AVN – Capítulo 69 – Blue, by Derek Jarman.


A cor era prateada, e cruzava a luz noturna. Uma respiração. Eles não contaram, mas os disparos foram simultâneos. A ponta da antena irradia o pulso eletromagnético, que desce lentamente, donde está estacionado, com o torpe planeta vermelho rugindo a ti, no teu silêncio.

Outro segundo, nos foquemos em como o disparo entra no peito, dilacerando a caixa torácica rumo ao centro de vida. Era a Gateway-0 que investigava, se movia. O satélite artificial mais natural da existência marciana, vendo como duas vidas poderiam significar nada perante a pura e simplesmente existência inumana.

Mesmo segundo, o disparo destrói, o sangue espirra. Pensamos: poderia ser impossível. Mas assim não o foi. O pulso eletromagnético afunda em seu corpo, e a tudo que vê é azul.

A última beleza da existência, não frequente memória de si. O pulso escorrega em sua mente, e tudo que foste seu registro, partia.

Azul, era essa a palavra. Pescadores de pérolas em mar azul… Águas profundas lavando a ilha dos mortos. Era a palavra, em baías de corais, onde vasos espalham ouro sobre o fundo do mar imóvel. Deitados ali, abanados pelas velas dos navios esquecidos arremessados pelos ventos pesarosos. Garotos perdidos dormem para sempre em um abraço terno. Lábios salgados tocando em jardins submarinos… Dedos de um frio mortal tocando um sorriso antigo. Os sons de conchas. Sussurros de um amor profundo, flutuando no mergulho para sempre. O sorriso dele, lindo de morrer em plena beleza de verão. Seus jeans escorregam pelas pernas, joia pura nos meus olhos fantasmagóricos.

As memórias de verão descem, uma época em que Red era seu, e então morreu, não por ódio – era sua vontade – se tornando na poesia da vida, a sua. Infinitos no tempo que puderam ser.

Será que imaginou que com o tempo seus nomes seriam esquecidos. Que ninguém se lembrariam de seus trabalhos. A vida passando como traços em uma nuvem, se dissipando nos raios do sol lutando contra o nevoeiro. Porque nosso tempo é a passagem de uma sombra e a nossa vida corre como faísca através dos erros.

O nome dele era Blue, e nunca pode colocar a flor, vermelha, em sua tumba.

Míchkin suspirou, acendeu o cigarro. Um buraco de bala no seu ombro doía.

Também não pude dizer adeus. — Turing apitava. — É a vida, não é: morrer para sempre.

As luzes se apagavam, estava frio. Nada mais, nada menos. Ele também estava morto, estava sozinho.



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