são maiores e mais ricos que outros. Estávamos na estrada, seguíamos por uma trilha dentro da floresta de Folkvang, que ainda fazia parte do condado. O sol já estava no seu ápice, porém a vegetação densa impedia a luz solar de chegar até nós. Os únicos raios de luz que conseguíamos ver eram os que conseguiam escapar pela vegetação e formavam pequenos pontinhos de luz no chão de terra. Já faziam duas horas que estávamos cavalgando e eu ainda estava meio sonolento. Foi uma noite difícil.

— Aonde estamos indo? — perguntei.

—  Ao Condado de Doragon. Precisamos de armas e alguns suprimentos se quisermos chegar em Sokvabek.

Enquanto andávamos eu fui observando a paisagem, era uma boa forma de distração enquanto não chegávamos ao nosso destino. A floresta tinha um tom de outono, com folhas laranjas que caíam sobre o solo, dando a impressão que a grama era inteiramente alaranjada. Passáros cantavam e ao longe orgogs se destacavam com seu couro preto em meio ao mar alaranjado.

Um pouco mais a frente vimos um homem correndo em nossa direção, não aparentava ter mais de 55 anos, e logo atrás dele vinha um pequeno grupo de criaturas estranhas.

— Socorro! — gritou o homem — Me ajudem, por favor.

Ele finalmente tinha chegado até nós e apesar de ser um pouco gordinho, corria muito rápido. Ele tinha um bigode longo, trançado, que acompanhava uma barba também muito longa e desgrenhada. Sua pele era de um pardo incrivelmente reluzente.

As criaturas estavam chegando mais perto.

— Me ajudem, eles invadiram e dominaram o Condado. Aprisionaram e escravizaram os moradores.

Eu não era muito de confiar nas pessoas, mas dada as circunstâncias da nossa missão, não ajudá-lo não era uma opção.

Ao todo, eram 9 criaturas, todas bem fortes, mas não passavam da altura de um glomma comum, e glommas chegam no máximo a um metro e setenta de altura. As peles esverdeadas e enrugadas passavam a impressão de doença, mas o que mais me chamou a atenção fora o fato de possuirem apenas um olho.

Eles chegaram mais perto, estavam desarmados, pensei que seria fácil, mas em um rápido movimento eles conjuraram espadas e escudos que cobriam toda a parte de cima do corpo. Os escudos eram redondos com uma ponta de ferro no meio.

— Cuida dos quatro na direita que eu cuido dos outros cinco — disse Erik.

Eu não desci do cavalo, não queria me arriscar, então galopei na direção dos quatro e instiguei o cavalo a correr em volta deles, cercando-os. O cavalo que eu montava, Sleipnir, tinha oito patas, quatro na frente e quatro atrás, o que fazia dele um cavalo muito veloz.

As criaturas estavam perdidas e não sabiam o que fazer, então coloquei meus pés sobre a cela e pulei no galho de uma árvore que ficava à direita das criaturas. Era bem melhor, para mim, atirar parado do que em movimento. Mas era difícil conseguir uma abertura por conta dos enormes escudos que eles mantinham sobre a cabeça. Uma das criaturas tentou atacar o cavalo e tudo o que conseguiu foi um coice direto no escudo, o que jogou ele para trás e fez o escudo se partir. Era a minha chance. Peguei meu arco e duas flechas, atirei no coração e na cabeça, por precaução. Os outros três se descuidaram e olharam para o companheiro, agora morto, abaixando os escudos e, num piscar de olhos, estavam mortos com os corpos estirados no chão. Uma flecha na cabeça de cada um.

Do galho da árvore observei Erik que só levantou as mãos, mostrando as palmas para as criaturas. Elas começaram a gargalhar, como se estivessem seguras e correram para atacar Erik, mas uma delas começou a urrar de dor e caiu no chão, as outras caíram em sequência e depois de um breve minuto elas explodiram de dentro para fora.

Desci da árvore e montei em meu cavalo que mesmo depois de correr tanto, continuava com sua pelagem branca maravilhosamente intacta. Andei na direção de Erik.

— O que eram essas criaturas? — perguntei.

— São Drammens – interrompeu o velho — Eles são especialistas em forja e confecção de armas e armaduras.

— E o que eles fazem no Condado de Doragon? — perguntou Erik.

Doragon é conhecido pela fabricação de armas de alta qualidade, eles chegaram pelo porto de Elder e invadiram o condado falando que o condado iria pagar por se achar melhor que eles na fabricação de armas.

— E como o senhor escapou? — perguntei.

