Capítulo 60 – A elipse da consciência humana.



Lentamente você morre. Seus olhos, em algo sem luz; o brio esparsado que te devora. Lentamente morrendo, é isso, esperando como se no fim de um túnel houvesse algo fora do seu sorriso.

Recapitulando, andava pela Giant Tree, com Anne e K. Parecia que um detetive estava rondando na cidade, fazendo perguntas demais a alguns pequenos comerciantes. Um disse para averiguar, mesmo que você ficasse um tanto quanto irritado; não é esse o trabalho que tinha que fazer, mas ela não entendia. Parecia ver em você ainda aquele mesmo garoto do deserto marciano, ou qual continha apenas uma revolta surda entalada. Não imaginava, por exemplo, reflexos difusos numa sala, o olhar de 435 sobre você, e junto, duas grandes figuras quais diriam:

Descobrimos o canal de Koltrain.

Não te importava, tinha certeza. O que era Koltrain, por exemplo, em vista sua verdadeira Sônia. Você olha para aquelas duas figuras, de uma chamada Blue e a outra Yellow, diz para elas: — Realmente, bem interessante. Mas elas não percebem que seu olhar não se foca nelas. Muito pelo contrário, elas continuam requisitando sua atenção num longo diálogo cheio de detalhes quais não te importavam.

Um tanto doloroso, pede seu fim e então elas saem, 435 também; onde apenas você, K e Anne restam, cheio de palavras floreando. Passam um, dois minutos e então perde a paciência, e sem sobrar realmente algum amor, você foge da sala. Anne não se importa, via nos seus olhos, certo tipo de abalo, ainda como K apenas poderia sorrir à missão.

Eu fico sozinho pela Giant Tree, andando em direção ao parque, onde na avenida, haveriam minhas flâmulas, gritos, um som particular, chamado música. Eu olho sua imagem, sentado num banco. Um casal de idosos passando, virando o rosto em desaprovação. Do que importasse. O parque estava cheio, haveriam vários tipos de pessoas, mas aquela música singular me atraia, e indo até ela, eu veria a cena grotesca contrastando a idílica da qual eu saía, sobre os jatos de água arrastar manifestantes pelo asfalto, coquetéis molotovs caindo do céu, as janelas quebradas. Um feixe de luz qual passasse e uma fileira de manifestantes caídos. Um em especial parecia ter tido algum tipo de ataque, retorcido, molhado, principalmente caído. A canção, qual pensava ressoar tão longo por todo quarteirão, na verdade nem soava, e tudo que havia era um silêncio decrépito; gritos ensurdecedores, caos, quase uma anomia. Não gostei, a imagem me fazia querer fugir, desistir da minha ideia e então me lembrei de você, dos seus pecados irrecuperáveis e acima de tudo, em razão da responsabilidade de ideias e atos. Descobri que aquilo era uma parte de mim, sim; mas também, não uma luta apenas minha, eram deles também, e que se caso fossem incapazes de lutar por eles mesmos, o que eu poderia fazer? Fiquei parado naquela imagem, e enfim andei em direção a um daqueles manifestantes coberto d’água. Peguei uma garrafa, seu isqueiro e joguei contra a máquina de asseguramento social. Sabe o que eu senti? Você sabe, e aí ele apareceu, aquela voz e me disse para te seguir. Turing chamou Anne e K.

E você seguiu, lentamente, como uma abelha ao roubar o néctar da rosa, e tão somente, com seus passos, parecia perdido pelas ruas de caos que seguiam por quilômetros e quilômetros. Um policial, não uma máquina, – daqueles quais portavam fuzis, vestidos como os mercenários além distrito – te abordavam, e num só golpe, você quebrava a traqueia dele e roubava sua arma. Alguns manifestantes te viam, e como num urro entalado, voltavam a cantar, e cantavam tão alto naquele momento, que você ficava bêbado de algum tipo louco de raiva.

