Capítulo 59 – A morte de deus!


Passos. Pegadas na areia carmesim, era aquilo; não tão bonito como as palmas nas rochas convexas, ou as escondidas por debaixo das rubras colinas, ou até mesmo as ossadas quais, por dia sim, se veriam de fora, e por dia não, estariam esquecidas. Eram passos, traçando, pontilhando, caminhando e vindo com as brisas acres pelo seu fronte, de uma natureza vulgar, no que seus olhos focassem na câmera, a última parede entre mim e você, e dissesse quão bêbado estava por aquela súbita nostalgia, de onde não deveria ser exatamente, tão clara; da sua morta amada, da primeira ilusão de Franker e o caminho qual nunca deveria ter seguido. Estava lá naquelas areias, uma outra vez, como se algum dia houvesse prazer em ser salpicado pelos raios solares, ou como se amasse os corpos mortos espalhados tão próximo daquele lago.

Algum dia anterior. — A realidade sintonizando à espinha, retransmitia aos seus sentidos uma visão, como se, onde estivesse, precisasse veementemente relembrar seu destino. — Um segredo, você sabe qual é.

K?

Lábios te devorando, nariz torcido; uma ironia, talvez sobre caos, um pouco de temor, como dos seus olhos dissesse sem harmonia, sobre algum dia anterior.

Sabe …

Estephan estava sóbrio naquela hora

Suas mão mortas sob a face

Um espelho rubro disforme

Estou lentamente morrendo, Dizia também, sua face estava ali, refletindo.

Não exatamente como eu queria, é como se, perto dela, houvesse um milhão de anos antes do seu brio; um inferno Dostoiévskiano, do seu fim inalcançável.

Não queria admitir, parecia estar num sonho, andando naquelas areias, onde K bailava como a dama dos ventos, mandando sorriso, afastando as dores. O espelho também estava lá, mas não com ela; pendido alto no céu, refletindo o mundo. Numa rocha lateral, Um também aparecia, saindo sabe-se lá de onde, me dizendo: — Para de brincar com as estrelas… — Não havia uma só pra supor. — se lembre: Shinji expôs Gaia aos Utilitaristas, que por sua vez controlam a revolução sexual com uma trupe reacionária obscurantista. Estamos empatados e você sabe o que devemos fazer. — Desaparecia junto do pó arenoso e toda a imagem, estando num breu completo, onde não haveria uma só vivalma.

Nela poderia querer cantar, donde pro céu olhava um quadro suspenso na escuridão, qual teu brilho furtava de ti todas as coisas ao redor.

Pequenino … o que anseia?

Curioso. Lá, num pequeno apartamento onde estava, andando de um lado ao outro, esperava uma atípica visita, no qual, em fim, se revelaria a face do seu pai. Apenas um deslizar de sorrisos, o foco no seu infanto rosto de otimismo, onde se vendo mais velho, no mesmo apartamento, esperava com olhos de quem prevê a morte, a chegada da tua mãe. O revólver de pistões em cima da bancada da pia, ela chegava, lhe dizendo para sempre se manter distante, do que fosse trago à sua bochecha, e num disparo surdo, fingia seu suicidío.

Não quer se livrar dessas memórias? — Franker tinha um sorriso podre, quando aparecia ao seu lado, apontando para aquele quadro por onde, de mágoas, derramava suas lágrimas e que, noutro tipo de caos, meu caos, um pequeno mundo de rosas surreais, retorcidas, que dançavam entre si, diziam o como não estava só.

Mas se eu dissesse sim

Que prazer teria lhe quebrar adão

Vê-lo se afogar em tal miséria

Se perder no meu último não.

Olhava para Franker, precisava daquilo. Também queria, por algum acaso, não ter que olhar naqueles olhos, mas tinha coragem, e da coragem te surgia um outro tipo de amo; um amo sendo ele próprio.

Decepção surgiria daquele, qual, ao seu lado, tinha um sorriso imutável, que lhe reapresentava o lugar cujo sempre havia sido manipulado.

Te diria:— Parou de pensar, não parou? Quando ele golpeou sua cabeça e arrancou da mente todas as sinapses que sugeriam que você é você e ninguém mais. Não pensou… Sua espinha agora está sobrecarregada, seu corpo, inexistente, esperando uma nova carcaça produzida de plástico. Que lástima.

De novo, um outro quadro, qual lhe sugava para dentro do seu âmago, e que lentamente lhe fazia viver toda sua vida, donde, sozinho na translação, se perguntando sobre o campo de rosas e muito talvez seu sorriso, tinha seus passos pelo escarlate, além do caos sexual e cada sentimento odioso de amor que te sustentava. Uma em especial, era sobre Hari, qual dançava através de ti, brincando com seus cabelos, o pelo do seu rosto, sempre tentando te fazer sorrir. Nunca sorriria, pelo menos não de verdade; e ela percebia, também fingindo ser feliz. Seu pequeno sótão, um paraíso de mentiras, onde ambos tentavam se amar. Não sabia realmente porque gastava seu tempo naquilo, mas tinha certeza que ali quase havia sorrido, quase havia fugido, e, principalmente, quase havia amado. O problema, o único problema, é que ela não podia reduzir toda sua existência ao seu amor. Coitado, divagaria entre as poesias, cada ínfima palavra que nunca lhe traria de volta. Ao narrador:

Você fugiu antes de mim

Desolada, sozinha – em lágrimas

Pensando que o sol não bateria

E o som apenas se dissiparia

Antes dos meus lábios se abrirem

Na alba do seu sorriso

É você que controla meu fluxo de memórias, Franker? — O quadro desaparecia. Ainda haviam lágrimas. — Se for, não compreendo esse sadismo… te deixa com tesão machucar seu hospedeiro, assim como sempre te foi prazeroso machucar todas as pessoas que te amaram? Desprezível! Por que também não brincamos com você?

