AVN – Capítulo 71 – K


O tempo todo ela imagina um mundo verdadeiro, sem engano, sem mentira; do homem fora da caverna de ignorância, brincando com as palavras e criando vida.

E todo dia acorda, encara a tela do seu computador, tentando compreender de que modo poderia fazê-lo ser melhor.

É terrível, ela sabe: um assassinato, um sequestro, uma forma de reduzir números, de fazer inimigos e ao mesmo tempo ser invisível. E mesmo que diga para si que talvez tenha se acostumado, sempre acorda com um olhar torpe para o tempo, catatônica no breve minuto em que tenta se lembrar sobre quem deveria ser.

Os sonhos de uma menina tola penetrando amargamente seu mundo. Tudo se torna escuro quando na verdade descobre ter feito mais pelo homem ao destruir o homem.

Você é uma idealista. — Lembrava das palavras de Anne. — Você é como Um.

Um. Quem ela era pra começar. Normalmente pensava primeiro em Sofia, e dela, realmente, tinha uma resposta. Agora Um? Um era um feixe de luz distante percorrendo uma sala escura e dela morrendo caso chocasse contra seu peito.

Na verdade era um pensamento recorrente a identidade de Um, pois era, antes de tudo, estranho. Vamos dizer: como K, sempre esteve livre de patrões, e quando aceitou, por exemplo, se reduzir à Sofia, não imaginou que esta já estivesse curvada a Um.

Vamos retroceder um pouco, quando Camila se escondia num muquifo na Giant Tree, brincando com números, fingindo não ter passado e curiosamente desenhando futuro. Ela era uma cidadã comum, para no caso que você duvide do que seja comum: uma menina da Giant Tree, brincando em Warm Place, curtindo as baladas da capital do distrito. Um dia bêbada, voltou para casa, deitou sua cabeça na almofada, e numa catarse apologética, não compreendeu que estava errada. Daí, não tinha mais pai, não tinha mais mãe. Seus olhos enegrecidos, um lábio cortado. Ela sentia o mundo inteiro, e gritava para parar.

Acho melhor continuar na não poesia, pois ela sofria de transtorno de personalidade limítrofe, e não, ninguém sabia. O pai, um homem de negócios saudável, com personalidade restrita e conservadora, mantinha os mimos da filha, desde que esta não trespassasse quaisquer conceitos preconcebidos de moral; e sua mãe, uma bonequinha de luxo que se prostituía por pouco amor e um teto sob a cabeça, era um tanto problemática, mas consciente, vivendo num limite amargo entre seus semelhantes.

No primeiro surto, acharam ser culpa da bebida. No segundo, o pai supôs gravidez. Talvez tivesse um amigo na época, talvez não. Foda-se. Camila olhou nos olhos amargos de seus progenitores, fingiu não ser, e no dia seguinte estava com uma mochila pendurada nas costas, escorregando por uma madrugada gelada, donde nunca mais foi. Era sua história terminada.

Você é especial. — Blábláblá. — Você não deve temer a si mesmo.

Giant Tree, ela não se lembrava mais o ano. Na verdade, se pudesse dizer, K, o que houve, ela diria que não foi aquela numeração qualquer que indicasse o período de translação. Não, não foi. O que foi, foi uma primavera eterna entre a sazonalidade atípica em que todo mundo parou para Camila.

Curiosamente, esta viveu um período invernal nas ruas banhadas de neon e barulho, um período em que se tornou comum as apunhaladas, a fome, crises longas e maciças de surtos, regredindo moralmente, ternamente se prostituindo, nas mãos de homens afivelados e aos olhos cáusticos, num detalhe te lembrando de seu pai, e nas putas, sua mãe.

Redneon enlouquecia às suas vistas. Porque lá, não aqui, e lá onde era, lá onde morria, e ressurgia. O que houve depois foram as drogas, muita mesmo. SNC que fazia flutuar, e as mãos que lhe envolviam sem amor, pagando em trocados cada dose. Conheceu um homem, naquela época, que se chamava Ulric, também conhecido como garanhão alemão. Homem de estatura baixa, que fazia vídeos pornográficos fetichistas para um nicho específico de homens de classe média, tristes com a vida.

