AVN – Capítulo 6 – A força!



Outra vez no mundo dos sonhos, Dois Meia estava cansado e deprimido, se deitando no campo de rosas como se o vazio roubasse cada migalha de força. O velho, sorridente, mostrava presença, com uma aura anciã o irritando profundamente.

Olá outra vez seu merdinha … — Palavras que o drenavam. — eu pensei ter dito para você não dormir tão cedo!

Confuso, ele não respondia, tentando achar uma simples razão que o levava até ali. O ataque parecia não ter motivo, o fazendo pensar e pensar, até que o pesar de lágrimas retornavam, com ele tendo que disfarçar …

Eu não fui assaltado … — … Ponderando em voz alta no meio do campo de flores; Então por que ela me atacou?

Franker o observava, sentindo até pena do moleque. Uma dica se mostrava necessária, se sentando ao lado, enquanto sua voz rouca explicava:

É porque você é um covarde! Olhar para você causa ódio, não me engano em pensar que alguém te destruiria … quero dizer, nessa realidade de merda, uma pessoa que não luta é bem nociva aos olhos de todos os outros. Por isso todo mundo quer te atacar, mesmo que não tenha motivo algum!

Raiva! Era o que sentia Dois Meia a cada letra daquelas palavras.

cala a porra da sua boca … — Sua resposta então seguia o que sentia, enquanto o mundo parecia pesar cada vez mais em sua consciência. — você é apenas uma voz na minha cabeça! Não representa nada! Então cala a porra da sua boca!

Um sorriso lançado no ar parecia lhe enfurecer, todavia, um toque na sua testa lhe acalmava completamente, o fazendo sentir uma terrível sensação de alívio. Ele não conseguia entender, se levantando de repente, atordoado.

Você é uma boa pessoa que não quer se converter ao horrível mundo que se apresenta … — Franker continuava; — não há nada de mal nisso … pelo menos não quando você é forte o suficiente para não se deixar dançar a dança do mundo.

Olhos curiosos se aproximavam, e uma ingenuidade absurda caminhava em direção das palavras.

E o que é ser forte? — Dois Meia perguntava. E sua pergunta fazia o velho sorrir.

Esse é o espírito! — A imagem de quem se conformava, o alegrava …

Tá… mas o que é ser forte? — E a vontade de reagir era tudo o que faltava.

Ser forte? — Franker ponderava. Antes de tudo, força é tudo aquilo que te permite agir sobre um corpo. Um homem armado poderá pôr medo naqueles desarmados, um homem com um exército sobre aqueles sem nada.

O garoto suspirava.

Força se resume ao mal então.

Franker olhava de um lado, também para o outro, pensando por um momento.

Hahahaha! — Sua risada contagiante como resposta … — Você é um imbecil? Bem e mal são polos relativos! — introduzia ao leigo numa nova questão incógnita.

Duvido! — Era cético Dois Meia sem acreditar nas questões mais óbvias. Heróis ainda o iludindo dificultava o trabalho de Franker, que apenas podia resgatar da parte mais funda de sua memória, uma clássica pergunta.

Hahahaha! — Sua risada outra vez introduzindo. — Tudo bem, então eu vou te fazer uma pergunta: um homem encontra num deserto, um poço com água o suficiente para sustentar três pessoas por três meses, porém, na sua pequena sociedade, há nove pessoas, onde duas delas são grandes guerreiros, outros dois, agricultores experientes, e os últimos quatro, homens e mulheres ordinárias. Você pode sustentar até cinco pessoas, contando contigo, por um mês, porém não há comida, e você teria que matar quatro pessoas para não deixar o grupo morrer de fome, lembrando que a chuva só cairá daqui a dois meses. O que você faz?

O garoto olhava feio para o velho com aquela pergunta estranha.

— … o que isso tem a ver com força?

E o velho esboçava um sorriso com a tolice do mesmo.

Isso tem tudo a ver, pois essa pergunta é um paradoxo moral complexo. — O verbo e seu significado.

E é com isso que você deseja provar a sua relatividade do bem e mal? — Mas a ingenuidade e a covardia acorrentavam sempre o mesmo culpado.

Sim, pois sua força de decisão pode salvar de um a cinco pessoas facilmente, sendo que sua decisão te tornará ou um anjo ou um demônio, ou os dois. Pense, se você salvar apenas três, haverá fartura de carne e água, se salvar cinco, poderá haver falta de água, se você tentar salvar os nove, ninguém sobreviverá.

E qual a importância dessa classificação que você fez? — Uma última pergunta.

Nenhuma, mas não se foque nisso, pense no paradoxo! — Uma última resposta!

Eu salvaria os nove e morreria! — A conclusão …

Então todos morreriam e você seria apenas um covarde fraco no fim das contas! — … E o resultado.

Como? — Atordoado, questões deveriam ser saciadas.

A água acabou e era tarde demais para correr atrás, todos morreram! — Todavia, a resposta apenas o desanimava.

Então para mim ser um salvador … — Com ele se aproximando do abismo que tencionava.

Você teria que tomar uma decisão e controlá-los. Você seria um anjo, faria o bem, ao mesmo tempo em que seria um demônio, e faria o mal!

No fim das contas, o fim justifica os meios? — Dois Meia já esperava, mas dançando nas palavras de Franker, a conclusão ainda o impressionava.

Isso é um clichê, porém é o conceito: não há bem ou mal, apenas vencedores. Aqueles que vencem é que dizem se há bem ou mal, os perdedores apenas se lamentarão e se perderão.

Isso é deprimente! — Sua cabeça já se afastando do prêmio.

É a verdade, aceite-a!

Então eu quero mudar essa verdade! — A revolta premeditada. Mal sabia ele que já estava no exato lugar onde queriam que estivesse.

Haha! Você precisa de força para isso! — Franker não tardava.

E como eu consigo força?

Força é um processo, não um objeto que se acha na rua!

Uma pausa.

Quais os passos então!

Primeiro: você precisa querê-la; segundo: precisa ter coragem para buscá-la!

Explique… — Absorva!

O caminho para a força é como se jogar num abismo, e mesmo dizendo que lá tem todo o ouro do mundo, muitos se resguardam.

Então eu só preciso cair de cabeça?

Apenas!

Outra pausa.

E como eu alcanço essa coragem? — O covarde se deprimia.

Você? Não, você é um covarde, nunca vai alcançá-la! — Uma outra revolta surgia, mas o contato entre os corpos fazia a mesma sensação de alívio. Lágrimas então se sucediam enquanto compreendia, penosamente, seu papel. Entenda, não chore: para um fraco se tornar forte, ele precisa morrer, para renascer em algo totalmente novo! — Franker consolava.

E o que eu faço?

Quando você acordar, se torne aquilo que você ser. Apenas assim você renascerá em algo que nunca foi.

O mundo de sonhos então se despedaçou e o velho se tornou poeira dourada no espaço que se destruía. Dois Meia sequer se despedia, acordando na luz e na calmaria de uma manhã nublada … mas iluminado ternamente por todas as questões finalizadas.



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