Franker Médszi, criador de marte, procurando por toda sua vida, alguém tão belo como ele…

Que distorcido, você sabe: nunca viveu pela beleza. Aliás, criador de marte? Não acredita nisso, não é? A maioria das suas ideias eram compilados; pegava milhares de outras pessoas, relacionava a outras coisas e te chamavam de gênio. Você amava isso, e então foi pra vanguarda. O problema é que não tinha a capacidade, além de todos aqueles pequenos erros, as poucas falhas, que então se alastravam por pecados gigantes, e você, o grande autor, nunca pôde admitir, ou até mesmo intervir. Mais do que importasse, nunca te importou. Então, morreu. Eu vi, acha que não vi: sua face sorridente, esperando, através da névoa, a morte. E além, me viu, e o sorriso nunca resplandeceu tanto, ao tomar o corpo de alguém puro, igualmente desesperado.

Franker, nunca criaria algo, nunca viveria nada, estava simplesmente existindo numa matriz fechada, cujo seu valor era eternamente zero, ao contato de todas as pessoas que também eram reduzidas ao mesmo. Pelo sabor de um sentimento inexistente, viajara todo o planeta vermelho e o que conseguiu…

Além da saudade de todos

Que te esperavam em lágrimas

Havia também um morbo doloroso

Que nos reduzia em mágoa

Haveria o mesmo sorriso, um pensamento sereno e sua voz dizendo: — É o óbvio, Dois Meia. Sou um homem triste, vazio? Entendo completamente – é o óbvio; mas já imaginou se eu não tivesse feito o que fiz? Você não existiria, não haveria marte, distritos humanos unificados, apenas o pó vermelho que sempre cobriu as faces amargas!

Não seria um problema, você sabe. Não teríamos que ver minha mãe sofrer seu suicídio, por uma doença que emana através de ti; meu pai morto por um vício qual nos sustenta hoje, qual faz Um ser a deusa que é. Cada pecado que leva suas criações ao desastre, e o pressentimento quase eterno que o vago futuro é apenas pobreza. E agora – Oh meu agora! – desejam trazer essa verdade indigna e controlar por vez nosso destino.

Revejo esse fragmento – o último da sua vida vil; sobre o golpe qual abria seu peito, retirando tudo de ti. Nenhum objetivo, nem mesmo a face do ofensor, qual se aproximando lentamente ao cadáver de Koltrain, lhe gritava:

O nascimento de um deus precede a morte de outro. Não há um capítulo belo que tenha dois, pois do mito sempre veremos a virtuosa tragédia.

O início, Koltrain estava contra ti, vestindo uma túnica branca. Me lembro do beco, era bem ali que tudo havia começado; os dois se encarando em posições opostas. Um vazio.

Se rendeu ao espaço zero também?

Nos olhos de ambos, algo de respeito, como também entre seu nada, o silêncio.

Minha utopia está morta. — Ele diria. Aquele papo mole, parecia já ter te dito antes. — Descobri que é impossível levar justiça aqueles iguais a mim. Para tal, parece, preciso me tornar Deus. Mas como ser deus sem que tenha, em minha totalidade, um vazio para antepor todas as coisas que me preenchem?

Sua face paralisada, nenhum sorriso. Diria: — Não vejo essa imagem; e ele responderia:

Claro que não, sabe, nunca teve nada. É o que é, repito, apenas um homem vazio.

Seus olhos, sua juventude. Por que amar tanto essa face de 17, e não ser igual Koltrain, cujo encarava velhice, e talvez até a própria morte?

A figura desconhecida, que desfigurado, embaçado e vezes pixelizado, se mantinha imóvel, parecendo devorar as coisas ao seu redor. Ele era jovem como você, ou será que nele se escondia algo que te fazia tremer? Não sei; um show, um frame: a cabeça de Koltrain percorria o espaço, daquele feixe carmesim como saísse de órbita e o espaço sendo manchado de algo realmente belo; noutra, a figura e vocês dançando lado a lado. Seu sorriso, movimento desleixado, e então, a morte de deus.

Assim como escrito

Engraçado não, agora quem te vê com esse olhar sou eu, o que sente disso?

Você brinca comigo … Brinca demais. Por que não passamos pra seu deleite; a forma como todos os olhares se focaram em você, e de mesmo modo, fora do seu sorriso, fez tantos desatarem ao seu morrer?

Seria absurdamente conveniente.



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