Capítulo 58 – A criação de Deus!



Quero tomar seu rosto, pensou, golpeá-la contra a parede, te esfolar os lábios com este sorriso torto; da sua postura sendo a mesma, sem haver um só detalhe na fisionomia a sensação invernal que se esperava. Por que ela dizia: — A consciência de toda nossa verdade é apenas um homem velho e covarde; se tudo pelo qual lutava estava tão próximo de ser sobrescrito. Covardia se apossava, algo fosco; Imaginava se não havia em ti uma forma de conter seus crimes, a olhando, onde queria dizer o quanto o jogo estava perdido, mesmo que lhe fossem furtadas as palavras, vendo-a se assentar próximo de ti, portando um copo de uísque e fumando duma cigarrilha, com teu tão amargo cheiro de cravo. Diria ser até chique a forma como sustentava o equilíbrio desta entre seus dedos, vestida daquele mesmo quimono qual havia te encontrado pela primeira vez.

— Nós estamos perdendo desde o começo e parece que não dá pra fazer muito … — Ela também tinha alma, no sol, na forma como 0 se tornava 1.

— Não vou dizer que não sabia.

Teu olhar nos dela percorria a sala, caindo sobre a mesma ideia, onde ambos queriam dizer algo, por mais que ausente de significado. Travava de algum modo, abrisse um sorriso, tentando disfarçar cada detalhe. Ela dizia: — Você vai entender … — Estalava seus dedos. — Eles fizeram contato não é? Então, devem estar preparando algo.

— Depois de tanto? — Estava pálido, meio doente, com muito ódio.

— Você não tá considerando da forma certa. — Um dia no bar, com o velho Shinji. Conversariam sobre mil coisas, relembrariam de algumas, mas no fim, apenas negócios. — Veritas passar pela câmara de projetos gerais foi apenas o começo; tal ideia não perdurará enquanto experimento social, mesmo que eu quisesse, e quando todo o subdistrito C se tornar a Giant Tree, a aclamação por cima deve se alastrar por mais. Minha vinda tem a ver em tentar conter isso, no entanto não há quase nada a ser feito.

Pela primeira vez a imaginava, dizendo o quanto se sentia estranho, num estado quase catatônico em que admirava um milhão de planos, num fim mais belo que tudo, onde quase saboreava as cores, as pessoas, os sorrisos reprimidos no seu último deleite. Ah, como era belo, percorrendo no seu sorriso, qual ela também admiraria, e como se próximo da abstração, tinha-se por perto a parte mais bela daquele ser, vendo-o se levantar da poltrona, onde se dirigia ao computador, observado pelas luzes azuis do seu rosto, encarando o monitor holográfico longe do seu fronte qual ele digitava uma porção de coisas. Míchkin dizia: — Eu já imaginava … — Num segundo na Megatorre 5, conversando com um secretário corrupto de um gabinete pequeno do grupo centralizador de ideias humanas. — Mas ainda tenho alguns planos …

— Quer hackear Veritas?

Com o pseudônimo Rosseau, mandava também uma mensagem para a filha de Marius Orfan, Elisa.

— Seria impossível. A matriz deve estar num servidor fechado da empresa privada que a vem desenvolvendo. Precisaríamos invadir então, mas é muito arriscado, principalmente porque já devem estar nos esperando. — Se lembrava do local onde encontrou Koltrain. — Para foder eles de uma vez, temos que destruir a ideia.

Um estaria com ele, recordando do rio artificial entre as bases do Monte Olimpo e todos os acres de opiáceas pra colheita.

— Isso não vai dar certo, desde que Hammilton morreu por atentado ao progresso humano, toda a discussão no assunto vem sendo destroçada pelo grupo de Marius Orfan.

Ficava se perguntando se já não era hora de fazer uma varredura por toda parte meridional de Valles Marineris e queimar as plantações de todos que não fossem seu.

— Isso faz muito tempo, e é até irrelevante caso façamos uma cruzada contra Veritas. Até Marius sabe que o dele tá na reta.

No brilho dos seus olhos castanhos, Um poderia ter preguiça; como assim tantas ideias, nós não caminhamos mais, não deslizamos pelas rochas calcarias rumo a um litoral horizonte, vendo na parte mais bonita o vetor que define nosso movimento.

— Pelo quê?

Se perguntasse sem querer realmente, encarando a fumaça da ponta daquele cigarro e as cinzas pelo abismo.

