AVN – Capítulo 7 – A procura!



Acordaria de repente, vendo aquelas luzes nubladas. Sua cabeça doía e tinha uma poça de sangue ao redor dos cabelos desgrenhados e pastosos de sangue coagulado. As mãos negras do pó úmido da terra, agarravam algo.

Dois Meia se lembrava de tudo – da mesma imagem suspendida na sua face – e de todas as coisas que sucediam, sentindo ódio, sentindo dor, uma porrada de coisa. Olhava para o céu cheio de nuvens, e uma memória latejante que não o deixava se dispersar. Tomava um suspiro, tentava tocar o céu com suas mãos.

Morra … As palavras continuavam lá, martelando na sua cabeça. Mas morrer pra o quê? Morrer, para simplesmente morrer? Me jogar de uma ponte, de um edifício, colocar a porra de uma arma na minha boca e destruir meu cérebro?

A ideia ficava bailando na cabeça, sem resposta. O fato era que parecia não ter exatamente um caminho, tentando compreender o todo através de próprio corpo. Olhava para si, pros seus braços, pras suas roupas ensanguentadas. Não havia nada também.

Acho que já estou morto … Ele pegava sua bicicleta, então, ia para as ruas, olhando para ninguém, sentindo como se fosse observado. Realmente acho que estou morto pra caralho.

Dois Meia tinha uma ideia, sobre a resposta só vir no caso de fazer algo de verdade, indo, desse modo, em direção a lugar nenhum, observando atentamente os detalhes das ruas sujas, do lixo se amontoando pelas calçadas, dos homens vestido de terno, quais recarregavam suas partes biônicas nos postos de energia naquela manhã morna, observando também as mulheres e rapazes desorientados acordando do coma de uma noite regada a álcool e outros entorpecentes. Também havia naquelas ruas as máquinas1 de asseguramento social que tanto observavam os homens armados que transitavam pelas calçadas e casas, com aquele ruído elétrico e hidráulico, que irritava pra cacete.

Dois Meia pararia perto duma daquelas máquinas, numa fábrica de peças de aço e alumínio – que trabalhava também com fibra de vidro e espelhos – vendo seu reflexo numa placa espelhada, que normalmente era usada em grandes construções. Naquela, ele via seu rosto amarelado, o cabelo castanho sujo e desgrenhado, as olheiras berrantes … no entanto, nenhuma cicatriz ou ferida que mostrasse que alguma vez fora atacado. Até o seu corpo magro, com ombros curvos, não estava ferido de todo, parecendo até bem mais saudável do que estava no dia anterior.

— Um morto tende a se degradar, é a consequência natural disso. Olhava para cada detalhe no seu rosto. Não estou morto … quero dizer, ainda não morri, mas estou perto disso.

Pegava sua bicicleta de novo e continuava rodando sem rumo, indo de lugar em lugar, passando por todas as ruas e becos.

Para ser forte, preciso ter coragem; e para ter coragem, eu preciso deixar de ser o mesmo personagem. Como?

Dois Meia pensava em ir para aula, porém se continha. Não sabia bem o que era o conceito, porém já imaginava que não poderia fazer certas coisas para atingi-la. Na verdade, toda sua vida comum não podia voltar a se reprisar. Decidia então ir para a praça. Para ele, era quase como o centro do mundo, um lugar onde realmente poderia mudar. No entanto, lá, apenas uma gangue de meliantes juvenis fumava e se drogava, rindo enquanto escutavam algum hit daquela estação, mostrando e admirando uma certa arma que um daqueles levava, sendo um pequeno revolver de oito balas, semiautomático, desenvolvido pela empresa lest-taurus e distribuído pela Mars Arms. Nada de incomum, pra ser mais claro.

Decidiria sair, não havia nada para você lá, indo atrás de outro lugar – algum lugar –, no entanto, não havia muita coisa que vinha em sua mente. Seu mundo era muito pequeno, e sair dele parecia impossível. O mais distante, por assim dizer, eram suas memórias antigas, que o fazia pegar sua bicicleta e ir em direção ao ferro-velho, que ficava a 5 minutos da praça. Nesse ferro-velho, havia uma colina, limpa, sem lixo, nem nada. Apenas grama alta e uma árvore, que nem era tão estranha ver nas bordas do distrito, perto do interior, nas chamadas fábricas de gases2.

Antigamente, fugia para lá como refúgio, junto de um amigo, número 184.172.327, chamado por ele carinhosamente de Hide. Esse apelido era porque ele sempre se escondia ou fugia quando se sentia ameaçado. Quando pequenos, os dois sempre iam pra lá, onde viam as luzes distantes, as Megatorres brilhantes, a noite nublada repleta de estrelas caídas. Porém, quando este mesmo sumira de vez, Dois Meia parou de visitar o ferro velho. Causava dor ficar sozinho nesse túmulo de momentos que nunca mais se repetiriam …

Chegaria, estacionava sua bicicleta com uma corrente num poste de iluminação próximo dali e pulava o portão. Não haveria cães, não haveria ninguém. Aquela merda era um depósito de lixo nuclear e derivados tóxicos, então ninguém invadia as fronteiras, a não ser, é claro, Dois Meia, que caminhava em direção a colina livremente, como um pássaro em voo, subindo-a com certa dificuldade – a névoa deixava a encosta úmida e escorregadia –, conseguindo chegar ao topo, ofegando. Lá, ele via a árvore solitária repleta de inscrições feitas num passado não tão distante, observando também a vista panorâmica da cidade. Certa admiração te preenchia o peito vendo as casas caoticamente distribuídas pelas colinas, as estradas magnetizadas onde caminhões de sola magnética iam a velocidades de mais de trezentos quilômetros, além de carros que chegavam aos quatrocentos. No entanto, o que mais te causava admiração eram as Megatorres que, mesmo com a vista limitada pelas colinas, ainda tinham seus topos misteriosamente a mostra, com toda sua imponência magistral.

As mais altas torres do mundo e eu posso vê-las daqui, tão pequenas, que até cabem em minha mão. Será que essa é a distância que eu estou daqueles que realmente tem poder?

Concluía seus pensamentos, tinha uma corrente de ar fria passando, então suspirava e saía. Não havia mais nada para fazer ali e isso o deixava decepcionado. Nada no mundo havia se revelado, nem mesmo a morte.

Desse modo, ele voltava para a sua bicicleta, andando, outra vez, aleatoriamente pelas ruas do bairro, seguindo o nada em busca de algo; com as horas passando e onde se perdia nas entranhas da cidade, entrando e saindo de tantos becos, com sua procura desnorteada, fazendo-o pensar, por apenas um minuto, se realmente valia a pena desperdiçar sua vida buscando algo tão abstrato.

Ei vadia!

Felizmente, andava pelos becos quando a encontrava …

 



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