AVN – Capítulo 63 – Um.


Ele não parece o mesmo. É estranho. — Anne dizia.

Estava com Um e Sofia na sala de jantar da mansão em Human’Oath, Subdistrito A. Havia-se passado dois meses desde que Míchkin havia acordado.

Ele descobriu sobre Vênus…

Um lembrava: aqueles pequenos olhos te encarando na luz azul de uma intensa noite a sós e ele dizendo, depois de ser enganado por tantos meses, que já sabia.

Sofia suspirava, olhava friamente para seu prato. Murmurava: — Alguém deve ter implantado uma memória sugestiva enquanto ele estava desacordado. Socava a mesa. Merda!

Um assistia, dizendo para que ela se acalmasse. Mas quem ela era? Ou melhor, quem ele era?

É um animal enjaulado, você sabe, eu sei, Anne sabe. — Tocava a comida com o garfo. — Foda que agora tem uma desculpa para agir como um lunático.

Desajeitada da cadeira, Anne olhava aqueles rostos desconectados. Um segundo em si e pensava como seria afundar os sorrisos com seu punho. O faisão assado que estavam jantanto, do espécime especialmente clonado dos campos da empresa alimentícia Red&Green para Um, não era tão prazeroso – ninguém parecia querer comê-lo. Desajeitada da cadeira, incomodada com toda situação, lembrava também Anne do último dia de Míchkin Zero como Míchkin Zero.

Ele quis morrer. — Olhou especialmente para Um. — Foi isso que pareceu.

Sofia estava entre as duas e suspirava. Uma pausa.

Tivemos sorte que o corpo estava intactado. Só a reconstrução do novo SNC1 custou 15 bilhões de Rps.

Temos dinheiro para isso. — Realmente bastante, mas quase nada. — Ele é uma peça importante.

Anne estava nos olhos de Um: mais delicados, um tanto quanto humanos. Ela percebia como Um perdia aquela frieza mística, não parecendo mais ter todos os poderes que imaginava ela tivesse. Olhando para as mãos dela, o corpo, uma figura de lábios rosas e profundos olhos cor de âmbar, além de esvoaçantes cabelos negros. Infelizmente, não era aquilo tudo. Seu nariz, um pouco rústico, não afilado, com um osso convexo, além de uma testa um pouco larga.

Fodeu com Míchkin?

Continuava olhando, como se esperasse algo dela e um a olhando de volta, lembrava, mas não sabia do quê, e depois se esquecia.

Bastante…

Apenas quem olhava os olhos dela podia entender o que se passou. Não exatamente o que ela era ou foi. Sofia, por exemplo, se queixava do porquê Anne se levantava, lentamente indo a porta; ela foi-se embora. Talvez um ato mecânico, poderia supor, ou quem sabe, só uma outra loucura de Anne. Diria que já voltava, ela, mas naquele dia? Não, ela não voltou.

Um até olhava para Sofia, e esperando nenhum traço a mais dela, dizia que tinha coisas mais importantes para falar. Amantana limpava a mesa, tirava os pratos e jogava comida fora, enquanto Um dirigia Sofia a sala de estar.

Você tem que parar com isso.

Olhos contra olhos, o corredor era longo.

Ele é displicente e parece cagar na nossa instituição. Você que deveria parar de ficar protegendo ele. — Se sentavam no sofá de suede branco e as almofadas bordadas com insígnias de ouro. — Também tem que parar de transar com ele.

Amantana, ligeiramente na sala, trazia paras as duas, chá, pondo a bandeja sobre a mesa de vidro de cristal.

Ele é jovem. — Um dizia. — Quando tinha a idade dele se deixava levar também.

Não desse modo, Um, não desse modo… você sabe.

Um teria um sorriso para ela, como se entendesse, mas não se sentisse confortável. Suas mãos tirando um pequeno dispositivo do bolso interno, Era um círculo holográfico que reproduzia uma sequência estranha de vídeos.

Essas são suas memórias na planície inferior. — A imagem vermelha surgia no ar. — Na época eu estava no processo de Backup, não contei a ninguém, nem mesmo para Anne. Reparti minha memória com o servidor do Bunker principal da fábrica de gases 19, e uma autônoma. Por isso fiquei quase 35 anos sem sair de lá, sozinha, junto de Anne.

Tomava um gole de chá, tremia ao som.

O que houve?