Preciso voltar, um minuto ou dois antes do policial me abordar. É importante, como nunca pensei que algo fosse importante, já que além de mim e toda a multidão, eu percebia ali aquela garota. Não se lembram, recentemente nem eu me lembrava. Mas para ser sincero, se não fosse por ela, essa história teria terminado ainda em seu primeiro ato. A menina do beco, não sei seu nome, me lembro apenas de uma mecha branca e sua pele negra. Parecia bela, havia me enganado com seu tom de voz, e os golpes qual atordoavam e me faziam desejar algo tão abstrato como poder. Sabe o que aconteceu? Desapareceu na multidão, fazendo algo crescer em mim.

O policial foi nada então, andou pelas ruas sem percebê-lo, rumo ao destino cada vez mais rápido e o cenário qual se desdobrava desejando a ti todas as forças do mundo. Algumas ruas, um beco, Anne corria atrás de você junto de K, e nesse reencontro, te forçaram a esperar num restaurante por 435 e as outras damas. Ficou lá, sua cara emburrada, K falando ninharias e Anne tentando entender a situação. Ela te perguntava: — Como é o som dessa voz? E você não tinha uma resposta clara. Apenas estava na sua cabeça dizendo a direção e, na inércia, se perturbava. Pedia para elas irem logo, e então recebia uma mensagem de Um. O que ela te dizia?

Dia anterior, eu havia me encontrado com Vênus. Sabe, nos casamos recentemente, volto para casa sempre que posso e te falo várias e boas. Fico me perguntando se era isso mesmo que eu queria, mas recentemente era aquilo: depois da sua tentativa de suicídio, um medo pairava sobre mim. Então, fiz sua vontade, diferente do que podia fazer com Lunar, e estava lá, observando seu sorriso, seu rosto pálido, o cabelo bem cuidado, na nossa pequena, mais confortável casa na tradicional Ancient Mars, subdistrito B. Dia anterior, eu e ela lá; tinha feito uma janta: um peru com batatas, arroz, salada de vegetais – realmente havia se esforçado. Parecia feliz, não queria dizer exatamente o que achava de toda aquela pompa, comendo bastante, aquele sorriso. Tentei parecer feliz também e assim, quando ela ia dormir, fugi pela noite e advinha quem eu procurei?

Quem?

Ela mesmo, Hari. Voltei àquele restaurante, seu pequeno sótão no beco e fiquei lá encarando, parado na escuridão, como se eu encarasse algum gênero de sepultura.

Um amor morto, que lindo! Mas não pensou em tomá-la de volta?

Não, por três horas lá, a vi se aproximando com um outro homem. Ele tinha um sorriso, era mais velho, parecia gostar dela e ela dele. Merecia, ela também sorria, e percebi que, daquele amor eu nunca mais teria. Então, o que eu fiz? Fui atrás de Um, no subdistrito A. Sua mansão, seus guardas. Sou recepcionado como um cozinheiro, mas lá dentro, quase um rei. Acho que isso vem das poucas vezes em que estive lá – Duas, três… sei lá; subi as escadas, não estava tão vazio, cheio de garotas, engravatados, certos quartos onde rolavam orgias e drogas flutuando. Cenário europeu, meio tradicional demais, aquelas luzes coladas a paredes, milhares de quartos e salas – me irritava.

E irritado, o que fez?

O óbvio, corri para seus braços. Minha face suada, olhos como se eu estivesse embriagado. Corri e correndo me encontrei numa sala espelhada, luzes de neon vermelhas e azuis espalhadas; Anne e Lunar. Imagina, sozinho naquela penumbra, vendo Anne entrelaçar sua língua nas dela, lentamente descendo seus dedos, e de modo selvagem, acariciando ela.

Para onde isso nos leva?