— Em uma taverna no condado existe um porão que leva aos túneis subterrâneos, normalmente usado para a evacuação dos cidadãos, mas eles não tiveram tempo de evacuar e agora foram feitos prisioneiros e escravos. Os túneis possuem entradas e saídas estratégicas. Tem uma que fica do lado do portão de entrada, foi por lá que fugi — disse o velho, apontando a direção — mas os guardas do portão viram e me perseguiram.

Ele explicava de um jeito um pouco desengonçado, mas havia verdade em suas palavras.

— A propósito, quem é você? — perguntou Erik

– Eu sou Gilsdorf, O mestre artesão. Fabricante de armas do Condado de Doragon.

Aquilo me surpreendeu. Aquele velho desengonçado não tinha cara de ser um fabricante de armas, ainda mais pelo fato de ele não portar nenhuma.

— Nos leve até a entrada do túnel subterrâneo, por favor ­— pediu Erik

O velho nos levou até o túnel que ficava ao lado do portão principal que estava selado. O portão, que era enorme, era feito de madeira e acima dele tinha um letreiro com o nome do condado escrito em tiras de aço. O Condado de Doragon, ao contrário de Stavang, continha enormes muros que protegiam todos de invasões, mas ao que parece, pelo relato do velho, é que eles tinham um ponto fraco na parte de trás onde o condado fazia conexão com o Porto de Elder.

O velho abriu uma porta no chão que estava camuflada com folhas e grama. Deixamos os cavalos amarrados em uma árvore e entramos no túnel. O velho foi primeiro, logo em seguida Erik e eu entramos. Depois de andar por uns cinco minutos o túnel se dividia em múltiplos caminhos.

— Cada caminho leva à algum lugar do Condado — explicou o velho — esse aqui leva ao castelo do Earl do condado, mais precisamente à uma prisão que fica no castelo, onde o rei prendia os criminosos.

— E o que aconteceu com o Earl e com os criminosos? — perguntei.

— Bom, os criminosos foram soltos e o Earl foi aprisionado com o resto dos moradores.

Continuamos. O velho abriu a porta do túnel e saímos na prisão. Era um espaço muito grande, com vinte e cinco celas e haviam cerca de dez pessoas em cada. Estavam todos sujos e chorando.

— Há quanto tempo que os Drammens chegaram e aprisionaram eles? — Erik perguntou ao velho

— Uns 6 dias, eu acho. Eu fiquei escondido em uma taverna até que os guardas parassem de circular pela cidade, então fugi pelo túnel para procurar por ajuda e o resto da história vocês sabem.

Fiquei olhando aquelas pessoas ali, presas, passando fome, crianças chorando por que ficaram presas separadas de seus pais e tudo o que eu conseguia pensar era em meu pai e a saudade que eu tinha dele.

— Precisamos achar a chave para libertar essas pessoas — falei, determinado.

— Precisamos saber onde as chaves estão — explicou Erik.

— Deve estar cheio de guardas lá em cima — o velho observou.

Andei até uma cela e perguntei para uma mulher se ela sabia das chaves e ela me explicou que um guarda sempre volta para fazer a contagem dos prisioneiros.

— Você vai reconhece-lo de imediato — disse a mulher — Ele tem uma cicatriz que atravessa o olho, ele é alto e carrega consigo uma enorme clava.

Pedi ao Erik para que me deixasse invisível por um tempo.

— Cuidado, o feitiço só irá durar por cinco minutos. Ache a chave antes disso e não se meta em encrenca.

Eu estava invisível, mas ainda conseguia me ver, fiquei um pouco preocupado, mas percebi que mais ninguém me via. Subi as escadas até ao piso superior do castelo. Era enorme, com decorações em vermelho e dourado. O corredor dava em direção à um pátio central com uma estátua do Earl do condado. Fui verificando de porta em porta na esperança de achar o tal guarda, mas sem sucesso. Entrei em uma última porta e estava verificando algumas gavetas em que as chaves pudessem estar guardadas, então escutei alguns passos.

— Parece que não há fugitivos na cidade — disse alguém do lado de fora.

— Finalmente vou poder me divertir com os prisioneiros — disse o outro.

Saí para fora da sala para ver quem eram as criaturas que estavam conversando e lá estava ele. Realmente, o guarda das chaves era monstruosamente alto. Faltavam apenas uns dois minutos para o efeito do feitiço acabar. O outro guarda entrou em uma sala que parecia ser um escritório enquanto o guarda da chave entrou em uma sala onde eu ainda não havia entrado. Ele se sentou em sua cadeira e começou a comer um pedaço enorme de carne que havia sobre a mesa. As chaves estavam penduradas no seu cinto, então me agachei e fui engatinhando até chegar perto da chave. Eu tinha pego a chave e já estava me levantando para sair da sala quando o feitiço acabou.


Autor: Guilherme


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