AVN – Capítulo 55 – Do inverno de Marte!



Sentada em um banco, Lunar teria olhos catatônicos, perdida entre os alunos trajados de jalecos, dos professores de tweed; o cigarro e os sorrisos daqueles rostos de profundo desespero.

Estava no primeiro semestre, ainda na universidade de Solaris, em Springer Sun, Subdistrito D. Tinha passado no vestibular e conseguido um financiamento, que Míchkin te pagava. Sentir-se-ia ingrata, por lá, na infelicidade; mesmo sendo uma estudante diligente, qual aproveitava de toda experiência, com tantos amigos, nenhuma pobreza e até mesmo dignidade; como poderia ser infeliz?

— Ele me ligou… — Se lembrava dele, seus últimos encontros, sempre com um cigarro em mão, sorrindo, não que houvesse algo para se sorrir. — E mesmo assim, não disse nada… por quê?

Um tempo atrás, sua mãe adoeceria, talvez fizesse um ano. Míchkin teria pago o melhor tratamento, a colocando no mesmo hospital onde haviam colocado 435, em algum lugar no subdistrito B.

— Ela abortou… — Foi um momento difícil, se lembrava. — Como se não bastasse tudo, ela ainda abortou. Não por displicência, havíamos feito todo o possível para que não fosse, e mesmo assim não adiantou de nada…

Na verdade, não era bem assim. Quando 435 descobriu, ela havia enlouquecido de vez. Não conseguia assimilar. Dizem que haviam-na achado gritando no apartamento de Míchkin, mas havia mais; de algo que ela não sabia.

— Míchkin estava com Um na época, me lembro, passava toda semana indo e vindo, o que deixava Anne bem puta… — Se lembrava de outra coisa também. — Quando estava por lá, ele ficava no quarto, normalmente tinha longas conversas com 435 quando ninguém estava olhando. Cheguei até pensar que a amasse.

Caminharia pelos corredores vazios, entre os pátios solitários, os jardins coloridos. Ao longo do setor 22, haveria um sarau de poesia. Passaria direto, fingindo nem conhecer, indo para o estacionamento, onde encontraria um dos seus colegas, chamado Gabriel, junto de alguns amigos.

Ele diria: — Ei! — E com um sorriso, ela responderia.

Não queria necessariamente falar com ele, mas também não queria ser má educada. Na verdade, o achava um idiota. Não que importasse, só um pouco inconveniente.

— Ei! Estamos indo numa festa agora, lá pela Giant Tree… bora?

Até que ficava interessada na proposta. Estava com o final de semana vago e não queria ficar o tempo todo esperando ou pensado em quem quer que fosse.

— Festa aonde?

— Los Andes.

Não fazia ideia, mas entrava no carro. Nem se limitava a pegar roupas, já tava com sua carteira, identidade… precisava de mais nada.

Quando estivesse perdida entre as estradas, pensaria em algo, mas sem dizer realmente; com apenas sua cabeça encostada na janela, e sua falta de sorriso.

— Ei, é de onde? — Um dos garotos que estavam no carro te perguntavam. Seu nome era Alex.

— Fora dos distritos, algum lugar chamado Míriade. — Ela via nos olhos dele, algum tipo de surpresa, com o maxilar suspenso, paralisado, como se não acreditasse. — Você tem que ver sua cara. — Ria. — Acreditou realmente nisso? — Ele também sorriria. — Sou de Redneon, moro com minha mãe num Flat em Blacklight.

— Nossa… — No banco da frente, uma garota chamada Alícia se metia. — Essa não é a cidade conhecida pelos puteiros?

— Se fosse só por isso eu estaria tranquila… — Olhava através da janela, como se não se dirigisse a eles.

— Deve ser barra… — O motorista até tirava os olhos da estrada.

— É como todo lugar no mundo… — Se perguntaria se não faltava muito pra chegar. — Se conhecer as pessoas certas, não vai se meter em problemas…

Com o ar suspenso, no fim de suas palavras, encarava a cara de cada um deles, esperando uma só reação. Tanto fosse, com um sorriso, todos ririam. Na verdade, gargalhariam; e não te importava de nada. Era uma parada interessante, o quanto também estava desconectada. Perceberia algo, sobre ter conversado algumas vezes com Anne, várias vezes com Míchkin e, por uma só vez, com Sofia. Sabia: eram pessoas de outro mundo, brincando de escuridão, dançando por aí como se o mundo fosse desprezível.

