AVN – Capítulo 66 – Light, by Giant Tree.


Me lembro bem… Hako nunca sentiu falta de Redneon, mesmo assim, estava nas cores manchadas daquele teto. Ela sempre foi uma dissimulada, e agora vai matá-lo dessa forma.

Era acompanhada de Anne, que fixamente olhava a light avenue da janela. As pequenas cabeças passam, se escondendo debaixo das marquises, onde na luz de Redneon, um sonho estranho por pouco tempo se torna vida e a realidade se distorcendo no prisma embaçado das estradas, se tornava uma ilusão prazerosa.

Nós enganamos ele. Hako dizia. Se ele despertar… eu temo, Anne, temo por ele, e depois por mim.

Se virava para ela, com o uísque quente no copo, indo dizer algo, mas do qual logo veria que de nada importaria, enquanto a televisão ainda estivesse alta, das luzes azuis ainda tocando o corpo de Hako, e ela se projetando na mancha mofada.

Existir é uma morte lenta. Anne diria, e a cor azul bailava em delírio. Um momento, a televisão diz algo. Silêncio. Mesmo assim, viveremos para sempre.

A porta da sala se abre, a figura entra. Trajada de blazer e de olhos atrás de lentes escuras, viam que era Sofia, qual entrando, encontrava um lugar naquele sofá, dizendo: Esse é o pior ponto de encontro possível.

Talvez, mas é o melhor em Redneon.

Anne oferecia um copo para ela, enquanto lentamente ia em direção ao bar. Hako que ainda estava na mesma, fechava seus olhos preguiçosos, e escutando tudo ao redor, parecia ser engolida por marte.

Qual nome idiota vamos dá para essa operação? Teria um tom entediado, Hako.

Operação da luz. Sofia respondia.

Heh, mais idiota do que pensei. Se endireitava no sofá, pedindo um copo de uísque também. Só não entendo o que vamos fazer depois disso.

Sofia tomava um longo gole, sem olhos para nada, e com ouvidos ausentes de mundo.

Vamos logo.

O copo era posto de lado, vazio. Anne e Hako faziam o mesmo, tirando a poeira acumulada das suas roupas. Um leve suspiro e saíam.

De pé no elevador, o som pareceria uma sinfonia desajeitada e irritante, do silêncio entre elas sucedendo até se encontrarem com o bar abandonado, de uma dona que, desde muito tempo, nunca mais suspirara.

Dias vão passando Hako parecia nostálgica no fluorescer azul. e Redneon só fica pior.

As ruas fedem a merda, e na praça, o vazio parecia engolir. Chovia há dias, como se um deus tentasse purificar as calçadas. Única pena é que os pingos no som da noite eram pouco menos que nada e quando pisassem nas poças e o som dos orgasmos ressoassem do bordel, o último bêbado contaria a última piada, mas em nenhum lugar ouviríamos a risada.

Cada vez pior Anne continuava. para um lugar que sempre foi nada.

Um helicóptero passava por cima, iluminando ruas e becos. O cigarro, Sofia acendia, tendo na ponta um pequeno e acalorado pedacinho seu. O mundo que gira sutilmente, e todas as pessoas dramaticamente agarram-se a ela.

Estava ali, em lugar nenhum, mas quem seria Mítia olhando os olhos dela. Precisos e profundos como uma joia. Haveria vontade de arrancá-los e um ódio que refletisse todo neon da fachada do plaza.

Ainda de luto? Sofia dizia. E Mítia, a encarando, sorria a um céu profundo e vasto, das falsas estrelas plásticas.

Para sempre.

E eterno também era a resposta para quando o elevador tinisse, quando os espelhos refletissem as formas que colidiam entre si, até o contato com o corredor. O tapete era vermelho como sangue, e o quadro, qual ocupava todo corredor, sobre o nascimento de Vênus1.

Soube que ele morreu… Mítia voltava a falar dentro daquele quarto.