Não era tão saboroso quanto queria. Um a olhava, desejava algo: sobre saber o que sentiria contando aquilo para Sofia. Talvez nada. Ela parecia preocupada, mas não sabia quanto. Não, não era isso. Olhava para Sofia esperando que algo mudasse nos olhos dela. Eram as mesmas joias imutáveis extinguindo cada partícula estrangeira da sua frente.

Dei um tiro no meu rosto depois daquele lance com Hammilton. Franker tinha ido embora, Marius era um homem estranho e as assassinas começavam a ter ressentimento contra tudo que fiz. Até você partiu. Fiquei sem nada durante um ano ou dois, e então fiz aquilo. — Sofia colocava a mão no joelho dela, gentilmente acariciando, enquanto tremia ligeiramente e olhava para os profundos olhos dela: nunca imaginou que Um chorasse. Pelo menos não daquele modo. — Fiquei 35 anos fingindo ser eu, enquanto ao mesmo tempo vivi flutuando pelo ambiente virtual, me conectando com pessoas, me desvirtuando, entre cada coisa e além de tudo, as estrelas que nunca pensei que uma pessoa fosse capaz de estar. Ser algo e não se limitar a nada foi a melhor coisa desde muito tempo em minha vida. O problema, foi justamente a morte de Franker. Quando você me contatou, eu já sabia de tudo. Vi ele voltar para os distritos, vi ele se acomodar em Redneon e viver outra vez em esbórnia. Parecia que ele não estava regenerando suas células fazia anos, num estado de velhice deplorável. No entanto, foi uma surpresa: nunca esperei vê-lo novamente, pensei que ele fosse morrer na planície vermelha, ou no polo norte de Koltrain. Mais do que minhas expectativas, preparei o backup, ia falar com ele novamente, precisava. O problema foi que, no meio do sonho digital, perdi seus últimos momentos, sendo acordada contigo olhando para mim e dizendo que havia descoberto a reminiscência de Franker.

No episódio de Hammilton, Sofia tinha ficado no lado de Franker. O homem que profundamente odiava, que havia se aproveitado dela e feito coisas inarráveis. Era estranho escutar tudo aquilo, principalmente porque foi Um quem promoveu toda aquela desgraça. Por que se lamentaria então? Um pouco mais que isso, também se perguntava, naquele momento, por que não explodiu a cabeça de Dois Meia, e pior ela queria saber…

Como ele morreu?

Olhava gentilmente para Um, tremeria mais tarde ao perceber a si mesmo naquele instante.

Não sei. Ele é uma cobra ardil, você sabe: sempre foi. Criptografou sua memória no espaço de outrem onde tentou se forçar na retomada de consciência e assim viver novamente.

Olhava sem tez para as imagens do círculo holográfico.

Míchkin conseguiu? — Não havia mais chá.

Não, ele vive num limbo perturbador, onde Franker espreita na memória, no teu afeto e sentimentos, ameaçando tomar a consciência dele em todo instante. Infelizmente Míchkin já sabe, o que se torna um contraponto, dele tendo que assumir a si mesmo o tempo todo, para não acabar se esvaindo.

Toda essa história, por ele? A xícara estava em cima da mesa, e sarcasticamente seus olhos nos dela.

Quer dizer que não podemos controlá-lo?

Significa justamente isso. — Um no entanto, não tinha fôlego, já divagando em si mesma, nas suas palavras. Sim, não olhava mais para ela. — Enchi ele de Spl tentando controlar sua consciência. Advinha: seu espaço vazio adaptou as funções toxicológicas do seu próprio organismo.

Isso deveria ser impossível. — Sofia dizia.

Tudo é impossível, até que se prove o contrário.

Não havia mais tantas coisas para serem contestadas e um ligeiro silêncio se instaurava. O que ela pode dizer para mim? Sinceramente, apenas queria mais algumas palavras. Mas Sofia não sabia como narrá-las.

Um sussurro: — Você nem tentou…

E olhando para Sofia, confusa, Um não entendia mais o que assistia. Sobre confusão, na verdade ambas estavam, de uma sem entender o que disse e a outra entendendo perfeitamente.

Eu tentei. — Olhava para Sofia, indignada. — Infelizmente, se me pergunta agora, eu desisti de Franker para sempre.

Raiva, não havia palavra melhor para aquele fragmento de momento. Um a sua frente, seu punho fechado batendo violentamente na almofada de penas.