Que o tempo passasse, da imagem flutuando pelos seus olhos; poste por poste, paralelepípedos e placas. O céu estava cinzento, como sempre, reparava; e o carro tinha cheiro de queijo e sexo. Sentiria nojo de tudo. Alex te encarando, como se quisesse te sussurrar algo, e o flerte inacabável entre Alícia e Gabriel. Se morressem, pensaria próximo da saída para Giant tree, o mundo não sentiria falta.

— Nossa… — Alícia voltaria a falar. — Essa é a minha primeira vez na Giant Tree.

— Sério? — Gabriel colocaria a mão nas suas coxas. — O que tá achando?

— Mais bonito que a maioria das cidades no subdistrito B.

Percebia que a mão descia, deslizava. Ficaria com nojo se ela começasse a ser dedada ali, olhava; Gabriel do seu lado parecia querer se aproximar, também, porém não tinha ideia de como fazer.

— Real? — Gabriel nem mais olhava para a estrada.

— Sim… — Malditos pombinhos apaixonados. — Aqui é cheio de colinas, cheio de prédios, aquelas favelas cheias de cor. Nem parece que uns dois anos atrás tava tudo um caos.

Estando lá atrás, queria dizer algo; ponderando, parecia ser desnecessário.

— Esse é o resultado de quando colocam um engravatado de verdade no poder! — Gabriel diria com orgulho. — Daqui um tempo acho que a Giant Tree vai ser mais bem desenvolvida até que todo Subdistrito B!

— Acho que não, hein… — Alex tava acendendo um cigarro, olhando pro lado, tentando ser distinto, culto, interessante. — Me disseram que vão fazer uma fusão do poder executivo por aqui, para transformar a Giant Tree num distrito especial. Um bando de parasita das outras cidades vão ocupar cadeiras, o que deve foder com tudo. Nem André Toulouise deve conseguir se livrar.

— Que merda… — Alícia tinha seus olhos nos de Gabriel. — Mas bem, só dá para esperar e ver.

O carro deslizaria para a entrada N.° 3, passando pelo trânsito do horário de pico. Vendedores ambulantes estariam por lá, com caixas térmicas com gelo até o talo. Vendiam Sprout Cola, cerveja, água engarrafada e barras nutritivas. Lunar pediria uma água, estavam por dois Rps, e os outros, cerveja. Um pouco irresponsável, talvez, não que importasse.

No rádio, alguma música nova, de um gênero antigo, desenterrado. Enlouqueceriam num primeiro momento, soando absurdo demais aos seus ouvidos, até que na rádio alguém diria que era captada da GW original, da terra onde no fim todos esboçavam um sorriso.

— Será que eles conseguiram recolonizar a terra? — Alícia tinha seus olhos de brilhantes, como uma gema granada, em direção a Gabriel.

— Acho que não, meu pai me disse que eles precisariam de, pelo menos, um milênio para isso…

Lunar não estava acostumada, era nova nos distritos, e não entendia tanta comoção.

— O que é isso? — Perguntava.

— Não sabe? — Alex responderia, curioso. Sua boca, num meio sorriso, parecia querer se enterrar no corpo dela; a irritava.

— Não, o que tem de especial? — Viraria seu rosto para a estrada.

— Não fazemos contato com a GW original há mais de 50 anos…tipo, nem meu pai era nascido na época.

Ela olharia para o console do carro.

— Isso não faz sentido. Uma mensagem daqui para a terra demorariam só 14 minutos.

O clima se alterava da comoção ao desprezo.

— E o que tem? Devem estar ocupados restaurando nossa esmeralda. —

Alícia era a mais desprezível, com um sorriso torto para ti.

— É verdade, eles já se sacrificam o suficiente. Não devem ter muito tempo pra ficar se ocupando.

Lunar podia expor de mil modos do como não fazia sentido, porém não queria. Olhava para aquelas faces fechadas, e percebia que não valia a pena. Seria apenas um desgaste…

— Porra, queria ter entrado na universidade da Giant. — Alex diria, enquanto passassem pelo parque central.

— Dizem que abriu uns três estágios na nossa área… — Alícia olhava pela janela.

— Medcare?

— Mais quem?

Estacionavam o carro, saíam, andavam uns 400 metros e estavam lá. Já era final de tarde, com as luzes se acendendo ao longo da avenida. Viam a fila quilométrica, as roupas de grife, os colares de neon, a saturação de cores nos rostos fechados, de sutileza, arrogância e mais algumas coisas. Escutava os sintetizadores, a harmonia pela fachada e o cigarro.