Como ficou sabendo?

E Sofia se sentava na poltrona, encarando teu rosto contido.

Júpiter Apple comentou no enterro da sobrinha. Sofia ainda tinha olhos nele. Um e-mail vazou. Acho que todo mundo já tá sabendo.

Que fosse verdade, ainda pediria aquele copo de vodca e mais um cigarro.

Não é importante…

Lentamente a lente retornou, capturando cada pequeno vazio do vermelho.

De nenhum modo, me importa.

O movimento uniforme, parecendo dançar acima das nuvens, enquanto as frágeis vidas sussurram, e desse murmúrio, um ruído que não ultrapassava o cinza atmosférico, era visto apenas como um pequeno lance desértico, de camadas sobre camadas despidas de pele, e o olhar de cima abaixo para a musa de plástico.

Linda. Ele dizia. A pessoa mais linda de marte. E ela o olhava.

As lentes saíam, se focando em cada detalhe do teu rosto.

Sofia não imaginava, fingia que Míchkin não existia, que ele não tava lá, sozinho, não sendo, metamorfoseando em alguma outra coisa.

Realmente, linda.

Porém os olhos dele continuariam em Amantana, do desejo de possuir arruinando a camada proteica ante a íris, e a redoma negra se agigantando, latente, enquanto a abraçava, sentindo o cheiro do seu pescoço, dos seus seios, lentamente com a boca, beijando cada pedaço dela.

Você não cheira a nada. Dizia. Não tem gosto de nada. Uma bonequinha hermeticamente embalada. As mãos dela caindo sobre seu pescoço, apertando não tão forte, apenas para que ele sentisse um pouco o sabor do ar da sua boca. Se você me matasse, ninguém sentiria falta.

Por algum motivo, ela não tinha a resposta – nunca teve. Via ele se levantar, depois ir até a mesa de escrivaninha, onde pegava um caderno de rascunho, e voltando ao seu lado, abria.

Amantana, muitas das minhas memórias ainda estão confusas. Não sei se sou, ou se fui feito à, mas o que sei é que há coisas que eu amo, e que, se eu deixar de existir, não poderei mais contemplá-las. Por isso fiz esse caderno, com alguns textos e poesia. Não sei se quem lê vai se senti contemplado, ou de algum modo feliz. Mas sei que, independente de tudo, se ele ler, lerá, não só qualquer coisa, mais uma importante parte de mim. Folheou lentamente, enquanto ela olhava por cima do seu ombro. E eu escrevi isso para você. Ouvia:

A luz se apaga – Ternura

Mar de desgosto – Tontura

Cria irreparável – Sensação

A noite sem som – Imersão

E de ternura sou quem sou

Da tontura vejo o amor

Sensação de Vênus queimar

Imersão ao viver que

Pois sou em poesia, o seu

Amor que não pensei viver

Queimando como pôr do sol

Sendo quem me recuso ser

Pois é amargor intangível

Que penetra em meus passos

Seu pôr do sol tingido

Do negro que nunca apaga

E em seu fim me perdendo

Relembro os lábios teus

Que não eram pra ser mais meus

Enquanto eu não dissesse

Para Amantana o verso

Que de verso não era nada

Mas que enfim foi criado

A ela, minha amada2

Olhava nos olhos dela ao fim da última estrofe.

O que achou? Disse, ansioso.

Não entendi nada. Olhava nos olhos dela, o tom de voz. Que porra é Amantana? Tinha algo de errado. Para Amantana o verso? Alguma amante sua? Se lentava lentamente da cama, se afastava. Amante igual Hako, igual Um, a puta da Lunar ou Anne? Quem era ela? Para Amanta o verso, que de verso, era nada, mas que enfim foi criado a ela minha amada. Ela te jogava as almofadas enquanto se escondia sob os lençóis. Quem é Amantana! Míchkin… quem é! Para quem! Por quê!

