AVN – Capítulo 54 – Como se eu sempre estivesse aqui [e a criação de gaia]!



Já era de manhã quando a consciência do estagiário era posta num cidadão sem alma, com Sofia, Anne, Míchkin, todos lá, coordenando as ações de Jó e K.

Era estranho, principalmente para Míchkin, que desejava presenciar algo incrível. Um pouco decepcionante; na maior parte do tempo era só tédio, mas no final, à voz de Sofia, poderia dizer que era belo. Engraçado, os últimos parafusos encaixados, a última camada de pele sobreposta e a fala:

— Que tipo de nome você quer?

Parecia como se realmente visse a vida sendo concebida de um molde de plástico …

— Quero um nome grandioso … — Mas não como se Míchkin se importasse. Estava lá e não tava, no fim, sem sentir realmente a pontada de algo; vendo os braços da impressora envolver todo a estrutura de polímero e placas de alumínio, tomando com cartilagem, criando músculos de gel de silicone com bilhões de filetes microscópicos duma alternativa ao cobre, e chips neurais entre vasos de óleo. Se fosse de carbono sua estrutura óssea, seu cadáver seria plástico. Fumava, tentando descobrir o que fosse liberdade. — Me chamem de Gaia.

Pretensioso demais esse tal de estagiário, também pensava.

— É assim que a humanidade transcende? — Poderia dizer, encarando a peça mais perfeita imaginada pela humanidade. — Como se sente?

Não queria saber, de verdade.

— Livre …

Como também não gostava da resposta, vendo aquele corpo saindo dos moldes, seu olhar biônico perfurando os seus, como se tivesse pecando, encarando seus pequenos lábios vermelhos de plástico, aquele nariz afilado e arrebitado de silicone, o queixo fino e o pescoço alongado, os cabelos negros caindo aos ombros, os robustos seios, a cintura fina como se pedissem que alguém lhe pegasse, as coxas grossas e sensuais; pecava vendo a perfeição das mãos mecânicas, da morte do corpo, e a integração do homem a verdadeira imagem; e acima de tudo, odiava aquela resposta.

— É isso que você realmente quer ser? — Anne perguntaria. Diferente dele, ela realmente estava admirada. Parecia até que próxima de algum milagre.

— É isso que sempre fui, até mesmo quando limitado … — Tentaria sorrir, mesmo com os chips não sincronizados. — É uma felicidade não ter que fingir ser quem não sou.

Míchkin olhava para ela, tinha algo para dizer também, mas ficava calado.

— Dependendo do seu trabalho você pode ser quem quiser … — Sofia então falava, no lugar. Estava com várias planilhas em mãos e se aproximava. — Você não quer que a revolução comece e termine numa só pessoa, não é?

— Ninguém quer … — Míchkin se lembrava de Amantana naquele momento, por algum motivo, na voz de Gaia. — Antes de tudo, eu vim aqui pra levar meu trabalho adiante.

Sua expressão sendo a própria deformidade, mesmo que tão bela.

— É bom que você honre suas promessas … — Míchkin diria, reparando ainda numa outra coisa. — Elas são bem frágeis nesse mundo de merda.

— Concordo. — Gaia diria, com uma interrogação no seu rosto. Ninguém entenderia vendo-o partir, após aquela curiosa sentença de palavras. Tinha algumas questões ali ainda, não para ti; era o que ele pensava. Anne e Sofia resolveriam.

Estaria pelos corredores, passaria pelo elevador subterrâneo e surgiria num estacionamento, onde pegava aquele carro e saía do esconderijo de Helen Point, subdistrito F, indo pela primeira estrada, para Eletric Blue, subdistrito E.

Ficaria absorvido, de algum modo, com algo, enquanto no rádio tocava alguma canção melancólica de Neon Music, de algum artista chamado Terrence Phillips.

Por um momento, respirava, saindo do tumulto e o trânsito, depois, não prestava tanta atenção, na estrada vazia, só com as luzes brancas de postes e das casas ao longo de tantos quilômetros.