Eu sabia que as duas eram amantes, sabia. Mas por muito tempo neguei. O motivo principal é sentir que ela estava sendo roubada de mim. Sabe, não havia mais aquele brilho quando eu estava próximo dela, as palavras de emoção – a saudade; e aquela visão não ajudou. Saí da sala obviamente, peguei um banco, sentei no corredor. Dezenas de pessoas passando sem prestar atenção em mim, até que Amantana passou, me viu, e me encaminhou ao quarto principal, de Um, onde num primeiro momento ela não estava, e esperando, tentei fugir, onde nos encontrávamos.

Ela viu seus olhos, você os dela; e se beijaram. Um desespero, certo sentimento selvagem e num tão aguardado sexo, pelo menos por parte dela, você escutou, bem baixo, ela chamando meu nome. Qual foi a mensagem?

Saí do restaurante, Anne tentou me segurar, te disse: Não te importa. E ela me deixou como se de algum modo entendesse a mensagem e desesperada, me xingou de tantos nomes pelas minhas costas. Não dei atenção, continuei; três, quatro ruas, e me aproximando de um enorme prédio, saquei minha pistola – Aquela mesma, prateada. O fuzil, eu esqueci na bancada.

Os guardas do andar inferior não souberam o que aconteceu. Seus olhos, desacreditados, sangue fugindo do peito. Não te passou pela cabeça que podiam ser funcionários inocentes? Não, sequer te importou. Continuou andando. Funcionários com seus papéis se escondiam para dentro das salas, pessoas abaixadas pelos escritórios, lentamente. A única dúvida, por que andou por todos os corredores?

A lua, saudades dela, meu crânio amassado. Precisava encontrar ela, e pior, não sabia exatamente onde ela estava, mesmo que eu escutasse sua voz, dizendo que não era pra aquele dia, nosso encontro predestinado, e que haveria muito tempo para nós. Não me importou, encontrei ela num banheiro, onde tremia; ou mesmo penso que quem tremia era eu, me aproximando dela lentamente, com a pistola, apontando.

Ela não facilitou, parece, deu um chute na sua mão – pistola voava; e no mesmo ato, com a mesma perna, se refez, dando um passo para trás, que te atraía.

Tentei um direto, abaixando a cabeça, e o que levei foi uma joelhada. Me atordoou, mesmo assim te agarrei o quadril, e arremessei-a contra o solo. Suas pernas se entrelaçando pelo meu braço, na tentativa de uma chave, mas na pura força física consegui suspender, onde, várias vezes dela contra o solo, finalmente me largou.

Mesmo assim ela te chutava, seu nariz quebrado. Lá no solo, nem soube como foi: um simples chute enquanto ainda deitada, como se parecesse a presa mais inofensiva do mundo.

Com todo o peso do meu corpo, eu rasguei seu rosto com meu cotovelo, e montado sobre ela, golpeei, uma, duas… ela até colocou um pedaço de porcelana do ladrilho no meu pescoço – todo aquele sangue espirrando de mim e o belo rosto dela desconstruído, como milhares de rosas amassadas e vinho derramado. Parou de resistir, depois que perdi as contas, ou talvez até muito antes disso.

Pegou a pistola, se jogou contra a parede, suspirou. Ela estava morta, não realmente, sabia que deveria voltar em breve. Do que importasse, limpou seu rosto nas gélidas águas da pia, viu seu reflexo, o corte era muito feio, a porcelana ainda no seu pescoço.

Tirei-a, improvisei uma atadura e quem me aparece? Estephan.

Por que ele apareceu?