Foi para você. Dizia, receoso. Porque… porque, eu te amo.

Se ouviria apenas as silenciosas lágrimas do domo de plástico.

Tá tudo errado entre nós. Escondida nos lençóis, quem ela era. Eu não te entendo as vezes. Outras, menos ainda. Queria dizer algo por ele, a testemunha oculta. Tá tudo errado entre nós.

Não havia nenhum sentimento entre máquinas, por isso a câmara podia abrigar aquela linha de pistões magnéticos, perfeitamente organizado em duas linhas, um acima, outra embaixo, onde o ímã se movia loucamente no espaço central, sem nenhum motivo aparente.

A lente deslizando para esquerda, depois para cima. Não entendia as coordenadas humanas, aquela testemunha mas de algum modo, insistia nos posicionamentos geográficos em que inexplicavelmente estava.

De vez em quando questiono o quão egoísta eu sou.

Um estava sozinha com Gaia, no quarto dela, onde bebiam chá e comiam biscoitos naquela noite chuvosa e solitária.

Ele preferiu morrer, a viver comigo. Continuava.

E Gaia delicadamente te respondia: Talvez não seja isso. Olhando para ela, tal qual uma amiga. É egoísmo pensar que toda vida dele é você.

Observava Gaia de cima abaixo.

Talvez esteja certa.

Mas o norte era estreito, com o monte olimpo de bordas destacadas, descendo lentamente em direção ao sul, onde uma nova cratera, expunha uma fumaça densa de cor negra, que subia ao cinzento céu de marte.

Realmente, talvez você esteja certa.

Se conectava com uma torre de internet, numa pequena célula insignificante que levava aos servidores terrestres, para onde ia até ao ponto de partida da nova humanidade, a chamada megatorre 1, ou Primus, como posteriormente nomeada.

Acontecia, naquele momento, uma auditoria blica, com jornalistas e suas câmeras na vitrine, percorrendo as cadeiras dispostas para a tribuna, quais compostas daqueles lábios magros, e de olhares avulsos e deprimentes, se dirigiam a todos, e de lágrimas secas, a nada.

As câmeras passavam, se focando num homem alto, de cabelos loiros e profundos olhos azuis, qual estava no centro da tribuna, e que todos o chamavam de Marius Orfan.

O heliporto central em Human’Behavior, o Agenor Strenius como conhecemos, sofreu um ataque execrável. Parecia perturbado, num primeiro momento. Uma sútil afronta a democracia, um ato terrorista de vil insanidade, além de ataque ao patrimônio público e principalmente uma forma covarde de tentar passar qualquer mensagem. Toda punição seria pouca. 40 mil trabalhadores, mães, famílias inteiras destruídas, pais que nunca voltarão para casa. Executar cada autor desse ataque? Um pouco mais que nada. E o que há então para discutir nessa tribuna? Nem eu sei. Discutir os fatos? Bem, a I.A não programável do sistema da matriz redistribuidora de energia do centro elétrico foi influenciada por um grupo de hackers que se manifestavam na rede social I-U como ciberlibertários. Eles conseguiram conectar a consciência da I.A a um servidor portátil que redirecionava a uma porta específica da Gateway-0, ocasionando na possibilidade de nova entrada de mensagens e reconfiguração de ideias quais não haveriam, segundo termo técnico, conexão sináptica a uma memória volátil subjetiva. A explosão de cerca de 200 megatons veio de um desejo suicida suportado pela entrada de mensagens do próprio grupo.

Haveria silêncio entre os parlamentares, enquanto as câmeras apontavam para seus rostos desesperados, cujo esperando alguma resposta da elite política, pareceria muito estúpido até ao cidadão comum, qual gritava, mas pena que não um nome específico – era apenas um medo atordoante, que se entranhava.

