AVN – Capítulo 9 – O novo Jovem



Com a cabeça latejando de dor, Dois Meia acordava, amarrado, dentro de uma estranha sala, que mais parecia ser um dojo.

Onde estou?’ Ele se perguntava. Seu corpo estava de bruços, onde ele apenas via uma estante de livros embaçada, em sua visão limitada. Sua mente bailando, num quarto onde certa voz sussurrava:

Olá!

Estranho! Em sua frente, vestida com um belo vestido vermelho, uma mulher primaveril se mostrava, sentada no chão, de pernas cruzadas, bebendo numa xícara fumegante. Seus olhos, cor de âmbar, encaravam, penetrantemente, e o seu cabelo negro – esvoaçante – destacava os lábios rosa que bebiam, pacientemente, daquela xícara.

Você quase morreu … — Dizia; — Aquela moça que te trouxe queria te matar, porém eu pensei: ‘que segredo esse garoto guarda para ser tão especial?’. Decidi mantê-lo vivo então, para saciar minhas dúvidas.

Em vista, nosso protagonista, amarrado, tentava olhar para o alto, mas seu corpo, imobilizado, apenas se arrastava, como um verme.

Primeira pergunta: por que você está com a aura de Franker? — Seu coração acelerava …; — Ela é bem fraca, parecendo que ele te passou recentemente. Qual o motivo? Por que ele faria isso?

—… — … e o silêncio respondia ao carrasco …

Você não responderá? Okay! Quero dizer, apenas sua vida está em jogo… nada mais! — … que já preparava seu machado …

—… — rumo ao pescoço do verme, covarde.

Ainda não quer responder? Tudo bem…

Proferida a frase, a xícara era posta de lado, se levantando, lentamente, indo em direção a Dois Meia. Seus braços esguios eram lançados, pegando-o pelo pescoço, onde, suspendido no ar, tremia!

Ela o encarava com certa repulsa, dizendo no seu sussurro, na harmonia ameaçadora de sua voz:

Você tem dois minutinhos para me dizer o que houve, compreende?

Dois Meia tremia outra vez! Encarando-a, apavorado, ele tremia como nunca havia, vendo aquele rosto distorcido no qual quase vomitava em cima de ti – no verme que era.

Agora você tem um minuto e meio! — Continuava; — Acho melhor falar, você tem bem menos a perder com isso!

Percebendo a postura da dama e sentindo, no tom, o temor, Dois Meia se pôs a falar, com dificuldades:

Eu o encontrei… encontrei… num beco… um velho… — O gaguejar que não surpreendia …

Velho? — E face desconfiada.

Um homem velho de cabelos grisalhos… ele tinha uma ferida no peito… sangrava demais. — Os detalhes transbordando; — Eu troquei três palavras com ele antes do mesmo morrer, eu saí do local logo depois dele fechar seus olhos!

Essa é a sua história? Você tem mais trinta segundos para me convencer! — Mais desconfiança! A história absurda não era nada, mesmo com tantos detalhes. Porém, Dois Meia ainda olhava para os pulsos.

Esse homem velho pegou em meu pulso… por um momento. — Sua boca formava um arco estranho, como um sorriso; — Brilhou numa cor dourada e eu não sei… um sentimento estranho percorreu o meu corpo, acho. O velho desde então aparece em meus sonhos…

Finalizado, a moça se surpreendia – sua boca abria, seus olhos se arregalavam. Ela entendia, talvez, um pouco daquelas palavras, mesmo com toda a crueza posta.

Então é isso, bem… — respondia-se, enquanto se aproximava de Dois Meia, cortando as cordas cujas limitavam seu corpo. Nosso protagonista, vendo-se livre, levantava, aliviado, olhando com paranoia, esperando algo. Porém, ela estava imóvel, refletindo; — Pergunta: agora que você não está mais amarrado… o que fará?

Como? — Escaldado, ele respondia no reflexo.

Livre, agora tem o poder de escolher o que deseja, o que me faz perguntar: o que fará? Será que o senhor voltará à sua antiga vida, ou será que o senhor busca algo mais?

De rosto inexpressivo, ela não parecia realmente se importar com a resposta, porém, Dois Meia, sem entender necas de necas, sentia que era dever falar o que sentia – o que desejava.

Eu desejo a força… nada mais…

Um sorriso furtivo destruía seus sentidos! Dois Meia estava aturdido, com aquela beleza o inspirando algo e sua lógica defensiva, outra, sentindo então um medo repentino.

Vejo que é isso… bom … — Sua voz o dilacerava; — já que é assim, farei uma proposta: você quer que eu te dê poder? Posso te dá o que deseja, mas, em troca, te desejo!

Como?’ A frase criava uma confusão. Não se era esperado, então o sentido atordoava, caindo num abismo de questionamentos: o que eu posso te dá? Ele pensava; o que ela desejava de mim?” Continuava; “Quem sou eu e no que me meti pra ser tão importante.” Dois Meia caia em diversos cálculos complexos, não chegando em lugar nenhum, porém …

Qual a sua resposta, jovem? — Ela ainda questionava, onde ele aceitava ingenuamente, sequer entendendo aquela proposta. E aliás, nem parecendo haver motivo para aceitá-la, que o deixava, por apenas um segundo, abismado. Todavia, em seu âmago, talvez ele já compreendesse a importância da resposta em sua vida, sendo a mudança e o mesmo separados nas monossilábicas tão exatas de sua resposta.

Ótimo! — Ela batia palmas, alegre! — Eu gosto quando as coisas são rápidas! — E apontando aos céus, finalizava … — Agora poderá ser o que criarei e nada mais!

Num movimento rápido, ela o golpeava! Era seu dedo indicador que acertava, sendo a boca do seu estômago a vítima do ataque, onde sua face se distorcia na pura agonia!

Isso”, o tempo parava na consciência em choque. “o que é isso?”, se retomando no estalo que gritava e na explosão de ar surgida, onde os cabelos e as poeiras voavam num turbilhão, se desajustando na harmonia silenciosa da sala.

Você será a prova que eu preciso, nada mais! — Seu rosto não tinha par na visão efêmera que desaparecia. Seu corpo viajava a sala toda, colidindo enquanto sua consciência padecia; com sua visão ainda fixa naquele o rosto calmo e idílico, como uma pintura arcadista – de margens serenas e colinas –, sendo esta, a última imagem antes de cair, outra vez, no seu tão citado mundo de ideias.



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