— O golpe contra Hammilton deve ser o suficiente …

Também recordava de algo ruim, sobre Franker; era sempre sobre Franker.

— Na verdade não …

— Como não?

— Como pode não saber? Franker e Hammilton foram realmente amantes.

No que se lembrasse, seria apenas inveja e ciúme, quando dos sorrisos de Franker, ele te dissesse que mudaria tudo, com Hammilton pelo seu olhar e a voz do seu sussurro.

— Tenho o costume de recordar bastante disso, mas ainda não entra no tipo de discussão que quero recorrer.

Mas o que era de verdade. Os dias na GW, observando a superfície vermelha de marte, junto dele. O vinho com o mesmo gosto de sempre, os jantares racionados, aqueles olhos.

— O que você quer dizer?

Se lembrava também de outra porção de coisas, encarando nos detalhes, o seu ódio…

— Marius e Franker também foram amantes durante um tempo.

Onde olhasse para ele, entre seu vale de memórias e os lábios formando arco, no mesmo fixar dum brilho escuso; ela olhasse para ele e soubesse doutra dolorosa verdade…

Afundaria a cigarrilha no cinzeiro; Míchkin percebia, como pelas poucas vezes, também percebia do quanto ela era humana, frágil, refletindo toda sua existência em alguém que fosse enorme perante seus olhos; mas o caos já transcorrido, aquela indiscrição, lhe fazia indiferente; não te importava, era fato, não era sua amante, sua amiga, e por mais, queria que ela fosse nada.

— Eu tenho provas concretas contra a sexualidade de Marius. Se tentarmos chantageá-lo, podemos conseguir fazê-lo dançar minha dança.

Realmente não o importava, ou pra ser sincero, na sua cabeça não restava espaço para mais pessoas. Já estava cheio de Lunares, de amantes, ainda te preocupava 435, e queria tão logo revisitá-la. Anne era um problema e não era de Um que se preencheria.

— E o que você quer fazer?

Outra verdade, queria apoio, não apenas outro algo para te colocar pra baixo; observando ela, enquanto tinha sua face contra a tela holográfica do computador, anotando cada pensamento seu num arquivo criptografado.

— Para incentivar a reprodução, foi-se proibido a homossexualidade e qualquer incentivo. Para embasar, usamos da moral secular judaico-cristã e forçamos um catolicismo inconsequente goela abaixo da população comum. Economizamos bilhões de RPS em clonagem, e ainda conseguimos mão de obra gratuita em larga escala. No entanto, chegamos num ponto em que tudo isso é desnecessário. Já temos pessoas demais, espaço urbanizado de menos, e nossas capacidades produtivas não podem empregar todos. O loteamento e o desemprego então aumenta a criminalidade e as polícias não conseguem mais manter um genocídio eficiente.

Não era por isso

— Outro tipo de lógica então. A homossexualidade é uma revolta, um grito entalado de revolução contra a opressão perante nossa individualidade. Se tudo podemos, de que modo podem nos limitar? Devemos assumir quem realmente somos sem que nos impeçam; é um direito universal.

— Me convenceu aí, mas ainda não entendo …

— Vamos juntar discursos, convencer parte da população. Quando o genocídio começar, teremos todo um cenário contra Veritas.

A lei se mantinha e a mente programada inadaptada nunca seria capaz de reconhecer a verdeira injustiça fora das suas linhas.

— Usar do que somos falhos contra seus inimigos? Não me parece ser suficiente.

Escrevia mais dois parágrafos. A sensação calma dela pelos seus ombros era decente, com as ideias simplesmente vindo.

— Óbvio que não, entre nossas injustiças, há milhares de outras. Por exemplo, o transhumanismo, a condição material dos subdistritos; vamos criar um deus liberal e polarizar as relações políticas.

No prédio da Japsen, na cidade de Bright Circle, subdistrito B, teria um belo discurso, repleto de engravatados falando sobre as liberdades da mulher, da função social das nossas propriedades inúteis, a transexualidade fora do tabu.

— Isso cria uma condição Marxista, pode não sair tão bem.

Um se lembrava dos dias na GW e todos os cientistas que viviam contigo. As aparências da eternidade, cada história linda de amor, cada coisa bela do sexo e sua degradação a uma imoralidade latente.

— As pessoas estão entupidas de consumo, elas não vão se importar tanto com condições trabalhistas e opressões estruturais. Vamos dialogar até o fim com o identitarismo.