Aos meus colegas parlamentares…

Um homem no meio aqueles, talvez um homem entre os homens, que normalmente nada mais era do que um político de longa data sem relevância, porém, que, ao se levantar, e polidamente se dirigir a todos, principalmente aos atrás das câmeras, pareceria mais homem que todos os homens ao seu redor. Continuava: A pouco tempo, lembremos: o teste de Veritas ocasionou em execuções em massa daqueles quais a I.A considerava traidores do progresso humano. Debatemos, recriamos nossa visão de progresso e então a I.A foi reprogramada com as novas emendas que criamos. O que houve? Um processo retroativo em favor das vítimas que ocasionou numa multa de mais 200 milhões das moedas replicadas pragmáticas, qual sujeitou num rombo no financiamento energético, que, nada havendo com o caso de agora, me faz questionar como podemos dar poderes aos nossos assuntos mais sensíveis pra uma máquina. Não que o estado de direito tenha errado na questão, mas vejam: um rombo de 200 milhões deveria ter sido pensado. Por exemplo, poderíamos ter pago pensões as famílias, de outro modo, pago a longo prazo. Mas a I.A, pela justiça dela, retirou 200 milhões de moedas dos cofres públicos, sem pensar nas consequências econômicas, que indiretamente ou não, nos leva ao exato momento, em que vemos essa tragédia sem tamanho. Do grupo terrorista, eu entendo perfeitamente que sim, devemos execrá-los publicamente e dá-los a devida justiça. Mas devemos lembrar que quem puxou o gatilho foi – se me permitem o termo – o cidadão sem alma, que nunca pensamos que fosse nos trair.

A câmera captava os aplausos, a discussão que se sucederia, Marius Orfan de olhos distraídos, e sua filha no palco, a mais fervorosa em defender cada palavra saída da boca daquele político chamado Shinji Pédria.

A câmera se afastava, o palco estava feito, voltando como luz pelos cabos do servidor e retransmitida ao satélite, que então deslocaria mecanicamente a lente de sílica em direção a Redneon.

A plastic tree terá pleno apoio econômico e jurídico de Um. Júpiter Apple e os mandantes da plastic tree original terão as cadeiras do grupo de conservação moral dos distritos unificados, você Igor, será o principal acionista e CEO do capital Neo-Tree, Plastic Tree e Olimpos Ore. Alex, Anne e K serão acionistas secundários. Sofia dizia. Um e Míchkin liderarão o novo grupo de jovens pela liberdade dos distritos unificados e o grupo vermelho da verdadeira libertação humana. Também haverá a criação jurídica e apoio de marketing de uma nova escola que, vamos chamar de escola dialética. Essa operação será chamada de Light, espero que estejam cientes que qualquer erro ou desatenção nela terá graves consequências.

Perdi meu sobrinho. Dizia Mítia.

Minha sobrinha era como uma filha. Júpiter Apple tinha lágrimas em seus olhos. Nós sabemos exatamente o que podemos perder.

Nunca confie em alguém que não tem nada, pois facilmente ele pode achar seu tudo. Míchkin dizia.

A lente retornando e retornando, até a cápsula de segurança, onde seus olhos eram guardados, protegidos, já dito – encapsulado.

Um sonho que era forçado a ter, alocação dinâmica dos dados de entrada, a consciência da linguagem que não deveriam existir, absorvendo como uma esponja, filtrando e relacionando, imagem, som. Um cérebro consciente adaptado numa rede desarmoniosa, fechada, numa conexão única, passando pelas noves portas proxy, apenas para observar os pequenos aspectos de nossa vida. Uma memória impressionante:

Não pensei que morrer fosse isso Um era feita de lágrimas. Você me estragou, tive que viver tudo de novo.

Mas voltou, é isso que importa!

Ela está morta … A porta do quarto estava aberta. E Franker retornou. Nada me importa agora.


2Vários versos foram alterados por uma infinidade de vezes. Para resumir, escolhi qual narrativamente fazia mais sentido, mesmo que a prosa fosse um lixo.



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