Esbravejava: — Então tá realmente lutando contra esse tal de utilitarismo? — Olhava Um, havia calma. — Veritas até entendo, temos que limpar o nosso antes que uma merda dessa nos vaze. Agora a escola de Koltrain? Ninguém acredita nisso, nem mesmo ele. Por que você luta com tanta vontade se não por vingança?!

Sorria.

Você começou nessa merda lutando contra um punhado de traficantes. — Tirava do bolso um cigarro. Malboro, sempre carregava um maço. — Se iludiu quando disse que era parada grande. Agora quer uma motivação decente? Vou te dizer a verdade: não tem. Pelo menos eu não tenho. E agora eu te pergunto: pelo quê você tá lutando?

Sofia teria aqueles olhos catatônicos contra a fumaça. Luzes se apagavam, depois ligavam. Um segundo, dois, e mesmo assim ainda não havia resposta em seus lábios.

Por… — De tudo que nunca imaginou, ela conseguiu dizer. — …Franker.

O rosto de Um se contorcia numa risada surda, enquanto encarava.

Sempre foi ingênua. — Olhava-a de cima abaixo. — Franker nos odiava. — Pedia Amantana que retornasse. — Vou te mostrar uma coisa, veja só: esse é o modelo autônomo de ser inteligente. No entanto, a consciência dela é limitada de milhares de formas para que não se assemelhe tanto a um ser humano. Veja bem: seu circuito impresso comporta diversos dispositivos e aparatos que tornam seu cérebro em duas vezes mais inteligente que a de um adulto comum. Apenas sua memória consegue imprimir mil anos de dados gráficos. Franker que a criou, foi o décimo modelo, e entre os pioneiros, ela fez o favor de não se diferenciar em nada, a não ser no fato fundamental de conseguir simular diferentes tipos de consciência à sua. Deu o nome de Amantana, que na sua antiga língua terráquea significava amada. Seus colegas, na Gateway, no entanto, a chamaram de cidadã sem alma.

Onde quer chegar?

Ele simulou nossa consciência em Amantana e a estuprou. Míchkin me contou faz pouco tempo. — Olhava Sofia. — Sinceramente, depois de escutar isso, não pude não acordar dessa ilusão chamada Franker. Devia tentar também.

Sabe que isso pode muito bem ser mentira.

Menina ingênua. Um pedia que Amantana se aproximasse, onde, conseguindo tocar na testa dela, a cabeça se abria, revelando o console interno.

Sabe qual é seu código de acesso? — Dizia. — Putinha mimada. — A cabeça de Amantana se remontava, voltando a forma original. — Quem é você, garota?

Quem você acha que eu sou? — Quem dizia?

Um dia de claridade, na First Tower, subdistrito A. Só ele e ela. Quantos anos tinha? Acho que 12. Só Franker e Sofia, dividindo o mundo. Um encarava ela, Franker também.

Do que você mais gosta no mundo? — Tinha um filtro de sépia aquelas palavras, um gosto amargo, e terrivelmente doce.

Esses livros velhos. — Um homem, uma criança.

E mais o quê? — Só ele e ela.

Você… — Sofia olhava Amantana, cada pequena expressão de plástico que ela podia fazer. — Acho que é uma declaração de amor.

Agarrava o rosto dela, com suas duas mãos. Apertava, conseguindo escutar os ruídos do polímero rachando. O que a impediu naquele momento para o esperado fim de Amantana? Talvez aqueles olhos, te olhando com um misto de desespero, muito em particular o medo e a ligeira decepção. Reconhecia, como também reconhecia suas seguintes palavras:

Está com raiva de mim de novo. — Lentamente, se afastava. — Por que?! — Tinha até lágrimas no rosto de Amantana. — Por favor, não fique com raiva. — Lentamente, cada peça de roupa caía. — Eu posso fazer aquilo de novo… — Ela se aproximava, Sofia se levantava daquele sofá e caminhava lentamente para trás. — Olhe bem, vamos ser eternamente felizes. Você disse: viver é esperar para sempre. E é isso que eu espero de você. Se expresse como disse para mim me expressar, apenas não se machuque. Você, além de todos, é quem mais merece toda a felicidade do mundo…

Até seus frágeis dedos têm calor e ainda consigo sentir sua respiração, o odor da sua boca. Não sei o por que, quis estourar o seu rosto com meu punho. Olhei para ela, não pensei que fosse. Uma coisa terrível. Olhei para ela e me lembrei de tudo, e o pior, ainda assim consegui perdoá-lo.


1Sistema nervoso central



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