Acelerava, não tinha ninguém, não havia nada, fechando os olhos, tirando as mãos do volante enquanto tomava um longo suspiro à sua desgraça.

Se lembrava da voz de Um, do que ela dizia ao te encontrar na sua mansão em Green Spring, subdistrito A, sobre o quão especial era, do quanto poderia fazer tudo que quisesse, e de como ninguém nunca te entenderia; apenas ela. No fim começava a aceitar, mesmo que fosse contra vontade.

— Turing … — Abria seus olhos; não via nada. — Liga para Vênus.

Um minuto de silêncio, poderia querer jogar o carro para fora da estrada, cair em alguma favela, morrer entre as chamas verdes ou alaranjadas.

Um som, ela atendia.

— Míchkin? — Da sua voz sendo de alerta. — O que foi?

— Nada … algum problema?

Sabia tudo sobre Vênus, por mais que não fosse muito.

— Não, é apenas que eu … não sei, você não fala comigo faz um mês …

Recentemente, ela tinha começado a usar uma droga, um tipo de analgésico sintético. Ficava um pouco carente, o irritava.

— Tempo é relativo … — Talvez a forçasse a parar. — Mesmo assim fiquei com saudades. — Ver que a pessoa perfeita que sonhara num passado distante era apenas um bichinho defeituoso meio que te incomodava. — E você?

Poderia se escutar o som de lágrimas.

— Você não sabe o quanto … — Se lembrava dos dias em que estava realmente com ela, de ficar o dia inteiro num sofá, falando sobre o futuro, sobre as coisas bonitas da vida, e do que realmente desejavam fazer. Das festas por toda Redneon, dos comícios da plastic tree, sobre tudo. — Vai voltar?

— Não por agora, ainda tenho que fazer mais algumas coisas …

Quando voltasse, realmente falaria para ela parar com aquelas merdas de pílulas.

— Então por que me ligou?

Talvez pedisse pra ela se mudar pro seu apartamento, de colocar seu sobrenome …

— Queria só escutar sua voz …

Era impossível, mas ainda poderia ficar imaginando.

— Me encontrei com Lunar esses dias. — Não era isso que queria escutar. — Ela tá bem preocupada com você …

— Eu vou falar com ela quando for a hora.

Queria acender um cigarro.

— Você tá fugindo dela?

— Não necessariamente …

— Então é de mim?

— Nem um pouco.

Haveria um segundo de silêncio.

— Acho que você está mentindo …

E a ligação terminava; ele terminava. Sabia que mais tarde se lamentaria, mas não como se importasse. Já estava acostumado a ficar se lamuriando, uma ou duas palavras a mais não mudariam nada. Na verdade, nem mesmo sentisse saudades.

Desviava por um retorno e pegava caminho pelos cortiços de Fox Catcher. Um lugar curioso, de milhares de entradas e saídas, e ruas tão estreitas que seu carro quase relava pelas janelas e paredes de tijolos cinzentos. Podia-se dizer até que era uma floresta moderna, de clareiras de cores vibrantes, com trades loteando muros pinchados, e caixas de som empilhadas em palcos improvisados de cantores entorpecidos cantando algo que os fizessem esquecer, por um só momento, quem eles eram.

Era interessante se perder por lá, de tantos lugares microscópicos, que sentia não saber realmente o que era o mundo.

— O que aconteceu nesses Dois anos? — Estava sentado do seu lado Franker.

Sua face era bem jovem, da sua cor de cobre, seus cabelos castanhos e teu expressivo olhar.

— Você viu, você sabe … — Míchkin vezes se encontrava com ele, em noites como aquelas.

Fingia ser um sonho, não desejava agonizar; como se quisesse lançar seu carro em algum poste, e forçar o volante entre suas vísceras.

— Eu posso saber, mas não me importa. Me incomoda é o fato de você não entender, por exemplo, o que realmente aconteceu.

— Ela colocou uma coleira em mim.

— Não é bem isso …

— Então o que é?

