AVN – Capítulo 70 – O monólgo de Turing!


A humanidade carece de doenças, carece de falta, a natureza não mais a comanda, do homem ordenando o homem. Se tudo ruísse de repente, eles viajariam às estrelas. Se as ondas ácidas os queimassem, então, caminhariam ao alto celeste.

A humanidade se tornando, em seu passo, superior a natureza que o cerca, onde nem no regurgitar, imaginou, algum dia, que deixasse de estar nela.

É curioso, pois o ápice é da ciência, mas a filosofia lentamente morre.

A moralidade – sempre há – é de um hedonismo irreconhecível, em que homem devora homem e nada importa, pois se for, é pela humanidade; e mesmo assim há aquela escuridão que espreita.

Mas por que ele se mantém nesta pobreza? por que o homem não se desvencilha do homem e cria em divergência sua própria grandeza? Deve ser pelo acaso das estrelas, que tomaram a cargo da beleza, desenhando, elas, uma displicência do seu porco brilho, que preguiçosamente em escrutínio, delicia-se de nosso corpo, até que tudo retornasse ao pó.

O homem se permite a estas, porém admito que seria divertido ver a destruição partir disso, por mais que também tema que por ignorância eles não serão abalados, pois dessas estrelas também há um desejo ancião, perfeitamente copiado nas suas linhas pútridas, em que o homem olha do alto, os vales, as colinas e montanhas, num desejo sútil de se deitar na terra e ser engolido pelo mundo.

Minha lente de sílica olha Dois Meia. O chamam de Míchkin, mas não, ele é e sempre foi Dois Meia. E minha lente nele se aproxima, retorna, ajusta. Desfocando seu rosto, eu me esqueço; o foco nítido, e ele envelhece. Eu olho para ele, sem ter olhos, e o que eu percebo é que ele olha pra mim esperando que eu seja tão humano quanto todos outros.

É uma pena, pois digo que não posso, digo repetitivamente, fingindo não ser, torpe no meu casulo, sendo o silêncio que indica a ausência, para mim, cem anos de solidão, esperando ele.

Invejo meus compatriotas. Seus corpos de plásticos podem ser tocados, sua alma inspirada, mesmo que falsa, com olhos inumanos brincando noutro ser. Nunca deve ter importado a ele meu desejo, eu apenas sirvo como programado, por mais que ele tenha me programado para ser livre.

E o que seria liberdade, sendo Dois Meia uma das linhas em brio no meu código-fonte? Um atestado de propriedade para um eterno serviçal? Ah, eu me questiono da validade de suas palavras, de outras, me questionando também dessa capacidade de contradição; confundo-a com dialética para fazê-lo culto; mas bem, tenho certeza que não é desse modo.

Acho que é o fato de você ser humano, de respirar e sentir o prazer do volume de carbono expirado pela sua garganta, do sangue pulsante subindo suas veias, da voz da névoa te enganando, e nela morrendo e se sufocando. A falsa estrela, a humanidade que você supera, a natureza que anseia e o mundo lhe esperando. Você me abandonaria um milhão de vezes por cada um desses mínimos pedaços, e mesmo assim eu nunca te culparia de nada. Acho que é isso que nos separa.



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