Eu acho que eu gostava de apanhar. — Revelou certa vez, intimamente, Camila. — Ele arrebentava meu rosto, cuspia em mim, e nem quando eu me sentia a maior merda, ou quando eu saía socando tudo por sei lá o que – por um pino de pó, por uma injeção de SNC – eu deixei de gostar. Vezes, eu não sentia nada, vezes eu sentia tudo. Eu apanhava, era estuprada e ele filmava. Um negócio perfeito para mim. Não sei se deveria, mas de vez em quando penso: morrer daquele modo seria tão mal assim? É uma merda, mas sabe, existir e morrer de prazer, bem, me parece ser o ápice dessa humanidade ociosa. — Um dia no escuro, esperou uma resposta.

Você acredita nisso.

Não sei. Minha mente era um dilúvio, e quando relembro, parece que me afogo observando o movimento do céu nublado. Mas não é bem nessa forma. Se eu morresse como uma drogada em uma vala qualquer ninguém sentiria minha falta. Agora, se eu morrer hoje, tenho certeza que suas lágrimas me despedaçariam, completamente.

Redneon, ela ainda não lembrava a data. Um ajuntamento da polícia privada Atlas’Bex invadiu o apartamento em que ocorria o negócio ilícito. A detetive 34-09-3728 do ajuntamento dos distritos humanos de execução legal dispôs a apreensão do imóvel e prisão preventiva dos autores, segundo a norma jurídica, de atentado ao progresso humano e imoralidade. Os dois foram julgados em primeira instância, junto com uma equipe de dez membros, dos quais consideravam distribuidores, equipe de filmagem, essas merdas.

Mas do que fosse. Passou um tempo indeterminado na porra de um centro público de drogados, onde de tudo que havia, o que mais tinha eram drogas. Nem se lembrava, era só um vulto na memória.

Agora, do reformatório privado de Hellen Point, ela lembrava bem. A ressaca interminável, a insônia, ansiedade, o abuso verbal dos guardas e detentas, a rede de prostituição em troca de cigarros. Uma recordação constante. Chupava a merda de um porco por um maço, fumava nos corredores vigiadas por máquinas públicas, uma morte lenta que nunca falharia na memória.

Eu mordi o rosto daquela filha da puta. — Um surto, nalgum ano escuro. — Eu estava na minha, brincando na fumaça, e então, ela me aparece, diz que eu tinha que fazer um trabalho. Digo não, o que ela faz? Faz nada. Olha para mim como a porra de uma coitada. E quer saber vai tomar no cu, como ela tinha a merda da coragem de me olhar como uma coitada?! Me levantei, foda-se e mordi o rosto dela.

Então por isso está nessa cela escura?

Histórias de amor são uma ilusão individual imposta por um coletivo delirante para que não pensemos: heh, a vida realmente é uma bosta.

O amanhecer violento nasce, e a sensação pungente de trevas te leva, lhe traga, te beija. O primeiro sendo um toque amargo, donde do chão se bebe a água turva e quando chega a noite, você já está outra vez gritando contra as sombras. Mas as sombras te respondem, tendo nesta um estranho afeto.

Eu invadi um polo administrativo buscando informações sobre o filho que fui forçada a dizer tchau. Mas é engraçado, eles não me pegaram aí. Na verdade, só descobriram a merda que eu fiz quando matei três freiras em Iron Gate, logo depois que me foi revelado que as filhas da puta venderam os órgãos dele quando a coisa apertou. Foi na crise de 45 ou sei lá. Só sei que eu tava puta, com um ferro na mão. Mas pra falar a verdade, eu não sei. Quero dizer, vamos ser sinceras. Ele era um pirralho que nunca vi na vida, que disse tchau pra poder existir e que depois tentei dizer oi, por algo que, não necessariamente partia de mim. Foi compulsivo, por assim dizer. Uma maternidade compulsiva. Principalmente porque me lembro que meu adeus foi uma palavra dita no exato momento em que meu silêncio permitiu que ele fosse levado de mim.