Franker não tinha o costume de responder ali, sempre desaparecendo do seu. O irritava o fato de não ter a resposta, principalmente quando ela era sobre você.

— Acho que ele está brincando comigo. — Pensava, saindo daquele cortiço, onde voltava pra avenida N.1.

Uma ideia muito estranha brotando sobre sua cabeça, sobre alguma coisa ruim.

— Depois de todos esses anos negando, acho que vai me fazer bem te ver.

Iria pra lá, onde quer que fosse, seguindo para de volta Redneon, pela estrada lateral da colina de Sóis. Veria pela janela um poço repleto de luz, que te causasse nojo, que te fizesse cuspir em cima daquela merda, dizer para todos que a única salvação era destruí-la. Sua Sodoma, sem amor. Olhava, encarava, não queria se aproximar do seu brilho disforme, dos seus edifícios decadentes, do seu âmago sem lógica.

Pegava uma estrada de terra, chegando num terreno baldio imenso, sem cercas, sem placas de aviso, apenas grama alta invadindo as lápides espalhadas.

Saía do carro, com um cigarro na mão. Fazia frio, era de noite, mas conseguia ver as silhuetas de luz no horizonte. A fumaça e o ardor das brasas ao longe, num grupo de jovens, te fazia recordar que, não importasse onde fosse, nunca estaria só.

Se aproximaria de uma lápide qualquer, com vinhas subindo pelas suas letras.

— Fico impressionado … — Limpava e via os números que lá estavam. — Como posso ter tido tanto descaso?

Era sua mãe ali, sabia, apertando o cigarro entre seus dedos, sentindo um pesar intenso pelo seu corpo, repleto de lágrimas nos seus olhos.

Não podia dizer qualquer coisa, suspenso no próprio amargor, vendo as linhas de seu nome, pronunciando a forma como sempre quis ser chamada.

— Maria … — Dizia. — Se achava importante demais para morrer como um bocado de números … — Queria ter flores para entregar para ela, mas sabia que não valeria a pena. — Você odiou ser quem você era … dizer do nada que te amo te faria sofrer, não é? — Ficava de cócoras, alisava a lápide. — Franker, ela tentou me matar. — Ele estaria lá, com a mão nos seus ombros, silencioso. — É engraçado, ela não quis que me vender para viver sua vida, mas quis me levar no final desta. Desistiu, me lembro: tava com o revólver na minha cara, dizendo mil coisas sobre eu ter desgraçado a vida dela e a do meu pai. Eu tava chorando, não por ela dizer que eu ia morrer, e sim porque eu realmente acreditava no que estava dizendo. É engraçado como acreditamos nas mentiras dos adultos quando somos crianças, e de como isso nos afeta. Se eu soubesse que ela me amava como eu sei hoje, não ficaria daquele jeito; talvez até tivesse a visitado antes, cuidado da sua lápide ao menos, te trago flores. Porém aqui estou, afundando meu cigarro sobre seu nome, sem saber dizer ao menos uma palavra. Fico me perguntando, se aí do inferno ela ao menos está sã. Se fosse assim, acho que me desprezaria. Não que eu me importe. Você me magoou demais quando me deixou e não quis que eu fosse junto de você. Te ver morrer e não fazer nada … é … você me fez sofrer, ou melhor, me faz … Cada dia que se passa me pergunto se devo manter minha existência, ou se, por algum acaso, você me espera. Queria fingir que você realmente está aí, aquecendo o lugar; assim eu poderia por uma bala na minha cabeça sem pena. O foda é que sei que é mentira; se eu morresse agora, nada além de vazio me restaria. — Fechava os olhos por um segundo, como se contemplasse o silêncio. — Devo viver, sei muito bem; e, antes de qualquer coisa, aceitar que você se foi e que, acima de tudo, não foi culpa minha sua loucura, sua degradação; acho que nem mesmo de meu pai, mesmo que não passasse de um drogado de merda. — Tirava outro cigarro do bolso. — Franker, você me enoja. — Que não falasse nada. — Vamos embora …



Fontes
Cores