— Vamos esperar por aqui? — Se fosse, Lunar andaria por aí, sem rumo. Talvez tentasse entrar em contato com Anne, meio que sabia que ela vivia por ali.

— Que nada. — Gabriel se agarrava em Alícia, beijava seu pescoço; dizia. — Conheço o segurança. É só entrarmos.

E assim faziam. Era engraçado, pareciam até vips no meio de todas aquelas cabeças. Lunar riria, se lembraria de algo, num passado não tão distante. Não que importasse. Entrava, via os feixes de luz percorrer o cenário, o neon na escuridão, e todas as pessoas com a mesma aparência etérea, banhadas de luzes, meio ébrias, desfocadas na dança e perdidas na multidão.

— Esse é meu inferno. — Havia um palco montado, com um cara vestido de moletom e um Dj ao fundo com uma caixa de papelão na cabeça. — Meu inferno de Neon seus putos!

Lunar se dirigia ao bar, junto do grupo.

— O que vão querer beber?

— Absinto. — Todos olhariam para ela. — e uísque. — Ninguém queria realmente aquilo, mas Alex pedia e comprava uma garrafa daquele líquido verde e pegava dois copos.

— Tem certeza disso? Te acompanho, mas… bem, não devemos sair bem.

— E quem disse que eu quero sair bem?

Derramava tudo num copo de uísque e bebia sem gelo. Alex, Alícia e Gabriel não sabiam se acreditavam. Queriam dizer algo, mas apenas sorriam. Era a vida dela, no fim.

— Acho que faz bem procurar um lugar para sentar. — Alícia diria. — Aproveitar que tá todo mundo curtindo o som…

Em algum canto, meio escuro, eles ficavam. Era perto do banheiro, mas não tão mal assim. Começavam bebendo, falando coisas aleatórias e depois, quando alterados, se integravam completamente no ambiente.

Alex, ficava com Lunar, dando em cima, falando coisas óbvias, vezes até passando dos limites; tentando tocá-la. Alícia seria a primeira a fugir, depois Gabriel, indo para perto do palco, dançando nas luzes disformes que banham seus corpos.

— Ei, você é meio tímida assim mesmo? — Alex nunca desistiria.

— Não quando a pessoa é interessante…

— E eu não sou?

— Você acha que é? — Lunar olharia para aqueles olhos, pro seu sorriso. Pareciam dizer para ela que era óbvio, um estudante de Biomedicina que deve ter lido alguma coisa de Dostoiévski, espiritualizado, leitor de Sidarta, frequentador de teatros, que deve ir ao cinema pelo menos umas 20 vezes ao ano, que vai para amostras, e acha que a cultura vem perdendo a sua relevância.

—Não tanto como outras pessoas, mas o suficiente, eu acho…

Ela daria apenas um sorriso, desviando seus olhos à multidão, se perdendo em pensamentos, ao som. Alex até tentaria te dizer mais algumas três coisas, mas depois, também não se importaria. Ficaria parado, emburrado, bebendo, fingindo ter levado um fora. Na verdade, até se arrependia, mas aceitava.

— Vocês vão ficar sentados aqui o tempo todo? — Alícia voltaria, umas duas horas mais tarde, com Gabriel e outras pessoas que haviam se encontrado pelo Los Andes. — Dá espaço aqui que cansamos.

Eles sentavam, as outras pessoas eram duas mulheres e três homens. Não que importassem, poderiam ter um nome, poderiam ser chamados de algo, mas o que eram de verdade?

Lunar meio embriagada não diria uma só palavra, para todos aqueles, interagindo, brincando de jovens. Meio emburrada, escutaria várias vezes como sussurro, que se arrependiam de terem te trazido, e que, caso passasse mal, deixariam por lá mesmo.

— Ei… — Uma pessoa contra a luz te apareceria, entre seus amigos, que olhavam para aquela face sem entender, no som tumultuado da boate. — Lunar?

— Míchkin? — Veriam: o cara estava trajado de um terno caro, talvez um Neo-Armani, de algodão, sendo alto, ombros largos e um rosto absurdamente bem formado. As garotas, observariam mais atentamente, os homens, ficariam apenas lá, sem querer avaliar muito.

— Ei Lunar, quem é esse? — Alícia se aproximaria do pé do seu ouvido.

— Míchkin?! — Não que te importasse. Aquele era o último lugar em que ela o esperava; e vê-lo assim, era quase como um sonho. — Míchkin! — Se levantaria, o daria um forte e longo abraço. Todos veriam.