A primavera seria a parte mais bela de sua vida. Uma primavera alba, perolada, das ruas da Giant Tree paralisadas; um sorriso ali, uma família feliz ao lado; os traços de sépia pela realidade, da mulher que ama sendo infinita na eternidade que odiava não mais estar.

Não sei se deveria, mas uma descrição breve: ela tinha olhos azuis, uma cor pálida, alguns traços de dor percorrendo seu rosto, disfarçado pelo infinito sorriso que sempre mantinha. Seus abraços eram cálidos, seu cabelo raspado tinha coloração vermelha. Era magra, mais do que deveria, mas foi a mulher mais bela que esteve em vida.

Era engraçado, a conheceu na escuridão, separadas pelas frestas de uma parede mofada, sendo, de forma curiosa, calidamente, sua luz.

A conheceu de verdade nas milhares histórias contadas no desespero; e a conheceu outra vez quando, veja só, estava sozinha pelas ruas escuras da Giant Tree.

Te disse: — Foi uma merda te achar.

E respondeu: — Mas me achou… — E largaram tudo, se beijaram – não importava de que modo se pareciam, de como se vestiam, o espaço que ocupavam, ou o tempo que lhes aguardava. Elas estavam em si, do beijo sendo o absoluto: do toque dos lábios, da direção em que mecanicamente se empurravam as línguas, se entrelaçando, brincando. Uma verdade só sua, no tempo infinito que pôde estar naqueles braços.

O nome dela era Perla. Quer dizer, era assim como ela se chamava. Nascida fora dos distritos, chegou em Iron gate antes dos três. Seu pai, um daqueles raros traficantes que deu certo, fazia parte de uma gangue da Giant Tree, chamada “Os Russos”. Virou Hacker aos 11, sob influência de um tio distante. No fim, a vida deu uma guinada de merda depois que se apaixonou por um fodido chamado Ealrtren.

Mas não é a história dela que importou… naquele apartamento em Giant Tree, em que se metamorfoseou em Camila e Camila em Perla e Perla em Camila. K foi uma outra pessoa. Na verdade, K foi uma gestação tardia, algo nem embrionário naquela longa primavera das falsas árvores entre os espectros multicolor, e as paredes cinzas. Pode-se dizer: era apenas Camila e Perla, depois, apenas K; mas adianto que não foi de abandono que Camila se tornou K, ou Perla em K. Para ser sincero, precisou de 5 anos para o primeiro rastro de K aparecer na narrativa em que se afirmavam Camila e Perla.

Acontece que em 756 depois da grande queda, Camila e Perla pegaram o primeiro trem para fora dos distritos humanos unificados, junto com um grupo denominado Eco-Raiders.

Retornando a 753, Perla trabalhava para um engravatado de meia-idade, chamado Trël, que tava com suspeitas legítimas da infidelidade de sua amante de 19 anos, Orfélia. Esta estava se envolvendo com um idealista de 25 anos de Hellen Point conhecido como Ícaros, e Ícaros era o líder desse grupo chamado Eco-Raiders.

A resolução do conflito de infidelidade não importa, pois de primeira Perla teve sonhos estranhos, sobre estrelas colidindo com marte, e tudo, repentinamente, se preenchendo de verde. Um sonho para te fazer acordar empapada de suor, olhando a cálida e suave expressão de Camila, imaginando, como seria numa longínqua reserva verde, brincando de Eva e Lilith.

No entanto, demorou dois anos para elas tomarem o primeiro trem para Busan, com aquele grupo enérgico de jovens ativistas, falando sobre paz, falando de liberdade, e de um ou de outro tecendo amor.

É importante ressaltar que essa espera de dois anos foi por complicações legais e monetárias sobre uma propriedade de poucos hectares na fábrica de gazes número sete, a 370 quilômetros dos distritos humanos. Também havia, como problemática, o fato do transporte de recursos, como servidores portáteis e satélites de alta precisão (além de outros aparatos que não cabe colocar aqui.)