— Quer ganhar em cima do conservadorismo do André?

As pessoas impõe noutras aquilo que não são, pois “bem, assumam nossos erros …”

— Não só dele. Uma nova tendência política tende a trazer muitas figuras para o nosso lado. Colocamos alguém jovem, possivelmente classe média, e temos nosso cenário progressista perfeito. É só aproveitar o choque inicial e podemos ter todo controle.

Um realmente ficava interessada, olhando ele transcrever, bebendo todo o uísque num só gole, próxima de seus ouvidos.

— Progressistas tendem a divergir demais. Os moderados e os radicais podem criar quimeras indomáveis, desgastando o próprio movimento. — Chamava Amantana.

— Não precisa pensar no futuro, já que não vamos ser a face desse movimento. Temos que pensar em exterminar todos os utilitários, o que prosseguir é desimportante.

Ela colocava uma cadeira do lado de Míchkin.

— Não é disso. Como vamos unir todos os movimentos, seus representantes e as massas?

Os olhos se chocando, com listras de números criando objetos; cálculos complexos por debaixo da interface, e algo terrivelmente horroroso de ambas as faces, sobre andar solitária na Giant Tree com pessoas tumultuando ao redor, e os reflexos que expusessem sua face junto dos carros engarrafados ao lado. Choveria e os vorazes pingos cantarolantes te engoliriam, onde parava e olhava algo numa esquina esquecida.

— Os jovens que se drogam, bebem, que levam a breve existência pelo vício, precisam de uma luta. Por que não uma luta sobre nós?

Ele já disse isso, pouco importe; sobre os microfones no palco, a voz cantaria algo realmente belo. Havia um violão, umas notas saindo do seu interior, integrados na harmonia sensual, que fizesse tantos cantar.

— E o que acha das pessoas velhas? Seus preconceitos são uma parte essencial, e como tantas essências, não vão se extinguir com discursos belos.

— Vamos fazer o básico: fingir que não existem e que a manifestação é apenas nossa.

E o que aconteceria com tantos pais e mães de classe preocupados com a saúde mental da prole no significado das palavras revolucionárias de quem aparentemente não deveria ter nada; que fosse apenas algo de drogados, bichas, travestis, pessoas idiotas que pouco viram da vida, tão longe da palavra de Deus, que não poderiam serem levados a sério.

— Você deve se lembrar que toda força deve ser considerada.

— Essa força não resulta em nada. Queremos uma distração, algo que desacelere, enquanto enfiamos o pulso no rabo desses filhos da puta.

De que cor deveria ser a flâmula, pensaria: um arco-íris vibrante, infinitos tons de cinzas em degradê; o que nos define realmente, como somos, que tipo de cor é a cor humana e por que tantos dizem vermelho, aliás, tão vermelho quanto nós mesmos, ou o vermelho paralisado no horizonte, contemplado erroneamente pelos humanos, não entendendo a despedida eterna do astro.

— Se nosso deus morrer, o que seremos?

Já estava deitada num divã naquele momento, encarando o teto terrivelmente alba, com estrelas de plásticos pendidas em cola e poeira engordurada, muitas vezes onde o desgaste não deixasse cair, mesmo que seu brilho apagasse.

O caminhar solitário onde se supõe ser estradas, o frio de uma chuva incessante num rubi que retomasse sua vida pelo delirar ofuscante que também te matava.

— A morte do deus, o fim filosofia, a reintegração do homem ao homem; nada do que acontecer destruirá o que criamos, nem você.

Até deuses mortos poderiam viver eternamente na sombra dos seus mitos.

Noutro passo distante entre o arco da humanidade, cidade de Hope, subdistrito A, se sentiu sozinho Míchkin, pensando nisso; logo depois viria Um, enterrando-o outra vez, trazendo contigo 435, que te daria um último beijo e abraço, até sumir para sempre de suas pálpebras. Ficaria emocionado, mas estava tão seco de lágrimas que para ela que ia, parecia não tê-la amado em qualquer momento; ou era assim que pensava, pegando as estradas em alta velocidade, se lembrando de todo o amor que queria tê-la dado. Ficasse um tempo contemplando sua dor, o que viesse a sua cabeça, vendo que mesmo que o mundo todo acabasse, sempre teria Vênus de abrigo.