Tenho uma teoria, sobre nossa negligência em razão as missões dos originais da No-heroes. Sabe, Estephan odeia De-K, seria o primeiro a ser convencido, diferente do próprio De-K e Bonh, que vivem literalmente pelo seu trabalho. Douglas e Jó são programáveis, não passam de máquinas e Alex é tão coadjuvante, que não deveria sequer ser citado, assim como a própria K, amante liberal, ou até mesmo Alíssia, que naquele ponto se dispunha mais na troca de produtos e contrabando do que tudo. Então, sim, apenas Estephan poderia nos trair, assim como realmente fez quando, no seu reflexo daquele banheiro, se apresentou a mim com a cabeça de De-K, pingando sangue no ladrilho, jogando-a; onde os disparos entre mim e ele faziam um terrível minuto de silêncio…

Mas não foi aí que você morreu…

Não, fui recebido com 6 disparos, onde apenas três me atingiram realmente, enquanto meus tiros fizeram a cabeça dele se tornar uma massa disforme. Engraçado, havia dois cadáveres desfigurados e eu lá, quase perdendo todo meu sangue. Realmente pensei em parar, não seguir aquela voz, mas ela gritava e gritava, até que me levantei e subitamente pegando o elevador, me via no seu escritório.

Sem antes não perceber, o carpete vermelho, a porta espelhada, o personagem sanguinolento que era você. Retrocedendo mais um pouco, os escritórios estavam repletos de policiais e gente de Um. Muitos tentaram te parar, fosse como suspeito, ou apenas para enfaixar, cuidar de você. Que fosse, não queria, e andando como maníaco, lá estava, naquele escritório, encarando com vil decepção aqueles olhos, te encarando no altar, junto de uma figura embaçada.

Meu cérebro não processa, não… ou melhor, o que supõe ser meu novo cérebro não consegue visualizar… Me falta memória, ou será que o evento traumático corrompeu estas linhas? Não sei Franker, não sei…

Não termina aí você sabe…

Tenho consciência.

Então o que acontece?

No restaurante, 435, eu. Estávamos no banheiro, uma história longa; seus olhos – como amo essa sentença, não é banal… sabe, toda a evocação de espírito, coisa bela – e dela evocava algo de modo tão idílico, que era quase impossível me segurar; mas não só disso, havia um outro algo.

Queria preencher o vazio de Hari?

Você é muito tolo. Ela era Hari. O tempo todo, minha amante. Nunca admiti, ela não era a mesma 435. Uma pessoa completamente diferente, sendo a mesma. Seus olhos, repletos de algo – eu não sabia do que era. Saudades daquele olhar perdido que ela me deu quando nos encontramos pela primeira vez, ou até mesmo o de desespero quando aquele maldito te tocou. Seu olhar preenchido, feliz, mesmo que bastante amargurado, como se tivesse a capacidade de resistir a alguma coisa… por mim… parecia, não sei – me causava algo.

Achou ingênuo? Foi essa a linha esnobada, não foi? O pequeno refúgio de ambos; o conto inacabado!

Naquele escritório, me contaram a mesma coisa, mas diferente de você, também houve esperança. Me disseram: — Você está perdido, eu vejo. Não queria exatamente, aceitar tudo aquilo, mas Koltrain, tinha um modo de fazer com que tudo feio, tivessem tons um pouco mais bonitos. Sabe, sempre estive perdido, e de mesmo modo, daqueles lábios, eu apreciava. Alguém me entendia, pela primeira vez, porém não era apenas aquilo. Ele olhava para mim, mesmo que fosse forçado, e duas figuras saiam da escuridão, me dizendo: — Você merece ser aceito. Imagina, o quão óbvio, o quão belo me pareceu. E aí então terminaram — Aceito como nunca antes pensou ser. Um filtro de imagens me antecede, aparece a utopia, e então com meu cérebro sobrecarregado, eu morro.

Eles te conectaram ao que?

Um cabo voou ao meu pescoço, os dois me renderam, e antes mesmo de alguém me prestar socorro, já estava morto.

Porque não resistiu.

Você resistiria as amarras da natureza, o céu róseo do pôr do sol; águas cristalinas e uma árvore pra repousar – a beleza onírica, que, assim como nos preenche, tão igualmente nos mata. Não resistiria, sei que não. Por isso, estou aqui.

Teu sonhado suicídio…

Nada mais que isso.



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