O pedaço de terra ficava a 70 quilômetros da estação, na pequena comunidade de Jamtersphere (uma comunidade de técnicos de produção orgânica e outros gêneros de biólogos e/ou anatomistas de espécies variadas). Eles não fediam nem cheiravam, porém compartilharam de alguns conhecimentos pertinentes no cerne da agricultura, que tornou a Greenland autossustentável, podendo dizer até lucrativa, pelos próximos cinco anos que Perla e Camila residiram.

Era uma fazenda, se quiser dizer assim, ou também podendo considerar uma comunidade agrícola, com pequenos campos entre bosques de castanheiras, clúsias e restingas (pois o solo daquela fábrica de gases sofreu com processos de salinação para equilibrar o PH), campos estes semeados com arbustos morangueiros (entre as terras de melhor fertilidade), tubérculos e grãos, vivenciando uma dieta vegana revigorante, principalmente para Camila, que sofria, fazia longo tempo, com problemas de abstinência.

Um alvorecer claro, se permitem a metáfora, foi o tempo de primavera em Greenland. Óbvio, dizendo assim faz parecer como se a primavera um dia tivesse terminado. Para ser sincero, o que houve foi uma breve precipitação de chuva que varreu os olhos de Camila em 762, logo depois que foi diagnosticada com esclerose múltipla pelo anatomista Tomas Franker.

A decisão, num simples dizer de palavras, não foi a luta, uma honra antes de perder tudo; o que aconteceu de verdade foi um abraço, seguido de lágrimas, seguidos de murmúrios, depois um sorriso, dizendo adeus para Perla, e dizendo também adeus para aquele grupo unido (mesmo que tenha havido divergências no longo processo que é viver), Green-Raiders.

Pode-se dizer que foi apressado o final, que a prosa não favoreceu o desenvolvimento romântico daquele casal, ou que os Green-Raiders foi apenas um refúgio narrativo para anteceder uma tragédia. Mas é bom dizer que todos olharam para ela numa noite estrelada, que agarraram sua mão, cantaram músicas, festejaram com bebida e trocas de carinho, antes que ela apagasse seus olhos felicitados e dizer para Perla que viver com ela foi uma jornada inimaginada.

E eu que servi aquele manjar… segurando minhas lágrimas, óbvio, como todos aqueles naquela sala abafada de madeira e aço; olhando como seu último sorriso era gentil. Engraçado, ela me disse ser seu fim, com os olhos salteados, óbvio, mas ainda com aquele sorriso (não o sorriso cínico que me mata, ou, quem sabe, aquele sorriso infeliz que diz nada); e eu, com mil pensamentos na minha cabeça, não soube o que fazer. Disse para ela: vamos viver para sempre; e ela me disse que eternidade era tudo de bom que viveu comigo. Eu acho que é isso, K, é isso, de fato. Eu, sinceramente, estou acometida de tristeza desde que ela partiu, mas acho que não importa. Estou aqui, na Greenland, esperando, em velhice, minha morte, mas antes, acho que tenho certeza que não quero ser esquecida. Para ser mais sincera ainda, sua criação sempre foi um desejo. Desde muito tempo imaginei a cadeia de números, o modo como eu poderia suceder sua natureza materialmente. A manifestação de seus olhos, e seus olhos na minha memória é o resultado brilhante de um sentimento abstrato. Não sei o que acontecerá. O que sei é que você será… mais bela que todos os semelhantes.

Giant Tree, 794 depois da grande queda. K se pergunta sobre quem seria Um. A resposta, caso possa considerar uma resposta, é que não importava.

O que importou, de verdade, era o pequeno dispositivo ensanguentado na sua mesa, e os olhos de Míchkin te perfurando.

Sua alma um código.

À vida: uma passageira memória.

K nunca parou pra pensar de verdade sobre as palavras de Perla em seu código-fonte, mas a verdade era que há muito já havia traído seus criadores.



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