Mas o que seria, vendo o sangue que saía do seu nariz, a saliva formando uma poça gelada pela fronha de acetato e seu sorriso congelado lhe dizendo tantas coisas belas quanto vagas.

— Escrever esta carta é como colocar um bilhete numa garrafa … — Dizia. — E torcer que chegue ao outro polo de marte.

A primeira e última carta de suicídio que veria na vida. Que estranho, antes da verdadeira criação, saberia ser de praxe vê-las assim, repletas de saudades, se autodestruindo sem compreender de que modo erravam. Seria, normalmente; as preenchia de amor e depois de tantos cigarros, fugia. Uma história comum, além de Vênus; ao longo dos dois anos teria outras amantes também, como uma garota chamada Celeste, negra e de cabelos encaracolados, que tinha conhecido numa festa no subdistrito B, num dia chuvoso, e que terminava por fugir de seus dedos, em algum inverno não tão gélido; outra pessoa, uma menina de nome Hari, que vivia nos subúrbios de Marcian Behavior, Subdistrito D, com o custo dos seus contos, foi mais intenso, cheio de belas imagens nos quais te devoravam vez ou outra, mas que após ter um dos seus textos esnobados pela comunidade literária, nunca mais te deixaria voltar para seu pequeno sótão. Havia certos problemas com a Hari, mas nunca se importou de nenhum modo, pois de mesmo tempo que estava com ela haviam outras; várias Martas, Staceys, Marias, no entanto, por curiosidade, nenhuma Sônia.

— Não seja insaciável. — Ainda encarava as mesmas estrelas amareladas, as teias de aranha balançando com poeira, sentado num divã branco paralelo, naquele ponto. — Quando começar a pensar sobre o que quer, se tornará um monstro, e no passo desse novo sentido, se verá desnorteado, num fim sem colheita, ou verão, com apenas o mesmo ciclo de outono para outono, na melancolia pura.

Voltava a Redneon, no seu apartamento em Blacklight, sete andares acima do bar da velha Dália, onde no banheiro de ladrilhos pastéis teria um espelho. Visualizaria sua face, passando os dedos pelo maxilar, encarando seus olhos, a textura dos pequenos e grossos fios em riste da barba aparada e a maldição dos seus lábios.

— Quero que a flâmula seja de uma explosão de cor se degradando ao mais triste cinza e que todos os contrários se vejam como as paredes pinchadas mortas, por trás de palavras, outros símbolos desconhecidos, numa súplica ordenada a cada qual incapaz de se verem atados pelo mal que for.

E no quarto dia, do primeiro mês, da terceira estação de setecentos e oitenta e oito depois da grande queda, na Giant tree, as ruas cheias de pessoas estariam repleta de olhares, num só destino se movendo, caminhando no neon formado do amor e ódio, tão nítido para uma luz noturna, confundindo quase com astro; de carros paralisados entre a multidão e uma avenida repleta do que fosse belo.

Dia anterior, 39 pessoas sumariamente executadas, pelos seus e-mails vasculhados, os Hds tomados, e toda e qualquer demonstração do que fosse seu amor despedido. Os que não se importavam, diziam que ao menos alguns pedófilos estavam no meio, outros, que até os pervertidos, e os mais reacionários que era tudo da mesma lata; mas se importavam, quando seus filhos de bem, advogados, médicos, cientistas, tinham seus corpos levados a vala perfurados de bala, ou levados as mais tristes celas, esperando para tão logo serem executados.

André não contaria com o golpe, nem os utilitaristas, de verem tantos jovens com suas flâmulas repletos de cor dizendo sobre paz, falando muito sobre amor, e do que somos e de como deveríamos nos aceitar. As máquinas a postos, com seus canhões de íon, com sua espuma e torretas d’água.

— Como puderam não considerar isso?! — Touloise diria na escuridão de uma sala, para uma figura deslocada.

— Desde muito tempo esse costume é considerado perversão. A morte de tantos seria apenas um espetáculo, mas não pensamos que de um ano para outro o debate seria levantado em tantos lugares, por tantos tipos diferentes.

— Mas por que?

— Ela deve ter convencido ele …

— Quem?

Não precisava saber, pois, perpetuando silêncio, todos os seus fariam o mesmo, vendo o holocausto fazer crescer seus inimigos.

— Eles chamam de manifestações de verão, como se sente? — Anne estaria no seu apartamento, junto de Sofia, De-K, Bohn, Estephan e K, bem trajados, bebendo uísque, escutando música clássica.

