AVN – Capítulo 6 – A força!



Outra vez no mundo dos sonhos, Dois Meia se via deprimido, deitando no campo de rosas como se o vazio roubasse cada migalha de força. O velho mostraria presença, com uma aura anciã ao seu redor, o irritando profundamente.

— Eae … — Dizia. — Pensei ter dito para você não dormir tão cedo …

Foda-se, podia pensar, tentando achar apenas uma simples razão que o levasse até ali. O ataque parecia não ter motivo, o fazendo pensar e pensar, até que certo pesar retornava, tendo que disfarçar de algum modo, mesmo que estivesse na sua própria cabeça.

não fui assaltado … Ponderava em voz alta, no meio do campo de flores. Então por que ela me atacou?

Franker o observava, de lado, sentindo até pena. Uma dica, talvez, mesmo que não gostasse desse tipo de linguagem. Se sentava perto e sua voz rouca dizia:

É porque você é meio covarde, sabe … — Dois Meia se viraria para ele, com os olhos vermelhos de mágoa. — Olhar para você causa ódio, não me engano em pensar que alguém te destruiria … quero dizer, nessa realidade de merda, uma pessoa que não luta é bem nociva aos olhos de todos os outros. Por isso todo mundo quer te atacar, mesmo que não tenha nenhum motivo …

Se sentia meio impotente, se encolhendo nas próprias pernas, sem vontade alguma de nada.

Diria: — Apenas cala a porra da boca … por favor — Caindo com seus olhos a nenhum lugar, com suas mãos envolvendo seu rosto. — Você é apenas uma voz na minha cabeça … não representa nada. Então fica quieto, por favor … só fica quieto …

Um sorriso seria lançado no ar, fora dos seus olhos, e um toque na sua testa te acalmaria, de algum modo. Veria o velho, seu sorriso, e alguma coisa boa que saísse da sua boca.

Você é uma boa pessoa, ou, pelo menos, tenta ser … e sinceramente, não há nada de mal nisso … pelo menos não quando você é forte o suficiente para não se deixar abalar.

Olharia para ele com curiosidade. Força era uma palavra engraçada. Não acreditava bem nisso, ou sequer se questionava sobre. Pensava que as coisas estavam relacionadas por outra coisa.

O que é ser forte? — Se enganasse um pouco; acreditasse no que nunca acreditou..

É o caminho! — Era meio assim que via também, cheio de messianismo e outras merdas religiosas.

Tá… mas o que é ser forte? — Perdia um pouco de vontade. Quando começavam com aquilo não conseguia acreditar de nenhum modo. Era meio cafona, vezes até idiota.

Ser forte? — Mesmo que Franker parecesse ter toda as respostas. Antes de tudo, força é aquilo que te permite agir sobre um corpo. Um homem armado poderá pôr medo naqueles desarmados, um homem com um exército sobre aqueles sem nada.

Preferia assim, lógico, objetivo; racional.

Força se resume ao mal então?

— Bem e mal são polos relativos!

Por que?

Outra coisa que não acreditava de nenhum modo era, pois, mesmo que não fosse religioso, ainda se mantinha fiel àquela ideia cristã de que bem e mal são coisas bem distintas.

Eu poderia desperdiçar todo nosso tempo explicando … Franker diria. Mas vou te dar um exemplo, que é mais didático: um homem encontra num deserto um poço d’água com o suficiente para sustentar três pessoas por três meses. Porém, na sua pequena sociedade, há nove pessoas, onde duas delas são grandes guerreiros, outros dois, agricultores experientes, e os últimos quatro, homens e mulheres ordinárias. Você pode sustentar até cinco pessoas, contando contigo, por um mês, porém não há comida, e você teria que matar e canibalizar quatro pessoas para não deixar o grupo morrer de fome. O que você faria?

O garoto não tinha ideia, olhando para o velho tortamente.

… Por que isso me explicaria?

— Porque é um paradoxo moral complexo, quer dizer, entende né?

— Não consigo relacionar com a existência de alguma relatividade do bem com o mal?

— É porque você é um imbecil! Perceba, sua decisão tem o poder salvar de um a cinco pessoas facilmente, podendo te tornar na porra de um anjo ou num demônio, ou os dois. Pensa só, se você salvar apenas três, haverá fartura de carne e água; se tentar salvar cinco, haverá falta d’água e de carne; e no caso de tentar salvar os nove, ninguém sobreviverá e você não será nada, nem eles, ninguém.

E qual a importância dessa classificação que você fez?

Nenhuma, mas não se foque nisso, pense no paradoxo!

— Acho que eu tentaria salvar os nove …

Então todos morrem, e não há história; você ainda sendo essa porra de covarde, as pessoas que contam contigo decepcionadas e o resto é o resto! Não mudaria nada, na verdade acho que elas próprias se organizariam e fariam o que você é incapaz, que aliás, reflete bem pra caralho a realidade … não acha?

Já sabia da resposta, mas escutá-la assim talvez mudasse sua opinião. Se observasse bem, era verdade. Só de olhar direito pra própria vida, já poderia se questionar se realmente era uma boa pessoa.

Então todo salvador é um filho da puta … — Fosse verdade.

— Não há salvadores, meu caro, só filhos da puta. Ninguém se ama de verdade nessa merda de mundo, vivemos apenas para satisfazer nossos prazeres aos outros. No entanto, quem faz a manutenção da vida em sociedade, realmente, é o mais próximo que podemos chamar de deuses.

— Hum, entendo, o fim justifica os meios, deus está morto, e mais tantas outras coisas.

Não estava nem um pouco surpreso, mas talvez tentasse mudar um pouco, pelo menos seu pensamento.

Vários clichês, porém é o conceito: não há bem ou mal, apenas vencedores; e os vencedores não são heróis, são cuzões que não merecem nosso respeito. Mas veja só, aqueles que vencem é que dizem se há bem ou mal, ou o que é bem ou mal. Se algum padre dizer que coisa x é degeneração, metade do mundo vai acreditar; se um político dizer que não é, a outra metade vai lá e acredita também. Quantos pecados são pecados sem precisar ser, e quantas pessoas não morrem por tentarem ser apenas o que são.

Isso é deprimente! — Caía sobre o campo de flores e se esticava.

É a verdade, você sabe disso!

Queria mudar essa verdade …

Você precisa de força para isso …

E como eu consigo força?

Eu queria muito que você me perguntasse isso, mas não tenho bem o que responder. Força é um processo, não um objeto que se acha na rua. Você vai ter que passar por muitas coisas antes de desejar mudar qualquer coisa.

Uma pausa.

O que eu tenho que fazer?

Primeiro você precisa querê-la, depois é só merda …

Explica…

O caminho para a força é como se jogar num abismo, e mesmo dizendo que lá tem todo o ouro do mundo, muitos se resguardam.

Odiava também esse simbolismo barato, mesmo assim ia na onda.

Só preciso cair de cabeça então …

— Quase isso …

Uma outra pausa.

Como eu alcanço essa coragem?

Tinha que admitir..

— Você é um covarde, nunca vai ter essa coragem, sabe … — Queria dizer algo, mas não podia, sabia que não tinha respostas, ao fim. Então ficava lá, esparramado, de algum modo com lágrimas nos seus olhos. — Olha só, não chora. Vamos dizer que você é um personagem, e o personagem nunca vai mudar seu papel simplesmente. É uma questão além de você mesmo. Pode tentar mudar, pode tentar qualquer coisa. No mesmo cenário, no mesmo roteiro … bem, não poderá fazer nada.

Então o que eu faço?

Morra.



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