AVN – Capítulo 8 – A dama das sombras!


A noite estava alta e o beco silencioso, sendo audível apenas ao longe o som dos carros, das gritarias e os tiros. Fumaça saía dos canos e dos bueiros para se misturar com a névoa e o jovem Dois Meia, com suas mãos trêmulas, perfurava a escuridão com sua fraca lanterna.

Ei vadia!

Dois Meia parava, desligava suas luzes e escondia num latão de lixo ao lado.

Que homem mal educado! Por lá, ele veria na escuridão três sombras, sendo uma delas a de uma mulher repleta de curvas e de cabelos longos. Chamar uma dama de puta não é algo para nossa classe, você sabe. Vamos manter a dignidade. Não precisa ser tão chato.

As outras duas sombras eram claramente de homens, e dum deles, havia uma fisionomia desconfortável, e doutro fingindo que estava lá por nada.

Cala a porra da boca! Você nos fodeu, fodeu com toda nossa corporação! Isso não pode acontecer, você sabe o que vamos perder por sua culpa?

Algo entre 30 a 50 mil Rp por mês… pena, seria um negócio lucrativo!

Não tira com a porra da minha cara. Foi culpa sua o negócio não ter ido adiante! Você tentou matar o fornecedor e ficar com a carga só pra você! Que idiotice, estávamos dispostos a obter o capital, não ligaríamos de perder a quantia! Por que você tentou ficar com tudo?

Huh? Eu? É claro que não! Eles que tentaram pegar tudo de mim. Eu apenas defendi o nosso investimento! Seríamos enganados se não fosse eu!

Isso não faz sentido… para o quê? Por quê?!

Talvez eles tenham ficado desconfortáveis em negociar com a dama que sou!

Um cigarro era aceso na escuridão pelo homem estático, que não gesticulava e não dizia nada. Uma luz brevemente mostrava seus rostos, revelando expressões contrárias de tormenta e serenidade.

Eles querem que eu te mate…

— Como?

Eles querem continuar o negócio, porém, você sabe, querem sua cabeça como garantia.

E você vai me matar? Acho que não, se fosse assim, você não me avisaria… então o que foi?

Nada, não vou te matar, já sabe … só estou falando que os nossos laços terminaram a partir de agora. Adeus e passar bem!

As duas figuras masculinas se dirigiram para fora do beco. Uma das figuras, em especial, jogava o cigarro ainda aceso no chão, com suas fagulhas representando uma grande beleza naquela escuridão que se finalizava ao se chegar na rua principal.

A figura feminina paralisava olhando para as costas dos dois.

Mas quem diria… — dizia. — Tiveram mesmo a capacidade de acabar com a nossa sociedade… bem… foda-se. Acho que já era esperado.

Não havendo mais nada, ela se dirigia pra fora do beco, na direção em que Dois Meia se escondia. Os ecos do seu salto batendo contra o chão e a visão da silhueta contra a luz. Ele ficava encantando, ao mesmo tempo que sufocado. Um certo nervosismo até te possuía, mas poderia fingir não ter escutado. No entanto, vozes atordoantes ainda surgiam entre as escadas e os topos dos prédios.

Ei! Peguem ela! — Diriam, e Dois Meia ficaria lá, sem entender realmente, escutando apenas o som metálico e o ar que parecia ficar mais pesado.

— Merda! — A silhueta feminina também paralisava, vendo os homens vestidos de terno descendo pelas escadas de incêndio. Suspirava. É claro, nunca me deixariam sair impune dessa …

Nas duas entradas, veículos negros invadiriam, sendo estes dos modelos T-200, com sola magnetizada. Saindo dele, homens armados com bastões e correntes se encontravam, além de facas e pistolas escondidas em seus casacos. Ela estava cercada.

Olá garotos, vocês vieram aqui para brincar? Pensei que estivessem cansados de apanhar para grandíssima eu!

Um homem alto, segurando um bastão enorme, ria com a declaração, respondendo no meio do grupo que a cercava.

Você é engraçada, muito engraçada! Espero que você mantenha essa mesma graça quando cada um daqui cortar cada parte desse corpo!

Ela riria.

— Que pessoa bruta! Fico até com medo de pensar que escórias como você andam por aí impunes, fazendo o que querem, sabe, é meio que uma desgraça.

O homem também riria.

Espera, a ladra aqui é santa? Você me fodeu; matou seis dos meus melhores homens e me fodeu! Chega ser irônico você falar sobre brutalidade, mesmo quando você deixou muita gente puta da vida! Assuma as consequências, porra! Redima-se de seus pecados, caralho!

No total haviam 16 homens dentro do beco, pelo menos era isso que Dois Meia via.

“Ela não será a primeira pessoa que morre em minha frente” Pensava. “Mas o fato de não poder fazer nada, me irrita.”

Peguem-na!

Sentia como se uma visão visceral se apresentasse. Tinha aqueles homens como uma horda cercando-a e a golpeando. Cada um deles poderia fazer o que bem entender, pensava; no entanto, era até engraçado ver a forma como ela dançava, se misturando com a névoa e as sombras, brincando com suas facas.

O quê? — Nem com seu braço biônico, implantado com todo o dinheiro juntado através dos anos, um daqueles capangas conseguiria seguir aquela velocidade, com sua nuca sendo atravessada.

— acabem com ela porra, parem de ficar brincando!