— Curioso. — Sorriria na resposta, se perguntando o que Um fazia naquele pequeno fragmento de tempo onde estavam separados. — Dizem que vão trancar as ações referentes a essa ilegalidade até que seja decidido na Megatorre cinco. Temos que pensar nas nossas próximas ações.

— Sempre trabalho … — Vênus agarraria seu braço, poria a cabeça no peito, dizendo teatralmente, bem-vestida como estava, tão linda como sempre foi. Sorriria para isso também, pensando quão ridículo era chamá-la de Vênus Zero.

— Vivo disso …

Uma memória quente, tateável como também linda, a forma como foi assinado, num quarto de hospital terrivelmente branco após sua fútil tentativa de assassinato. Lunar estava lá, como sua madrinha, e era a mãe dela quem choraria de felicidades a não-prole felizarda. Um não diria nada e Anne estava convidada, junto de toda No-heroes no quarto, aplaudindo, jogando arroz, dizendo coisas que te completassem.

— Precisamos das corporações. — O mesmo divã, estrelas, ela do seu lado, tão quieta e mórbida que quase te enganava.

— Um dia, de tarde, num restaurante, eu vejo ele lá que me diz …

— O que te diz?

— Me diz que nosso deus é feio, imoral, e que todas suas ideias são estúpidas e liberais, e que de nenhum modo poderíamos lhe levar a si, a não ser por Gaia; apenas por Gaia.

— Eles vão colocar sua consciência num computador ou destruir o chip onde reside sua alma. Não vou dá-la!

— Por que te importa?

— É que agora entendo …

“O espelho me diz sempre o que tenho que ser. Eu toco os pelos do meu rosto, digo para deixarem de crescer, falo pro meu cabelo continuar penteado sempre, e que cada músculo e junta não se degenerem. Desse modo como poderia não admitir que também sou feito de plástico, quando tudo que mais desejo é o majestoso corpo de Gaia?”

Outro dia escuro, olhava para os de Amantana, a mesma no quarto, residindo, esperando, não importasse o tempo que passasse, sem fumar, sem beber, apenas olhando com o mesmo sorriso de sempre para sua dama; mas nesse outro dia, no breu mais belo, ele estava com ela, olhando os seus, tornando seu, com uma agulha elétrica invadindo o cérebro, levando cada código a pixelar um frame, e de frame a frame, teria o verdadeiro quadro, sobre ela.

— Qual foi a coisa mais triste que Franker já fez?

Pela primeira vez ela conseguia dizer e era triste a forma como compunha cada palavra, flexionando os verbos, para ter algo tão terrível dele.

— Ele estuprava Amantana, você sabe … — Ela te olhou, como se confiasse o mundo. — Mas a consciência de Amantana, isso você não sabe … — Mas o que faria era literalmente lhe furta isso. — Ela …

Antes, uma coisa não exposta, ou talvez simplesmente colocada, era que Franker foi e fez muitas coisas. A pessoa mais amada e o Deus do antigo mundo, principalmente nos primeiros séculos, criador de marte e salvador da humanidade; foi e fez muitas coisas …

— Não estou em você para limpar meus pecados. Muito pelo contrário. O que fiz me define, e minha essência em você faz perdurar meus crimes. Dizer para ela não muda nada.

Outra coisa não colocada, é que além de ser e fazer muita coisa, ele também vivia enormes períodos de vazio. Ou talvez já foi colocado, e soubesse, como parte de si ou até mesmo sendo um estranho. No fim, os crimes partiam desse destino, e vezes e outras parecia ser ele o autor de tantas mágoas incorrigíveis.

— A consciência de Amantana é você… ele amava te violar…

“Enfim lágrimas salteando meus olhos, na minha crise de cores quais em antípoda levavam as mais belas memórias fora do caos, como veneno consumindo as colunas de amor. Qual resposta teria, caso visse naquela face de fronte a imensidão de breu e vazio que lhe levava, todo o desgosto cujo o futuro me aguardasse.”

