AVN – Capítulo 72 – Todas as coisas são belas.


Todas as coisas são belas.

O fato é que eu já estava morto, já estava só, reduzido praticamente a nada. — Todos os eventos ocorrem em 894 antes da grande queda. — Desde o início Koltrain, eu nunca fui ninguém. Minha semente se ramificou em hastes de polímeros, flexíveis, naturalmente indestrutíveis. Porém, insuficientemente real. Eu pensei que morto eu poderia ser, e que nele, renascer. Ainda me lembro do encontro: seus olhos complacentes sujeitos a de um escravo. Senti nojo. Mas quando penetrei sua alma percebi nele um espírito revoltado e amargado simplesmente por ódio, e neste momento eu percebi o que era realmente miséria. Eu devia tê-lo tornado parte de mim, mesmo sabendo ser impossível. Pois veja – sei que não é a questão do assunto, mas veja: há três pontos da dualidade de consciência, sendo o hospedeiro peça fundamental no funcionamento da superestrutura consciente. No entanto, o hospedeiro também é um fluxo confuso de informações. A primeira existência sendo ele, a segunda que sou eu, e do espaço que dividimos, a ação do hospedeiro se virtua entre nossos conflitos e ideologias. E como humano é bom lembrar que ele sempre ponderou de acordo suas necessidades imediatas. Veja bem, vou traçar uma cronologia aqui e quem nessa sala não entender meu paralelo, por favor, se mantenha em silêncio. Pra começar, o encontro: ele era um jovem de cabelos desgrenhados e olhos de peixe morto. Um menino pardo cujo poderia matar alguém ou se matar a qualquer momento. A gentileza, numa conjectura preguiçosa, era a de um herói. Seu ato, um filete de moralidade de fronte a um erro cruel, cometido por mim. O suspense: quem havia me atingido, e principalmente quem era eu e quem era ele. Evoluímos numa narrativa conturbada. Dois Meia não tem o domínio sobre si, e aparentemente era eu quem apontaria o caminho para seu autodesenvolvimento. Isso é, na literatura, a chamada jornada do herói. No entanto, ele percebe no vermelho que seu caminho, além de ser todo baseado em mentiras, te levaria a lugar nenhum que não fosse as trevas, quais adivinhem, sou eu. Foi inevitável o rompimento quando ele começou a ter acesso as minhas terríveis memórias e quando começou a duvidar da ideologia de Um. A parte curiosa é que no seu vazio chamado Redneon não encontrou nada também, sendo forçado a viver uma vida de merda até o retornar de Um, na qual, preocupada com o surgimento de sua nova e maravilhosa escola, precisou de um fator de ausência para compor uma ideia da qual era ela a ausente. — O homem estava morto por dentro, enxergando a incapacidade no mal eterno de nós mesmo. — Ele seguiu a voz da névoa, Koltrain. — Franker parecia triste naquelas sentenças. — e está morto. O mundo material é uma consequência, o idealismo uma figura nebulosa. É a voz da névoa, Koltrain, e ele se afogará nela.



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