AVN – Capítulo 68 – White, by the pearl of the cowboys.


Eu estava acostumado àqueles olhos, quais percorrendo a sombra que sou eu, se perdiam, e em iridescência, se preenchiam de mim.

Um fluxo de informações conectado a minha nuca, o bafo seco. Meu corpo era e não era. Um pensamento distinto: ele me abandonou, e finalmente estive só.

E acostumado àqueles olhos, eu não soube o que responder, pois só eu estava, e só eu não era nada.

Um pensamento a posteriori: eu nunca tive controle. Não somos uma construção individual, não temos a vontade que muitos afirmam ter, eu não sou eu e você não é você. Franker foi minha mente, esteve, destruiu e em algum momento deixei de ser quem eu era. Eu fui e ele se tornou eu. E agora que ele se foi, quem sou? Quem é ele?

Eu encaro aqueles olhos e me lembro de Lunar, me perguntando sobre quem ela acha que eu sou… será que em alguma perspectiva eu posso ser sua ilusão, numa camada superficial que evapora ao sol? Ou, num pensamento ainda mais distinto, já sendo em seu sorriso, de algum modo, já sou?

Me conta uma história sua. — Ele diz que irá me matar, mas como será possível sem saber quem sou? Se eu morrer por suas mãos serei ninguém. É tudo que penso.

Uma história minha? — Ele parece confortável, um homem livre de correntes, eu acho. — Vou contar uma, essa eu acho bonita. Uma história sobre centenas de anos de amor, de fúria, de desejos e uma paz particular, que tragicamente termina com um poeta desgraçado, um homem fora do círculo de domínio, mas que crê piamente que poderá ser aquele quem dominará.

Essa história eu já conheço. Me conte sobre aquela noite, é isso que quero saber; de quando a lua bate em meu rosto e dilacera minha carne, e toda dignidade que me sobra, agarro a lama e ao meu sangue.

Um silêncio, ele treme.

Pensamos que você fosse Franker, e como tal, precisava morrer.

E então quando viu o verme que eu era sentiu pena, hesitou, e tudo que ganhou foi um cadáver embalado em presente. Você me odeia por eu ter te tirado o mundo e eu te odeio pelo mesmíssimo motivo. Foda-se Vênus, eu ia te matar de qualquer maneira num fim mais belo.

E ele só matou uma inocente. Uma mãe que me amava, uma estrela cintilante que não merecia o merda que sou. Inevitável. Mas fui um merda de partir e deixá-la só. E mais ainda de não ter retornado quando ela me chamou.

O nome dela era Red, não é? Você não pode me contar quem ela foi, pois dói, entendo. Mas me diz, como ela era?

Forte, eu acho, alguém que lutou até o fim por quem amava.

Eu olho para ele. Um peso infinito cai nas minhas costas. O dia que o homem não era tão homem. Mas quem era homem ainda naqueles dias?

Vamos terminar com isso.



Fontes
Cores