— Houve um tempo em que ele sentiu não te merecer … outra, em que  poderia ter te matado. No fim, sei que nunca deixou de amar, mesmo depois de tantos séculos de silêncio …

Reconstruía as sinapses reconectando cada informação, retornando o poder infanto de assimilar tudo não vivido, de um estranho como se formava, vezes sem lógica, a realidade; pois de novo via nas suas lágrimas – as tão esperadas lágrimas – a decepção final daquele qual a nada poderia ter culpado, mas que por ti naquele lapso de tempo veria não mais a face de um homem consumido de vazio; e sim o som mais terrível no qual nunca admitiu escutar, sobre um homem egoísta, dum ego inflado, que passou toda sua miserável existência tentando criar uma peça perfeita – uma Synedoche nunca chamada Synedoche – sobre tudo o que nos roda onde na verdade era apenas sobre si mesmo.

— Você contou, e agora, será que ela estará ao seu lado, pela eternidade? Ou não foi por isso. Olha para mim, onde nós estamos, tudo que fiz foi por você, essa ideia, você sabe que ela foi minha, como também sabe que não é você, nunca foi …

Queria calar a boca dele com suas pequenas mãos numa loucura construída por ti, pois era de praxe aquela fala, ou alguma outra parecida, onde tudo o que havia se tornado era apenas por Franker. O velho do beco, morrendo, a criatura que te perseguia em seus sonhos, a canção recriada no deserto que te mantinha vivo e a primeira fagulha que não te fez morrer no esquecimento. Era Franker quem te tornava quem era e por algum motivo, estava quase se tornando nele, mesmo que por muitas vezes olhasse para si e dissesse não.

— Você sabe por que eu acredito em tantas mentiras? É porque nelas existe um caminho particular. Você se engana, olha através do que sabe está errado e ri, seja pela ironia ou como poderia está certo, observa a realidade, compara, e no fim acaba tendo uma ideia muito mais concreta do que fingir está sempre certo, ou de simplesmente buscar pela sua lógica a pura verdade. Assim não preciso viver o vazio já que é fácil bailar ao redor da graça que é saber está errado.

Naquele quarto branco Amantana massageava suas costas, duma música calma tocando, e um fim tão belo ante aquelas declarações selvagens que levava os ânimos a algum tipo de ápice, mesmo que por modo parecido ao movimento pendular.

— Acho que entendo. — Já era primavera; ia ao seu verão. — Eu deixei de buscar a verdade a muito tempo. Não há significado nela, é impossível definir. Imagina, o viciado no beco que dança por alguns trocados vê que em sua situação existe algo deplorável, ele se pergunta o porquê e tão logo percebe que é no seu ambiente onde surge o problema. Fica triste, num primeiro momento, porém surge uma dúvida, sobre ser, de fato, culpa não sua, que leva a existência do modo como deseja levar, e sim do ambiente qual estigmatiza seu modo de existir; E ainda assim não conclui, pois não entende se é assim que quer existir, ou se a droga que o força ser quem é. Começa a buscar então nos fragmentos de memória, e noutra conclusão desiste das drogas, refaz cursos, o colégio, consegue diplomas, um emprego fixo e família. Primeiro percebe que por todos os seus esforços, a sociedade te aceita, de modo que mesmo compartilhando sua situação, veria na boca o sorriso complacente de um respeito visível. Fica embriagado, por anos é um homem de bem, que vai à igreja prezando pelos valores de uma vida saudável, até que num belo dia conclui que de mesmo modo as drogas influenciavam sua primeira vida, na segunda estava bêbado da sociedade, se lembrando que de tudo que inspirava havia por debaixo uma dor a se repreender. O que ele faz?

— Não sei.

— Imagina: pega uma trouxa e parte! Não diz para ninguém, nem pra sua família e, com tantos conflitos, passa toda sua vida sozinho em algum lugar distante onde consegue sobreviver por subsistência. E mais que isso, vê imagens nesse novo lugar onde não havia em sua antiga sociedade, onde também não via as novas imagens que surgiam onde um dia havia vivido e pensava nelas, vendo uma contradição importante de ter apenas uma vida, ou melhor, de ter uma consciência limitada ao seu corpo. Fica amargurado, uma outra vez, mas levando essa sua vida pelo silêncio, até que num belíssimo dia um dos seus filhos te reencontra e de tantas coisas que diz, afirma o quão surpreso estava pelo seu pai não tê-los abandonado por algum pecado, perguntando também pelo quê se limitava assim, encontrando na pergunta um vazio, qual por dias não teria resposta. Mesmo assim não desistiria e até a morte dele, o filho ficaria ao seu lado naquele estilo de vida, contemplando nos últimos minutos, não uma pergunta sobre si, mas apenas vendo naqueles olhos o final.

— Sobre que era?

Não haveria resposta.



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