Os homens tentavam bater nela com os seus bastões ou fatiá-la com suas facas, porém, como uma sombra, ela sempre se esgueirava, de um lado ao outro, sendo impossível de atacá-la ou sequer tocá-la. Esses homens, com um espírito maligno elevado, começavam a bater cabeça enquanto, majestosamente, a mulher continuava a dançar pelos seus lados.

Vocês são fracos demais, era melhor ter trago mais pessoas para caso quisessem realmente me arranhar!

Dois Meia, atrás da lixeira, não conseguia ver bem na escuridão, porém, ele ainda sentia a força que ela exalava de longe.

Essa mulher é forte!” pensava, “como ela é tão forte?!” Indagava! A mulher enfrentava quatorze ao mesmo tempo, os sufocando sem sequer tocá-los. Um quadro realmente impressionante. Em pouco tempo, ela até parava de costas para a entrada do beco, conseguindo fugir com êxito do cerco criado em ambos os lados.

Parece que vocês realmente são retardados! — Sem vê sua expressão, Dois Meia enxergava o sorriso. Os homens tentando avançar, o beco estreito impedindo. Não fossem mais dez contra um, era apenas cinco contra a névoa. Pessoas normais não entenderiam, vendo-a estática, onde pensariam: “Você não vai fugir?”. Suas facas apontadas para o grupo parecendo um absurdo: ela avançava contra os cinco, jogando arremessando suas duas contra o batalhão – sangue voando como piche na escuridão e os corpos caindo!

As facas, especificamente, atravessavam o crânio de dois homens que caíam ao chão no som do baque. Dois Meia tentava enxergar, querendo saber donde ela sacava suas substitutas – de qual suporte ela escondia pelo seu corpo. Os homens remanescentes, no entanto, vendo-a matar tão facilmente seus parceiros, retomavam atacá-la, ou melhor: atacavam sua sombra, com todo ódio disponível em suas almas.

Olá bebês! — Mas nada a parava! Esticando seus braços através da batalha, era uma sombra que degolava o primeiro descompromissado. Um dos seus colegas que até via, tentava atacar com um golpe lateral, porém ela se esquivava, enfiando uma faca, como num uppercut, por debaixo do queixo desse seguinte. Apenas três movimentos e duas mortes, esse era o grau que fazia Dois Meia delirar na sua lixeira.

“Ela é incrível, mas vai morrer!” Ao mesmo tempo, também se deprimia. “ela só deu dois passos e agora está de novo encurralada!”

De fato estava. Os homens que se espremiam para acabar com ela, outra vez se encontravam por toda a parte, a não ser, porém, que dessa vez haviam apenas 10 pessoas para tentar destruí-la.

Você é boa, mas não pode contra tantos! — O brutamonte ria! — Morrerá, sabe disso né?

Não tenho tanta certeza não …

Então eles atacavam e ela desviava; deles batendo cabeça e ela, divinamente, se infiltrando nas costas do inimigo, conseguindo matar mais um.

Ela tinha um jeito estranho de lutar, como podem ter percebido. Essa femme fatale evitava combater de frente, desviando sempre que possível, atacando apenas para matar. Como diria Dois Meia: “Rápida e mortal como uma pistola!”. Ele quase exclamava isso em seu pequeno observatório, na explosão de seus sentimentos. Os passos sussurrantes iam de um lado ao outro – repetindo! –, indo e voltando com os seus braços em toda a parte, como uma cobra, cobiçando a nuca de cada um, para o seu beijo mortal! Então, como não se exaltar? Dois Meia pensava enquanto apenas o sangue manchava todo o beco, da figura sombria daquela dama jazendo em pé em cima de uma pilha de cadáveres.

Menos de dois minutos se passavam e todos aqueles que desejavam lhe destruir, morreriam sem nem mesmo ver sua morte. Dois Meia achava surreal, de certo modo, a invejava. Nem mesmo quando as forças se reduziam a poucos, onde os finalistas puxavam suas pistolas e disparavam, ela hesitava, matando todos com os seus movimentos impossíveis. Era assim que terminava, dela, sangue, e cadáveres num beco parcamente iluminado.

Limparia os traços de sangue no seu vestido, olhando para onde a lixeira escondia Dois Meia. Percebia algo, a figura exclamava, com uma voz cortante, perfurante e ao mesmo tempo doce e excitante, dizendo:

Saia daí garoto e venha até aqui! — Dois Meia tremeria, fingindo não ouvir. Se não sair daí, não terá uma segunda chance!

Num movimento rápido, sairia, olhando para ela como visse algum tipo de deus. Essa, com olhos de cor vermelho sangue, ficaria lá, o encarando, meio como se estivesse decepcionada.

Garoto, você não viu nada … Dizia, porém ele não responderia. Ficava só lá, calado.Ei está aí? Veja, se você contar para as pessoas o que viu aqui, vai ser problemático, entendeu?

Não… — Responderia, tremendo.

Como assim não? Tá dando uma de rebelde para cima de mim?

Gentilmente, pousaria suas mãos naquele ombro. Era estranho, dos seus olhos arregalados e seu sorriso desmanchando. Dois Meia parecia querer fugir para algum lugar, vendo-a. Mas o que era? Na verdade, apenas sentia algo estranho.

Quem é você garoto? — Que a recordasse de muito tempo num passado não tão distante … Meio triste, um pouco amargurante.

Eu… eu…

Não haveriam respostas, da mulher o socando, sem tempo de colocar seus pensamentos em ordem.

Bem-vindo de volta moleque … E ele estaria lá, querendo te dizer algo que fosse belo, num mundo sem dor. Parece que se encontrou …



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