AVN – Capítulo 7 – A procura!



Acordando de repente no beco onde fora atacado, ele via as luzes nubladas do dia. Sua cabeça doía e uma poça de sangue se apresentava ao seu redor. Os cabelos desgrenhados com o vermelho coagulado e as mãos negras do pó úmido da terra. Dois Meia se lembrando de tudo – da mesma imagem deplorável de sua surra – e de todas as coisas que sucediam, sentindo ódio. Mas ele não se engava: o ódio que sentia não era dela, e sim de si mesmo. A imagem conivente de uma memória recente não o deixava se enganar, o que também irritava. A consequência de decidir mudar. Se lamentar dos outros não o levaria a qualquer lugar, ele bem sabia.

Morra e renasça como algo que você nunca foi!’ As palavras se repetindo enquanto levantava lentamente. O carbono inalterado de um corpo que levemente se sustentava. ‘Morra e renasça como algo que você nunca foi!’. A ideia bailando na sua cabeça. O fato era que ele não sabia como alcançá-la, tentando compreender o todo através de seu próprio corpo. Então, ele pegava sua bicicleta, saindo para as ruas do seu nocivo bairro. A resposta que ele desejava só viria caso fizesse algo de verdade, ele pensava, indo, desse modo, em direção a lugar nenhum, observando atentamente os detalhes das ruas sujas com o lixo que se amontoava nas calçadas, dos homens trajados de terno, quais recarregavam suas partes biônicas nos postos de energia naquela manhã morna, observando também as moças e rapazes desorientados acordando do coma de uma noite regada a álcool e outros entorpecentes. Também havia naquelas ruas as [máquinas de asseguramento social] que tanto observavam os homens armados que transitavam pelas calçadas e casas, sem fazer nada.

Nosso protagonista parava a bicicleta perto de uma daquelas máquinas, numa fábrica de peças de aço e alumínio – que trabalhava também com fibra de vidro e espelhos – vendo seu reflexo numa placa espelhada, que normalmente era usada em grandes construções. Naquela, ele via seu rosto amarelado, o cabelo castanho sujo e desgrenhado, as olheiras berrantes que se apresentavam, no entanto, nenhuma cicatriz ou ferida que mostrasse que ele alguma vez foi atacado. Até o seu corpo magro, com ombros curvos, não estava ferido de todo, parecendo até bem mais saudável do que estava no dia anterior.

Eu morri e renasci. Em resposta disso, minhas feridas sumiram… eu acho que vai ser problemático caso eu comece, realmente, acreditar nisso.

Ele pegou sua bicicleta e continuou rodando sem rumo, indo de lugar em lugar, passando por todas as ruas e becos enquanto ainda era de manhã e relativamente seguro.

Para ser forte, eu devo buscar algo. E será desse algo que eu renascerei!”

Dois Meia pensou em ir para aula, porém se continha. Ele não sabia bem o que era o conceito renascer, porém ele já imaginava que não poderia mais ir para a escola caso quisesse alcançá-lo. Na verdade, toda sua vida comum não podia voltar a se reprisar. Portanto, ele decidia ir para a praça. Para ele, era quase como o centro do mundo, um lugar onde realmente poderia mudar. No entanto, lá, apenas uma gangue de meliantes juvenis fumava e se drogava, rindo enquanto escutavam algum hit daquela estação, mostrando e admirando uma certa arma que um daqueles levava, sendo aquela um pequeno revolver de oito balas, semiautomático, desenvolvido pela empresa lest-taurus e distribuído pela Mars Arms. Nada de incomum, pra ser mais claro.

Então Dois Meia decidia sair, indo atrás de outro lugar, algum lugar, mas não havia muita coisa que vinha em sua mente. Seu mundo era muito pequeno, e sair dele parecia impossível. O mais distante, para assim dizer, eram suas memórias antigas, que o fazia pegar sua bicicleta e ir em direção ao ferro-velho, que ficava a 5 minutos da praça. Nesse ferro-velho, havia uma colina, limpa, sem lixo, nem nada. Apenas grama alta e uma árvore, que nem era tão estranha ver nas bordas do distrito, perto do interior, nas chamadas fábricas de gases.

Antigamente ele fugia para lá como refúgio, junto de um amigo, número 184.172.327, chamado por ele carinhosamente de Hide. Esse apelido era porque seu amigo sempre se escondia ou fugia quando se sentia ameaçado. Quando pequenos, Dois sempre escapava pra essa colina com ele, onde viam as luzes distantes, as megatorres brilhantes, a noite nublada repleta de estrelas caídas. Porém, quando este mesmo sumira de vez, Dois Meia parou de visitar o ferro velho. Causava dor no seu coração vir para esse lugar sozinho e lembrar vários momentos nostálgicos que nunca mais se repetiriam …

Chegando ao ferro-velho, estacionando sua bicicleta com uma corrente num poste de iluminação próximo dali, Dois Meia pulava o portão. Lá não havia cães, não havia ninguém cuidando, pelo simples motivo que a quantidade de lixo tóxico e radioativo era tão grande, que ninguém era louco o suficiente para invadir as fronteiras desse depósito. A não ser, é claro, o nosso jovem e ignorante protagonista, que caminhava em direção a colina livremente, como um pássaro em voo livre, subindo-a com certa dificuldade – a névoa deixava a encosta úmida e escorregadia –, conseguindo chegar ao topo, ofegando. Lá, ele via a árvore solitária repleta de inscrições feitas num passado não tão distante, observando também a vista panorâmica da cidade. Certa admiração te preenchia o peito vendo as casas caoticamente distribuídas pelas colinas, as estradas magnetizadas onde caminhões de sola magnética iam a velocidades de mais de trezentos quilômetros, além de carros que chegavam aos quatrocentos. No entanto, o que mais te causava admiração eram as megatorres que, mesmo com a vista limitada pelas colinas, ainda tinham seus topos misteriosamente se mostrando, com toda sua imponência magistral. Encantado, Dois Meia não se contia, dizendo:

As mais altas torres do mundo se encontram nesse distrito e eu posso vê-las daqui, tão pequenas, que até cabem em minha mão. Será que essa é a distância que eu estou daqueles que realmente tem poder?

Ao concluir seus pensamentos, Dois Meia suspirava e se retirava. Não havia mais nada para fazer ali e isso o deixava decepcionado. Nada no mundo havia se revelado, sendo esse, no fim, o único motivo pelo qual ele se dirigia até essa colina.

Desse modo, ele voltava para sua bicicleta, andando, outra vez, aleatoriamente pelas ruas do bairro, seguindo o nada em busca de algo; com as horas passando e o nosso protagonista se perdendo em sua própria cidade, entrando e saindo de tantos becos, com sua procura desnorteada, fazendo-o pensar, por apenas um minuto, se realmente valia a pena desperdiçar seu dia dessa forma.

Ei vadia!

Dois Meia andava pelos becos quando encontrava, talvez, o que ele mais desejava.



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