— Ei, ei… — Afastaria ela pelos ombros. — Eu não morri você sabe… — E limparia suas lágrimas. — O que é? Me diz, o que foi?

— Eu… nada… você desapareceu sabe… tava querendo falar com você.

— Vênus disse que estava me procurando… — Fazia ela se sentar, e se sentava também ao lado dela. — Ia acabar só alguns trabalhos pela Giant Tree e depois ficaria livre pra voltar pra casa.

— Trabalha com o quê? — Alex perguntaria, até que um pouco curioso.

— Sou secretário de um engravatado. — Até quem não tinha escutado direito, prestava atenção nele. — Mas é só isso… aliás, o que você tá fazendo por aqui, e quem são esses?

— Colegas do meu curso.

— Ah é? Obrigado então por terem cuidado dela. — Apertaria algumas mãos.

— Vocês são o quê? — Gabriel estava do lado.

— Amigos de longa data. — Lunar estaria com um sorriso, admirando seu rosto. — Ei, vou ter que ir. Anne e J-Down estão me esperando. — Desmancharia seu sorriso. — Não fica assim. Vai ficar por aqui? Se for, eu te levo de volta. Tá legal? — Faria que sim. — Aliás, vocês não acham que esse lugar é uma merda? Porra, do lado do banheiro, me seguem, conheço o dono dessa lixeira.

E eles iam. Passavam por corredores fechados, viam os escritórios, os guardas armados, e até mesmo os estoques de drogas. Passavam por um elevador, e chegavam no terceiro andar, onde rolava uma festa mais particular, com gente mais bem-vestida, música mais suave, além de cenário mais bonito e confortável. Anne estaria lá, e te olharia como se curiosa, no bar junto de J-Down e Igor.

— O que é isso, voltou para a escola? — Anne se aproximaria, daria um abraço em Lunar.

— Algo do tipo… — Teria um sorriso. — Já se definiram?

— Não… estamos ainda esperando Júpiter Apple… — Ela acenderia um cigarro acenando para o grupo, que teria um sorriso para ela. Outra coisa engraçada, era que Anne também era linda, eles viam.

— Okay… — Míchkin acenderia seu cigarro no dela. — Vocês, escolhem uma mesa, e tentem não arranjar confusão. Se quiserem beber algo, só falar que estão com o identitário. É isso.

E fugiria dali. Lunar ficando sozinha com aquele grupo, que parecia mais amistoso à sua situação. Diziam algo sobre ela ser incrível, começavam a falar de notas e merdas do tipo, e depois atacavam o que importavam.

— Quem é ele? — Alícia perguntava.

— Um amigo muito querido.

— E quem é ela? Namorada dele?

— Não, colega de trabalho.

Não queria responder cada pergunta, nem mesmo queria estar lá. Na verdade, queria apenas estar ao lado deles, conversar na linguagem deles, viver suas vidas. Se levantava, fingia ir ao banheiro e aproveitava para observá-los pelo bar. Tinha vários aprimorados por lá, junto de um homem bem trajado num Blazer roxo. Todos aparentemente estavam armados, observava, enquanto entrava no banheiro.

Lá, ela veria Anne dando um raio em frente ao espelho. Não era a primeira vez, mas nunca se acostumava.

— Ei Lunar! — Se virava, tinha um sorriso. — Como você está?

— Meio entendiada… — Anne olhava para os olhos dela.

— Quer alguma diversão? — Se aproximava.

— Algo do tipo…

Sorriria para ela, se achegaria ao pé do ouvido e diria algo como:

— Você é muito ingênua, sabe…

Anne sairia do banheiro com um enorme sorriso para ela. Não poderia assimilar, não fazia ideia do que acontecia.

Sairia logo em seguida, então.

— Para onde eles foram? — Olhava para o bar vazio. — Me deixaram sozinha? — Desatava a chorar. — Já era esperado… — Não precisava de muito. Ia para algum banco, e suspirava.

— Ei você… — Era Anne que estava por lá. — Houve um problema, vou ter que levar para casa.

— Cadê meus colegas?

— Eles já estão indo, se nos apressarmos você deve encontrá-los.

— O que houve?

— Um monte de merda. — Lunar olhava para os olhos de Anne, queria alguma resposta digna, que te introduzisse ao mundo mágico deles.

— Você, pelo menos, poderia mentir para mim.

Anne agarraria seu braços.

— Tanto faz, apenas vamos!



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